26 de jan de 2009

Anarquia em Paris

METAL URBAIN. O nome pode enganar, mas não tem nada a ver com heavy metal (ainda bem). Trata-se de uma das bandas pioneiras do punk rock francês. Com certeza, a mais original. Guitarras distorcidas ao máximo, vocais agressivos, letras politizadas e sintetizadores. Esse último elemento também pode enganar aos punks puristas. Apesar de não ter bateria tradicional (usavam uma eletrônica) o M.U. conseguia um som extremamente agressivo.
O grupo foi formado em 1976, em Paris, já totalmente influenciado pelo furacão punk que sacudia parte da Europa. A formação original tinha o vocalista Clode Panik, o guitarrista Rikky Darling e os tecladista Zip Zinc, que permaneceu com a banda apenas por seis meses, mais o também tecladista Eric Débris, que acabou tornando-se o "cérebro" do grupo. Em 77, Rikky deixou o M.U. e em seu lugar entraram os irmãos Hermann Schwattz e Pat Luger, ambos guitarristas.
Apesar de ter feito história, o Metal Urbain não durou muito tempo. Em 78, Clode deixou a banda e Eric também se desiludiu com a cena punk francesa, que, igualmente ao que acontecia na Inglaterra, estava em baixa. Ou seja, pouca gente nos shows, nenhuma atenção por parte da mídia e menos ainda das gravadoras. Em 79, poucos meses depois do final da banda, a revista Best Magazine publicou uma carta de Clode sobre os motivos que acabaram com o grupo. Os acusados são as gravadoras francesas, por terem se recusado a assinar com o Metal Urbain "por causa das letras, da imagem, da música e da atitude", e a imprensa - "the rock (?) press", como assinalou. Leia a carta na íntegra no site oficial do grupo. A parte em que ele acusa a imprensa é sensacional.
O fim prematuro acabou deixando o Metal Urbain esquecido por um bom tempo, mas a a banda acabou sendo "redescoberta" no final dos anos 90. Em parte pelo revival punk e pelo crescimento da vertente "industrial" do rock (bandas como Ministry e Big Black têm influência clara do Metal Urbain), já que o o som deles tem elementos dos dois estilos. O interesse pelo grupo cresceu tanto que resolveram retomar as atividades e além de fazerem shows, em 2006, lançaram um CD, com o título J'Irai Chier dans Ton Vomi, com músicas inéditas, produzido por ninguém menos que Jello Biafra, pelo selo Alternative Tentacles.
Na primeira fase, o Metal Urbain lançou apenas três compactos - brilhantes, diga-se de passagem. O primeiro single é de 77, com Panik e Lady Coca Cola. Apesar de cantarem em francês, conseguiram chamar a atenção na Inglaterra e, ainda naquele ano, saiu o explosivo Paris Maquis/Clé de Contact, pela Rough Trade, tendo a honra de ser o primeiro lançamento daquele que se tornaria o maior e mais importante selo independente do Reino Unido nos anos 80. O terceiro, e mais conhecido, compacto sairia em 78, pelo selo Radar, também inglês, com Hystérie Connective e Pop Poubele. O único LP, Les Hommes Morts Sont Dangereux, saiu postumamente em 81.
Não deixe de conhecer uma das mais originais bandas da história do punk mundial. Baixe aqui a coletânea Anarchy in Paris, uma compilação de tudo que eles fizeram nos anos 70.


URBAIN FACTS

  • O primeiro show do Metal Urbain, em dezembro de 76, acabou em uma grande confusão, já que alguns roqueiros na platéia sentiram-se insultados por algumas atitudes do grupo (anti-hippies, digamos). Após agressões mútuas a banda acabou expulsa do lugar. Brigas eram normais em quase todas as apresentações da banda em Paris.
  • Após o fim do grupo, Clode desapareceu por um bom tempo, ressurgindo das cinzas nos anos 90. Eric, Hermann e Pat fundaram o Doctor Mix & The Remix, mantendo a linha do M.U., porém com mais ênfase nos sintetizadores.
  • Eric Debris também tornou-se produtor e trabalhou com o Berurier Noir, famosa banda eletrônica.
  • Os irmão Hermann e Pat também fundaram uma banda chamada Desperados. Mas o projeto teve vida curta e, enquanto Hermann seguiu no mundo da música, tornando-se um respeitado guitarrista em solo francês, Pat manteve-se longe dos palcos até 2003, quando durante uma apresentação do Metal Urbain no Canadá, saiu do meio da platéia, subiu ao palco e tocou duas músicas com os ex-companheiros. Desde então, participa esporadicament de shows e contribuiu com algumas músicas no CD de 2006.

22 de jan de 2009

Is This Real? Or just an illusion?


Concebido em 1977 pelo guitarrista e vocalista Greg Sage, THE WIPERS, sem exageros, está entre as melhores bandas da história do punk rock. Poucos grupos punks criaram um estilo tão próprio. E por que uma banda tão talentosa, com pelo menos um LP no rol dos dez melhores de todos os tempos, não ganhou fama e fortuna? A resposta é simples: por que Sage também é um dos caras mais autênticos em termos de conduta e princípios. Avesso a badalações e a qualquer tipo de auto-promoção, acreditava que as pessoas poderiam ouvir e entender o Wipers mais profundamente se não associassem a banda aos estereótipos tradicionais do circo do rock'n'roll e, (por que não?) do punk também.
A idéia original de Sage era fazer uma banda para gravar 15 LPs em 10 anos, sem fazer tours ou qualquer tipo de promoção. Isso também manteria a imprensa longe da banda. "I looked at music as art rather than entertainment. With that concept in mind I thought music was personal to the listener rather than a commodity", explica no site oficial da banda (clique aqui para acessar). Leia a entrevista toda, vale a pena.
Apesar de ser considerado punk desde o início - evidentemente pela agressividade do som e pela atitude anticomercial - Sage jamais reivindicou qualquer rótulo para o grupo, mas também nunca se preocupou com isso. Ou seja, sempre cagou para o que diziam do Wipers. Para piorar as coisas para os rotuladores de plantão, o primeiro LP, Is This Real? (1979), é realmente um clássico com todas as características do que se convencionou chamar punk rock. Mas no segundo LP, Youth of America (1981), ainda que o som se mantivesse na mesma linha em termos de agressividade, Sage quebrou alguns tabus do punk rock, com músicas longas (a faixa-título tem exatos 10min27s) e uma guitarra bem trabalhada. E agora? Que porra é essa? Deviam ter pensado alguns críticos.
Tocar com um cara desses não deve ser lá muito fácil. Assim, o Wipers sempre foi um trio. No início, com Sage mais o baixista Dave Koupal e o batera Sam Henry. Essa formação foi responsável pelos dois primeiros singles, Better off Dead (1979), com quatro músicas gravadas em quatro canais, e Alien Boy (1980). O primeiro lançado pelo selo Trap Records, do próprio Sage, e o segundo, com a música-título mais três retiradas de uma demo tape, saiu sem a permissão da banda, pelo selo Park Ave.
Sage-Koupal-Henry gravaram também o LP Is This Real?, que jamais cansarei de dizer tratar-se de um clássico. Aliás, 12 clássicos. Nenhuma faixa é dispensável. Desde a abertura com Return of The Rat, no melhor estilo UK Subs, até a quase instropectiva Wait a Minute, não dá para ficar indiferente ao que toca. Gosto muito da batida de Up Front, que se fosse gravada por uma banda inglesa de Oi! tornaria-se hino. A faixa-título do LP e Tragedy são outras músicas de primeiríssima qualidade. E ainda tem D-7, regravada pelo Nirvana a exemplo de Return of the Rat (em 1991, Kurt Cobain financou o álbum 14 Songs for Greg Sage and The Wipers).
No segundo LP, Youth of America, o baixo ficou com Brad Davison - embora Koupal toque em algumas faixas - e a bateria com Brad Naish. O disco é bem mais lento, com seis faixas apenas. Mas nem por isso menos original e genial. Só que foge dos estereótipos do punk. Essa foi também a formação que apareceu no terceiro e último LP da primeira fase do Wipers, Over the Edge (1983), em que o grupo retoma o estilo do primeiro, mais punk e menos experimental, além de as letras terem adquirido um tom mais politizado. Clássico também.
Depois deste disco, o grupo deu um tempo e, em 1985, Sage lançou um LP solo (muito bom por sinal), Straight Ahead , em que só não toca bateria. Ainda nos anos 80, o Wipers lançaria mais três LPs - Land of the Lost (1986), Follow Blind (87) e The Circle (88) , todos de excelente qualidade (vale a pena procurar), embora já sem a genialidade dos três primeiros. Nestes discos Brad Naish deu lugar a Steve Plouf. No final da década de 80, o grupo foi dado como acabado, mas em 1993 ressurgiu com o LP Silver Sail, em que não há quase nenhum traço da banda, então cultuada. Três anos depois, o Wipers lançou mais um LP, chamado The Herd, neste sim, o grupo retoma a fúria e o peso dos anos 80. Já em 99, sai o que seria, segundo o próprio Sage, o último e ótimo disco do grupo: The Power in One. Portanto, Sage não conseguiu que o Wipers lançasse 15 LPs em 10 anos. Foram "apenas" nove em duas décadas. Mas, com os merecidos descontos, a missão foi cumprida.
Baixe o fantástico Is This Real e me diga se tenho ou não razão.

WIPERS FACTS
  • O envolvimento de Greg Sage com a música começou ainda na infância, já que seu pai trabalhava em uma fábrica de discos e ele acompanhava todo o processo de fabricação, pelo qual ficou fascinado, a ponto de passar horas observando em um microscópio os sulcos dos discos.
  • A partir do segundo LP, Sage usou sua experiência e obsessão por técnicas de gravação para produzir tudo o que o Wipers gravou e também seus discos solos, que aliás foram três: Straight Ahead (1985), Sacrifice (for love) (1991) e Electric Medicine (2002).
  • O baixista Brad Davidson, após deixar o grupo, mudou-se para Londres e já fez diversas colaborações com o Jesus & Mary Chain.
  • Em 2001, Sage, através de seu próprio selo, a Zeno Records, remasterizou (sozinho) os três primeiros LPs, adicionou diversas faixas bonus e lançou um box set com três CDs. A história da primeira fase da banda está toda nessa caixa. Sinceramente, prefiro os orginais, mais pesados.
  • A influência do Wipers nas bandas rotuladas como "grunge" é notável. Além de Cobain ser um fã declarado de Sage (inclusive no comportamento anti-star), outras bandas deste estilo gravaram músicas do Wipers, entre elas o Hole. Teve até gente que confundiu o grupo como parte da tal cena grunge...

18 de jan de 2009

Pequenos Gigantes III - Stiff Records


A Stiff Records não foi um selo dedicado exclusivamente ao punk - aliás, bem poucos foram na década de 70 -, mas teve papel fundamental na cena londrina. Foi a Stiff que lançou o compacto de estreia da Damned, considerado como o primeiro disco "autenticamente" punk inglês.
A história deste selo começou no verão de 76 quando Jake Rivera (na verdade, Andrew Jakeman) e Dave Robinson fizeram um empréstimo de 400 libras com o volcalista do Dr. Feelgood, Lee Brilleaux, para montar um selo que pudesse lançar discos de bandas londrinas de uma cena então conhecida como "pub rock". Jake já trabalhava com o Dr. Feelgood e os havia acompanhado numa turnê pelos EUA, onde conheceu o trabalho de pequenas gravadoras (entre elas, a Bomp) e voltou ao Reino Unido convicto de que deveria enveredar por este caminho. Dave também atuava no circuito "pub rock" e trabalha em um estúdio especializado no gênero. Portanto, ambos conheciam bem o underground londrino.
O primeiro lançamento do selo foi o single So it goes/Heart of the city, de Nick Lowe, recém saído do grupo Brinsley Schwartz. A bolacha foi bem recebida pela imprensa musical e a Stiff Records ganhou fôlego. No entanto, os lançamentos seguintes (Pink Fairies, Roogalator, Tyla Gang e Lew Lewis) não foram tão bem. Por outro lado, o punk rock começava a entrar em evidência e a dupla foi rápida no gatilho: contratou o Damned e em 22 de outubro de 76 chegava às lojas o single New Rose/Help, que entraria para a história como o primeiro compacto de punk rock (embora haja muitas controvérsias) inglês. O single tornou-se um dos mais tocados no lendário programa de John Peel. Ainda em 76, a Stiff lançou na Inglaterra outro compacto punk lendário: Richard Hell and the Voidoids, com as músicas Another World, Blank Generation e You gotta lose.
Ao contrário de Lee Wood da Raw Records, Jake e Dave, além de gostar muito de bandas de vanguarda, tinham excelente tino comercial e sabiam promover os discos que lançavam. Faziam cartazes e anúncios nos jornais especializados. O próprio selo era promovido por uma camiseta que tornou-se célebre na época por usar a frase If it ain't STIFF, it ain't worth a fuck. Marketing de primeira. Com isso, conseguiam boas vendas e exposição na mídia.
O primeiro LP do selo, já em 77, também ajudou a escrever a história do punk: o histórico Damned, Damned, Damned. Mas a Stiff apareceria pela primeira vez nas listas dos mais vendidos com um certo Elvis Costello, com quem o selo ganharia muita grana. No entanto, Jake resolveu abandonar o barco no final de 77 para fundar a Radar Records e levou com ele Elvis Costello e Nick Lowe, que produzia boa parte do material no estúdio. O golpe foi sentido, mas as boas vendas de outro artista, no caso, Ian Dury, segurou a onda. Mais tarde, o selo lançaria o Madness, o grupo de ska de sucesso mundial que conseguiria manter o selo em atividade por muitos anos.
Voltando a 77, o Damned, após cinco compactos e o segundo LP, Music for Pleasure, assinou com a Chiswick. Mas a verdade é que a Stiff, embora tenha dado grande impulso para o punk, preferia bandas "new wave". As exceções, além dos já citados aqui, foram o Adverts, com o compacto One Chord Wonders, de 77, e o The Members, com o single Solitary Confinement/Rat up a drainpipe, já em 1979. No ano seguinte, a Stiff lançou o LP Live Kicks, do UK Subs, que teria circulado inicialmente como pirata. Depois, a banda negociou com a Stiff o lançamento oficial da bolacha.
Ainda na área pesos-pesados, a Stiff lançou um dos primeiros singles do Motorhead (Leavin' here/White Line Fever) e também dois compactos e um LP (No hope for the Wretched) do Plasmatics.
Em 86, com dívidas na casa dos três milhões de libras, o selo foi adquirido pela ZTT Records, que manteve o nome adormecido por mais de dez anos. Em 2001, a Stiff voltou ao mercado com diversas coletâneas e em 2007, após 21 anos, voltou a lançar um álbum original, com o The Tranzmitors.
Baixe o LP Skip off school to see The Damned, que reúne os cinco compactos do Damned pela Stiff, mais os singles do Adverts, do Members e de Richard Hell. Basta clicar aqui.
Em breve postarei o Live Kicks, do UK Subs, prometo.

14 de jan de 2009

Pequenos gigantes II - RAW RECORDS

Dentre os selos independentes da cena punk inglesa da década de 70, o RAW RECORDS foi um dos mais amadores e, consequentemente, apesar de ter lançado algumas gemas, não conseguiu sobreviver por muito tempo. O amadorismo de Lee Wood, fundador do selo, também acabou por prejudicar as bandas que não conseguiram boa exposição justamente no "boom" do fenômeno punk na Inglaterra. Entre os principais lançamentos da RAW, estão: THE USERS, KILLJOYS, LOCKJAW e SOFT BOYS.
Lee Wood é um desses punks de nascimento. Nos anos 60 curtia bandas de garagem e tocou em grupos obscuros como The Antlers, The Pype Rhythms, The New Generation, The Sex, e LSD. Por volta de 73 montou uma loja de discos em Cambridge chamada Remember Those Oldies, na qual vendia raridades. Quando a cena punk/new wave começou a nascer, ele foi um dos primeiros a vender os compactos independentes que pipocavam e logo pensou em também montar um selo, inspirado na Chiswick e Stiff Records (selos de que falarei nos próximos posts).
Depois de assistir a um ensaio do The Users, Lee Wood decidiu que iria produzir um disco para eles. Em maio de 1977 era lançado o single Sick of you/I'm in love with today, o primeiro do selo que a princípio se chamaria Raw Power em homengem ao disco dos Stooges, maior referência do Users. Mas acabou ficando só Raw mesmo.
O segundo lançamento do selo foi na verdade um relançamento. Trata-se do single You Really Got Me/Leaving Home, do The Gorillas, de 1974, quando ainda se chamavam Hammersmith Gorillas. Lee Wood comprou os direitos de um selo chamado Penny Farthing porque era fanático pela banda.
A essa altura, a RAW Records já recebia dezenas de demo tapes, uma vez que em cada esquina e em cada garagem do Reino Unido havia uma banda tocando. Ainda em 77, a RAW lançou mais sete compactos e a coletânea Raw Deal. Além das bandas já citadas, nesse primeiro ano de vida, saíram pelo selo: Some Chicken, The Unwanted, Matchbox, The Creation e Downliner Sect (os dois últimos, grupos dos anos 60, relançados por Lee Wood).
Em 78 foram mais nove compactos e seis LPs com grupos até hoje bem desconhecidos, uma vez que Wood ignorava completamente qualquer estratégia de marketing, queria apenas gravar os discos. Claro que teve grandes prejuízos e, em 79, ano em que colocou apenas sete compactos no mercado, pediu arrego.
Como as prensagens eram pequenas, os discos da Raw são raridades e bastante procurados por colecionadores. É um selo que não fez muito barulho, mas registrou bandas que talvez jamais gravariam não fosse o fanatismo de Lee Wood pelo genuino rock de garagem inglês.
Para conhecer o bom trabalho da RAW, reuni em dois arquivos as coletâneas Raw Deal, (Oh no it's) More From Raw e Raw Singles. Como nas três há muitos sons repetidos, fiz uma seleção que totalizou 40 faixas de 15 grupos. O arquivo está em duas partes Parte 1 aqui e Parte 2 aqui. Não dá para falar de punk 77 sem ouvir isso!

11 de jan de 2009

Pequenos Gigantes I - POSH BOY

A importância dos selos independentes para o punk rock é tão grande que eu não temo dizer que o punk sobreviveu graças a essas pequenas companhias. Por outro lado, os selos independentes ganharam um grande impulso a partir da explosão do fenômeno punk na metade da década de 70. Antes, os lançamentos independentes eram esporádicos e as majors dominavam completamente o mercado fonográfico. Com isso, determinavam o que o público devia ouvir. Imagino a quantidade de boas bandas que jamais conseguiram entrar em estúdio (que eram caríssimos, diga-se de passagem) na época, ou que até gravaram mas não chegaram ao mercado por falta de alguém para prensar e distribuir o trabalho (o Death e o Pure Hell, postados anteriormente, são exemplos).
O fato é que no final dos 70 e início dos 80 surgiram centenas, talvez milhares, desses selos pelo mundo todo e deram suporte para a proliferação do punk. Alguns mais, outros menos, mas todos com importância equivalente. Penso ser impossível registrar a história do punk sem falar de alguns desses selos, o que o FZ começa a fazer a partir de hoje.
Para inaugurar esse tipo de post vou falar do selo californiano POSH BOY, fundado em 1978 por um sujeito chamado Robbie Fields. Na verdade, no início não se tratava de um selo. Fields empresariava o F-Word e a Dangerhouse Records prometera lançar um compacto do grupo, mas faliu antes de cumprir o trato. Então, Fields resolveu lançar o disco por conta própria. Assim, o primeiro lançamento do selo foi o compacto Shut Down do F-Word com a música-título no lado A e mais Out There e Government Official no B, todas ao vivo. Na sequência, saiu o compacto do SIMPLETONES, com as músicas Kirsty Q e Dead Meat, o primeiro de estúdio produzido por Fields.
No início de 79, a Posh Boy lançou a coletânea Beach Blvd, com Rik L Rik (ex-F-Word, acompanhado no disco pelo Negative Trend), The Crowd e Simpletones, um verdadeiro marco do punk norte-americano e mundial. O inesperado sucesso do disco, que inclusive chegou por aqui via Punk Rock Discos, colocou o selo definitivamente no mercado e Fields tentou repetir o feito com outra coletânea, chamada The Siren, com 391, Red Cross e Spittin' Teeth. O disco, porém, não foi tão bem nas lojas. Particularmente, considero este LP mais um clássico. Comprei o vinil na Punk Rock e devo tê-lo ouvido algumas milhares de vezes e não consigo enjoar do maldito!
Depois desses lançamentos iniciais, a Posh Boy colocou uma enxurrada de discos nas lojas e foi responsável pela primeira oportunidade de bandas como Adolescents, Agent Orange, TSOL, Shattered Faith, The Nuns, Black Flag, Channel 3, UXA, entre outras. Outras coletâneas da Posh Boy que ficaram famosas foram os três volumes da Rodney On The ROQ, especialmente o primeiro, que tinha, entre outras, faixas clássicas do Agent Orange (Bloodstains), Adolescents (Amoeba) e Black Flag (No Values) . Rodney é Rodney Bingenheimer, radialista que até apresenta um programa na rádio KROQ, de Pasadena, no ar desde 1976!
No entanto, apesar da evidente importância da Posh Boy, a relação de Fields com as bandas não era tão amigável e tretas devido a pagamentos (ou suposta falta de) de royalties eram constantes. Grupos como Shattered Faith, Social Distortion e TSOL chegaram a processar Robbie Fields.
A fase de ouro do selo durou até 1982, período em que lançou perto de 200 discos entre LPs, compactos e coletâneas. Mas Robbie era apaixonado por música e, aparentemente, um péssimo administrador. Endividada, a Posh Boy ficou quatro anos sem lançar nada. Em 88, voltou à ativa com seis LPs, mas não vingou. A última tentativa de Robbie em ressuscitar o selo foi em 94/95, mas, sem sucesso, desisitiu. Atualmente, mora na África do Sul e a Posh Boy, que ainda detém as matrizes de centenas de discos, vive do licenciamento dos mesmos. Vale a pena visitar o site (http://www.poshboy.com)

Recentemente, Robbie Fields relançou vários discos em formato digital pela Amazon.com. Acesse aqui página da Posh Boy

Robbie Fields (esq) e Rodney Bingenheimer, na capa do fanzine Flip Side especial
que acompanhou a primeira edição da coletânea Rodney On The Roq

7 de jan de 2009

RON ASHETON (17/6/1948 - 6/1/2009)

O mundo da música foi pego de surpresa ontem com a morte de Ronald Asheton, um guitarrista que não só escreveu seu nome na história do rock, como também ajudou a escrever uma outra história: a do punk rock. Sua trajetória com os Stooges é bem conhecida e hoje está em quase todos os sites de notícias. Seria terrivelmente redundante colocá-la aqui também.
A primeira música do Stooges que ouvi foi 1970, dentro do Construção, um salão de rock situado na Vila Mazzei, zona norte de São Paulo. Lá dentro o som era alto, muito alto. O riff ficou ecoando em minha cabeça por uns três dias seguidos. Tentei comprar o disco, mas era impossível achá-lo, já que só havia importado. Além de ser muito caro, caso o encontrasse. Consegui gravá-lo com um amigo e nunca mais fui o mesmo. Uma a uma as músicas chapavam minha cabeça, então com uns 14 ou 15 anos. Para mim, um disco eternamente atual e impossível de superar.
O primeiro LP do Stooges, de 1969, foi pioneiro, um clássico, mas Fun House é mais que isso, é uma gema rara e única. Claro que Iggy tem uma grande parcela do mérito, mas ninguém duvida que foi Ron o criador da maioria dos riffs, além de ter um estilo muito a frente de seu tempo. Ron não tocava apenas a guitarra, usava o amplificador também como um instrumento.
Uma grande perda. E, embora eu não tenha gostado do novo disco do Stooges, uma pena que Ron tenha passado justamente depois do retorno da banda, algo que ele deixou claro em muitas entrevistas que o fazia muito feliz. Descanse em paz, amigo.

Como todo mundo tem os discos do Stooges (se não tem, morra meu chapa), vou colocar aqui duas preciosidades de Ron. Uma é o álbum do THE NEW ORDER, banda formada após o fim dos Stooges que contava ainda com o batera Dennis Thompson (ex-MC5), o baixista Jimmy Recca (segundo guitarrista do Stooges no álbum Raw Power), além do guitarrista Ray Gunn, o tecladista Scott Thurston e o vocalista Jeff Spry. A outra é o discaço do DESTROY ALL MONSTERS, banda em que Ron participou entre os anos de 78 e 85 (com algumas interrupções) e lançou três compactos, reunidos em um só arquivo. O grupo contava ainda com a vocalista Niagara, o baixista Michael Davis (ex-MC5) e o batera Roger Miller (futuro Mission of Burma).
Baixe Declaration of War do THE NEW ORDER e Bored do DESTROY ALL MONSTERS.

6 de jan de 2009

Revolução dentro da revolução


Yes that’s right, punk is dead,
it’s just another cheap product for the consumer’s head
Bubblegum rock on plastic transistors,
schoolboy sedition backed by big time promoters
CBS promote the Clash,
but it ain’t for revolution, it’s just for cash
Punk became a fashion just like hippy used to be
and it ain’t got a thing to do with you or me
Movements are systems and systems kill
Movements are expressions of the public will
Punk became a movement cos we all felt lost,
but the leaders sold out and now we all pay the cost
Punk narcisism was a social napalm,
Steve Jones started doing real harm
Preaching revolution, anarchy and change
As he sucked from the system that had given him his name
Well, I’m tired of looking through shit stained glass,
tired of staring up a superstar’s arse,
I’ve got an arse and crap and a name,
I’m just waiting for my fifteen minutes fame
Steve Jones you’re napalm,
if you’re so pretty why do you smarm?
Patti Smith, you’re napalm,
you write with you’re hand but it’s Rimbaud’s arm
And me, yes, I, do I want to burn?
Is there something I can learn?
Do I need a business man to promote my angle?
Can I resist the carrots that fame and fortune dangle?
I see the velvet zippies in their bondage gear,
the social elite with safetypins in their ear,
I watch and understand that it don’t mean a thing,
the scorpions might attack, but the system’s stole the sting
PUNK IS DEAD
PUNK IS DEAD
PUNK IS DEAD


A letra acima é de uma das músicas do LP The Feeding of the 5.000 do CRASS, a primeira banda anarco-punk do mundo. Ela traduz o sentimento que levou o grupo fundado por Steve Ignorant (Steve Williams) e Penny Rimbaud (Jerry Ratter), em 1977, a radicalizar e mudar totalmente os rumos do punk rock inglês. Como 99% das bandas da época o CRASS começou com a mensagem deflagrada pelos ícones punks de 76/77. Steve era um grande fã do Clash. Mas não demorou muito para perceberem que as coisas não eram bem assim. Depois do turbilhão e de toda a agitação da mídia, os próprios propagadores da revolução começavam a seguir a trilha cavada pelas estrelas do rock que tanto criticaram. As palavras proferidas no palco eram esquecidas nas ruas. O Crass não só era contra isso, como passou a vivenciar a mensagem libertária que os ícones da primeira onda punk lançaram mas não colocaram em prática.
Muito mais que um grupo musical, o Crass era um conceito e pode ser considerado a pedra fundamental do punk como é conhecido hoje. Os primeiros passos do grupo foram dados com Rimbaud, um dos membros fundadores da Dial House, um squat situado em Essex, sudeste da Inglaterra, e Steve, frequentador do local, que começaram a fazer músicas apenas com vocal e bateria. Os ensaios da dupla, obviamente abertos a todos, sempre acabavam com a participação de muita gente e em grandes bebedeiras. Aos poucos alguns componentes tornaram-se fixos e a formação se consolidou com as vocalistas Joy De Vivre e Eve Libertine (além de Steve), o baixista Pete Wright, os guitarristas N. A. Palmer e Steve Herman (logo substituído por Phil Free) e Rimbaud na bateria. Depois que o grupo começou a levar-se mais a sério, também tiveram papel fundamental o artista gráfico Gee Vaucher, que ocasionalmente ainda assumia os teclados, mais o cinegrafista e videomaker Mick Duffield. O engenheiro de som, John Loder, também era considerado um membro do grupo.
As primeiras apresentações eram puro caos e ninguém tocava porra nenhuma. Nessa época fizeram alguns shows com o UK Subs, aos quais Eve Libertine costuma lembrar como apresentações em que “o público dos Subs era o Crass e o do Crass, os Subs”.
Mas foi uma apresentação no lendário Roxy Club que começou a mudar os rumos da banda. Completamente chapados e sem condições de tocar, além da atitude anticomercial, acabaram expulsos do palco. Após o incidente decidiram levar-se mais a sério. Começava aí a nascer o anarco-punk. Adotaram o negro como cor única das roupas e criaram um logo que passaram a usar em grandes banners feitos à mão. Mas o principal é que se aprofundaram na ideologia política e decidiram romper de vez com os estereótipos do mundo do rock’n’roll. Tomaram o conceito faça você mesmo ao pé da letra, passaram a produzir seus próprios discos e organizar shows beneficentes, nos quais distribuíam panfletos em que divulgavam suas idéias e ideais. Criaram um símbolo próprio, mas também podem ser considerados como responsáveis pela popularização do A dentro do círculo, que antes de eles divulgarem em pixações e panfletos aparecia apenas em alguns pouco livros anarquistas. Em pouco tempo o A tomou conta da cena punk e tornou-se o principal símbolo do “movimento”.
Enquanto os primeiros punks tinham anarquia como sinônimo de caos, o Crass a considerava como um ideal político, mas a forma de luta para atingi-lo era a resistência pacífica. A única arma que admitiam era a arte, traduzida por música, poesia, grafismos e filmes. Contraditoriamente, pregavam a paz através de música agressiva. O primeiro LP, The Feeding of 5.000, de 1978, já saiu com uma polêmica e foi um cartão de apresentação da banda à Scotland Yard. O motivo? A letra de Asylum, considerada uma blasfêmia:

I am no feeble Christ not me/ He hangs in glib delight upon his cross, above my body/ Christ forgive/ FORGIVE? I vomit for you Jesu/ Shit forgive/ Down now from your cross/ Down now from your papal heights, from that churlish suicide, petulant child/ Down from those pious heights, royal flag bearer, goat, billy/ I vomit for you/ Forgive? Shit he forgives/ He hangs in crucified delight nailed to the extend of his vision, his cross, his manhood, violence, guilt, sin/ He would nail my body upon his cross, suicide visionary, death reveller, rake, rapist, lifefucker, Jesu, earthmover, Christus, gravedigger, you dug the pits of Auschwitz, the soil of Treblinka is your guilt, your sin, master, master of gore, enigma/ You carry the standard of your oppression/ Enola is your gaiety/ The bodies of Hiroshima are your delight the nails are your only trinity, hold them in your corpsey gracelessness, the image I have had to suffer/ The cross is the virgin body of womenhood that you defile/ You nail yourself to your own sin/ Lamearse Jesus calls me sister there are no words for my contempt, every woman is a cross in is filthy theology, in his arrogant delight/ He turns his back upon me in his fear, he dare not face me/ Fearfucker/ Share nothing you Christ, sterile, impotent, fucklove prophet of death/ You are the ultimate pornography, in your cuntfear, cockfear, manfear, womanfear, unfair, warfare, warfare, warfare, warfare, warfare, warfare, warfare, warfare/ JESUS DIED FOR IS OWN SINS, NOT MINE.

O fato é que a empresa encarregada de prensar os discos, que seria lançado pela independente Small Wonder Records, recusou-se a fazê-lo com tal letra. A solução encontrada pela banda foi fazer o disco com uma faixa de dois minutos de silêncio, a que deram o título The Sound of the Free Speech. Além disso, decidiram fundar a Crass Records para lançar seus próprios discos. O primeiro, obviamente, um single com a polêmica Asylum e Shaved Woman. Mais tarde, relançaram Feeding.... com a dita cuja em lugar do silêncio. Não demorou a surgirem os problemas. Protestos de entidades conservadoras levaram a polícia e outros órgãos responsáveis pela moralidade pública a recolherem o compacto das lojas e a iniciar uma sistemática perseguição aos membros do grupo, que persiste até hoje (!).
Em 1979 lançaram o segundo LP, Stations of the Crass, que se tornaria o disco mais vendido deles e que daria condições ao grupo de realizar inúmeras ações políticas além de poderem colocar em prática o projeto de lançar outros grupos que compartilhassem a ideologia anarquista. Ou seja, o Crass cresceu, a idéia que à primeira vista parecia quixotesca começava a adquirir proporções gigantescas e realmente a incomodar, inclusive a imprensa do Reino Unido, um dos alvos constantes da banda. Apesar de não dar para analisar o Crass em termos unicamente musicais, Stations... é um grande disco, uma tijolada. Não é música convencional, não é agradável em nenhum sentido e incomoda. Como deve ser um disco punk.
O terceiro LP, Penis Envy, de 1981, foi uma resposta às críticas de que eram machistas. O que, absolutamente, não precedia. Na bolacha, apenas as vocalistas Joy e Eve cantam, enquanto Steve aparece nos créditos como elemento, mas não participante da obra, um verdadeiro manifesto feminista, mas sem deixar de lado outras instituições repressoras da individualidade e da sexualidade. Musicalmente também o grupo passou a colocar elementos dadaístas, já presentes na arte gráfica e nos filmes que apresentavam em telões nos shows. Ainda punk, mas cada vez menos rock.
Pouco mais de um ano após Penis Envy, saiu o duplo Christ, the Album. No entanto, a idéia de fazer um trabalho mais conceitual, um pouco mais elaborado que os anteriores, mostrou-se um erro. Christ levou um ano todo para ser gravado, período durante o qual começou e terminou a Guerra das Malvinas. Quando chegou às lojas, as mensagens do álbum soaram redundantes ante a uma outra realidade. Como bons libertários, assumiram que foi uma grande cagada ter demorado tanto na produção. Sentiram-se tartarugas correndo contra coelhos. Mais que isso, repensaram as novas estratégias adotadas e tentaram retomar o estilo dos primeiros anos, o que pode ser constatado nos compactos How does it feel to be the mother of a thousand dead e Sheep farming in the Falklands e no quinto LP, Yes Sir, I Will, todos vigorosos ataques a Thatcher e os responsáveis pela Guerra das Malvinas.
Estes discos motivaram uma perseguição pesada por parte do partido de Thatcher. Mas o encarregado de comandar a contra ofensiva, um tal de Tim Eggar, acabou ridicularizado pela banda em um programa de rádio ao vivo, no qual provaram, que ele era um completo idiota, que mal sabia do que se tratava as ações da banda. Depois disso o partido de Miss Thatcher recomendou que se ignorasse as ações do grupo para evitar novas saias justas.
1983 e 84 foram os anos politicamente mais agitados para o Crass, mas não por conta de nenhum disco e sim a uma fita sem uma nota musical sequer. Com um bom estúdio nas mãos, montaram uma fita com conversas comprometedoras entre Margareth Thatcher e Ronald Reagan. A fita, enviada anonimamente às redações da grande imprensa mundial, ficou conhecida como Thatchergate. Veja a transcrição da montagem:
Thatcher: ......own business!
Reagan: I urge restraint. It's absolutely essential or the area 'be "through the roof".
T: Look, our objectives are fundamentally different. Al Haig...
R: ....Secretary Haig....
T: ....doesn't seem to be able to find a solution.
R: Why eliminate "Belgrano"? You directed this. The Argentinians were then going.... Secretary Haig reached an agreement.
T: Argentina was the invader! Force has been used. It's been used now, punishing them as quickly as possible.
R: Oh, God, it's not right! You caused the "Sheffield" to have been hit. Those missiles we followed on screens. You must have too, and not let them know. What do you hope to gain?
T: What I said before -"Andrew"- ....As "cruise" go in, I want incentives at all levels....
R: There's a deal....a third more submarine ballistic missiles, and you will see that the United States forces remain deployed. The intermediate range missiles are U.S. defence. You proposed building them in Europe. Build up the economy. They don't work, they're social programmes.... The United Kingdom is a....er....little nation....
T: You still need those nations, and you're given long term international markets.
R: We are supported by our allies, whether they want, or not.
T: I, I don't understand you....
R: In conflict, we will launch missiles on allies for effective limitation of the Soviet Union.
T: 'mean over Germany?
R: Mrs Thatcher, if any country of ours endangered the position, we might bomb the "problem area", and correct the imbalance.
T: See, my....
R: It will convince the Soviets to listen. We demonstate our strength....The Soviets have little incentive to launch an attack. T: Our British people....
R: London! ....
T: I think....
R: Let that be understood...


O bizarro de tudo é que a CIA e a Scotland Yard analisaram o artefato e não demoraram a descobrir que era uma montagem, mas sem saber quem eram os “terroristas” que haviam feito o trabalho, não hesitaram em atribuir a autoria à KGB (ainda se vivia a Guerra Fria). Mas jornalistas do diário inglês The Observer, não se sabe como, foram mais espertos que a polícia e descobriram a verdade, que acabou ridicularizando a todos os envolvidos. Mais uma vez, a banda mostrava quanto eram imbecis os governantes. O incidente colocou os membros do Crass na grande mídia. Nenhum disco, nenhuma outra ação (e foram muitas ao longo dos sete anos de existência da banda) chamara tanto a atenção da sociedade. Mas o xis da questão não era discutido, todos queriam saber quem eram aqueles malucos, não o que eles denunciavam com suas ações. Sempre autocríticos, começaram a bater as dúvidas sobre a validade do que faziam. Afinal, tinham conseguido chamar a atenção, mas não para sua causa e sim para o Crass, o “grupo de rock Crass”. Sentiam-se como grandes estrelas de um espetáculo que criticavam. As contradições naturais da ideologia e do modo de vida e ação adotados por eles afloravam. E, como previram no início, acabariam se dissolvendo em 1984, ano do título do livro de George Orwell, um dos inspiradores do grupo. Chegava ao fim uma batalha de sete anos, mas o punk já não era mais o mesmo.
Apesar de longo, esse post é apenas uma introdução ao que foi o Crass. Vale a pena procurar saber mais sobre o grupo. O livro The Story of Crass, de George Berger (Omnibus Press) é o mais indicado. Infelizmente, somente importado. Mas uma busca na internet sobre a banda e sobre o anarco-punk leva a páginas interessantes, como uma entrevista ao fanzine No Class http://www.noclass.co.uk/crassinterview.html, de 1982 ou 83, eu acho.
Enquanto isso, curta os dois primeiros LP e os compactos. Baixe The Feeding of 5.000, Stations of the Crass e um arquivo em que reuni os singles do Crass.


CRASS FACTS
  • O primeiro nome da banda, ainda embrionária, foi Stormtrooper. O nome Crass foi tirado da música Ziggy Stardust, de David Bowie (The kids was just crass....).
  • Como usavam pouquíssima iluminação, o que dificultava fazer fotos e filmes das apresentações do grupo, não há muitas imagens dos shows do Crass disponíveis.
  • Em 1979 apresentaram-se no festival Rock Against the Racism e receberam um cachê polpudo. Recusaram e pediram para os organizadores usarem a verba para a causa. Mas a organização explicou que o dinheiro arrecadado era para as bandas, a “causa” era apenas um pretexto e restringia-se ao palco. Nunca mais voltaram, claro.
  • Uma das ações mais interessantes do grupo aconteceu em 1983, quando conseguiram que funcionários da Rough Trade, simpatizantes da causa, distribuíssem 20.000 flexi discs com a música Sheep Farming in the Falklands dentro de discos mais comerciais. Assim, pessoas que normalmente não ouviriam o Crass poderiam conhecer pelo menos uma música e algumas idéias do grupo.
  • Um dos lançamentos da Crass Records foi o grupo islandês Kukl, que tinha como vocalista uma tal de Björk.
  • O grupo participou ativamente do movimento “Stop the City”, em 83 e 84. Trataram-se de ações do Greenpeace, na época ainda não tão famoso e muito mais radical, que pretendiam parar Londres por 24 horas para realizar protestos contra atos do governo inglês e norte-americano. Estes movimentos são considerados precursores dos atos antiglobalização.
  • Após o final da banda, Steve Ignorant juntou-se ao Conflict, uma das melhores bandas hardcore dos anos 80. Depois formou o Schwartzeneggar e também participou do Stratford Mercenaires. Eve Libertine gravou alguns discos ao lado de seu filho, o guitarrista Nemo Jones, e realiza performances sob o nome A-Soma. Pete Wright fundou um grupo de performances artísticas chamado Judas 2. Rimbaud ainda compõe e apresenta-se como artista solo e faz colaborações, a maioria, com músicos de jazz. Palmer, o primeiro a deixar o grupo em 84, retomou os estudos e saiu de cena. John Loder manteve o Southern Studio em atividade e morreu em 2005, em consequência de um tumor cerebral. Os demais membros, não consegui saber por onde andam, se alguém souber fique à vontade para comentar.