18/03/2011

THE OUTCASTS - Os adolescentes rebeldes do Ulster



Depois de uma overdose de Canadá vamos atravessar o Atlântico e aportar mais uma vez na Irlanda do Norte, em Belfast. No post sobre a Good Vibrations Records eu prometi contar a história de três bandas: Rudi, Undertones e Outcasts. Então, como 2011 é ano de cumprir promessas (já que 2012 está chegando), vamos lá com o The Outcasts, grupo formado em 1977 pelos irmãos Greg (baixo e voz), Martin (guitarra) e Colin (bateria) Cowan, aos quais se juntou o guitarrista Colin "Getty" Getgood. Bem no comecinho, tinham um vocalista chamado Blair Hamilton, mas logo este deixou o grupo, muito provavelmente por não acreditar que aquilo pudesse dar certo.

Desde as primeiras apresentações o Outcasts ganhou fama de gerar confusão, tanto que o nome deriva deste fato, pois teriam sido expulsos de vários clubes nas primeira tentativas de tocar ao vivo. Isso tem a ver também com serem todos moradores da violenta periferia de Belfast e, em consequência, também não muito pacíficos. Em uma entrevista ao fanzine Ralf Real Shock, em 2004, Greg afirmou que "no início, quando tocávamos em clubes pequenos, era nós contra o público. Se alguém viesse pra cima, logo Colin e Martin podiam revidar com as guitarras. Mas depois fomos conquistando nosso próprio público que nos defendia se estourasse alguma confusão". Só por aí dá pra sentir como era o clima nos "gigs" de Belfast na época.

Mesmo assim, aos poucos, eles foram fazendo fama e, depois de gravarem uma demo tape, fecharam com a IT Records (selo independente já extinto, com sede na cidade vizinha de Portadown) para lançar o primeiro single. O resultado é uma gema rara do punk rock com três faixas: You're a disease, Don't want to be no adult e Frustration. Primitivo e básico. A gravação de You're a disease foi registrada e incluída no documentário Shellshock Rock (John T. Davies), registro histórico da cena punk de Belfast entre 77 e 78 (procure no YouTube que tem). Para os dias atuais, o single (e todos os primeiros trabalhos deles) pode até soar um pouco lento e, principalmente, limitado tecnicamente. No entanto, é impossível não notar que ali destilava-se a fúria adolescente e uma certa angústia de viver em um dos lugares mais perigosos do mundo. Uma cópia do compacto foi parar nas mãos do DJ John Peel (RIP), da BBC de Londres, que colocou Frustration várias vezes o ar. Isso deu uma força enorme pros caras que construíram uma base de seguidores (os tais que os defendiam caso rolasse tretas nos shows) . Não demorou assinaram com a então nascente Good Vibrations.

O trabalho de estreia na casa nova foi o single Justa nother teenage rebel / Love is for sops, que foi muito bem e ganhou até uma segunda prensagem poucas semanas depois de lançado. Na sequência, aumentaram ainda mais a fama de bad boys com a faixa Cops are comin', incluída em um single duplo (dois compactos de 7") chamado Battle of bands que tinha ainda faixas dos grupos Rudi, Idiots e Spider. Ao vivo, sempre que entoavam  o refrão "Better start runnin' cuz the cops are comin", o pogo rolava solto e, não raro, a pancadaria também.

O primeiro  LP seria lançado apenas em 1979, sob o título Self conscious over you. O disco inclui algumas surpresas como teclados e saxofone em algumas faixas, entretanto, nada comercial (pelo menos para a época, já que hoje, o punk se tornou comercial). Comprei este LP em 1980 e confesso que não gostei muito na primeira audição. Parece um tanto lento. Mas aos poucos fui me acostumando e depois este se tornou um dos discos que mais rolava no meu velho Gradiente. Outra coisa que ficou clara no LP, era a limitação de Colin como batera. Só mesmo o fato de ele ser o verdadeiro fundador do grupo o mantinha na função. E também a qualidade da gravação (mais exatamente a mixagem) deixava muito a desejar. Infelizmente isto parecia ser o karma do Outcasts, já que o próprio Greg Cowan reconheceria na citada entrevista que eles jamais conseguiram gravar algo realmente com boa qualidade técnica, mesmo nos álbuns subsequentes, quando tinham mais grana e experiência. Concordo em termos. Em Self conscious... pode faltar produção, mas sobra coração. E o verdadeiro punk tem que ter a superação da limitação técnica pelo sentimento, pela raiva ou pela angústia. Por isso, Self conscious... ganha o ouvinte aos poucos.

The Outcasts em 1980, com cinco integrantes

Na sequência, ainda em 1979, gravaram mais uma faixa (Cyborg) para uma coletânea em single, chamada Room to move, que tinha também sons do Shock Treatment, The Vipers e Big Self. No ano seguinte, Greg sofreu um acidente de moto e ficou impossibilitado de tocar baixo por um bom tempo. Assim, tornou-se apenas vocalista e Gord Blair (ex-Rudi) assumiu o instrumento nos shows. Outra mudança foi a entrada de um segundo batera, para segurar mais o som, já que Colin realmente não conseguira evoluir musicalmente como os demais integrantes. Então, com essa formação gravaram o ótimo single Magnum Force / Gangland Warfare, no qual dá para sentir uma rande mudança no estilo. E a capa desse disco tem algo macabro. Eles tiraram a foto em um cemitéro. No clique, Colin Cowan aparece abaixo da inscrição "Sacred to the memory of". Não muito tempo depois de o disco ser lançado, o cara morreu em um acidente de carro. Macabro.

Mas antes dessa tragédia, eles fundaram seu próprio selo, a GBH Records. Em meados de 1981, lançaram o primeiro trampo pelo selo exclusivo, um EP com as faixas Programme Love, Beating and screaming pt. 1 and 2 e Mania), que representou uma grande evolução. Na sequência, lançariam o single Angel Face / Gangland Warfare, o último trabalho de Colin Cowan antes de morrer. O baterista nem chegou a ver como ficou o disco.

O golpe foi duro, afinal Greg e Martin eram irmãos dele e a ideia de começar a banda, bem como o nome do grupo, haviam saído de sua cabeça. "Quando eu penso no Outcasts, sempre lembro da morte do Colin. Ele era um baterista terrível, mas era nosso líder e o coração da banda. Apesar de termos alcançado mais sucesso depois que ele foi morto, muito da graça morreu com ele", afirmou Greg na entrevista de 2004.

Sim, depois da morte de Greg, o Outcasts conseguiu relativo sucesso. A primeira gravação sem o baterista (a função ficou apenas para Ray Falls) foi o álbum Blood and Thunder, o segundo da banda, lançado em novembro de '82. O disco ficou por oito semanas entre os mais vendidos no Reino Unido, chegando a alacançar a vigésima posição. De fato, é um grande disco. Não tão punk e com o mesmo "sentimento de rebeldia" do primeiro, mas um belo trabalho instrumental. É possível sentir um clima mais "dark" no som e alguma pitada de psicodelia em faixas como Beating & Screaming ou The Winter.

No ano seguinte, eles acentuaram a pegada psicodélica, usando sintetizadores, efeitos e bateria eletrônica (não confundir com batida eletrônica pré-programada) no EP Nowhere left to run, com três faixas. Na minha opinião este disco representa o auge musical deles, mas já bem distante do punk rústico dos primeiros dias, embora sem cair no comercialismo barato. Era o que eles queriam fazer mesmo, pois evoluíram musicalmente. É desse EP a faixa Ruby, com seu estilo meio rockabilly, meio punk 77, uma das minhas preferidas de todos os tempos.

Nessa época, o Outcasts passou a ser considerado uma banda grande, fazendo shows sempre lotados e com bom desempenho em termos de vendas para uma banda independente. No início de 1984, lançaram um mini LP, Seven deadly sins. A faixa título e Swamp Fever, são dois ótimos rockabillies. Five Years podia ser uma música de David Bowie nos anos 70 e Waiting for the rain foi produzida para ser um hit, mas não pegou e ainda decepcionou boa parte do público da banda.

No ano seguinte, lançaram o que seria o último registro em vinil do grupo: um single com uma versão matadora de 1969 (Stooges) e Psychotic Shakedown, que como sugere o nome trata-se de um psychobilly. Mas já sem qualquer tesão em continuar sendo o The Outcasts, resolveram dar um fim à banda. Descanse em paz.


Conheça melhor o som do The Outcasts:

Self Conscious Over You (LP + dois primeiros singles)

Blood and Thunder (LP)

Seven Deadly Sins (mini LP)

Punk Singles (coletânea com todos os singles, part 1)
Punk Singles (coletânea com todos os singles, part 2)


7 comentários:

  1. Olha só, voltou com todo o gás mesmo! Eu estava atrás de materiais do Outcasts já fazia um tempinho, mas não aconseguia achar nada. Estou baixando agora mesmo.

    Lendo o texto vi uma menção ao John Peel. Esse cara era o herói do underground praticamente. São inúmeras as bandas de punk (e de outros estilos também) que deram um "up" na carreira graças a ele e seu programa. Uma triste perda que tivemos, infelizmente, pois o cara era foda.

    E quanto a história do Colin... Realmente macabro! Parece que a partir do clique da foto caiu uma "maldição" em cima dele, hehehe...

    Assim que ouvir os discos dou minha opinião sobre o som.

    Abraço e espero que continue postando nesse pique!

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  2. Ouvi o "Self Conscious Over You" agora pouco e agora tô curtindo o "Blood and Thunder".

    Esse primeiro realmente é meio "lento", talvez por isso associei direto ao powerpop, estilo que aliás, praticamente quase todas as bandas punks da Irlanda são meio adeptas, vide Undertones, Rudi e outras. Quanto ao segundo é realmente bem mais trabalhado e notei uma influência meio "pós-punk". Até agora, curti mais o primeiro, por ser mais simples, mas "divertido" e mais cativante, mas o "Blood and Thunder" tá foda também.

    Cara, se me permite, posso fazer umas perguntas mais pessoais? Quando que tu começou a entrar nesse meio do punk? Foi logo nos primóridios do movimento punk no Brasil em 78/79 ou foi mais por 81/82 quando a cena começava a crescer mesmo? Qual foi o teu primeiro contato com o punk? Tu já curtia rock antes de aparecer o tal punk rock no final dos anos 70?

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  3. Maurício, comecei a ouvir e comprar discos de rock mais ou menos com 12/13 anos (1976/77) e me envolvi com o punk rock em 79, quando a "cena" nem existia ainda. Eu eme envolvi aos poucos. Prieiro através dos discos e depois indo aos "salões" tipo Gruta e Construção. COnsidero que me tornei punk em 79 mesmo, quando cortei o cabelo e vendi todos os meus discos de rock para comprar outros só de punk...
    Abcs

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  4. Audrey3/23/2011

    AEeeeee...depois de 1 ano está de volta....

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  5. caraio onde vc acha essas banda, puta q pariu! vou baixar o outcast, mas queria muito mesmo o vinil, preciso fazer um investimento e comprar um aparelho, nada como o so real de um vinil, tenho a 1ªprensagem em v inil branco do primeiro do ead kennedys, muita von tade de ouvir de novo!!!!!!!!!
    cd-lustosa@uol.com.br
    claudinei.lustosa@tam.com.br
    crauney@hotmail.com (msn)

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  6. More Outcasts at my site www.spitrecords.co.uk

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  7. The Hairy Hands7/24/2011

    Acho Outcasts muito legal, uma das bandas mais originais do punk. É quase um Oi! bossa nova.

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