16/04/2016

Dead Boys: punk, rock, extremos

O Dead Boys em 1977
Em 1975 o punk ainda não existia "oficialmente". Mas o Dead Boys já. E era assustadoramente punk. Não é exagero dizer que deram uma contribuição à altura do Ramones para que todo o processo, movimento, fenômeno ou seja lá o que for, chamado punk se espalhasse pelo mundo.

Com um som que entra facilmente no rol dos mais agressivos daquele período, o Dead Boys literalmente encarnava tudo o que viria a ser o punk desde então. E ainda possuíam uma habilidade musical inegável, quer seja em estúdio ou no palco, onde Stiv Bators o vocalista detonava em performances inspiradas em seu ídolo, o Godfather Iggy Pop. As inspirações são óbvias, além dos Stooges, é fácil identificar algo de MC5 e New York Dolls.

Diferente do punk que surgiria na Inglaterra, politizado, os caras do Dead Boys não estavam nem um pouco interessado no assunto. Cantavam sobre  sexo, drogas, solidão e o lado "sujo" da sociedade. Não tentavam fazer a cabeça de ninguém. No fundo, queriam apenas se divertir, beber, arrumar confusão e ter sexo livre e grátis. Queriam ser rockstars, não vozes ou mártires de qualquer revolução, embora estivessem no olho do furacão da mesma. Eram pobres loucos para ficarem ricos e "detonar".

O som das tumbas
A banda é de Cleveland e sua origem remonta ao lendário Rocket From The Tombs, que se dissolveu em julho de 1975. A dissolução acontecera porque o grupo estava dividido com o guitarrista Cheetah Chrome e o batera Johnny Blitz de um lado, querendo fazer um rock mais pesado, e o vocalista David Thomas e o guitarrista Peter Laughner, de outro, com uma proposta mais "art-rock".

Após o fim do Rocket, os dois últimos fundaram o Pere Ubu, grupo seminal para o que viria a ser o "pos-punk". Já os dois primeiros se juntariam a Stiv Bators, o guitarrista Jimmy Zero e o baixista Jeff Magnum, que ensaiavam covers do Stooges e procuravam outros caras para formar uma banda. A união já se desenhara na última fase do Rocket, quando Stiv teve uma passagem relâmpago por uma das últimas formações da banda. Na derradeira apresentação do RFTT, ele subiu ao palco e fez uma performance improvisada com Cheetah e o batera, sem os dois futuros Pere Ubu.

Nascia assim o... Frankenstein. Isso mesmo. Esse foi o primeiro nome que escolheram, sob o qual fizeram quatro apresentações em Cleveland e gravaram uma demo com três faixas: Sonic Reducer, High Tension Wire e Down In Flames. Três meses depois, desanimados com a falta de espaço (que pressa tinham...), decidiram dar um tempo.

Então Stiv conhece Johnny Thunders, ex-guitarman do New York Dolls e na época destruindo no Heartbreakers, que o apresenta à cena novaiorquina. Stiv percebeu no ato que ali teriam mais espaço. Então, convence os demais integrantes do Frankenstein que deveriam se mudar para NY. Antes, porém, decidem mudar o nome (ufa!) para Dead Boys, tirado da letra de Down In Flames, inegável clássico do punk.

Dead boy - dead boy running scared
Dead boy - dead boy caught in a nuclear weird
Dead boy - dead boy gonna fall
Dead boy - to sick to wanna crawl

Down in flames, Down in flames

Red blip, red whine, lock in true
Dead boy, dead boy, line on you
Dead eyes feeding your dead, dead brain
Dead boy, dead boy, always end the same

Em Nova York, os Dead Boys se aproximam de Joey Ramone, com quem já haviam tido contato quando a banda dele tocou em Cleveland. Foi o "Magrão" que arranjou uma audição do grupo para tocar no CBGB. Em agosto de 76, o Dead Boys subia pela primeira vez ao palco do lendário clube. A performance incendiária de Stiv, aliada à agressividade das músicas, agradou em cheio e eles se tornariam habitués do local. E a julgar pela rapidez dos fatos, o barulho que fizeram foi grande. Poucos meses depois já tinham um contrato com a Sire Records, a mesma gravadora do Ramones.

Uma gema
Em julho de 1977 é lançado Young Loud & Snotty. Pesado, furioso do início ao fim. Uma bomba de desilusão e niilismo. Entra fácil na lista dos dez álbuns mais pesados e agressivos da época. No disco, conseguem passar o espírito do estilo de vida que tinham. "O Dead Boys eram lixo pobre, garotos da classe media baixa de Youngstown, Ohio. O grupo surgiu num meio violento. Eles cresceram em gangues, eram a coisa real. Com eles era mais que uma atitude, era um estilo de vida", conta Gyda Gash, que presenciou a ascensão do Dead Boys na Big Apple.

Gravado no Electric Ladyland Studio, abre com Sonic Reducer, a música mais conhecida deles. Entre os clássicos da bolacha, na minha modesta opinião estão também I Need Lunch, What Love Is e a já citada Down In Flames. Mas nenhuma faixa destoa, não há deslizes, é energia bruta - e às vezes angustiante - da primeira à última nota. Mesmo nos dias de hoje soa enérgico e pesado. Claro que foi um fracasso de vendas, obviamente por não ter a mínima preocupação comercial.

Como parte da campanha promocional do disco, embarcaram em uma turnê como banda de abertura de Iggy Pop pelos EUA e, logo depois, tocariam no Reino Unido com o Damned, que anteriormente dividira o palco com eles no CBGB. Privilegiados os que viram.

Matando os Dead Boys
Mas a Sire não estava interessada na história e nos sentimentos das ruas ou do que quer que fosse que não vendesse. E o punk não vendia a contento nos EUA. Nem o Ramones, nem qualquer outra banda atingira o mínimo necessário para dar lucro. Então, para o segundo álbum vetaram a produção de Lou Reed, como a banda solicitara, e chamaram Felix Pappalardi, músico e produtor que nos anos 60 trabalhou com Cream. Nada menos apropriado para uma banda punk. Até o visual dos caras foi mudado. Pressionados, aceitaram, afinal não teriam como pagar uma multa contratual.  

O fato é que We Have Come From Your Children chegou ao mercado e foi ainda mais decepcionante em termos de vendas. A autenticidade sumira. Aquele nunca havia sido o Dead Boys. A dúvida é: por que diabos então o fizeram? Por que não se recusaram? Talvez por serem mesmo uns fodidos sem dinheiro que acreditaram nos executivos. Nos aos 70, a indústria musical impunha condições para as bandas, mas não era uma imposição à força. Oferecia-se dinheiro. Simples assim.

A Sire fez isso com os caras (eles aceitaram, claro) 
O termo "vender a alma" talvez seja bastante adequado para descrever o que aconteceu com o Dead Boys e inúmeras bandas, especialmente a partir de 1978 quando os produtores constataram que o punk não tinha o mercado que se imaginava. Como desconto, todos os membros da própria banda sempre criticaram o álbum. A mesma Gyda Gash diz que Cheetah teria ligado para James Williamson (do Stooges) durante as gravações, perguntando se ele não podera r lá para tentar salvar o disco.

Lendas à parte, pouco tempo depois, Johnny Blitz foi esfaqueado em uma briga de rua e Cheetah Chrome quebrou o braço andando de skate. Impossibilitados de fazer shows e desinteressados no que a banda se tornara o fim era inevitável. Para fechar com "chave de ouro" a história e o relacionamento coma  Sire Records, a fim de cumprir o contrato (deviam mais um álbum) fizeram um show que deveria ser gravado e lançado em disco. Mas Stiv, malandramente, desligou o microfone que captava sua voz para a gravação. Foi impossível para a gravadora salvar o registro e o dito cujo não foi lançado. Não imediatamente. Anos depois, Stiv colocou sua voz sobre a gravação e a bolacha saiu pela independente Bomp! Records.

Após o fim do Dead Boys, ainda em 1979, Stiv Bators lançou dois compactos pela mesma Bomp! Records. Em 1980, lançou seu primeiro álbum solo, Disconnected, com um estilo mais sessentista e "psicodélico". A seguir, foi para a Europa e formou o Wanderers - e depois o Lord Of The New Church - com os caras do Sham 69. Morreu em 1990, após ser atropelado em Paris.
Este vídeo dá uma ideia de como era um show do Dead Boys em 77,
apesar da péssima qualidade do som no YouTube

04/03/2016

SHAM 69 - (anti)-herois da classe trabalhadora


Há bandas que ficam marcadas pela sonoridade, outras pelas letras, muitas também pela atitude e algumas pelo público que atraem. E há aquelas que reúnem tudo isso. O Sham 69 se encaixa perfeitamente nessa última categoria. Todos os integrantes das primeiras formações sempre fizeram questão de frisar que eram oriundos da classe trabalhadora, aquela parcela de todas as sociedades que sempre sofre com mais intensidade os efeitos dos problemas econômicos. E isso era fato na Inglaterra da época.
Não se pode ignorar que muitos integrantes de inúmeras bandas de rock também saíram dos subúrbios e eram filhos de operários. Mas poucos assumiam isso e a maioria que o fazia era parte do chamado circuito de "pub rock". E nem todos colocavam de modo escancarado a (dura) realidade da vida de proletário nas letras das músicas. O punk rock, se não saiu desse nicho, encontrou nele um terreno fértil. Para os milhares de jovens desempregados nos subúrbios, o punk surgiu como uma grande oportunidade, tanto por proporcionar diversão barata (ainda que não beirassem a exploração atual, os ingressos para shows de bandas de rock do mainstream eram caros, especialmente para quem não recebia nada) como de terem suas próprias bandas.
Nesse contexto, era inevitável o cruzamento dos sentimentos de incerteza e angústia da molecada dos subúrbios com o rock cru tocado nos pubs e a agressividade do então novo punk. E poucas bandas captaram com tanta autenticidade esse momento e souberam transformá-lo em música (me perdoem os fãs de clássicos) como o Sham 69, que ainda acrescentou um ingrediente a mais: refrões no estilo cantos de torcidas de futebol.

Fase embrionária
A história começa em 1975, quando James Timothy Pursey, ou simplesmente Jimmy Pursey, formou o Jimmy & The Ferrets junto com Neil Harris (guitarra), Johnny Goodfornothing (guitarra), Albie Slider (baixo) e Billy Bostik (bateria). Em busca de espaço, dublavam Rolling Stones e Gary Glitter no palco de uma casa chamada The Walton Hop, que ficaria famosa nos anos 80 após a descoberta que seu proprietário, Jonathan King, usava o local para seduzir garotos. Um escândalo de pedofilia que foi parar nos tribunais e nos jornais.

A primeira formação do Sham 69
Mais ou menos no início de 1976 eles já haviam incorporado os acordes básicos do punk ao repertório e deixado as dublagens de lado. Ainda naquele ano o grupo foi rebatizado, após Pursey ver uma pichação semi-apagada em um muro, provavelmente uma referência ao lendário time de futebol do Walton & Hershey de 1969, campeão de uma liga amadora. Nascia assim o Sham 69.
Aos poucos a fama foi crescendo e logo o grupo estava abrindo para bandas maiores do circuito punk, como o Generation X. Em junho de 1977, o Sham dividiu uma noite com o Excalibur, banda do guitarrista Dave Parsons que basicamente tocava covers dos anos 60. Pursey e Parsons iniciaram uma amizade e depois de algum tempo constataram que suas respectivas bandas não iam bem. Então, decidiram que era hora de se juntarem e formar um novo grupo. Convidaram Albie e um baterista chamado Mark Cain, que conheceram no Walton Hop. Do repertório antigo sobraria apenas a letra de Borstal Breakout, que mais tarde se tornaria o primeiro "hit" do grupo.
Dave Parsons não era um virtuoso da guitarra, mas conhecia o suficiente para criar riffs simples em cima das letras estilo "todos cantando juntos" de Pursey. Sem dúvida uma das melhores parcerias do punk. A partir desse ponto tudo aconteceu muito rápido. Logo estavam tocando em Londres, em clubes como o lendário Roxy, onde a presença do Sham era garantia de casa cheia.

Skins + punks = "vai dar merda..."
Mas aos poucos o público do Sham começou a se diferenciar das demais bandas. A postura dos integrantes, especialmente de Pursey, que fazia questão de frisar que aquela era uma banda "real", que era a legítima representante do espírito das ruas e não apenas mais uma a embarcar na "moda punk". Palavras que encaixavam perfeitamente com o que pensavam milhares de jovens desempregados que haviam se encantado com o punk, mas que não eram "descolados" o suficiente para frequentarem os locais mais badalados da cena londrina ou de qualquer outra grande cidade.
Então, de acordo com o próprio Pursey, durante uma das apresentações no Roxy, um velho amigo, que como ele e milhares de outros garotos dos subúrbios haviam sido skinheads por um tempo no final dos aos 60, gritou entre uma música e outra: "os skinheads voltaram". E ele concordou: "sim, eles voltaram". Dave Parsons, por sua vez, conta a história de um modo um pouco diferente: "Jimmy viu um amigo que fora skinhead como ele na plateia. Então, apontou para o cara e disse: 'Os skinheads voltaram'".
E aqui é bom abrir um parênteses. Os skinheads dos anos 60 não tinham quase nada a ver com o que se tornariam depois. Era apenas mais um dos muitos subgrupos que surgiram da esteira da contracultura que florescia naquela década. Não estavam interessados em questões políticas, queriam apenas curtir um som, preferencialmente reggae/ska ou soul/funk (ou seja, black music), beber e brigar, especialmente nos estádios de futebol, mas também nas ruas e pubs. Em geral, as tretas eram com hippies e gangues de motoqueiros. Muitos skinheads eram negros, ou seja, não havia espaço para o racismo. Mas no início dos anos 70 os skinheads (sabe-se lá por quê) sumiram, para ressurgirem no final da década, com toda a merda nazi envolvida.
Seja como for, nos shows seguintes do Sham 69 apareciam cada vez mais skinheads. A fama da banda também começou a atrair grupos de hooligans e todo tipo de delinquentes. Consequentemente, as costumeiras confusões e violência. Uma espécie de "maldição" que acompanharia o grupo e da qual jamais se livrariam. Em janeiro de 1979, a situação que já estava fora de controle, chegou ao ponto mais baixo: em um show na Middlesex University, em Londres, um fã acabou morto. Cinco dias depois, em Aylesbury, nem conseguiram iniciar a apresentação devido às brigas que irrompiam a todo momento, o que levou Jimmy Pursey a declarar, chorando, que era a última vez que subiam ao palco e, daquele momento em diante, apenas gravariam discos. Seriam uma banda de estúdio. O que não aconteceu de fato, já que ainda fizeram algumas apresentações (bem poucas é verdade). Pursey, na verdade, chegou a seu limite, como fica claro no documentário Tell Us The Truth, que postei abaixo. Não tem legendas em português, mas mesmo quem não entende o inglês percebe o clima dos shows e como era difícil (se não impossível), controlar o público.
No fundo, o Sham não tinha nada a ver com os skinheads, mas era cultuado cada vez mais por eles, por conseguir transformar a linguagem das ruas em canções. Para quem gosta de rótulos, se tornaria o pioneiro do "street punk" ou do que mais tarde seria conhecido como Oi! music, o estilo preferido dos skinheads. O problema é que os "novos skins" eram em grande parte racistas e simpatizantes do nazismo e ideologias de direita. E Mesmo o Sham tocando em vários concertos do projeto Rock Against Racism e Pursey não adiantou. Não era raro membros do National Front, um partido de ultra-direita britânico, aparecerem nos shows para recrutar militantes e propagar seu lixo. É provável que tenham conseguido muitos...  
Para piorar as coisas, os carecas elegeram os punks como inimigos - consideravam o Sham como uma "banda deles", portanto, não havia espaço para "poseurs". Obviamente, para os skinheads, esse rótulo era bastante amplo e incluía qualquer punk com visual "não skin". No fim, a violência ganhou uma proporção insustentável. O mesmo público que fez o Sham 69 o levaria ao fim.

Nos vídeos abaixo dá para ver um pouco do que falo.

Trecho de uma apresentação do Sham 69 no Rounhouse, Londres, 1978

Documentário Tell Us The Truth, 1979 


No auge
A estreia do Sham 69 em vinil foi com um compacto pela Step Forward Records, com três faixas: no lado A, I Don't Wanna e no B, Ulster e Red London. Lançado em setembro de 1977, apresenta a banda no seu estado mais bruto, sem qualquer tipo de lapidação. A curiosidade fica por conta da produção de John Cale (ex-Velvet Underground). Outro fato digno de nota é que o grupo combinou uma apresentação para promover o single na laje de uma loja de discos chamada Vortex, mas ao subirem para tocar confundiram o local exato e montaram a aparelhagem na laje errada. Quando começaram a apresentação, o proprietário da loja "invadida" chamou a polícia e armou-se uma enorme confusão. Pursey acabou preso e o episódio deu uma publicidade inesperada para o grupo.

Pursey é levado por policiais após a banda tocar no telhado errado 
Uma consequência não muito legal foi que ao estúdio o grupo finalmente percebeu que Albie não sabia tocar. Após a gravação decidiram que ele deveria sair (na verdade, continuou, mas como roadie) e para seu lugar convocaram Dave Treganna. Com ele, Pursey, Parsons e Mark "Dodie", estava completa a formação clássica do Sham 69, que faria história.
O passo seguinte foi arranjar um empresário. O escolhido foi Tony Gordon - mais tarde, responsável pelo Culture Club de Boy George - que não teve muito trabalho para conseguir um contrato com a Polydor, uma "major" poderosa da época. A primeira ação foi o lançamento de um single promocional com apenas uma música, Song of the Streets, que ficaria mais conhecida pelo refrão What Have We Got.
Capa do primeiro single do Sham 69
Em fevereiro de 78, é lançado o single There's Gonna Be a Borstal Breakout, com a raivosa Borstal Breakout de um lado e Hey Little Rich Boy no outro. Um dos melhores compactos da hstória do punk, sem dúvida. No mês seguinte chegava ao mercado o clássico Tell Us The Truth, o primeiro LP, que ficaria entre os mais vendidos do ano. Tell Us The Truth é um discaço, com um lado ao vivo (uma exigência da banda ao assinar o contrato), que tenta captar um pouco da atmosfera dos shows do Sham. E o outro em estúdio, com oito faixas do mais puro punk rock.  

Quando o álbum foi lançado, o punk era dado como morto pela imprensa. O Sex Pistols já havia ido para o buraco e Johnny Rotten agora liderava o PIL. Ao se manter fieis ao estilo, ao não se render à tentação de fazer um som mais polido e trabalhado como boa parte dos grupos punks estava fazendo, o Sham 69 preenchia um certo vazio e passava a ser a principal banda punk do Reino Unido, ao lado do UK Subs, claro. Um disco tão intenso que dá para sentir que a banda realmente acreditava no que falava. É o Sham 69 ainda em estado bruto. Sem duvidas um dos álbuns mais importantes para a história do punk.
Destaque do lendário fanzine Sniffin' Glue
Na metade de 1978 já podiam ser considerados "estrelas". Lançado em junho daquele ano, o single Angel With Dirty Faces ficaria entre os 20 mais vendidos da Inglaterra por 10 semanas seguidas, algo que quase nenhuma banda punk conseguira até aquele momento (e raras conseguiriam até hoje). Mas era só o começo, o single seguinte, If The Kids Are United, que já era um hino, foi direto para o o Top 10, o mesmo acontecendo com Hurry Up Harry, lançado meses depois.
Ou seja, enquanto a maioria das bandas punk que surgiram em 76 e 77 estavam acabadas ou seguindo outras direções, o Sham 69 continuava crescendo, sem mudar em nada sua postura. De certa forma, um paradoxo mercadológico intrigante. Afinal, "o punk estava morto"...
Em outubro de 1978 sai That's Life, o segundo LP. Desta vez, todo gravado em estúdio, é um "álbum conceitual" que conta a história de um dia na vida de um garoto filho de operários. Poeticamente, diria que é uma crônica da vida privada de um cara pobre da periferia, rejeitado pelo pai, esculhambado pela mãe. A ideia é boa e tal. As canções são entremeadas por diálogos o que às vezes dá preguiça de ouvir o disco todo sem pular essas partes. Em todo caso, com uma produção mais cuidada (mérito de Peter Wilson, produtor que mais tarde trabalharia com o Style Council) e a banda mais afiada do que nunca, That's Life é uma das mais sólidas coleção de hinos punk reunidas em um só disco. E se as letras de Pursey estavam cada vez mais provocativas, Parsons, Treganna e Doide, agora com o reforço do tecladista Tot Taylor, estavam em ótima forma. Enquanto Tell Us The Truth é brilhante pela simplicidade, That's Life se sobressai pela inserção de elementos inusitados sem perder um nada daquela essência. Mais uma aula de punk rock.

A queda
Em meio ao agravamento dos problemas nos shows e os primeiros boatos de que o grupo poderia acabar, sai Questions and Answers, uma de suas melhores músicas, em um compacto que ainda tinha a incrível I Gotta Survive e um cover debochado de With a Little Help From My Friends dos Beatles, na desafinada voz do batera Mark Dodie. Mais um sucesso: Top 20 por 18 semanas seguidas.  
Pouco depois é a vez da festiva Hersham Boys, mais uma demonstração de carinho do grupo para com os fãs que chegou a ser o sexto single mais vendido no Reino Unido e ficou nas paradas por nove semanas consecutivas.
O terceiro LP, o pretencioso The Adventures os Hersham Boys, chegaria às lojas ainda em 1979. No álbum o Sham se aventura por outras praias musicais, com faixas mais lentas (Fly Dark Angel e You're a Better Man Than I), embora sem deixar de lado o som pesado característico dos trabalhos anteriores, como Money e Voices. O uso de teclados não era novidade para eles, mas desta vez pode-se dizer que abusaram e a guitarra de Parsons fica em segundo plano em várias faixas. Nas letras, Pursey tenta mostrar mais maturidade e tenta cantar mais suavemente, o que não agradou muito. O resultado é um disco bem diferente de tudo que haviam feito. Nem melhor, nem pior. Ah, sim, na capa eles aparecem caracterizados como cowboys, algo bastante inusitado para uma banda punk. E apesar das críticas não muito favoráveis, o que não era novidade, o álbum chegou a ficar entre os 10 mais vendidos por sete semanas, o que também não era novidade.
Mas enquanto o disco ia bem nas lojas, a banda, cada vez mais desiludida com o fato de não poderem fazer um show que não acabasse em confusão generalizada, começou a se dissolver. Mark Dodie foi o primeiro a sair, sendo substituído por Ricky Goldstein, que tocava no pouco conhecido Automatics, uma banda de powerpop.
O "Sham Pistols", uma farra que durou pouco
Então em junho de 1979, um fato inusitado surpreende os fãs e a imprensa. Jimmy Pursey e Dave Treganna se juntam aos ex-Sex Pistols Steve Jones e Paul Cook, em um projeto que ganhou o nome provisório de "Sham Pistols" (Sex 69 talvez ficasse melhor, acho). Era uma união fadada ao fracasso desde o início. Afinal, o Sham ainda existia, não estava "oficialmente" acabado e tinha m contrato a cumprir com a Polydor, enquanto os outros dois estavam atrelados à Virgin Records. Mesmo assim, o quarteto chegou a gravar quatro músicas em estúdio e, em uma das últimas apresentações do Sham 69, em Glasgow, na Escócia, os ex-Pistols subiram ao palco no bis. Não há muito tempo, as faixas de estúdio e ao vivo foram reunidas no mini LP Natural Born Killer, por sinal, muito bom.
Anúncio do álbum The Game: sorrisos falsos
Passado o episódio, no dia 28 de julho de 1979, tentaram voltar ao palco, no The Rainbow. A apresentação durou menos de 20 minutos, acabando em briga generalizada. Foi a última tentativa. The Game, o quarto LP, lançado em 1980. No disco retomam alguns elementos do início da carreira. De fato, é o mais pesado da banda e, não fosse o contexto em que foi criado, com o grupo já praticamente acabado, poderia ter sido melhor recebido na época. O fracasso nas vendas foi o tiro de misericórdia. Na verdade, a essência do Sham 69 já estava perdida, ou melhor, pisoteada pelos coturnos dos skinheads.    
Mas antes de anunciarem o fim, precisavam cumprir o contrato. Deviam ainda dois álbuns para a Polydor. Foi assim que geraram






Afterlife 
Para o Factor Zero, a história do Sham acaba em The Game. Logo após, Jimmy Pursey lançou um álbum solo chamado Imagination Camouflage, com Parsons, Treganna e dois ex-membros do Generation X (o batera Mark Laff e o guitarrista Bob Andrews). Um bom disco, mas que não deu em nada. Pouco depois Parsons, Treganna e Goldstein chamaram Stiv bators (ex-Dead Boys) e formaram o The Wanderers, que durou pouco tempo: lançou apenas um LP e dois singles em 1981 e acabou. Treganna e Bators continuaram juntos e formaram o Lords Of The New Church com o ex-Damned Brian James e Nick Turner, ex-Barracudas.
Em 1988, Pursey e Parsons tentaram reerguer o Sham 69, com o desastroso LP Volunteer. Em 1992, fizeram uma nova tentativa com Information Libre, um pouco melhor, mas ainda há anos-luz do Sham 69 original. As tentativas se repetiriam em 1995, com Soapy Water And Mister Marmalade; em 1997, com The A Files; e, em 2001, com Direct Action: Day 21. Álbuns no máximo razoáveis.
Mas desastroso mesmo foi a banda despachar Jimmy Pursey em 2006 e substitui-lo por Tim V. A gota d'água teria sido um single beneficente lançado por Jimmy Pursey com uma releitura de Hurry Up Harry, com o refrão modificado para Hurry Up England, como tema não-oficial da seleção inglesa de futebol para a Copa do Mundo. No YouTube tem, claro (clique aqui para ver).  
Esse "novo" Sham lançou três LPs:  Western Culture, também conhecido como Hollywood Hero (2007), Seriously Ultimate! (2008) e Who Killed Joe Public (2010).
Em 2011, Dave Parsons tentou remontar o Sham com Pursey, mas os demais integrantes não deixaram de tocar e desde então há dos Sham 69. Em 2014, o "Sham de Parsons e Pursey", gerou o álbum The Evolution Of Punk, mas não deu certo e tudo acabou de novo. Em 2015, o "falso Sham" lançou mais um álbum, It'll End In Tears. Se juntar todos esses álbuns pós-1980 e espremer, não dá uma gota do primeiro single de 1977...


Links:








13/02/2016

Blitzkrieg Bop, a banda


Uma banda chamada Blitzkrieg Bop e cuja música mais famosa tem o título de Let's Go. "Mais um clone dos Ramones" é o primeiro e mais natural julgamento que vem à cabeça. Não é bem assim. Apesar do nome ter sido realmente inspirado no clássico do grupo novaiorquino e de fazer o velho punk rock, genialmente primitivo e com pouquíssimos acordes, as semelhanças param por aí.
O Blitzkrieg Bop foi um grupo que esteve na ativa durante a fase mais fervente do punk no Reino Unido, mas não eram de Londres e sim de uma região no norte da Inglaterra chamada Teeside. Isso pode ter sido um dos fatores que contribuíram para que a banda não despontasse como outros de seus contemporâneos. Apesar de a história do grupo remontar a 1974, o BP propriamente dito começou em 77 e durou até por volta de 79. Nesse período lançaram três singles e chegaram a ficar relativamente bem conhecidos.

Adamanta Chubb
Em 1974, quatro garotos de saco cheio da monotonia da vida em Teeside, uma área urbana e bastante industrializada que reúne pelo menos sete cidades, entre as quais Middlesbrough, resolveram montar uma banda de rock. Algo muito comum naquele país, como visto nas histórias de outras bandas postadas aqui. O grupo recebeu o nome de Adamanta Chubb, personagem do livro Lord of The Rings (sim, O Senhor dos Anéis não é tão novo), e era formado por Alan Cornforth (batera), Kevin McMaster (voz e guitarra), Stephen Sharratt (guitarra) e Mike "Duck" MacDonald (baixo). Pouco depois de começarem a ensaiar, Mike saiu e foi substituído por Damien "Dimmer" Blackwell. Em 75, John Hodgson se junta ao Adamanta, que precisava de alguém para compor músicas próprias, pois até então só fazia covers. John era um músico de certa experiência - estava no circuito desde 1966 - e entrou para o grupo como tecladista e compositor. Apesar de terem crescido um pouco com o novo integrante, não conseguiram muita coisa e não demorou Kevin e Stephen desistiram. Com isso, a banda se tornou um trio provisoriamente com Alan, John e Mike.
Em 76, porém, depois que John resolveu dar um tempo para tocar em uma banda de soul music (chamada Erection) em que poderia fazer uma graninha, o Adamanta Chubb quase deixou de existir. Depois de alguns meses de inatividade, Dimmer começou a remontar o grupo, que voltou definitivamente já no início de 77, com ele na guitarra, John na voz e nos teclados, Mick Hylton no baixo e Alan na batera. Mas ainda faziam um som mais voltado para o hard rock, com um repertório quase totalmente de covers.


A virada e o fim
Naquela época o punk estava no auge e John, especialmente, estava curtindo muito o que rolava mais ao sul e iniciou uma campanha interna para que o Adamanta entrasse por esse caminho. De início, os demais integrantes relutaram bastante, mas aceitaram incluir alguns números punks no repertório. Tocavam covers de The Clash, Eddie and The Hot Rods, Sex Pistols, Adverts e outros. Não demorou para perceberem que o "momento punk" do show agradava mais às plateias, que àquela altura estavam bastante influenciadas pelas novas ideias propostas pelo punk. Além disso, o Adamanta há algum tempo tentava aparecer e com o som que faziam normalmente estava difícil. A simplicidade do punk seria um caminho bem mais fácil para eles.
Aos poucos passaram a ter um repertório predominantemente punk e em maio de 77 mudaram o nome da banda para Blitzkrieg Bop. Outra mudança foi a entrada de Ann Hodgson (apesar do sobrenome, não era parente de John) como guitarrista e Mick Hylton no baixo. Também passaram a adotar pseudônimos. John passou a ser Blank Frank, Alan se tornou Nick Knoxx, Dimmer adotou Fred Fret (depois, Telly Sett), Ann virou Pat Pussy (depois, simplesmente Gloria) e Mick substituiu seu sobrenome por "Sick". Também começaram a compor material próprio e a pensar em gravar discos, uma vez que o espírito DIY facilitava bastante sem a exigência de grandes produções para serem ouvidos.
Ainda naquele maio de 77, aconteceria outro fato decisivo para o BP e a cena punk no norte da Inglaterra: um show do Clash em Middlesbrough. Até então, nenhum dos "grandes" nomes do punk que faziam tremer o Reino Unido havia tocado na região de Teeside. Foi a primeira vez que os vários grupos e pequenas gangs punks do norte da Inglaterra puderam se reunir em um único local e descobrirem-se uns aos outros, e também que havia várias bandas por lá (uma delas, o Penetration, já era até razoavelmente conhecida). Como acontecia em várias outras cidades europeias, sempre que uma banda do porte do Clash tocava, a cena se agitava e o punk se espalhava, como um vírus.
Depois do que viram, John, Mick e Alan chegaram a um consenso: o Blitzkrieg deveria se tornar definitivamente uma banda punk e Dimmer seria dispensado por não ser a favor disso (inclusive, era o único dos quatro que não cortara o cabelo e nem assumira o visual punk). E a decisão foi certeira, pois logo começaram a ser notados como uma das poucas bandas punks de Teeside e um jornal local, o Evening Gazette, publicou uma matéria de página inteira com eles.
Totalmente imersos na cena punk, John e Mick decidiram também fazer um fanzine, ao qual chamaram Gabba Gabba Hey, em mais uma alusão aos Ramones. O passo seguinte seria o lançamento do primeiro single, com três faixas (Let's Go, 9 Till 5 e Bugger Off) gravadas em um pequeno estúdio de Newcastle em uma sessão de quatro horas. O compacto, pelo selo Mortonsound, teve uma tiragem de 500 cópias e foi comentado em um artigo morno no Sounds e em outro, altamente favorável, no NME, os dois principais jornais de música da Europa na época (o Sounds não existe mais). Com isso, chamaram atenção de distribuidores de discos que os procuraram para colocar o compacto nas lojas, uma vez que a procura por discos punks era enorme, mas na metade de 1977 não existiam tantos lançamentos. Ou seja, praticamente tudo o que fosse rotulado como punk venderia e, se fosse autêntico, ainda mais. Mas como trabalhavam e não tinham ninguém para gerenciar a carreira (era tudo na base do amadorismo mesmo) perderam muitas oportunidades de ficarem ainda mais conhecidos no meio do turbilhão punk. Mesmo assim, entraram em acordo com a Lightning Records, selo independente que estava à procura de grupos novos, para regravarem Let's Go e mais duas faixas (Life Is Just A So-So e Mental Case) para um segundo compacto, lançado ainda em 77. Nesse meio tempo, Gloria deixou a banda e foi substituída por Ray "Gunn" Radford. Pouco depois lançariam a terceira bolacha, com (You're Like A) U.F.O. no lado A e Viva Bobby Joe, no B.
Então, foram convidados, ao lado do Eater, para abrirem os shows do Slaughter & The Dogs na fracassada turnê Do It Dog Style, que não chegou ao final. Desiludido, Ray decide sair e é substituído por Mickey Dunne, que adota o apelido "Bert Presley". O som também mudaria, como estava acontecendo com a maioria das bandas punks em 1978, para uma pegada mais comercial ou "new wave", embora continuassem a tocar no circuito punk. Já quase no fim daquele ano, uma nova mudança na formação: Mick Sick passa o baixo para Graham "Kid" Moses. Mas veio 1979 e o punk era declarado morto na Inglaterra. Blank Frank então decide sair para entrar no Basczax, grupo ao qual o baterista Nick Knoxx (que voltou a ser Alan Cornforth) e que tinha uma proposta mais pos-punk. Em 1994 e 1999 o grupo fez algumas apresentações isoladas.


Baixe aqui a coletânea Top of the Bops, com os três compactos lançados pela banda mais faixas ao vivo e de demo tapes

2016




2016 começou estranho. David Bowie morreu. Nuvens negras pairam no horizonte. No Brasil há um surto de crianças nascidas com microcefalia. Atribui-se a culpa a um vírus chamado "zika". O presidente da Assembleia Legislativa, notório criminoso e corrupto, continua em liberdade. Há poucos dias, algum diplomata russo falou em Terceira Guerra Mundial. Os massacres de inocentes acontecem cada vez com mais frequência, na Síria, no Iraque, em Paris, na periferia de São Paulo, em escolas dos Estados Unidos...
Acho que é hora de reativar o Factor Zero.