22/12/2008

HIJOS DE LA REPRESIÓN

Nos anos 70, a América do Sul sofria sob o peso das botas e fuzis militares. Entre as ditaduras do continente é difícil dizer qual foi a mais sangrenta e repressora, mas certamente a Argentina é forte candidata a este triste "título". Assim, por lá também foi natural o surgimento de punks, mesmo sob uma violenta repressão, que tinha olhos e ouvidos em todos os cantos do país. Obviamente que qualquer fenômeno cultural que tivesse o mínimo traço contestador era abafado. Mas, como aconteceu no Brasil, no final daquela década, os militares viram que seria difícil manter um regime tão fechado. Não que tenham resolvido ficar bonzinhos de uma hora para outra, mas os problemas econômicos tornavam-se cada vez mais evidentes e era necessário passar o bastão... e o abacaxi. Nesse contexto de uma pequena e forçada "abertura política", surgia silenciosamente - ainda que fazendo muito barulho - e quase simultaneamente nas periferias de São Paulo, Buenos Aires e Lima (no Chile, seria mais tarde um pouco), os primeiros punks da América do Sul. Isso aconteceu por volta de 78/79.
Na Argentina, a primeira banda, formada em 78, foi Los Testiculos, que em 1980 trocou o nome para LOS VIOLADORES. Da mesma época também são Los Barajas e Los Laxantes. A primeira formação dos Violadores teve o guitarrista Hari B, o baterista Sergio Gramática, o baixista Stuka e o vocalista Pil Trafa. O quarteto conseguiu firmar-se e ganhar algum nome em 81, com várias apresentações. Em 82, finalmente foram para o estúdio e gravaram um LP. Entretanto, o disco só foi lançado em 83, após as eleições que representaram o fim oficial da ditadura argentina, que, na verdade, começara a ruir com o fiasco militar da Guerra das Malvinas.
Ao contrário dos punks brasileiros, que faziam um som mais hardcore, tosco e agressivo, o Los Violadores tinha uma linha musical mais próxima do punk 77, de Clash, Buzzcocks e Sex Pistols. A produção da bolacha também foi mais cuidadosa do que as que saíam no Brasil na época. As letras, opinião minha, também eram mais elaboradas e diretamente associadas à realidade do país. É um disco histórico e raro, bastante procurado por colecionadores do mundo todo.
Após o lançamento do LP, denominado simlpesmente Los Violadores, e do fim da ditadura, Hari B, o principal idealizador do grupo e que tinha o Violadores mais como um instrumento de combate ao regime do que um grupo musical, não via mais sentido em continuar a luta e deixou a banda. Com sua saída, também mudaram os rumos musicais dos Violadores, que adotaram um estilo mais comercial já no segundo LP, com o título Y Ahora Que Pasa, Eh? de 1985. Depois disso, a banda mudou de formação diversas vezes e durou até 1992, com um total de sete álbuns, mais um ao vivo e outra coletânea. Voltaram em 2000 e estão na ativa, mas ainda com apelo mais comercial. Confira uma interessante entrevista com Pil Trafa no link http://punksunidos.com.ar/punksunidos/violadores/#3.
Muito interessante também é um manifesto publicado pela banda em 1982 (losvioladoresmanifesto.htm)
O primeiro e pioneiro LP dos Violadores pode ser baixado aqui.

VIOLADORES FACTS
  • Em diversas ocasiões se viram obrigados a mudar o nome da banda nos cartazes para Los Voladores, já que o regime não via com bons olhos um grupo com nome tão agressivo. Parece mentira, mas não é.
  • Hari B também esteve na primeira formação do Comando Suicida, talvez, a primeira banda Oi! da América Latina.
  • O final do grupo em 1992 deu-se devido às velhas e comuns "insuperáveis diferenças musicais" entre Pil Trafa e Stukas, únicos membros originais que restavam no grupo. Após o fim, Trafa formou o Pilsen e o baixista criou o Stukas en Vuelo. Em 200, entretanto, reataram a amizade e reformaram o grupo.

19/12/2008

Vítimas do destino

VKTMS é outra banda californiana, mais precisamente de San Francisco, com vocal feminino e que considero como uma das mais originais da época. Faziam um som pesado, intenso, criativo e melódico, mas com um certo tom de dramaticidade. O tipo de som que vai crescendo a cada vez que se ouve. Formado em 1978, o grupo começou com o baterista Louis Gwerder e o guitarrista Jay Davis. Depois de alguns ensaios com diferentes baixistas, George Ritter juntou-se aos dois e, por último, a vocalista Nyna “Napalm” Crawford.
Com essa formação, fizeram algumas apresentações e lançaram um compacto duplo, chamado Midget, já em 79. Pouco depois, George deixou o grupo e Steve Ricablanca assumiu o baixo. Essa formação aparece na lendária coletânea SF Underground, um compacto a que já fiz referência no post do No Alternative. A faixa do VKTMS é a criativa Ballad of Pincushion Smith.
No entanto, após o lançamento deste disco, Jay Davis também deixou a banda (na verdade, desapareceu). Em seu lugar, entrou o guitarrista John Binkov, um músico mais completo, capaz de tocar qualquer estilo de música. Com ele, o grupo ganhou em qualidade, apesar de ter perdido um pouco da agressividade. Já era 1980 e o VKTMS uma das bandas mais conhecidas da época na cena californiana. Fizeram centenas de apresentações, muitas ao lado de grandes nomes do punk rock norte-americano, como Ramones, Johnny Thunders, DOA, Agent Orange, Dead Kennedys, etc., assim como abriram shows do Stranglers, 999, Killing Joke, Bush Tretas e outras bandas em turnê pelos EUA.
Nesse período, lançaram um compacto com duas músicas (100% White Girl e No Long Goodbyes). A letra da primeira faixa causou polêmica, principalmente após uma crítica da revista Maximum Rock’n’Roll, que acusou a banda de racista. Um absurdo. Acho que a MRR era uma revista e tanto, mas também exercia um papel de policiamento, ditando o que era ou não correto. Normalmente se a revista dizia que tal banda não era “ideologicamente correta”, isso passava a ser uma verdade e, como todas as verdades, uma grande merda. Outras vítimas da revista foram o Exploited e o GBH. Particularmente, acho a letra de White Girl bem humorada, sobre uma garota branca que se sente ameaçada pelas minorias. Mas você mesmo pode tirar suas conclusões:

100% WHITE GIRL
Well I'm just a little white girl
I get hassed every day
A poor defenseless white girl
Who can't go out to play
The minorities they all threaten me
I can't defend myself
I'm a nervous wreck
I'm scared to death
They've ruined my mental health
Cuz I'm a blue-eyed, blond haired white girl
And there's no place left for me
I feel like an alien in my own society

Well I ain't no Nazi, but ya know
I ain't no martyr
I think I'm gonna start to
Wear a switchblade in my garter
Cuz I'm 100% white girl and
I ain't afraid of them
If anybody fucks with me
I'll just commit mayhem
Cuz I'm a white girl
Yeah I'm a white girl
I'm just a white girl

Entre 81 e 82, a banda foi para o estúdio e gravou um LP, apesar de não ter contrato com nenhum selo. Gravaram na esperança de vender um álbum pronto, já que tinham prestígio suficiente. Mas as coisas não foram tão bem como imaginavam e as fitas originais ficaram na gaveta por 12 anos. No verão de 82, talvez desiludidos pela dificuldade de vender o álbum, o grupo dispersou. Foi o primeiro final.
Em 1994, Steve Ricablanca conheceu Dave Elias e John Eisenhart, então em vias de fundar o selo independente Dafflespitz Records. Ambos eram fanáticos pelo punk da época do VKTMS, inclusive adoravam a banda. Ao saberem da gravação não lançada, não perderam tempo e recuperaram a fita. No início de 1995, finalmente, vem a luz o lendário LP, que recebeu o nome da banda.
As boas vendas do disco na Europa incentivaram Steve, John e Louis a procurar Nyna e o grupo voltou à ativa. Em 97, lançaram um EP duplo com material inédito e seguiram fazendo shows. Mas Nyna adoeceu e em 2000 tornou-se mais uma vítima do câncer. Foi o segundo e definitivo fim.
Reuni todas as gravações da banda em dois arquivos. Baixe aqui a parte 1 e aqui a parte 2. É mais uma raridade imperdível.


VKTMS FACTS
  • No tempo em que o VKTMS esteve inativo, Nyna tocou com o Murder e o Smashed Weekend antes de sair do circuito musical no final dos anos 80.
  • Steve e John tocaram com um grupo chamado Vauxhal, mas em 1985 abandonaram o barco. Steve entrou numa escola de culinária e tornou-se chef de cozinha. John, por sua vez, aprofundou-se nos estudos de música e formou-se na área, primeiro pela Universidade de Berkeley, depois, na UC Davis. Diplomado, tornou-se professor universitário. Já Louis, partiu para o campo das artes plásticas e trabalha com materiais não tradicionais na pintura.
  • Steve conheceu os fundadores da Dafflespitz enquanto trabalhava em um restaurante chamado Masas. Os responsáveis pela ressurreição da banda eram cozinheiros, como ele.
  • A capa do compacto White Girl/No Long Goodbyes é considerada uma obra de arte, desenhada pelo cartunista Jim Osbourne.
  • Atualmente, Steve Ricablanca ainda trabalha como chef, mas toca projetos paralelos de música eletrônica. John ainda dá aulas de música em uma universidade de Oakland e tem uma banda, chamada D’Jelly Brains, que flerta com o punk garageiro. Louis segue trabalhando com arte abstrata. Nyna, descansa em paz...

06/12/2008

In Memorian – DARBY CRASH (26/9/1958 – 7/12/1980)


Lá se vão 28 anos da morte de Jan Paul Beahm, mais conhecido como Darby Crash, o tresloucado vocalista do GERMS, uma das bandas pioneiras da cena punk californiana e precursora do que viria a ser conhecido como hardcore. Darby cometeu suicídio com uma overdose de heroína. Uma tragédia anunciada pelo estilo de vida que adotara e o vício incontrolável na mais assassina das drogas. Para acabar com qualquer suspeita de que a overdose pudesse ser considerada acidental, antes de injetar a droga, ele afixou um bilhete na parede, com a seguinte frase "Here Lies Darby Crash", depois disso mandou na veia bem mais do que precisava para morrer e deitou-se em uma posição que lembrava Cristo na cruz.
O ato todo foi realizado junto com uma garota, Casey 'Cola' Hopkins. Ela e Darby teriam comprado cerca de 400 dólares em herô e, depois de saírem de uma festa dizendo a um dos convidados que iriam se matar, trancaram-se no apartamento dele para fazer a merda toda. A versão mais divulgada é a de que os dois haviam realmente feito um pacto de morte. Mas alguns jornais da época disseram que a garota desmaiou, ou “bodeou”, e quando acordou viu Darby já morto, então tentou matar-se também injetando mais droga, mas sobreviveu.
A intenção de Darby, provavelmente por já estar em estado depressivo profundo, devido ao consumo exagerado de drogas, era tornar-se um mártir punk. Em diversas entrevistas deixara a entender que um dia se mataria e que isso não ia demorar. Com 22 anos, viveu intensamente e morreu jovem, algo muito comum no mundo do rock, desde James Dean até os dias atuais.
No palco, Darby era um verdadeiro demônio. Adepto assumido do estilo de Iggy Pop, invariavelmente cortava-se durante os shows e atirava-se sobre a platéia. As apresentações do Germs eram tão caóticas e agressivas, que a certa altura, o grupo adotou um nome fantasia (GI) para conseguir tocar, já que a maioria dos clubes de Los Angeles banira a banda.
Darby Crash fundou o Germs em 1977, junto com seu colega de escola e guitarrista Georg Ruthenberg, conhecido como Pat Smear. Sim, é o mesmo que tocou um tempo com o Nirvana e depois com Foo Fighters. Nessa época, Darby era Bobby Pyn e a banda contava ainda com a baterista Dottie Danger (na verdade, Belinda Carlisle, uma das mundialmente famosas Go Go’s) e a baixista Lorna Doom. O grupo teve ainda dois bateristas (Cliff Hanger e Nicky Beat, do Weirdos) antes que Don Bonnes assumisse as baquetas definitivamente em 78.
Em termos de vinil, o grupo estreou com um compacto terrível. Forming, o lado A, foi gravada em dois canais na garagem de Pat Smear. No lado B, Sex Boy, foi um registro ao vivo da segunda apresentação do grupo. Nas primeiras mil cópias, o aviso de que o disco “poderia causar câncer no ouvido” estampado na contracapa não era exagero. Mas a banda exigiu que a faixa fosse retirada em uma segunda prensagem. Realmente muito mal tocado e pessimamente gravado. Ainda em 77, saiu o pirata Germcide, capturado no terceiro show do grupo. Também sem a mínima qualidade. A essa altura já havia quem duvidasse que o Germs pudesse realmente tocar, que era um blefe. Mas em 78 sai o compacto Lexicon Devil, em que a banda mostra um som mais consistente e a lenda começou a ganhar corpo. Foi após este disco que Don Bonnes (também chamado Bone Breaker e baterista do X) entrou na banda.
Mas o grande momento do Germs foi o LP GI, de 79. Um disco histórico, que para mim está ao lado, em qualidade e importância, de clássicos como os primeiros do Clash e do Ramones ou o Never Mind The Bollocks. É um disco atemporal, HC antes de isso existir. Com produção de Joan Jett, a qualidade da gravação é das melhores e a banda estava em plena forma. Além disso, Darby era um letrista de primeira qualidade.
O último registro em estúdio da banda foram seis músicas que deveriam fazer parte da trilha sonora do filme “Cruising”, com Al Pacino. No entanto, apenas uma delas entrou no disco do filme. Por sorte, mais tarde acabaram saindo no CD The Complete Germs Anthology. Pouco depois, o grupo dissolveu-se, em conseqüência dos excessos de Darby, que então passou um tempo na Europa. Para amigos da época, foi nessa viagem que ele se iniciou na heroína ou, pelo menos, o vício ganhou os contornos dramáticos que o levaram a cometer o suicídio. Na volta, ele e Pat ainda formaram a Darby Crash Band, que fez alguns shows mas não entrou em estúdio. Aí aconteceu o que motivou este post.
Baixe o CD (MIA) The Complete Germs Anthology. O arquivo está em duas partes para facilitar o download. Parte 1Parte 2


CRASH FACTS
  • Antes do Germs, Darby e Pat tentaram formar uma banda com o nome Sophistifuck and the Revlon Spam Queens. Não chegaram a tocar ao vivo nem gravar nada com este nome.
  • Darby foi criado em uma família completamente desestruturada. Seu pai biológico, um marinheiro sueco chamado Bill Bjorklund, abandonou sua mãe quando soube da gravidez e ele só ficou sabendo a identidade do sujeito quando já era adolescente. A mãe era alcoólatra e seu irmão mais velho, a quem Darby idolatrava, também morrera de overdose.
  • Se quis chamar a atenção e ficar famoso com sua morte, Darby deu um tremendo azar, pois um dia após a tragédia, John Lennon foi assassinado e os jornais não deram muita bola para seu suicídio.
  • Darby tentou esconder o fato de ser bissexual, mas todos sabiam que tinha um namorado, Donnie Rose, responsável pelos teclados (?) no LP.
  • Um ritual de Darby no palco era particularmente cruel. Obcecado por círculos, ele costumava fazer a marca registrada da banda (um círculo, óbvio) no braço ou no ombro de alguém da platéia. Com um cigarro! A prática era denominada Germs Burn....
  • O filme The Decline of Western Civilization, da diretora Penelope Spheeries, lançado em 1981, após a morte de Darby, inclui performances históricas da banda. Darby aparece na capa da trilha sonora e no cartaz da película, que retrata a cena punk/hc de Los Angeles na virada da década de 70 para 80.
  • A vida e a carreira de Darby Crash estão documentadas no livro Lexicon Devil, de Brendan Mullen e Don Bolles, e também no filme What we do is secret, lançado em 2008, com direção de Rodger Grossman. O ator Shane West faz o papel de Darby.
  • Após várias tentativas de roubo de seus restos mortais, e as incessantes visitas, a mãe de Darby resolveu mudar a sepultura do filho para um local desconhecido. Descanse em paz.

05/12/2008

O FANTÁSTICO CULTO DOS MANÍACOS


CULT MANIAX é uma banda inglesa formada em 1978 na cidade de Torrington, condado de Devon. A formação original contou com o vocalista Big Al, o guitarrista Rico Sergeant, o baixista Michael Steer e o baterista Paul Mills. O pico de atividades da banda foi entre 1980 e 86, uma autêntica banda da transição do punk 77 para o hardcore. E representa bem isso. Visualmente e na atitude parecem HC, mas o som nem tanto, com pitadas de rockabilly e até uma atmosfera psicodélica. Os temas das letras também são bastante heterogêneos, falam de problemas locais, drogas, sexo, mulheres decadentes, política, bruxas, demônios e magia negra, além de outras totalmente satíricas. O bom humor e a tiração de sarro também estavam presentes em diversas músicas. Resumindo, autenticidade era a principal característica deles.
O primeiro compacto, Black Horse (81), foi motivo de uma grande polêmica em Torrington. Na faixa que dá nome ao disco, a banda critica e, obviamente, ofende o prefeito da cidade, proprietário de um pub chamado Black Horse, um espaço para novas bandas, quase um centro cultural para a juventude local. Mas não só o CM foi proibido de tocar por lá, como os punks eram barrados sempre que tentavam adentrar com trajes “típicos”. A suprema corte do país acatou um pedido do tal Lord e todas as cópias da bolacha foram recolhidas e destruídas, assim como a gravação original. No entanto, cerca de 200 cópias já haviam sido vendidas e foi isso que restou. Mas a confusão rendeu fama à banda no país todo.
Em 82, já com Paul “Foxy” Benett no lugar de Sergeant na guitarra, saiu o clássico single com as faixas Blitz e Lucy Looe. A primeira com a tradicional temática antiguerra das bandas hardcore da época. Já a segunda é um punk com pegada rockabilly e uma letra altamente sacana. Na seqüência, ainda em 82, lançaram o terceiro compacto, com American Dream e Black Mass. A primeira um tema político e a segunda uma brincadeira com bruxas e rituais de magia negra. A produção dos dois primeiros compactos deixa muito a desejar, mas assim mesmo foram estes discos que fizeram a fama do CM no circuito punk/hc da época e abriram as portas para o grupo.
Já famosos na Inglaterra, enfim, gravaram um LP, em 1983. O que poderia ter se tornado um dos maiores clássicos do punk, entretanto, foi uma grande decepção. Não pela banda, que continuava fazendo um sonzaço, mas Cold Love foi pessimamente produzido e a mixagem reduziu a zero toda a agressividade do som deles. Basicamente, sumiram com as guitarras e o baixo, em uma masterização mais adequada para soul music. Uma pena. Apesar disso, o disco ainda é superior a muita baboseira, mesmo sem estar à altura da genialidade da banda. A responsabilidade pela cagada foi da Phonogram. O disco foi gravado em Londres e, como ficaram duas semanas em estúdio, resolveram descansar um pouco antes de retornarem para fazer a mixagem. Nesse meio tempo, o estúdio achou que poderia fazer a mixagem sem eles e deu no que deu...
Mas a vida continuou e o CM ainda lançaria dois grandes singles: o festivo e genial Full of Spunk, com três faixas na mesma linha de Lucy Looe, ainda que sem todo o brilhantismo desta, e o satírico The amazing adventures of Johnny the Duck and the bath time blues. Participaram também de uma coletânea chamada A Kick Up the Arse, com dois clássicos: Cities e Drugs - para mim as melhores músicas deles. Em 85, lançam o último vinil da carreira, Where do we all go, um EP de 12” gravado ao vivo. No ano seguinte, apesar da agenda cheia e das relativamente boas vendas para uma banda independente, já haviam perdido o tesão e decidem colocar ponto final no CM. Lendários.
Reuni tudo o que eles lançaram oficialmente. São 31 faixas. O arquivo está em duas partes para facilitar. Na parte 1, estão os três primeiros singles (Black Horse, Blitz e American Dream) e o LP Cold Love. Na segunda, as duas faixas da coletânea A Kick up the Arse, mais os compactos Full of Spunk e Johnny the Duck, além do EP Where do we all go. É um material que não existe em CD.
Parte 1 aqui e parte 2 aqui.


CULT FACTS
  • Em 87 fizeram um breve retorno com outro nome, The Vibe Tribe, e lançaram um compacto, hoje raríssimo, com o título Skylark Boogie. Mas não deu em nada.
  • Nos anos 90, Mil e Big Al tocaram juntos no Sweet Thangs, banda que lançou apenas um CD single auto entitulado.
  • Big Al ainda está mandando ver em Torrington. Ele faz dupla com um maluco chamado Math Trengove e tocam sob o sugestivo nome The Free Born Men. São músicas com letras bem politizadas. O som poderia ser descrito como country blues, seja lá o que isso for. Se tiver curiosidade visite o site http://www.dragonjury.org.uk/freebornmen/
  • Paul Mills também manteve-se no circuito musical. Após o CM, formou o The Whirliebirds e participou do The Desperate Men. Nada que tenha tido grande repercussão como os Maniax.
  • Apesar do fim oficial em 86, nos últimos 20 anos o CM fez diversas apresentações de reunião, sempre com Big Al e Mills. Paul Bennet seguiu outro caminho: é membro do poder judiciário de Torrington, o mesmo que causou tantos problemas para a banda no início da carreira!
  • Entre as muitas histórias de uma banda que fazia uma média de três apresentações por semana, sempre chapados, ficou famosa uma em que eles abriram para o Anti Nowhere League. No caminho para o show, pararam a van para mijar e viram uns cogumelos mágicos na beira da estrada. Comeram, lógico. Na segunda música, Paul achou que era o próprio Pete Towshend e acabou com a guitarra. Como não tinham outra, usaram uma emprestada, mas o som ficou péssimo e alguns skins (por que sempre eles?), irritados, iniciaram um quebra-quebra geral.
  • Outra passagem com final semitrágico foi um show que não aconteceu em Plymouth. A van da banda quebrou e eles alugaram um caminhão aberto para levar a trupe e os equipamentos. No caminho, após uma freada brusca, o caminhão saiu da estrada e tudo o que estava na carroceria saiu voando, inclusive pessoas. Claro que não houve show e muita confusão em Plymouth pela ausência da banda.

21/11/2008

VIOLADORES DO SISTEMA D'ALÉM-MAR


Olá! Obrigado pelo interesse, mas o FACTOR ZERO está em novo endereço: 

https://factorzeroblog.wordpress.com

Hi! Thanx for your interest, but we've changed our address. Please visit us at 


https://factorzeroblog.wordpress.com/






16/11/2008

RUDEZA NÓRDICA

Os países nórdicos são o lar de algumas das bandas mais nervosas da história do punk. Um exemplo é o sueco RUDE KIDS, criado em 1978 no bairro suburbano de Hagsätra, em Estocolmo, por Lasse "Throw-It" Persson (bateria), Lasse Olsson (guitarra), Ola "Spaceman" Nilsson (baixo) e Bjorn "Böna" Eriksson (vocal). Antes de ser RUDE KIDS, Persson e Ola já tinham uma banda chamada LOUD NOIZE, que tocava covers de hard rock, porém, mais ensaiavam do que realmente tocavam. No entanto, e a história se repete, em 77, os dois amigos fizeram algumas viagens a Inglaterra e lá assisitiram Ramones, Sex Pistols, The Jam e The Boys. Não deu outra: descobriram o som que realmente queriam fazer. Então deram fim ao Loud Noize, chamaram Olsson e começaram o RUDE KIDS, inicialmente sem Böna. Depois que a formação ficou completa, ensaiaram por uns cinco meses e conseguiram dinheiro emprestado para gravar duas músicas (Raggare is a Bunch of Motherfuckers e Charlie), inicialmente planejadas para serem lançadas em um esquema DIY. Mas o técnico do estúdio achou que o som ficou tão bom que os convenceu a procurarem uma gravadora, que poderia distribuir melhor a pequena bolacha. Ofereceram à EMI, que recusou, mas a Polydor - diga-se de passagem que das majors da época foi a que mais entendeu o fenômeno punk que acontecia por toda a Europa - viu qualidade no trabalho e aceitou lançar um compacto com as duas faixas. E se deu bem, pois o vinil atingiu a casa de cinco mil cópias vendidas, número equivalente ao que vendia, por exemplo, um compacto do SHAM 69 na Suécia. Na Inglaterra, o NME classificou o disco como "single da semana", o que era bastabte representativo na época, especialmente por ser uma banda estrangeira. Com isso, o RUDE KIDS foi a primeira banda punk sueca a assinar um contrato com uma grande gravadora.
O segundo compacto também foi gravado em 78. A música escolhida para o lado A foi Stranglers (if it's quiet why don't you play), uma resposta à banda inglesa que lançara uma música criticando a cena musical sueca (Sweden all quiet in the eastern front). Na letra questionam porque o Stranglers não fazia uma tour pela Suécia para agitar a cena local. No lado B, muito antes do Exploited proclamar o mantra "Punk's not dead", Böna e seus amigos gritavam "Punk WillNever Die!". O single não é tão genial quanto o primeiro, realmente um clássico e uma aberração em termos de agressividade para a época, bem próximo do hardcore ainda em 78, mas foi bem recebido.
Em 79 sai o teceiro compacto, Absolute Ruler, um manifesto contra o nmonopólio da mída sueca (é, por lá também tem dessas coisas...). A seguir, sai o hoje raríssimo LP Safe Society. Um grande disco, apesar de a banda já não ser tão agressiva como antes. A Polydor, já em crise financeira na Suécia, não deu apoio na divulgação e ainda cancelou o contrato com a banda.
Apesar de ficar sem gravadora, o RUDE KIDS tocou ao barco e mantece-se em atividade, porém,após o LP decidiram buscar outros rumos musicais e lançaram três singles pela independente Sonet, com uma pegada mais pop. Nessa época, a banda passou a contar com um segundo guitarrista, Nils "Hisse" Halström , e a tecladista Janne Lundberg.
Em 1983, Böna morreu em um acidente de carro. O grupo tentou continuar com vários vocalistas diferentes, mas haviam na verdade perdido o espírito que os moviam e, em 87, aabaam definitivamente. Ficaram "esquecidos" por muito tempo até que em 1998 a Distortion Records compilou um CD com 22 músicas, incluindo os primeiros compactos e o LP quase inteiro e o RUDE KIDS deixou de ser apenas uma lenda.
Baixe The Worst of Rude Kids (incluí Charlie, lado B do primeiro single, que não faz parte do CD).


RUDE FACTS
  • Böna em sueco quer dizer "feijão".
  • Raggare são uma espécie de "teddy boys" suecos. Uma tribo de loucos que ouvem rockabilly, cultuam carros americanos estilo rabo-de-peixe e são conhecidos por serem briguentos. O conflito de gangs "raggares" e punks nos anos 70 e 80 era constante.
  • O estúdio em que o RUDE KIDS gravou Raggare is a bunch of motherfuckers é o mesmo em que o DOCENT DÖD, outra banda pioneira da cena sueca gravou seu primeiro single, apesar das duas bandas não se conhecerem na época.
  • Em alguns shows pelo interior da Suécia, onde os raggares dominavam, o RUDE KIDS foi impedido de tocar pela polícia, ante as ameaças de confusão.
  • Quando tocaram na Inglaterra, envolveram-se em confusão, quando fizeram o show de abertura para o Madness. A platéia era composta 90% de skinheads. Lasse P subiu ao palo com uma camiseta escrito "Rock Against Racism". Foi começarem a tocar e as cadeiras a voar. No final, fizeram apenas três músicas e tiveram de dar área.

15/11/2008

Parede sonora

Na sequência da série "Grandes Bandas Incompreensivelmente Não Reconhecidas", vou falar do THE WALL, banda de Sunderland, cidade de cerca de 300 mil habitantes no noroeste da Inglaterra e mais famosa pelo time de futebol local. É também a terra natal do TOY DOLLS. Mas a melhor banda que já apareceu por lá foi o THE WALL, criado em 1978 pelo guitarrista e vocalista Ian Lowery, o baixista e vocalista Andy "Heed" Griffiths, o guitarrista John Hammond e o baterista Bruce Archibald. Com esta formação, a banda lançou o primeiro single, New Way, em 79 , uma verdadeira pérola do punk britânico, com três músicas: a que dá título à bolacha, mais Suckers e Uniforms. O disco, pela Small Wonder, na época um dos mais importantes selos independentes do Reino Unido, foi muito bem e Sunderland ficou pequena para o WALL, que mudou-se então pra Londres. Aí começou uma sucessão de mundanças na formação. A primeira foram as saídas de Hammond e Archibald, substituídos, respectivamente por Nick Ward e Rab Fae Beith. Em 79 lançam mais um compacto, ainda melhor que o primeiro e produzido por ninguém menos que o Pistol Steve Jones, com as faixas Exchange e Kiss the mirror (clássica, clássica!).Depois deste compacto, Ian Lowery deixou o grupo pelas eternas diferenças musicais. Apesar de ter sido fundador da banda, foi sumariamente despedido por querer fazer um som mais trabalhado! Em seu lugar foi recrutado Ivan Kelly, ex-Ruefrex. Com a nova formação lançam o excelente EP Ghetto, produzido por Jimmy Pursey. Em 1980 sai o primeiro LP, Personal Troubles & Public Issues, também com produçaõ do vocalista do SHAM 69. No LP, a banda tornou-se um quinteto com a adição de Andy "Andzy" Forbes, ex-guitarrista do STRAPS, outra banda clássica da época.
Pouco depois do lançamento do primeiro 12", Ward e Kelly debandaram e o THE WALL passou a ser um trio, com Rab na bateria, Heed na guitarra e Andzy no baixo e no vocal. Com essa formação excursionaram com o Stiff Little Fingers e tornaram-se bastante conhecidos na época. Depois da tour, a baixista Claire Bidwell, ex-The Passions, uma das minhas bandas "new wave" favoritas, assumiu o contrabaixo e Andzy passou a ser apenas vocalista. O quarteto gravou o segundo LP, Dirges & Anthens, pela Polydor, em 1982. Neste disco aparece também um guitarrista chamado Baz. No mesmo ano lançam ainda o LP Day Tripper, acompanhado de um compacto de 7", com mais quatro músicas. Foram os últimos registros da banda em vinil. Em 1983, o grupo acabou.
O interessante é que apesar de tantas mudanças na formação, tudo o que o THE WALL gravou é de ótima qualidade. Punk rock bem tocado, com letras politizadas e muita criatividade. Todos estes discos são bastante raros e não saíram em CD. Mas a Captain Oi Records, um selo que tem resgatado pérolas dos anos 70 e 80, compilou os compactos e lançou, em 2005, Punk Collection, com 20 faixas de todas as fases do WALL, que você pode baixar aqui.

WALL FACTS
  • Depois do WALL, Ian Lowery formou o SKI PATROL, uma das mais respeitadas e lendárias bandas pos-punk da Inglaterra. O baterista Bruce Archibald também participou do início desta banda, mas deixou a seguir para estudar. Lowery tocou ainda com o THE FOLK DEVILS, de 82 a 87. Depois disso, formou o KING BLANK e, a parir de 89, iniciou carreira solo.
  • Antes do WALL, Rab Fae Beith fez parte do THE PACK, banda que originou o tenebroso THEATRE OF HATE. Depois, tocou com o UK SUBS nos discos Huntington Beach e In Action. Ele também foi o produtor dessas bolachas, lançadas por seu selo, o RFB Records. Huntington... foi o único LP (vinil) dos SUBS lançado no Brasil.

06/11/2008

Ilusões de grandeza

Esta é mais uma grande banda que não alcançou o reconhecimento que merecia. Trata-se do United Experiments of America, ou U.X.A., grupo formado em 1978, em San Francisco, pela vocalista Denise Semiroux, a.k.a. De De Troit, e o guitarrista Michael Kowalsky. Completaram a primeira formação o baixista Lynwood Land e o baterista Richie O'Connel. Logo após os primeiros shows a banda mudou-se para Los Angeles, onde fez o nome. No entanto, Kowalsky, viciadaço em heroína, morreu de overdose pouco depois e foi substituído por Billy Piscioneri. Com essa formação a banda tocou exaustivamente pela Costa Oeste dos EUA. Dessa época, o primeiro registro em vinil são duas músicas (Got to run e I don't lose sleep) gravadas ao vivo em um show beneficente para os mineiros grevistas do Kentucky (uma das greves mais longas da história e que acabou vencida pelo Estado, o que representou um verdadeir desastre para a causa trabalhista no mundo todo e uma dos mais importantes triunfos do neo-liberalismo). Participam também dessa raríssima coletânea as bandas Negative Trend, Sleepers e Tuxedomoon.
Já em 1980, o UXA gravou o incrível LP Illusions of Grandeur, lançado apenas em 1981. O disco foi uma das primeiras bolachas do selo Posh Boy Records, responsável por registrar boa parte da cena punk da Costa Oeste dos EUA entre 1979 e 1982, seus anos mais "quentes". Em minha opinião, trata-se de uma obra de arte, uma gema do punk rock, com sons que flertam com o hardcore e outros mais experimentais, sem serem "incompreensíveis", pelo contrário. Além disso, as letras de De De e Kowalsky, possuem tom revolucionário sem apelar ao panfletarismo ou caírem em divagações intelectualóides. Questionam o domínio do Estado e já naquela época enxergam a manipulação das idéias através do controle da mídia e da cultura. A primeira prensagem de Illusions of Grandeur saiu com uma capa branca com apenas um pequeno carimbo indicando o nome da banda e do disco. Na segunda tiragem, a Posh Boy fez uma capa decente com uma foto de De De e ainda remixou as músicas e inseriu duas faixas a mais. Ao que parece, a banda não gostou muito da mexida no som e rolou uma treta. Assim, ficaram sem gravadora, mas continuaram fazendo shows e colaboraram com duas faixas na histórica coletânea Tooth and Nail, ao lado de Germs, Negative Trend, Controllers, Flesh Eaters e Middle Class. Incompreensivelmente o grupo acabou em 1982.
Por volta de 1995, De De, que após o fim da banda montou a De De Troit Band e depois De De Troit and the Cotton Ponnys, reformou o UXA, desta vez como um trio, com ela na guitarra, o baixista Rick Dasher e a baterista Suzy Homewrecker. Com a nova formação, lançou um compacto de Natal, com as faixas Silver Bell e No More Facism. A seguir o LP Tree Punks at Real School. O som manteve o peso, mas, sinceramente, acho um pouco datado. Não é um disco ruim, pelo contrário, é melhor que muita coisa lançada nos últimos 15 anos, mas não tem a genialidade de Illusions... Dasher e Homewrecker saíram da banda ainda nos 90 e o UXA teve trocentas formações e seguiu apenas tocando ao vivo até por volta de 2005, quando a mardita herô atacou novamente e De De foi a vítima. Não morreu, mas acabou se convertendo a uma igreja e deu fim ao grupo, pelo menos até não se arrepender novamente...
Clique aqui e veja no Youtube a banda em plena forma, em 1978 (ou 79?), apresentando a música Death from above no lendário clube Mabuhay Garden. A apresentação é extraída de um dos poucos filmes 16mm que registraram cenas das bandas daquela época. A película tem ainda bandas como The Dils, Avengers, Sleepers e The Mutants.
Baixe o clássico Illusions of Grandeur

UXA FACTS
  • A primeira banda de De De Troit, ainda em Detroit, chamava-se Curbstone Beauties. Depois, ela formou sua própria banda, chamada Streets, antes de mudar-se para San Francisco e conhecer Kowalsky.
  • Diz a lenda que Kowalsky teria dado uns tapas em Sid Vicious quando os Pistols passaram por San Francisco. Sid teria se trancado no banheiro e como demorasse para sair, Kowalsky derrubou a porta e o tirou à força....
  • O real motivo do fim da banda é desconhecido, mas parece que os demais integrantes mudaram-se para New York e De De ficou em Los Angeles. Deveria juntar-se a eles depois, o que nunca aconteceu...
  • Um dos últimos registros de De De Troit em estúdio é uma participação como vocalista da faixa In my mind no CD Fuck'em all We've all ready (now) won do False Alarm, lançado em 2006, que tem ainda colaboração de Cheetah Chrome, ex-Dead Boys, e capa desenhada por Dee Dee Ramone.
  • De De participou do projeto Castration Squad, uma banda tipo zoação só de mulheres que teve na formação, entre outras, Alice Bag e Patricia Morrison.
  • No show beneficente para Johnny Genocide (No Alternative) De De subiu ao palco e declamou um sermão religioso. Arrependei-vos pecadores e pecadoras!

02/11/2008

Promessa é dívida


Como não sou político, sempre cumpro o que prometo, mesmo que demore um pouco. Então aqui está o Weird World vol.2, tão bom quanto o vol. 1. Diversão garantida....

29/10/2008

Mais molecagem

A Bélgica não é um país muito conceituado em termos de rock'n'roll, apesar da proximidade com Londres e o acesso a a informação. Mas foi em Antuérpia que surgiu uma das primeira bandas punk da Europa: THE KIDS. A gênese da banda é o Underground Station, primeiro grupo do guitarrista e vocalista Ludo Mariman, que acabou em 1975 após um único show. Logo depois, Ludo conheceu o baixista Danny De Haes, que tocava no Crash, uma banda de garagem. Ludo entrou para o grupo, que passou a ter cinco integrantes, mas logo tornou-se um trio, com a saída do vocalista e do guitarrista. Assim, em 1976, com Ludo (vocais e guitarra) e os irmãos Danny (baixo) e Eddy De Haes (bateria), todos operários de companhias das docas no porto de Antuérpia, começava a nascer um dos mais autênticos grupos da primeira leva do punk europeu.
Ludo, o "cabeça" da banda, conta como o Kids assumiu a identidade punk: "In 1976 we were together in a band called Crash. None of us could really play. We just hammered away, hard and fast, sounding like a really bad Velvet Underground. When the first news of the punk explosion in Britain started to come through, I went to London. I wanted to know what was going on over there, and if these guys had the seem feelings of anger I had. I remember the shivers down my spine seeing Eddie & The Hot Rods. I also saw the Ramones and then I knew we had that same music within us. Technically we could handle it, because you don't have to master the instruments to play punk music".
Em resumo, como muitas bandas garageiras da época, eram punks antes mesmo do termo existir. Isso é facilmente constatado no som deles, um rock'n'roll cru, agressivo e rápido. Básico ao extremo. Punk. Após uma viagem de Ludo a Londres eles mudaram o nome para The Kids e, em 9 de outubro de 1976, estrearam em Kapellen, cidade próxima a Antuérpia, com um set de pouco mais de meia hora, composto por covers de Ramones, Velvet Underground, Stooges e umas quatro ou cinco composições próprias. Pouco depois fizeram um show em sua cidade natal e um produtor, chamado Alain Ragheno, com boas relações com a Phonogram belga, gostou do que ouviu e propôs produzir a banda.
No entanto, o primeiro LP, The Kids, saiu apenas em 1978. Nesse meio tempo abriram shows de Iggy Pop e Patti Smith, e firmaram-se como a banda mais suja da Bélgica. No Youtube rola uma imperdível aparição deles em um programa de TV da época (http://br.youtube.com/watch?v=2MBsfnL3HLs). Após o lançamento de The Kids, o guitarrista Luc Van De Poel reforçou o grupo, que ainda em 78, lançou seu segundo LP, chamado Naughty Kids. Depois deste LP, Danny foi para o exército e as baquetas passaram para Cesar Janssen, mais experiente. A essa altura o grupo já começava a vislumbrar outros horizontes em termos musicais, uma vez que habiam aprendido a tocar e podiam gastar um pouco mais na produção. Com isso, o terceiro LP, Living im 20th Century, já surgiu com um som mais polido e trabalhado. Conseguiram boas vendas e até chegaram a ter duas músicas bem executadas nas rádios belgas (Dancing e There will be no next time). Depois vieram os LPs Black Out (1981), If The Kids... (1982) e Gotcha! (1985). Todos com um som mais pop. Após o lançamento do quinto LP, o The Kids ficou inativo até 96, quando Ludo e Luc reformaram a banda com Pieter Van Buyten no baixo e Frankie Saenen na bateria. Nessa época participaram da trilha sonora do fime Dief! (Thief), dirigido por Mark Punt. Permanecem em atividade até hoje, mas apenas para fazer shows.
Baixe o CD The Kids 30th Anniversary Issue com os dois primeiros LPs e mais o compacto The City is Dead (1978). Surpreendente.

KIDS FACTS
  • Ludo Mariman seguiu carreira solo entre 1986 e 95, com alguns hits em seu país, mas sem o mesmo impacto do Kids. Talvez isso o tenha motivado a reformar banda?
  • O THE KIDS foi muito amigo de outra banda pioneira na Bélgica, o HUBBLE BUBBLE, de Bruxelas, que tinha uma pequena cena com grupos como CHAINSAW, MAD VIRGINS e X-PULSION.
  • A letra de Sex Queen, música do segundo LP, conta a história de uma prostituta da zona portuária de Antuérpia. Ludo era freguês da homenageada.
  • O primeiro "grande" show do KIDS foi em setembro de 77, quando abriram para Iggy Pop, em Antuérpia, com mais de mil pessoas na platéia.
  • O filme Dief!, que impulsionou o retorno da banda, é baseado na autobiografia de um ladrão barato, que tem a vida destruída pelo sistema prisional. Como é uma produção independente não tem versão legendada em português...


28/10/2008

Ecos dos primeiros gritos suburbanos

Depois de meio ano no ar, finalmente, o FZ publica sua primeira entrevista na era digital. O entrevistado é Ariel, vocalista do RESTOS DE NADA, grupo que não tenho receio de dizer tratar-se do pioneiro do punk rock brasileiro. Particularmente, acho que foi a grande banda brasileira de todos os tempos. Ainda hoje ecoa na minha cabeça a galera completando a frase "Temos de derrubar.... a classe dominante/Temos de liquidar.... a classe dominante"! Desequilíbrio (música dos Condutores, mas que ficou famosa com eles) é outro clássico, assim como Ninguém é meu igual. "Tenho medo de olhar nas latas de lixo/ Pois dentro de uma delas eu posso me encontrar", versos de Deixem-me Viver, ainda me fazem pensar sobre minha reles condição humana. Existencialismo puro.
Boas músicas, letras engajadas e atitude. Com vocês, Restos de Nada.

FZ - É verdade que quando começaram ainda não sabiam o que era punk rock, mesmo fazendo um som que poderia ser rotulado como tal?
ARIEL - É verdade, pois quando começou a rolar uma cena de rock na Vila Carolina, ainda não havia chegado o punk rock. Mas por outro lado o que nos influenciou foi o rock de bandas como Alice Cooper, MC5, The Stooges e New York Dolls, que já eram referência do que viria a seguir e nós por aqui também começamos a fazer um som influenciado por essa safra maldita do rock’n’roll. Portanto éramos punks e não sabíamos, mas desconfiávamos que o que viria a seguir seria nessa mesma linhagem.

FZ – Por que o nome? Quem criou?
ARIEL - O nome veio de uma música do Clemente que tinha esse título. Antes do Restos de Nada, ele e o Douglas já tinham se iniciado no rock’n’roll com uma banda chamada Organus, que tinha essa música em seu repertório.

FZ - As letras do RDN são bem politizadas, com uma tendência ao socialismo. A banda era comunista? Tinham ligação com algum partido ou associação política?
ARIEL - Bem, no começo acho que as letras tendiam mais ao existencialismo, depois da saída do Clemente, em 1979, eu, o Douglas e a Irene, que havia assumido o baixo, entramos numa organização trotskista, chamada OSI, que lutava pela IV Internacional dos Trabalhadores e conhecemos a história das revoluções socialistas. Na época militávamos pela reconstrução da UNE e UMES, entidades estudantis, e dentro das fábricas por sindicatos livres. Levávamos todo esse conhecimento revolucionário para as ruas, pois vivíamos em uma ditadura militar que proibia qualquer manifestação subversiva e o Movimento Punk estava se aproximando dessas tendências revolucionárias, então chegamos a fazer muita coisa, interagindo nessas duas frentes. A banda serviu pra difundir essa mensagem de luta e rebeldia. Após isso, abandonamos essa forma de luta socialista e depois de muitas decepções adotamos um pensamento libertário.

FZ – Naquela época não havia muitos lugares para uma banda de punk (ou mesmo de rock) tocar. Como foram os primeiros shows?
ARIEL - O primeiro show punk em São Paulo, rolou em um porão de uma padaria abandonada na Zona Leste de São Paulo, onde tocaram Restos de Nada e AI-5. Depois disso rolou um som na Zona Norte, num salão de rock chamado Construção e em Sociedades Amigos de Bairro. Chegamos a fazer shows até em cima de caminhões, com “gatos” puxados de postes. Em praças públicas, com palcos montados com restos de madeiras. Foi muito foda fazer som punk naquela época. Tínhamos que carregar aparelhagem e instrumentos em ônibus, a polícia chegava e acabava com o som e por aí vai...

FZ - Vocês sofreram com a repressão política? Afinal, o Brasil vivia ainda sob a ditadura militar....
ARIEL - Sofremos muito, pois não conseguíamos mostrar nossa identidade cultural sem sermos molestados, não podíamos andar de visual que éramos parados e humilhados. Nossas letras e músicas eram censuradas. Corríamos o risco de desaparecer nos porões da ditadura, o que quase aconteceu. Éramos punks e militantes revolucionários, tínhamos muito material subversivo em mãos, portanto um perigo à sociedade.

FZ - A letra de "Direito à Preguiça" é inspirada no livro homônimo de Paul Lafargne? Ou é mera coincidência?
ARIEL - Sim, é baseada no livro do Paul Lafargne. Conhecemos o livro através da Neli, que por sinal é a autora da letra, irmã do Douglas e quem nos levou à organização trotskista. As idéias anarquistas do autor nos levaram a várias conclusões sobre o pensamento libertário que irritava os socialistas, inclusive, o próprio Paul era desafeto de Marx, de quem era genro.

FZ – Por que o Clemente deixou a banda? Aliás, por que o grupo parou?
ARIEL - O Clemente não gostava muito do nosso envolvimento com o movimento revolucionário, estava mais preocupado em sair com o pessoal, encher a cara e brigar, vivia dizendo que não estávamos envolvidos com a cena, o que não era verdade, pois fazíamos as paradas acontecer. Onde não havia condições, arranjávamos e procurávamos reunir todo o pessoal que tinha banda ou vontade de fazer alguma coisa.
Após sair do Restos ele entrou no Condutores de Cadáver e todo mundo já conhece a história. O Restos de Nada não parou totalmente, mudou de nome para Desequilíbrio, o que acho que foi errado, deveríamos ter continuado com o nome que tínhamos adotado.

FZ - A Irene foi a primeira mina a tocar numa banda punk nacional, como isso aconteceu e como vocês viam isso?
ARIEL - Nunca na verdade nos preocupamos com isso. A banda já tinha um diferencial desde o começo, pois era metade negra e metade branca e não era grupo de pagode (rsrs). Veja bem, uma banda de punk rock com dois negros, depois uma mina tocando baixo e depois um japonês era de assustar qualquer um, concordo, mas não a nós. Com a saída do Clemente, a Irene assumiu o baixo e durou pouco tempo até aparecer o Keiji.

FZ - Como nasceu a idéia de gravar um LP após tanto tempo parados (80 a 87)?
ARIEL - A idéia era registrar algumas músicas que tínhamos apenas tocado, pois era muito difícil conseguir uma gravação decente na época e também para não deixar um material, modéstia à parte, muito precioso se perder apenas nas lembranças de quem viu a banda ao vivo na época.

FZ - E a volta atual, quando começou a ser arquitetada?
ARIEL - No ano de 2001, resolvemos fazer um festival que comemorasse os 25 anos de punk rock pelo mundo e reunimos as produções musicais atuais e do passado, com 54 bandas apenas da Capital e redondezas. Então resolvemos lançar um CD com uma gravação que tínhamos feito em 1980, num terreno baldio na Vila Carolina, para comemorar o evento e gravar quatro sons da época que não foram para o vinil de 87. Aí pensamos: por que não aproveitar e fazer alguns shows? Mesmo porque muita gente pedia. Fizemos o festival e foi simplesmente mágico.

FZ - Vocês acham que ainda tem validade a mensagem dos anos 70?
ARIEL -As músicas têm sim uma atualidade que até assusta. Você pega uma música como Deixem-me Viver, que fala de solidão e autodestruição e vê que o número de adolescentes que fazem uso de anti-depressivos aumentou consideravelmente nesses anos todos, aumentando também os suicídios. É triste, mas é a realidade.

FZ - Como percebem a reação do público atual? Que comparação dá para fazer entre os dois públicos?
ARIEL - O público de hoje conhece todas as músicas, acompanha tudo o que sai da banda, tem um respeito enorme pela história, compra material e sempre está presente quando a banda toca. A comparação com o público do passado é que éramos iguais aos caras que estavam na platéia e muitos não admitiam que aqueles caras que estavam do lado subissem no palco e tocassem como os seus ídolos estrangeiros. Tudo era novidade e surpresa em 77, portanto não dá pra ficar cobrando muito. Mas sempre tinha uns amigos que davam uma força.

FZ - Não temem que esse retorno possa ser visto como oportunismo?
ARIEL - De jeito nenhum, pois nunca nos preocupamos com isso e hoje tocamos apenas para divulgar nossa mensagem que continua atualíssima e necessária. Não estamos aqui por saudosismo, por fama ou dinheiro, portanto, oportunismo passa longe. Afinal somos apenas Restos de Nada (rsrs).

FZ - Pretendem fazer músicas novas?
ARIEL - Não pretendemos fazer músicas novas. O que tínhamos que fazer ficou registrado, finalmente, e a banda não veio para continuar, apenas para resgatar mais um pouco da história que não foi contada como se deveria, então achamos melhor voltarmos pra dizer por nós mesmos.

FZ - Quem está na formação atual? Onde estão os ex-integrantes?
ARIEL - Na formação atual contamos com Douglas na guitarra, Ariel no vocal, Luiz no baixo e Douglinhas na bateria. Bem, da primeira formação, o Douglas está terminando um curso de música numa faculdade e dando aulas de guitarra. O Clemente está com o Inocentes e, de uns tempos para cá, com a Plebe Rude. O Charles desencanou da música e toma conta de uma ONG na Zona Sul e eu continuo no punk rock com a banda Invasores de Cérebros.
Se me permite um merchand, estamos com um DVD gravado no Hangar 110 que traz todas as músicas compostas pelo Restos, mais três músicas de bônus, que são: I’m Eighteen, de Alice Cooper; 1969, dos Stooges e Ramblin’ Rose, do MC5.
Espero que o Punk Rock continue influenciando gerações a dizer não.

Baixe aqui o LP RESTOS DE NADA, de 1987 (ripado do vinil)

27/10/2008

Raízes Germânicas parte 2


Die muzik is tot - es lebe der punk!!! A frase pode ser traduzida por "a música está morta - está vivo o Punk". Era com estas palavras que o vocalista Baron Adolf Kaiser costumava abrir os primeiros shows do BIG BALLS & THE GREAT WHITE IDIOT, muito provavelmente a primeira banda punk, na acepção do termo, da Alemanha. O grupo foi criado em 1975, bastante influenciado por Stooges, MC5 e New York Dolls, mas depois que viram o furacão Sex Pistols, em 76, radicalizaram de vez a postura, que já era bastante agressiva.
A formação original, além de Adolf, tinha o guitarrista Wolfgang Lorenz e os irmãos Grund: Peter, Alfred e Atli, respectivamente, baterista, baixista e guitarrista. A conotação nazista do nome do vocalista não é mera coincidência. Politicamente incorretos, a intenção dos BIG BALLS era confrontar a sociedade germânica da época. O que pode ser facilmente percebido pelas letras do grupo. Para dar uma pequena idéia, o título de uma das músicas do primeiro LP é (I'm singing to you) with my fingers in your ass. Sinceramente, não creio que eles fossem nazistas militantes, tratava-se mesmo de provocação, que nos shows era levada ao extremo com a banda chamando a platéia para a briga e gritando para que todos fossem para casa. Eram tão sujos ao vivo, que em uma resenha, o fanzine Punk News descreveu a apresentação como "medíocre e feia". Era o que queriam. Caos, anarquia, rebelião, rock'n'roll. Punk Rock!
O primeiro LP, todo em inglês, com o nome da banda, foi lançado em 77 e além de 14 músicas próprias, contava com uma versão de Anarchy in the UK (Anarchy in Germany), Search and Destroy (Stooges) e White Light, White Heat (Velvet Underground). O segundo LP, Foolish Guys, lançado em 78 já mostra uma banda mais polida, experimental e comercial. Foi o primeiro de uma série de ábuns que afastou a banda de suas raízes punks. Depois destes dois discos, o BIG BALLS ainda lançaria outros quatro LPs: Artikel 1 Dignity of man, Creepy shades, In search for love e The big waltz (este, na verdade uma trilha sonora). A partir dos anos 80, o grupo passou a flertar com teatro e outras formas de arte. Nunca abandonaram o sarcasmo e o humor satírico dos primeiros tempos, mas distanciaram-se do que se tornou o punk rock.
Baixe aqui o incrível primeiro LP do BIG BALLS & THE GREAT WHITE IDIOT

BIG BALLS Facts
  • A banda foi fundada, de fato, pelos irmãos Grund. Apesar de chamar muito a atenção, Baron Adolf Kaiser participou apenas do primeiro LP. No segundo, o grupo já era um quarteto, com Alfred nos vocais.
  • Os dois primeiros LPs foram lançados pelo selo Teldec, associado à Decca Records. Os demais discos saíram pelo selo Balls Records, de propriedade da banda.
  • No teatro, participaram da montagem de peças como Medéia, de Eurípedes, que recebeu diversos prêmios na Alemanha. Mas o grande passo nessa área foi quando fundaram uma companhia independente, chamada Babylon, junto com a diretora Barbara Bilabel, bastante conhecida por lá.
  • No início dos anos 90 eles voltaram-se de novo para o mundo da música e construíram seu próprio estúdio, em Hamburgo, e reativaram o selo Balls Records. Entre os artistas que produziram, o D-Base 5, um grupo de crossover, foi o que mais se destacou.
  • Em 97, fizeram a trilha sonora do filme Die Mutter des Killers (The Killer's Mothers), que alcançou relativo sucesso nos cinemas e na TV germânica.
  • O grupo permanece em atividade.

25/10/2008

A volta dos mortos vivos

Já há alguns anos, principalmente depois que o Green Day e outras bandas pseudo punks assolaram as paradas de sucesso, vários grupos resolveram "voltar". Desde mais famosos como Sex Pistols e Buzzcocks até menos conhecidos como No Alternative, Avengers, etc. São muitas para mencionar aqui e a discussão não é sobre quais bandas "renasceram".
Antes de continuar quero esclarecer que o próprio Factor Zero pode ser acusado de aproveitar-se do novo status do punk para, digamos, ficar famoso (não ficou e dificilmente ficará). Mas existe diferenças: não voltou para ganhar dinheiro. Na verdade, apenas resgatei um nome que eu mesmo criei e que acho apropriado para o tipo de blog que me propuz a fazer nas horas vagas. O nome original deste blog seria "Sounds of the Suburbs", mas já existe algo parecido no ar...
Voltando ao assunto. Como deixei a entender no comentário do post sobre Paul Fox, não sou muito a favor destes retornos ou "reuniões". Somos livres para fazermos o que bem entendermos. Sou fanático pelo som das bandas punks dos anos 70 e 80, mas tenho comigo que aquele foi um momento único, assim como é o momento atual (que, na verdade, nem sei o que rola em termos de som novo).
Claro que há retornos e retornos. Algumas bandas voltaram e gravaram coisas novas, originais (Buzzcocks e Radio Birdman, por exemplo) que, se é bom ou ruim, não vem ao caso. Algumas voltaram com todos os membros originais, embra apenas tocando as mesmas músicas, como os Sex Pistols. Outras com um ou dois membros da formação antiga. Dou um desconto apenas para aqueles que "retomaram" a carreira e gravam algo novo. Para os demais, acho até uma certa falta de respeito para com eles mesmos. Mas minha crítica não é por isso e sim porque visam apenas o lucro. Com isso, esvaziam um discurso que construiu toda essa coisa chamada punk, que bem ou mal revolucionou a música e até os costumes.
Que sentido tem você cantar uma música contra a opressão de um sistema desigual se faz isso para alimentar esse mesmo sistema?
Opinem, por favor.

24/10/2008

Raízes germânicas

No final dos anos 60 e início dos 70, a Europa fervia com os movimentos estudantis. Havia o pessoal do flower power, contestador e pacifista. Mas havia também vários grupos radicais e mais politizados. Na Alemanha, particularmente, a moçada partiu para a ação direta, inclusive com grupos terroristas - o mais famosos deles foi a RAF (Facção do Exército Vermelho, em português) - e squatters. No meio disso tudo a presença do rock foi natural.
Um dos grupos nascidos neste contexto e que colocou essa efervescência política nas letras e na atitude foi o TON STEINE SCHERBEN, fundado pelo guitarrista e vocalista Rio Reiser, o guitarrista Ralph Peter Steitz Lanrue, o baterista Wolfgang Seidel e o baixista Kai Schchtermann. O som é rock setentista com vocais agressivos (em alguns momentos a voz lembra bandas como Razzia). Mas o que conecta o TON STEINE com o punk são as letras e a atitude, como o fato de os dois primeiros LPs serem independentes, pelo selo David Volksmund Produktions, de propriedade deles mesmos. Anti-capitalistas e anarquistas em uma época em que a difusão da informação era bem restrita. Por isso, estão para o punk alemão mais ou menos como Velvet Underground, MC5 e Stooges para o punk nos EUA. No entanto, o descompromisso com a estética visual e o fato de as letras serem em alemão (fato raro na época entre as bandas germânicas) os deixaram à margem do cenário internacional.
O primeiro registro em vinil da banda foi um compacto com as músicas Macht Kaputt Was Euch Kaputt Macht e Wir Striken, lançado em setembro de 1970. Depois saiu o LP Wahrum geht es mir so dreckig? (Por que eu sou tão miserável?), em 1971. No ano seguinte, lançam o segundo LP, com o título Keine Macht Für Niemand. Nesse disco, devido à natureza libertária do grupo, a formação já sofreu as primeiras mudanças com a substituição de Seidel por Olav Lietzau nas baquetas. Além disso, os vocais ficaram a cargo de Nikel Pallat. Participaram também desta segunda bolacha o saxofonista Jochen Petersen e o flautista Jörg Schlotterer. Entre o primeiro e o segundo LP, lançaram dois flexi-singles, extremamente raros. A capa de Keine... também representou uma inovação, pois foi feita de papelão (veja na foto).
A repersusão destes discos no cenário underground de Berlim foi bastante forte e o grupo passou a ser o representante das facções mais radicais. Sentiram a pressão de ser porta-voz de coisas que não sabiam se realmente acreditavam, como atentados violentos, por exemplo. Assim, mudaram-se de Berlim para uma fazenda abandonada em Fresenhagen. A essa altura a banda era uma espécie de coletivo, com cerca de 20 pessoas. No local, produziram e apoiaram diversos projetos artísticos até 1985, quando as dívidas tornaram-se impagáveis e o grupo chegou ao fim. Mas depois do segundo LP o TON STEINE já havia optado por um som mais viajante, estilo jazz avant garde e com letras mais pessoais. Para muita gente, apenas hippies, mas nunca abandonaram o ideal anarquista. Por isso, muitos punks da Alemanha admiram o grupo até hoje. O recado foi dado, para quem quis entender.....


DER STEINE FACTS
  • Os próprios membros da banda divergiam sobre o significado do nome TON STEINE SCHERBEN. Teria sido inspirado em uma frase de um arqueologista sobre suas primeiras impressões acerca do sítio arqueológico de Tróia (+- pedras de argila estihaçadas). A palavra ton também pode significar "som", o que traduziria o nome para "Som da pedra lascada". Também seria uma homenagem aos Rolling Stones, banda preferida de Rio Reiser. Outra versão é que era uma referência ao Partido dos Trabalhadores Alemães que se chamava Bau Steine Erden (+- Pedras da Construção da Terra).
  • A primeira apresentação da banda foi no mesmo palco onde Jimi Hendrix acabara de fazer seu último show, em um festival na Ilha de Fehmarn. Durante a apresentação ocorreu um incêndio no palco e a banda não parou de tocar, o que lhes rendeu grande fama entre os roqueiros radicais da época.
  • Imediatamente após o fim do sonho do TON STEINE na comuna de Fresenhagen, Rio Reiser iniciou uma bem sucedida carreira solo e alcançou o sucesso comercial que a banda nunca tivera. Seu maior hit foi König von Deutschland (Rei da Alemanha), curiosamente uma música escrita em 1974 para um disco do TON STEINE, mas recusada pela banda. Rio faleceu em 20 de agosto de 1996, aos 46 anos, por complicações resultantes de hepatite C. Em sua carreira solo foi acompanhado por R.P.S. Lanrue. Os dois seriam os reais fundadores do TON STEINE. O verdadeiro nome de Rio era Ralph Christian Möbius.
  • Durante o período de Fresenhagen, o TON STEINE lançou seis álbuns, alguns deles com produção de Claudia Roth, uma das fundadoras do Partido Verde Alemão.
  • Após a morte de Rio, Os remanescentes do grupo fundaram a TON STEINE SCHERBEN FAMILY e até hoje fazem shows.

22/10/2008

In Memorian - Paul Fox (11/04/1951 - 21/10/2007)

Ontem fez um ano da morte de Paul Fox, um dos mais brilhantes guitarristas da cena punk inglesa. Co-fundador do THE RUTS, junto com Malcom Owen (morto por overdose de heroína em 1980), o músico faleceu em consequência de um cancer.
Paul Fox iniciou sua carreira musical no início dos anos 70 em uma comunidade hippie de Anglesey, na Inglaterra, onde tocava em uma banda de rock progressivo chamada ASLAN. Depois que a comunidade foi pro saco, ele mudou-se para Londres e juntou-se a um grupo de funk suburbano chamado HIT AND RUN. Em 1977, com a explosão do punk, fundou o THE RUTS (aguardem post mais detalhado sobre a banda). Após a morte de Owen, a banda continuou como RUTS DC, mas acabou em 1982. Depois disso,Fox tocou em diversos grupos obscuros como CHOIR MILITTIA, DIRTY STRANGERS, SCREAMING LOBSTERS e FLUFFY KITTENS.
Deixou a esposa (era divorciado) e dois filhos, Lawrence e William.
Descanse em paz amgo....
Logo contarei a história toda do RUTS, por enquanto curta um pouco desta lendária banda no disco Live and Loud

Senha para descompactar o arquivo: borninthebasement

17/10/2008

Jogos animais em Londres

A revista POP (Editora Abril) foi uma publicação da década de 70 destinada ao público adolescente. Era bem sonsinha e em alguns números bem "gatinha". Tem gente que a compara à Bizz dos anos 80, mas acho que ela está mais para a TodaTeen e a Contigo atuais, apenas um puco mais pop/rock. Por incrível que pareça essa coisa tão inocente acabou sendo uma das responsáveis por um dos melhores LPs de punk rock já lançados no Brasil: a coletânea A Revista Pop Apresenta o Punk Rock, com Sex Pistols, Ramones, The Jam, Eddie & The Hot Rods, London, Ultravox, Stinky Toys e Runaways. Na verdade, a POP via o punk como uma nova moda e fazia uma grande confusão a respeito do que realmente acontecia. Lembro-me de uma matéria em que tentavam vender o Made in Brazil como punk (era engraçado os caras com maquiagem simulando bocas sangrando). Mas no disco eles acertaram, com uma seleção de primeira. O petardo sonoro acabou atingindo outro público e influenciou boa parte dos primeiros punks da periferia paulistana.
Uma das minhas faixas preferidas no disco da POP é Everyone's a Winner do LONDON - afinal este post é sobre eles e não sobre a famigerada revista.
O LONDON foi uma das bandas pioneiras do punk inglês e, como o MANIACS, teve uma vida bem curta. O grupo foi formado em 1976 pelo vocalista Miles Tredinnick, que usava o apelido Riff Regan. Os outros membros entraram após atenderem anúncios de Miles no Melody Maker. O primeiro a aparecer foi o baixista Steve Voice, que compôs com Miles a maioria das músicas do grupo. Depois dele, foi a vez do baterista John Moss. A formação se completou com o guitarrista Dave Wight. Apesar de serem músicos acima da média das primeiras bandas punks, dos quatro, apenas John Moss tinha alguma experiência: estava em teste com o THE CLASH! E, ainda que vários amigos o aconselhassem do contrário, preferiu ficar no LONDON, pois não se entendia muito bem com Joe Strummer.
Antes de formar o LONDON, Miles trabalhava como asistente do produtor de cinema Robert Stigwood (Jesus Christ Superstar, Tommy, Grease, Saturday Night Fever, entre outros), assim, era um cara descolado. No show de estréia da band, na platéia estava o empresário Simon Napier-Bell, que já trabalhara com grupos como YARDBIRDS e T. REX e andava à procura de bandas da nova onda musical que começava a tomar conta da Europa. Napier-Bell gostou do que viu e em pouco tempo o LONDON já era a principal atração em shows pequenos. O grupo foi escalado para abrir os shows da tour nacional do STRANGLERS, que àquela altura já era bem conhecido por toda a Europa.
Em vinil, o LONDON não conseguiu a mesma repercussão, ou pelo menos não a que a MCA que os contratara e Napier Bell esperavam. O primeiro single foi Everyone's a Winner/Handcuffed. A bolacha teve boas vendas, porém, não chegou às paradas como desejavam os produtores. O segundo compacto foi um duplo com quatro faixas: Summer of Love, No Time, Siouxie Sue e Friday on my Mind. O máximo que conseguiram foi atingir a 52ª posição nas paradas (naquele tempo ainda contava alguma coisa). Depois de mais uma tentativa de obter um single de sucesso, com Animal Games/Us Kids Cold, chegara a hora de gravar o LP. Já no final de 1977 o LONDON entrou em estúdio e concebeu Animal Games. O disco de onze faixas (apenas seis delas inéditas) chegou às lojas no início de 78. Mas a esta altura o grupo já não existia mais. John Moss trocara a banda pelo DAMNED, em substituição a Rat Scabies. Os três remanescentes tentaram arrumar um baterista que os agradassem, mas antes que isso acontecesse decidiram dar fim ao grupo, também em função das fracas vendas e da violência que começava a rolar nos shows punks.
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LONDON FACTS

  • Depois de deixar a banda, John Moss não teve tempo nem de curtir com os novos comparsas, já que o Damned também acabou (depois retornaria e tocam até hoje). Pouco depois, entretanto, ele conheceu um certo Boy George e formou com ele o Culture Club, para azar do planeta...
  • Após o fim do LONDON, Riff Regan, ou Miles Trednnick, seguiu carreira solo. Ente 1978 e 81 lançou nada menos do que seis LPs. Todos de baixas vendas. Então passou a escrever scripts para comédias de TV, no que se deu melhor e chegou a elaborar histórias para personagens da Disney, como Mickey e Pato Donald. Também escreveu uma peça de teatro de relativo sucesso (Topless) representada em cima de um daqueles ônibus de dois andares pelas ruas de Londres.
  • Após o fim do LONDON, Dave (Colin) Wright concluiu seus estudos e fez doutorado em Política Internacional. Steve Voice formou uma banda chamada The OriginalVampires, que não deu em nada e sumiu de cena.
  • Nos shows punks de 76/77 o público tinha o nojento hábito de cuspir nas bandas. Em uma apresentação, em Birmingham, Riff Regan usou um guarda-chuva para se proteger.
  • Só para variar, Miles e Steve reformaram a banda recentemente e têm feito vários shows. Além deles, o novo LONDON tem o guitarrista Hugh O'Donell e o baterista Colin Watterston, ambos ex-The DBs.