22/01/2009

Is This Real? Or just an illusion?


Concebido em 1977 pelo guitarrista e vocalista Greg Sage, THE WIPERS, sem exageros, está entre as melhores bandas da história do punk rock. Poucos grupos punks criaram um estilo tão próprio. E por que uma banda tão talentosa, com pelo menos um LP no rol dos dez melhores de todos os tempos, não ganhou fama e fortuna? A resposta é simples: por que Sage também é um dos caras mais autênticos em termos de conduta e princípios. Avesso a badalações e a qualquer tipo de auto-promoção, acreditava que as pessoas poderiam ouvir e entender o Wipers mais profundamente se não associassem a banda aos estereótipos tradicionais do circo do rock'n'roll e, (por que não?) do punk também.
A idéia original de Sage era fazer uma banda para gravar 15 LPs em 10 anos, sem fazer tours ou qualquer tipo de promoção. Isso também manteria a imprensa longe da banda. "I looked at music as art rather than entertainment. With that concept in mind I thought music was personal to the listener rather than a commodity", explica no site oficial da banda (clique aqui para acessar). Leia a entrevista toda, vale a pena.
Apesar de ser considerado punk desde o início - evidentemente pela agressividade do som e pela atitude anticomercial - Sage jamais reivindicou qualquer rótulo para o grupo, mas também nunca se preocupou com isso. Ou seja, sempre cagou para o que diziam do Wipers. Para piorar as coisas para os rotuladores de plantão, o primeiro LP, Is This Real? (1979), é realmente um clássico com todas as características do que se convencionou chamar punk rock. Mas no segundo LP, Youth of America (1981), ainda que o som se mantivesse na mesma linha em termos de agressividade, Sage quebrou alguns tabus do punk rock, com músicas longas (a faixa-título tem exatos 10min27s) e uma guitarra bem trabalhada. E agora? Que porra é essa? Deviam ter pensado alguns críticos.
Tocar com um cara desses não deve ser lá muito fácil. Assim, o Wipers sempre foi um trio. No início, com Sage mais o baixista Dave Koupal e o batera Sam Henry. Essa formação foi responsável pelos dois primeiros singles, Better off Dead (1979), com quatro músicas gravadas em quatro canais, e Alien Boy (1980). O primeiro lançado pelo selo Trap Records, do próprio Sage, e o segundo, com a música-título mais três retiradas de uma demo tape, saiu sem a permissão da banda, pelo selo Park Ave.
Sage-Koupal-Henry gravaram também o LP Is This Real?, que jamais cansarei de dizer tratar-se de um clássico. Aliás, 12 clássicos. Nenhuma faixa é dispensável. Desde a abertura com Return of The Rat, no melhor estilo UK Subs, até a quase instropectiva Wait a Minute, não dá para ficar indiferente ao que toca. Gosto muito da batida de Up Front, que se fosse gravada por uma banda inglesa de Oi! tornaria-se hino. A faixa-título do LP e Tragedy são outras músicas de primeiríssima qualidade. E ainda tem D-7, regravada pelo Nirvana a exemplo de Return of the Rat (em 1991, Kurt Cobain financou o álbum 14 Songs for Greg Sage and The Wipers).
No segundo LP, Youth of America, o baixo ficou com Brad Davison - embora Koupal toque em algumas faixas - e a bateria com Brad Naish. O disco é bem mais lento, com seis faixas apenas. Mas nem por isso menos original e genial. Só que foge dos estereótipos do punk. Essa foi também a formação que apareceu no terceiro e último LP da primeira fase do Wipers, Over the Edge (1983), em que o grupo retoma o estilo do primeiro, mais punk e menos experimental, além de as letras terem adquirido um tom mais politizado. Clássico também.
Depois deste disco, o grupo deu um tempo e, em 1985, Sage lançou um LP solo (muito bom por sinal), Straight Ahead , em que só não toca bateria. Ainda nos anos 80, o Wipers lançaria mais três LPs - Land of the Lost (1986), Follow Blind (87) e The Circle (88) , todos de excelente qualidade (vale a pena procurar), embora já sem a genialidade dos três primeiros. Nestes discos Brad Naish deu lugar a Steve Plouf. No final da década de 80, o grupo foi dado como acabado, mas em 1993 ressurgiu com o LP Silver Sail, em que não há quase nenhum traço da banda, então cultuada. Três anos depois, o Wipers lançou mais um LP, chamado The Herd, neste sim, o grupo retoma a fúria e o peso dos anos 80. Já em 99, sai o que seria, segundo o próprio Sage, o último e ótimo disco do grupo: The Power in One. Portanto, Sage não conseguiu que o Wipers lançasse 15 LPs em 10 anos. Foram "apenas" nove em duas décadas. Mas, com os merecidos descontos, a missão foi cumprida.
Baixe o fantástico Is This Real e me diga se tenho ou não razão.

WIPERS FACTS
  • O envolvimento de Greg Sage com a música começou ainda na infância, já que seu pai trabalhava em uma fábrica de discos e ele acompanhava todo o processo de fabricação, pelo qual ficou fascinado, a ponto de passar horas observando em um microscópio os sulcos dos discos.
  • A partir do segundo LP, Sage usou sua experiência e obsessão por técnicas de gravação para produzir tudo o que o Wipers gravou e também seus discos solos, que aliás foram três: Straight Ahead (1985), Sacrifice (for love) (1991) e Electric Medicine (2002).
  • O baixista Brad Davidson, após deixar o grupo, mudou-se para Londres e já fez diversas colaborações com o Jesus & Mary Chain.
  • Em 2001, Sage, através de seu próprio selo, a Zeno Records, remasterizou (sozinho) os três primeiros LPs, adicionou diversas faixas bonus e lançou um box set com três CDs. A história da primeira fase da banda está toda nessa caixa. Sinceramente, prefiro os orginais, mais pesados.
  • A influência do Wipers nas bandas rotuladas como "grunge" é notável. Além de Cobain ser um fã declarado de Sage (inclusive no comportamento anti-star), outras bandas deste estilo gravaram músicas do Wipers, entre elas o Hole. Teve até gente que confundiu o grupo como parte da tal cena grunge...

9 comentários:

  1. Olá, li seu comentário sim. Desculpe não responder antes, acabei esquecendo mesmo... Obrigada pelo nosso link e pelo elogio, vou linkar você também no nosso e sempre dou uma passadinha por aqui... up the punx! :)

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  2. The Hairy Hands1/24/2009

    Essa é uma grande banda, porém de som difícil, não é muito fácil gostar de cara.
    Algumas músicas, principalmente Is This Real e Mystery se parecem muito com o Foo Fighters, não acha (claro que, no caso, é Foo Fighters que se parecem com eles)?

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  3. Acho que sou suspeito pra falar de Wipers, pq pra mim é uma banda incomparável. Como eu falei no texto, o povo grunge foi muito influenciado por eles. O LP Over the Edge (se vc não achar pra baixar dá um toque que eu tenho) tem umas faixas que é Nirvana puro (ou o contrário). Assim, Foo Fighters bebeu muito nessa fonte.
    Se vc achou o som difícil neste LP, nos outros (exceto Over the Edge) então, vai achar ainda mais. E acho legal isso, pq a cada audição descobre-se algo novo nas "entre-ondas" do som...
    Valeu o comentário meu camarada...

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  4. The Hairy Hands1/24/2009

    Eu tenho os 3 primeiros discos, os outros não conheço (uma vez escutei uma música de outro disco, que achei muito boa, mas não lembro o nome nem o ano). Sinceramente, gosto mais das "músicas Foo Fighters" do que das "músicas Nirvana". Mas é uma banda sui generis mesmo. Se fossemos fazer uma árvore genealógica do punk, acho que estaria naquele galho de onde brotou o Suicide Commandos, um pouco antes, e depois Mission of Burma, Moving Targets, Bullet Lavolta, entre outros, todas bandas excelentes.

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  5. The Hairy Hands1/24/2009

    Strongos,

    você que é das antigas, talvez possa me esclarecer uma dúvida (eu sou mais novo, só fui conhecer esse tal de panqueroque no final dos anos 80): bandas como o Wipers e o Mission of Burma eram conhecidas por aqui no começo dos anos 80?

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  6. Hairy, primeiro incluiria também Weirdos nessa "árvore". Bom, o Wipers ainda era um pouco conhecido pq chegaram algumas cópias dos dois primeiros LPs e de uma coletânea (não me lembro o nome) que tinha a faixa Return of the Rats. Como esses discos acabavam sendo reproduzidos em fitas cassetes, tinha sim um pessoal que conhecia a banda.
    Já o Mission of Burma passou batido. Lembro que eu comprei um compacto deles (Academy Fight Song/Max Ernst) na Wob Pop Discos, que eu vi pela primeira vez uns seis meses antes de adquirir (como ninguém comprou, os caras baixaram o preço, aí eu peguei).
    Na verdade, no começo dos anos 80, os punks não tinham dinheiro para omprar os discos que eram, na maioria, importados e bem caros. Assim, a maior parte não conhecia muito som, ficava mesmo na trilogia Ramones-Sex Pistols-Clash. No início também eram muito conhecidos Stiff Little Fingers e UK Subs. Depois Exploited, Discharge, Vice Squad e Dead Kennedys ficaram bem "populares".

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  7. The Hairy Hands1/25/2009

    Strongos,

    valeu pelas memórias! Sempre que puder, coloque alguma informação sobre a penetração das bandas postadas no universo punk brasileiro. Algumas bandas são meio óbvias, dá para identificar no som das bandas brasileiras, porém outras não são, principalmente aquelas que fogem do estereótipo punk/hardore.
    Saudações Anarquistas!

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  8. Um amigo havia me apresentado a banda há uns trtês anos atrás e foi paixão a primeira "ouvida". Is This Real é meu preferido.

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  9. Raphael, realmente Is this real é um grande disco. Tenho a impressão que se uma banda mais chegada à publicidade ou mais amiga da MTV fizesse uma obra desse quilate seria endeusada. Mas, enfim, isto é show-business e o Wipers foi na contra-mão da busca pela fama e o sucesso. Mas a consistência do trabalho deles é tão forte que soa atual e segue influenciando.
    Saudações anarquistas!

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