26/01/2009

Anarquia em Paris

METAL URBAIN. O nome pode enganar, mas não tem nada a ver com heavy metal (ainda bem). Trata-se de uma das bandas pioneiras do punk rock francês. Com certeza, a mais original. Guitarras distorcidas ao máximo, vocais agressivos, letras politizadas e sintetizadores. Esse último elemento também pode enganar aos punks puristas. Apesar de não ter bateria tradicional (usavam uma eletrônica) o M.U. conseguia um som extremamente agressivo.
O grupo foi formado em 1976, em Paris, já totalmente influenciado pelo furacão punk que sacudia parte da Europa. A formação original tinha o vocalista Clode Panik, o guitarrista Rikky Darling e os tecladista Zip Zinc, que permaneceu com a banda apenas por seis meses, mais o também tecladista Eric Débris, que acabou tornando-se o "cérebro" do grupo. Em 77, Rikky deixou o M.U. e em seu lugar entraram os irmãos Hermann Schwattz e Pat Luger, ambos guitarristas.
Apesar de ter feito história, o Metal Urbain não durou muito tempo. Em 78, Clode deixou a banda e Eric também se desiludiu com a cena punk francesa, que, igualmente ao que acontecia na Inglaterra, estava em baixa. Ou seja, pouca gente nos shows, nenhuma atenção por parte da mídia e menos ainda das gravadoras. Em 79, poucos meses depois do final da banda, a revista Best Magazine publicou uma carta de Clode sobre os motivos que acabaram com o grupo. Os acusados são as gravadoras francesas, por terem se recusado a assinar com o Metal Urbain "por causa das letras, da imagem, da música e da atitude", e a imprensa - "the rock (?) press", como assinalou. Leia a carta na íntegra no site oficial do grupo. A parte em que ele acusa a imprensa é sensacional.
O fim prematuro acabou deixando o Metal Urbain esquecido por um bom tempo, mas a a banda acabou sendo "redescoberta" no final dos anos 90. Em parte pelo revival punk e pelo crescimento da vertente "industrial" do rock (bandas como Ministry e Big Black têm influência clara do Metal Urbain), já que o o som deles tem elementos dos dois estilos. O interesse pelo grupo cresceu tanto que resolveram retomar as atividades e além de fazerem shows, em 2006, lançaram um CD, com o título J'Irai Chier dans Ton Vomi, com músicas inéditas, produzido por ninguém menos que Jello Biafra, pelo selo Alternative Tentacles.
Na primeira fase, o Metal Urbain lançou apenas três compactos - brilhantes, diga-se de passagem. O primeiro single é de 77, com Panik e Lady Coca Cola. Apesar de cantarem em francês, conseguiram chamar a atenção na Inglaterra e, ainda naquele ano, saiu o explosivo Paris Maquis/Clé de Contact, pela Rough Trade, tendo a honra de ser o primeiro lançamento daquele que se tornaria o maior e mais importante selo independente do Reino Unido nos anos 80. O terceiro, e mais conhecido, compacto sairia em 78, pelo selo Radar, também inglês, com Hystérie Connective e Pop Poubele. O único LP, Les Hommes Morts Sont Dangereux, saiu postumamente em 81.
Não deixe de conhecer uma das mais originais bandas da história do punk mundial. Baixe aqui a coletânea Anarchy in Paris, uma compilação de tudo que eles fizeram nos anos 70.


URBAIN FACTS

  • O primeiro show do Metal Urbain, em dezembro de 76, acabou em uma grande confusão, já que alguns roqueiros na platéia sentiram-se insultados por algumas atitudes do grupo (anti-hippies, digamos). Após agressões mútuas a banda acabou expulsa do lugar. Brigas eram normais em quase todas as apresentações da banda em Paris.
  • Após o fim do grupo, Clode desapareceu por um bom tempo, ressurgindo das cinzas nos anos 90. Eric, Hermann e Pat fundaram o Doctor Mix & The Remix, mantendo a linha do M.U., porém com mais ênfase nos sintetizadores.
  • Eric Debris também tornou-se produtor e trabalhou com o Berurier Noir, famosa banda eletrônica.
  • Os irmão Hermann e Pat também fundaram uma banda chamada Desperados. Mas o projeto teve vida curta e, enquanto Hermann seguiu no mundo da música, tornando-se um respeitado guitarrista em solo francês, Pat manteve-se longe dos palcos até 2003, quando durante uma apresentação do Metal Urbain no Canadá, saiu do meio da platéia, subiu ao palco e tocou duas músicas com os ex-companheiros. Desde então, participa esporadicament de shows e contribuiu com algumas músicas no CD de 2006.

22/01/2009

Is This Real? Or just an illusion?


Concebido em 1977 pelo guitarrista e vocalista Greg Sage, THE WIPERS, sem exageros, está entre as melhores bandas da história do punk rock. Poucos grupos punks criaram um estilo tão próprio. E por que uma banda tão talentosa, com pelo menos um LP no rol dos dez melhores de todos os tempos, não ganhou fama e fortuna? A resposta é simples: por que Sage também é um dos caras mais autênticos em termos de conduta e princípios. Avesso a badalações e a qualquer tipo de auto-promoção, acreditava que as pessoas poderiam ouvir e entender o Wipers mais profundamente se não associassem a banda aos estereótipos tradicionais do circo do rock'n'roll e, (por que não?) do punk também.
A idéia original de Sage era fazer uma banda para gravar 15 LPs em 10 anos, sem fazer tours ou qualquer tipo de promoção. Isso também manteria a imprensa longe da banda. "I looked at music as art rather than entertainment. With that concept in mind I thought music was personal to the listener rather than a commodity", explica no site oficial da banda (clique aqui para acessar). Leia a entrevista toda, vale a pena.
Apesar de ser considerado punk desde o início - evidentemente pela agressividade do som e pela atitude anticomercial - Sage jamais reivindicou qualquer rótulo para o grupo, mas também nunca se preocupou com isso. Ou seja, sempre cagou para o que diziam do Wipers. Para piorar as coisas para os rotuladores de plantão, o primeiro LP, Is This Real? (1979), é realmente um clássico com todas as características do que se convencionou chamar punk rock. Mas no segundo LP, Youth of America (1981), ainda que o som se mantivesse na mesma linha em termos de agressividade, Sage quebrou alguns tabus do punk rock, com músicas longas (a faixa-título tem exatos 10min27s) e uma guitarra bem trabalhada. E agora? Que porra é essa? Deviam ter pensado alguns críticos.
Tocar com um cara desses não deve ser lá muito fácil. Assim, o Wipers sempre foi um trio. No início, com Sage mais o baixista Dave Koupal e o batera Sam Henry. Essa formação foi responsável pelos dois primeiros singles, Better off Dead (1979), com quatro músicas gravadas em quatro canais, e Alien Boy (1980). O primeiro lançado pelo selo Trap Records, do próprio Sage, e o segundo, com a música-título mais três retiradas de uma demo tape, saiu sem a permissão da banda, pelo selo Park Ave.
Sage-Koupal-Henry gravaram também o LP Is This Real?, que jamais cansarei de dizer tratar-se de um clássico. Aliás, 12 clássicos. Nenhuma faixa é dispensável. Desde a abertura com Return of The Rat, no melhor estilo UK Subs, até a quase instropectiva Wait a Minute, não dá para ficar indiferente ao que toca. Gosto muito da batida de Up Front, que se fosse gravada por uma banda inglesa de Oi! tornaria-se hino. A faixa-título do LP e Tragedy são outras músicas de primeiríssima qualidade. E ainda tem D-7, regravada pelo Nirvana a exemplo de Return of the Rat (em 1991, Kurt Cobain financou o álbum 14 Songs for Greg Sage and The Wipers).
No segundo LP, Youth of America, o baixo ficou com Brad Davison - embora Koupal toque em algumas faixas - e a bateria com Brad Naish. O disco é bem mais lento, com seis faixas apenas. Mas nem por isso menos original e genial. Só que foge dos estereótipos do punk. Essa foi também a formação que apareceu no terceiro e último LP da primeira fase do Wipers, Over the Edge (1983), em que o grupo retoma o estilo do primeiro, mais punk e menos experimental, além de as letras terem adquirido um tom mais politizado. Clássico também.
Depois deste disco, o grupo deu um tempo e, em 1985, Sage lançou um LP solo (muito bom por sinal), Straight Ahead , em que só não toca bateria. Ainda nos anos 80, o Wipers lançaria mais três LPs - Land of the Lost (1986), Follow Blind (87) e The Circle (88) , todos de excelente qualidade (vale a pena procurar), embora já sem a genialidade dos três primeiros. Nestes discos Brad Naish deu lugar a Steve Plouf. No final da década de 80, o grupo foi dado como acabado, mas em 1993 ressurgiu com o LP Silver Sail, em que não há quase nenhum traço da banda, então cultuada. Três anos depois, o Wipers lançou mais um LP, chamado The Herd, neste sim, o grupo retoma a fúria e o peso dos anos 80. Já em 99, sai o que seria, segundo o próprio Sage, o último e ótimo disco do grupo: The Power in One. Portanto, Sage não conseguiu que o Wipers lançasse 15 LPs em 10 anos. Foram "apenas" nove em duas décadas. Mas, com os merecidos descontos, a missão foi cumprida.
Baixe o fantástico Is This Real e me diga se tenho ou não razão.

WIPERS FACTS
  • O envolvimento de Greg Sage com a música começou ainda na infância, já que seu pai trabalhava em uma fábrica de discos e ele acompanhava todo o processo de fabricação, pelo qual ficou fascinado, a ponto de passar horas observando em um microscópio os sulcos dos discos.
  • A partir do segundo LP, Sage usou sua experiência e obsessão por técnicas de gravação para produzir tudo o que o Wipers gravou e também seus discos solos, que aliás foram três: Straight Ahead (1985), Sacrifice (for love) (1991) e Electric Medicine (2002).
  • O baixista Brad Davidson, após deixar o grupo, mudou-se para Londres e já fez diversas colaborações com o Jesus & Mary Chain.
  • Em 2001, Sage, através de seu próprio selo, a Zeno Records, remasterizou (sozinho) os três primeiros LPs, adicionou diversas faixas bonus e lançou um box set com três CDs. A história da primeira fase da banda está toda nessa caixa. Sinceramente, prefiro os orginais, mais pesados.
  • A influência do Wipers nas bandas rotuladas como "grunge" é notável. Além de Cobain ser um fã declarado de Sage (inclusive no comportamento anti-star), outras bandas deste estilo gravaram músicas do Wipers, entre elas o Hole. Teve até gente que confundiu o grupo como parte da tal cena grunge...

18/01/2009

Pequenos Gigantes III - Stiff Records


A Stiff Records não foi um selo dedicado exclusivamente ao punk - aliás, bem poucos foram na década de 70 -, mas teve papel fundamental na cena londrina. Foi a Stiff que lançou o compacto de estreia da Damned, considerado como o primeiro disco "autenticamente" punk inglês.
A história deste selo começou no verão de 76 quando Jake Rivera (na verdade, Andrew Jakeman) e Dave Robinson fizeram um empréstimo de 400 libras com o volcalista do Dr. Feelgood, Lee Brilleaux, para montar um selo que pudesse lançar discos de bandas londrinas de uma cena então conhecida como "pub rock". Jake já trabalhava com o Dr. Feelgood e os havia acompanhado numa turnê pelos EUA, onde conheceu o trabalho de pequenas gravadoras (entre elas, a Bomp) e voltou ao Reino Unido convicto de que deveria enveredar por este caminho. Dave também atuava no circuito "pub rock" e trabalha em um estúdio especializado no gênero. Portanto, ambos conheciam bem o underground londrino.
O primeiro lançamento do selo foi o single So it goes/Heart of the city, de Nick Lowe, recém saído do grupo Brinsley Schwartz. A bolacha foi bem recebida pela imprensa musical e a Stiff Records ganhou fôlego. No entanto, os lançamentos seguintes (Pink Fairies, Roogalator, Tyla Gang e Lew Lewis) não foram tão bem. Por outro lado, o punk rock começava a entrar em evidência e a dupla foi rápida no gatilho: contratou o Damned e em 22 de outubro de 76 chegava às lojas o single New Rose/Help, que entraria para a história como o primeiro compacto de punk rock (embora haja muitas controvérsias) inglês. O single tornou-se um dos mais tocados no lendário programa de John Peel. Ainda em 76, a Stiff lançou na Inglaterra outro compacto punk lendário: Richard Hell and the Voidoids, com as músicas Another World, Blank Generation e You gotta lose.
Ao contrário de Lee Wood da Raw Records, Jake e Dave, além de gostar muito de bandas de vanguarda, tinham excelente tino comercial e sabiam promover os discos que lançavam. Faziam cartazes e anúncios nos jornais especializados. O próprio selo era promovido por uma camiseta que tornou-se célebre na época por usar a frase If it ain't STIFF, it ain't worth a fuck. Marketing de primeira. Com isso, conseguiam boas vendas e exposição na mídia.
O primeiro LP do selo, já em 77, também ajudou a escrever a história do punk: o histórico Damned, Damned, Damned. Mas a Stiff apareceria pela primeira vez nas listas dos mais vendidos com um certo Elvis Costello, com quem o selo ganharia muita grana. No entanto, Jake resolveu abandonar o barco no final de 77 para fundar a Radar Records e levou com ele Elvis Costello e Nick Lowe, que produzia boa parte do material no estúdio. O golpe foi sentido, mas as boas vendas de outro artista, no caso, Ian Dury, segurou a onda. Mais tarde, o selo lançaria o Madness, o grupo de ska de sucesso mundial que conseguiria manter o selo em atividade por muitos anos.
Voltando a 77, o Damned, após cinco compactos e o segundo LP, Music for Pleasure, assinou com a Chiswick. Mas a verdade é que a Stiff, embora tenha dado grande impulso para o punk, preferia bandas "new wave". As exceções, além dos já citados aqui, foram o Adverts, com o compacto One Chord Wonders, de 77, e o The Members, com o single Solitary Confinement/Rat up a drainpipe, já em 1979. No ano seguinte, a Stiff lançou o LP Live Kicks, do UK Subs, que teria circulado inicialmente como pirata. Depois, a banda negociou com a Stiff o lançamento oficial da bolacha.
Ainda na área pesos-pesados, a Stiff lançou um dos primeiros singles do Motorhead (Leavin' here/White Line Fever) e também dois compactos e um LP (No hope for the Wretched) do Plasmatics.
Em 86, com dívidas na casa dos três milhões de libras, o selo foi adquirido pela ZTT Records, que manteve o nome adormecido por mais de dez anos. Em 2001, a Stiff voltou ao mercado com diversas coletâneas e em 2007, após 21 anos, voltou a lançar um álbum original, com o The Tranzmitors.
Baixe o LP Skip off school to see The Damned, que reúne os cinco compactos do Damned pela Stiff, mais os singles do Adverts, do Members e de Richard Hell. Basta clicar aqui.
Em breve postarei o Live Kicks, do UK Subs, prometo.

14/01/2009

Pequenos gigantes II - RAW RECORDS

Dentre os selos independentes da cena punk inglesa da década de 70, o RAW RECORDS foi um dos mais amadores e, consequentemente, apesar de ter lançado algumas gemas, não conseguiu sobreviver por muito tempo. O amadorismo de Lee Wood, fundador do selo, também acabou por prejudicar as bandas que não conseguiram boa exposição justamente no "boom" do fenômeno punk na Inglaterra. Entre os principais lançamentos da RAW, estão: THE USERS, KILLJOYS, LOCKJAW e SOFT BOYS.
Lee Wood é um desses punks de nascimento. Nos anos 60 curtia bandas de garagem e tocou em grupos obscuros como The Antlers, The Pype Rhythms, The New Generation, The Sex, e LSD. Por volta de 73 montou uma loja de discos em Cambridge chamada Remember Those Oldies, na qual vendia raridades. Quando a cena punk/new wave começou a nascer, ele foi um dos primeiros a vender os compactos independentes que pipocavam e logo pensou em também montar um selo, inspirado na Chiswick e Stiff Records (selos de que falarei nos próximos posts).
Depois de assistir a um ensaio do The Users, Lee Wood decidiu que iria produzir um disco para eles. Em maio de 1977 era lançado o single Sick of you/I'm in love with today, o primeiro do selo que a princípio se chamaria Raw Power em homengem ao disco dos Stooges, maior referência do Users. Mas acabou ficando só Raw mesmo.
O segundo lançamento do selo foi na verdade um relançamento. Trata-se do single You Really Got Me/Leaving Home, do The Gorillas, de 1974, quando ainda se chamavam Hammersmith Gorillas. Lee Wood comprou os direitos de um selo chamado Penny Farthing porque era fanático pela banda.
A essa altura, a RAW Records já recebia dezenas de demo tapes, uma vez que em cada esquina e em cada garagem do Reino Unido havia uma banda tocando. Ainda em 77, a RAW lançou mais sete compactos e a coletânea Raw Deal. Além das bandas já citadas, nesse primeiro ano de vida, saíram pelo selo: Some Chicken, The Unwanted, Matchbox, The Creation e Downliner Sect (os dois últimos, grupos dos anos 60, relançados por Lee Wood).
Em 78 foram mais nove compactos e seis LPs com grupos até hoje bem desconhecidos, uma vez que Wood ignorava completamente qualquer estratégia de marketing, queria apenas gravar os discos. Claro que teve grandes prejuízos e, em 79, ano em que colocou apenas sete compactos no mercado, pediu arrego.
Como as prensagens eram pequenas, os discos da Raw são raridades e bastante procurados por colecionadores. É um selo que não fez muito barulho, mas registrou bandas que talvez jamais gravariam não fosse o fanatismo de Lee Wood pelo genuino rock de garagem inglês.
Para conhecer o bom trabalho da RAW, reuni em dois arquivos as coletâneas Raw Deal, (Oh no it's) More From Raw e Raw Singles. Como nas três há muitos sons repetidos, fiz uma seleção que totalizou 40 faixas de 15 grupos. O arquivo está em duas partes Parte 1 aqui e Parte 2 aqui. Não dá para falar de punk 77 sem ouvir isso!

11/01/2009

Pequenos Gigantes I - POSH BOY

A importância dos selos independentes para o punk rock é tão grande que eu não temo dizer que o punk sobreviveu graças a essas pequenas companhias. Por outro lado, os selos independentes ganharam um grande impulso a partir da explosão do fenômeno punk na metade da década de 70. Antes, os lançamentos independentes eram esporádicos e as majors dominavam completamente o mercado fonográfico. Com isso, determinavam o que o público devia ouvir. Imagino a quantidade de boas bandas que jamais conseguiram entrar em estúdio (que eram caríssimos, diga-se de passagem) na época, ou que até gravaram mas não chegaram ao mercado por falta de alguém para prensar e distribuir o trabalho (o Death e o Pure Hell, postados anteriormente, são exemplos).
O fato é que no final dos 70 e início dos 80 surgiram centenas, talvez milhares, desses selos pelo mundo todo e deram suporte para a proliferação do punk. Alguns mais, outros menos, mas todos com importância equivalente. Penso ser impossível registrar a história do punk sem falar de alguns desses selos, o que o FZ começa a fazer a partir de hoje.
Para inaugurar esse tipo de post vou falar do selo californiano POSH BOY, fundado em 1978 por um sujeito chamado Robbie Fields. Na verdade, no início não se tratava de um selo. Fields empresariava o F-Word e a Dangerhouse Records prometera lançar um compacto do grupo, mas faliu antes de cumprir o trato. Então, Fields resolveu lançar o disco por conta própria. Assim, o primeiro lançamento do selo foi o compacto Shut Down do F-Word com a música-título no lado A e mais Out There e Government Official no B, todas ao vivo. Na sequência, saiu o compacto do SIMPLETONES, com as músicas Kirsty Q e Dead Meat, o primeiro de estúdio produzido por Fields.
No início de 79, a Posh Boy lançou a coletânea Beach Blvd, com Rik L Rik (ex-F-Word, acompanhado no disco pelo Negative Trend), The Crowd e Simpletones, um verdadeiro marco do punk norte-americano e mundial. O inesperado sucesso do disco, que inclusive chegou por aqui via Punk Rock Discos, colocou o selo definitivamente no mercado e Fields tentou repetir o feito com outra coletânea, chamada The Siren, com 391, Red Cross e Spittin' Teeth. O disco, porém, não foi tão bem nas lojas. Particularmente, considero este LP mais um clássico. Comprei o vinil na Punk Rock e devo tê-lo ouvido algumas milhares de vezes e não consigo enjoar do maldito!
Depois desses lançamentos iniciais, a Posh Boy colocou uma enxurrada de discos nas lojas e foi responsável pela primeira oportunidade de bandas como Adolescents, Agent Orange, TSOL, Shattered Faith, The Nuns, Black Flag, Channel 3, UXA, entre outras. Outras coletâneas da Posh Boy que ficaram famosas foram os três volumes da Rodney On The ROQ, especialmente o primeiro, que tinha, entre outras, faixas clássicas do Agent Orange (Bloodstains), Adolescents (Amoeba) e Black Flag (No Values) . Rodney é Rodney Bingenheimer, radialista que até apresenta um programa na rádio KROQ, de Pasadena, no ar desde 1976!
No entanto, apesar da evidente importância da Posh Boy, a relação de Fields com as bandas não era tão amigável e tretas devido a pagamentos (ou suposta falta de) de royalties eram constantes. Grupos como Shattered Faith, Social Distortion e TSOL chegaram a processar Robbie Fields.
A fase de ouro do selo durou até 1982, período em que lançou perto de 200 discos entre LPs, compactos e coletâneas. Mas Robbie era apaixonado por música e, aparentemente, um péssimo administrador. Endividada, a Posh Boy ficou quatro anos sem lançar nada. Em 88, voltou à ativa com seis LPs, mas não vingou. A última tentativa de Robbie em ressuscitar o selo foi em 94/95, mas, sem sucesso, desisitiu. Atualmente, mora na África do Sul e a Posh Boy, que ainda detém as matrizes de centenas de discos, vive do licenciamento dos mesmos. Vale a pena visitar o site (http://www.poshboy.com)

Recentemente, Robbie Fields relançou vários discos em formato digital pela Amazon.com. Acesse aqui página da Posh Boy

Robbie Fields (esq) e Rodney Bingenheimer, na capa do fanzine Flip Side especial
que acompanhou a primeira edição da coletânea Rodney On The Roq

07/01/2009

RON ASHETON (17/6/1948 - 6/1/2009)

O mundo da música foi pego de surpresa ontem com a morte de Ronald Asheton, um guitarrista que não só escreveu seu nome na história do rock, como também ajudou a escrever uma outra história: a do punk rock. Sua trajetória com os Stooges é bem conhecida e hoje está em quase todos os sites de notícias. Seria terrivelmente redundante colocá-la aqui também.
A primeira música do Stooges que ouvi foi 1970, dentro do Construção, um salão de rock situado na Vila Mazzei, zona norte de São Paulo. Lá dentro o som era alto, muito alto. O riff ficou ecoando em minha cabeça por uns três dias seguidos. Tentei comprar o disco, mas era impossível achá-lo, já que só havia importado. Além de ser muito caro, caso o encontrasse. Consegui gravá-lo com um amigo e nunca mais fui o mesmo. Uma a uma as músicas chapavam minha cabeça, então com uns 14 ou 15 anos. Para mim, um disco eternamente atual e impossível de superar.
O primeiro LP do Stooges, de 1969, foi pioneiro, um clássico, mas Fun House é mais que isso, é uma gema rara e única. Claro que Iggy tem uma grande parcela do mérito, mas ninguém duvida que foi Ron o criador da maioria dos riffs, além de ter um estilo muito a frente de seu tempo. Ron não tocava apenas a guitarra, usava o amplificador também como um instrumento.
Uma grande perda. E, embora eu não tenha gostado do novo disco do Stooges, uma pena que Ron tenha passado justamente depois do retorno da banda, algo que ele deixou claro em muitas entrevistas que o fazia muito feliz. Descanse em paz, amigo.

Como todo mundo tem os discos do Stooges (se não tem, morra meu chapa), vou colocar aqui duas preciosidades de Ron. Uma é o álbum do THE NEW ORDER, banda formada após o fim dos Stooges que contava ainda com o batera Dennis Thompson (ex-MC5), o baixista Jimmy Recca (segundo guitarrista do Stooges no álbum Raw Power), além do guitarrista Ray Gunn, o tecladista Scott Thurston e o vocalista Jeff Spry. A outra é o discaço do DESTROY ALL MONSTERS, banda em que Ron participou entre os anos de 78 e 85 (com algumas interrupções) e lançou três compactos, reunidos em um só arquivo. O grupo contava ainda com a vocalista Niagara, o baixista Michael Davis (ex-MC5) e o batera Roger Miller (futuro Mission of Burma).
Baixe Declaration of War do THE NEW ORDER e Bored do DESTROY ALL MONSTERS.

06/01/2009

Revolução dentro da revolução



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