28/09/2008

Moleques atrevidos e mal educados

"We're the only band that can really relate to the kids, even the [Sex] Pistols... They're old enough to be our dads" (Andy Blade, vocalista)
"The Clash are good, but politics is boring" (Brian Chevette, guitarrista)
"I don't know anything about 'punk'. I was just asked to join a band called EATER and I did. I was wearing a ripped up t-shirt at the time. They said: 'You must be a punk' and I said, 'oh yeah'. I read about it in the papers and I just joined 'em". (Dee Generate, baterista)
"I like playing fast music and I can play fast music for EATER and that's why I'm playing. I'm not playing for people to look at me". (Ian Woodcock, baixista)
"I'd had really like people to go and blow up schools. Turn on their parents and slash'em up with razor blades". (Andy B.)
As frases acima são de integrantes do EATER, publicadas em 1976 pelo fanzine inglês Sniffin' Glue. Essa é a maneira mais fácil que encontrei para apresentar uma das bandas mais polêmicas da cena punk inglesa de 76/77. Com idade entre 14 e 16 anos, os moleques não se intimidavam em soltar o verbo. Irresponsáveis, mas competentes no "ofício", faziam um rock básico, cru, pesado, sem compromisso e com letras agressivas. Punk. Hoje, certamente seriam acusados de machistas e politicamente incorretos. Talvez até de nazistas, nacionalistas e outros "istas" mais. Mas eram apenas irresponsáveis. Talvez, por isso, também não foram levados muito a sério e não tenham alcançado a fama que alguns de seus conterrâneos/contemporâneos conseguiram fazendo o mesmo que eles. A letra de Get Raped, uma "homenagem" a uma ex-namorada de Andy, é um exemplo disso:
I don't wanna see you no more
'cuz you're just a scabby whore
You know I really hate your guts
Go and join all the other sluts

Why don't you get raped
Why don't you get raped
Why don't you get raped
Go and get fucked

You make me sick,
and you make me ill
You think you're a shagrat,
'cuz you're on the pill,
you're not, no you're not

Why don't you get raped
Why don't you get raped
Why don't you get raped
Go and get fucked

I've seen you with a million other guys
Can see right thru' your stupid disguise
From the back of my throat
You bring up the bile
Baby, I know, you're so vile

Why don't you get raped
Why don't you get raped
Why don't you get raped
Go and get fucked

O EATER foi formado em 1976 com Andy Blade (nome verdadeiro: Ashie Radwan) na guitarra e vocal; Brian Chevette (Brian Haddock) na guitarra e Social Demise (Lufti Radwan, irmão de Andy) na bateria. Ainda no mesmo ano, Social Demise desistiu da empreitada e foi substituído por Dee Generate (Roger Bullen), enquanto Ian Woodcock passou a ser o baixista e Andy desisitiu da guitarra. O nome foi inspirado pela última frase da letra de Sun Eye (Tyrannosaurus Rex, The eater of cars), música do T.Rex, maior influência de Andy.
Mas a grande curiosidade é que Andy e Brian "fundaram" o Eater sem que ele existisse. Espalharam na escola que tinham uma banda para impressionar as garotas. Com o tempo, a mentira cresceu e se viram obrigados a realmente montar o grupo. Sem dinheiro para comprar instrumentos, roubaram duas guitarras e um baixo de uma loja que ficava perto da casa de Andy. Depois disso é que Dee e Ian entraram no grupo.
Apesar de serem de Londres, o primeiro show foi em Manchester, no dia 26 de novembro de 76 e tiveram como banda de abertura o Buzzcocks! Em pouco tempo os garotos ficaram famosos e fizeram shows ao lado de vários grupos importantes da cena punk inglesa, como Damned, Slaughter and the Dogs, The Lurkers, Johnny Moped, Sham 69, Chelsea, Heartbreakers e outros.
O primeiro registro em vinil foram duas músicas ao vivo (Don't need it e Fifteen, uma cover acelerada e adaptada de Eighteen, de Alice Cooper) na coletânea Live at the Roxy. Pouco depois, assinaram com o selo independente The Label, que tinha como um dos donos Dave Goodman, produtor e engenheiro de som da primeira demo tape dos Sex Pistols. O primeiro single, com Outside View e You foi lançado em 76 (considerado como o terceiro single punk inglês). Já em 77, mais um compacto é lançado com Thinking of the USA e Space Dreamin'. Após o segundo, a banda dispensou Dee Generate e Phil Rowland o substituiria nas gravações do primeiro e único LP do grupo, chamado The Album, lançado em 1978. No mesmo ano sai mais um single com Lock it up e Jeepster, uma cover do T.Rex. Este compacto tem uma particularidade: é de 12" com as mesmas músicas dos dois lados, em ordem invertida.
Já no início de 79 sai um dos discos que mais ouvi em minha vida: o compacto Get your yo yo's out, com quatro músicas ao vivo (Debutante's Ball, No More, Thinking of the USA e Holland). O último disco lançado pela banda foi o single What She Wants What She Need/Reach for the Sky. Depois disso, com a dispersão da cena punk e cansados de dois anos seguidos de loucuras, o grupo chegava ao final. No pouco tempo que existiram, mesmo sendo apenas garotos, conseguiram alguns feitos, como ter sido a primeira banda punk inglesa a tocar fora da Inglaterra (na Bélgica). Em minha opinião, uma das melhores e mais subvalorizadas bandas da época. Mas deixaram um bom legado. Confira o CD All of Eater, que contém o LP e os compactos.
EATER Facts
  • O fato de Dee Generate ter apenas 14 anos quando começou a tocar com o EATER criou situações curiosas. Uma delas é que a mãe do garoto foi bastante procurada pela imprensa para falar sobre como era ter um filho daquela idade em uma banda punk (na época, a sociedade inglesa estava chocada com o que acontecia). A mãe dele, uma ex-hippie, adorou ter os holofotes voltados para si e aceitava falar sobre o asunto em diversos programas de TV. Claro que Dee sentia-se constrangido.
  • O EATER saiu na revista Oh! Boy, publicação semelhante, no Brasil, à Capricho e a Toda Teen atuais. A matéria passou uma imagem equivocada do grupo. Segundo Dee Generate, ele teria sido ludibriado por uma das repórteres da revista, que usou a única foto em que eles saíram sorrindo.
  • Dee Generate foi apresentado a eles por nada menos que Rat Scabies, baterista do Damned e vizinho do garoto. Já o baixista Ian apareceu após atender um anúncio da banda no Melody Maker. Com 17 anos, era o "tiozão" da banda.
  • Após ser despedido do EATER, Dee tentou mas não conseguiu tocar em nenhum grupo e desisitiu da música. Formou-se m Artes e atualmente é assistente social.
  • Andy Blade manteve-se ligado ao mundo da música. Logo após o fim do EATER gravou um single com Bryan James, ex-Damned, com as músicas Lying Again To Me e Death, que acabaram incluídas em uma coletânea chamada Complete Eater, erroneamente creditadas ao grupo. Ele também lançou pelo menos dois discos solos (From Planet Pop to the Mental Shop e Treasure Here). Mas sua grande "obra" pós-EATER é o livro The Secret Life of a Teenage Punk Rocker, um verdadeiro documentário sobre os primeiros anos do punk rock na Inglaterra.
  • A participação da banda no filme Punk Rock Movie de Don Letts ficou marcada por terem levado uma cabeça de porco para o palco durante a música No Brain. No final da apresentação, Andy e Dee tentam arrebentar a cabeça com uma faca e uma machadinha, não conseguem e Brian atira a peça na platéia.
  • Depois do EATER, Ian Woodcock teve uma rápida passagem pelo Vibrators e, mais tarde, tornou-se executivo da Puma no Oriente. Phil Rowland montou o Studio Sweethearts com ex-integrantes do Slaughter and the Dogs, tornando-se baterista deste último quando tiveram um breve retorno nos anos 80 e gravaram o LP Bite Back. Depois desistiu da música e mudou-se para os EUA. Brian Chevette, por sua vez, ficou fora de tudo até o recente retorno do EATER.
  • O recente retorno do EATER, coincidentemente na mesma época do "renascimento" dos Sex Pistols, é assunto para um futuro post, por hora chega ....

27/09/2008

Outsiders entre os outsiders

Na grande leva de bandas surgidas entre 1976 e 77, muitas acabaram injustiçadas, esquecidas, apesar de fazerem um som melhor que outras, idolatradas e reconhecidas pela mídia. The Outsiders é uma delas. Formado em 76 por três amigos de escola – o guitarrista e vocalista Adrian Borland, o baixista Bob Lawrence e o baterista Adrian Janes – o grupo foi um dos mais ativos na cena punk londrina daqueles anos. O LP de estréia deles, Calling on Youth, além de ser muito bom, uma verdadeira gema, é histórico: foi o primeiro totalmente gravado, editado e lançado por um selo de propriedade de uma banda (Raw Edge Records), algo muito comum hoje, mas que nos anos 70 era uma atitude revolucionária. Até então, apenas Buzzcocks e Desperate Bicycles haviam se aventurado a lançar seus próprios discos, mas haviam feito apenas compactos. Alguns selos independentes também já começavam a surgir, mas nenhum pertencente às bandas.
Calling on Youth foi lançado em março de 77 com uma tiragem de apenas 1.000 cópias, tornando-se uma raridade. O detalhe é que os pais de Borland ajudaram a banda na empreitada, algo bastante incomum até nos tempos atuais. Antes de lançar a bolacha, o grupo já havia feito todo o circuito londrino, com freqüentes apresentações no Roxy e no Vortex, verdadeiros templos do punk rock. Mas havia algo no Outsiders que continha o entusiasmo dos punks pela banda: o visual. Assim como o Saints, eles sofreram um pouco por serem cabeludos. Para muitos, uma heresia! Mas o grupo recusava-se a cortar os cabelos. Recém saídos de um colégio tradicionalista, que não permitia cabelos longos, assim que se formaram, já com a idéia de montar a banda e antes de toda a “coisa” punk surgir, haviam comemorado bastante o fato de não precisarem mais freqüentar a cadeira do barbeiro. Assim, para eles, não fazia sentido cortar os cabelos justamente quando tinham liberdade para mantê-los como queriam.
Outra herança da boa formação escolar da banda eram as letras, bastante politizadas e bem elaboradas. A maioria escrita por Adrian Janes, assumidamente fã de John Lennon, enquanto Borland cuidava dos acordes. Na verdade, apesar do nome e do envolvimento com a cena punk, o Outsiders era formado por três garotos de classe média com boa educação. O baixista Bob Lawrence não só possuía uma coleção de discos de jazz e música erudita, como aprendera a tocar em um conservatório clássico! Apesar de fazer um som do caralho e impossível de não ser enquadrado como punk, esses detalhes incomodavam a imprensa musical inglesa, que esperava que todas as bandas punks se comportassem como os Sex Pistols, escrevessem letras com linguagem chula e fossem filhos de operários. Para piorar as coisas, no primeiro LP a banda incluiu algumas músicas com tons psicodélicos (influências "velvetianas" de Borland).
Independentemente das críticas sobre suas origens e das vendas fracas, os caras seguiram tocando e gravando. Logo depois do primeiro LP, ainda em 77, lançaram o compacto One to Infinity, com quatro faixas. O segundo LP, Close Up, foi gravado em 78, mas só sairia no início de 79. Mais elaborado e sombrio, porém ainda com uma pegada punk, o disco foi a confirmação de que a banda estava à frente de seu tempo. No entanto, antes mesmo do lançamento do disco, Lawrence deixou o grupo e foi substituído por Graham Bailey, que aparece na capa, apesar de não ter participado das gravações. Com essa formação o grupo fez poucos shows e o iminente fim se confirmaria com a saída de Adrian Janes.
Na verdade, pode-se dizer que o grupo entrou em uma nova fase, com novas idéias, nova formação e um novo som. Borland e Bailey (que passou a assinar Green) transformaram o Outsiders no The Sound, uma das melhores bandas da vertente que seria denominada pós-punk. O primeiro LP do Sound, Jeopardy, de 79, é um marco no gênero, apesar do pouco reconhecimento. Nada com que Borland não estivesse acostumado...
Baixe Vital Hours, uma coletânea com o melhor dos dois LP, mais as quatro músicas do compacto One to Infinity.

OUT FACTS

  • Durante uma das apresentações do Outsiders no Roxy, quando faziam uma cover de Raw Power, o próprio Igyy Pop subiu ao palco e cantou com o grupo. Uma honra e um fato que marcou bastante Borland, que tinha verdadeira obsessão por Stooges e Velvet Underground.
  • O grupo chegou a ter problemas com os seguidores do Sham 69, que os hostilizavam por serem cabeludos.
  • O Outsiders foi vencedor de um concurso de bandas realizado pela Stiff Records, um dos selos independentes pioneiros na cena punk. Mas a "vitória" não deu em nada e o segundo disco acabou sendo lançado no mesmo esquema do primeiro, totalmente independente e com divulgação mínima.
  • Consequences, uma das faixas do compacto One to Infinity, foi incluída na histórica coletânea Business as Unusual. Mas a banda não gostou nem um pouco, pois consideravam a faixa como a pior que haviam gravado.
  • Adrian Borland cometeu suicídio no dia 26 de abril de 1999, aos 41 anos, atirando-se sob um trem em Londres, próximo a estação de Wimbledon. Borland sofria problemas mentais desde 1987. Reclamava que ouvia vozes e tinha crises depressivas violentas. Um dia antes de suicidar-se teve de ser levado pela polícia para sua casa, depois de ser encontrado completamente fora de si em um restaurante. Apesar da crise, recusou qualquer intervenção médica, pois estava terminando um álbum solo (Destruction and Harmony). Prometeu a seus parentes que após finalizar o disco, procuraria tratamento. Mais um gênio incompreendido que se foi. Descanse em paz.

22/09/2008

O grito que saiu do gelo

Brasil e Finlândia são países opostos em quase tudo. As maiores e mais claras diferenças são o clima e a situação econômica. Por isso, é ainda mais difícil explicar o por quê, mas o punk finlandês é bastante afinado com o brasileiro. Tanto que hoje existe até banda finlandesa com nome e letras em português, no caso, o Força Macabra, que já andou excursionando e gravando por aqui. Mas discos de bandas finlandesas no Brasil não é novidade desde os anos 80. Um dos primeiros singles punk independente lançado aqui foi Rajoitettu Ydinsota, do Rattus, que teve lançados ainda os LP Uskonto on Vaara e Stolen Life, ambos pela extinta New Face Records (selo criado por mim e pelo Fábio, do Olho Seco, em 1985 ou 86). A New Face lançou também o LP Black God do Terveet Kadet. Os punks brasileiros pogaram muito também ao som de Lama, Kaaos e Riistetyt.
Mas quando esse intercâmbio fonográfico entre os punks de cá e de lá começou, a Finlândia já vivia sua segunda onda de bandas punks. A proximidade com a Inglaterra e, principalmente, a turnê escandinava do Sex Pistols em 77 (que não incluiu a Finlândia, mas passou pela Suécia, Noruega e Dinamarca), proporcionaram ao gelado país do Norte Europeu uma pequena cena punk já em 1977. As principais bandas deste início foram o Briard e Pelle Miljoona & N.U.S. Como o primeiro a gravar foi o Briard, é considerado o pioneiro do punk finlandês.
Formado em 1976 pelos irmãos Ilkka e Antti Hulkko, baixista e guitarrista, respectivamente, mais o vocalista Pete Malmi e o batera Seppo “Sidi” Vainio, o Briard começou com um som mais para rock’n’roll, com uma pegada estilo New York Dolls. E, ao contrário da maioria das bandas finlandesas, as letras do Briard eram em inglês, já que Pete vivera alguns anos na Inglaterra. O primeiro registro em vinil saiu já em 77: o single I Hate Ya/I Want Ya Back. A primeira é um punk básico e a segunda, quase uma balada, com a intenção de agradar um público ainda não acostumado com a agressividade do punk rock. Pudor que foi abandonado no segundo compacto, de 78, com Fuck the Army e Product of the TV Generation. O curioso deste disco é que o baixo ficou por conta de Timo Huovinen, já que Ilkka estava servindo o exército. Fuck the army two times!
No ano seguinte lançam mais dois compactos. O primeiro com uma cover de Chirpy Chirpy Cheep Cheep, do Middle of the Road, uma banda de garagem dos anos 60, e Superstars. Na sessão deste compacto gravaram também uma música chamada Anarchy in the U.K.K., uma crítica ao presidente finlandês da época, Urho Kaleva Kekkonen. No entanto, este som seria lançado apenas anos depois, quando fizeram uma coletânea póstuma. Ilkka continuava no exército e o baixo desta vez ficou a cargo de T.B. Widow, do The Widows, outra banda seminal nos primórdios do punk finlandês. O segundo compacto de 79 foi Rockin' on the Beach/Miss World, para mim o melhor, apesar de ser constantemente comparado com Ramones. Ilkka já estava livre da farda, mas agora a banda já não tinha mais um guitarrista fixo, uma vez que Antti Hulkko – já usando o nome Andy McCoy – deixara a banda para tocar com Pelle Miljoona. Neste disco, Luumu Kaikkonen toca no lado A e Nasty Suicide, no B. Era claro que a banda estava em derrocada e, quando Sidi trocou o grupo pelo Päät, o Briard deu o último suspiro.
Aliás, penúltimo, já que em 1983, Pete, McCoy e Ilkka (agora como Jan Vincent) recrutaram o baterista Mans Kullman e registraram o som do Briard no excelente LP Miss World e deram um final menos infeliz à história da primeira banda punk da Finlândia, que àquela altura já contava com uma das cenas mais ativas do globo.
Baixe aqui a coletânea dos compactos e aqui o LP Miss World.

BRIARD FACTS
  • Quando começaram, o grupo se chamava Philadelphia Mother Fuckers, mas logo viram que com um nome desses não teriam muito espaço. O nome Briard é uma referência à gravidez de uma cadela de estimação de Ilkka.
  • Logo após o “fim definitivo” do Briard, Andy McCoy e Nasty Suicide fundaram o Hanoi Rocks, talvez a banda de rock mais importante da Finlândia até hoje. A dupla também gravou um LP acústico sob o nome Suicide Twins. McCoy também é fundador do Cherry Bombz.
  • Seppo “Sidi” Vainio, além do Päät, tocou ainda com o Shadowplay e o Seitsemäs Maailma, que não deram em nada. Então dedicou-se aos estudos, tornando-se um acadêmico.
  • Andy McCoy esteve no Brasil em 1988, como guitarrista de Iggy Pop na turnê do LP Instinct, do vovô dos punks. Vi dois dos três shows. O cara (McCoy) era animal. Iggy, dispensa comentários.
  • Pete partiu para a carreira solo e lançou alguns compactos e um LP (Malmi), em 1981. Já em 1997, junto com McCoy, lançou um disco com o nome Briard Revisited, com Angela Nicoletti, esposa de McCoy, nos vocais. Pete Malmi morreu em 2007. Descanse em paz.

19/09/2008

Trio visionário

--> O Suicide Commandos é mais uma daquelas bandas que existiam antes que o termo “punk” fosse criado e já faziam um som que se encaixaria no estilo. Originário de Minneapolis (EUA), foi criado em 1974 pelos amigos Chris Osgood (guitarrista e vocalista), Steve Almaas (baixista) e Dave Ahl (baterista). Na época, costumavam denominar o som que faziam simplesmente “underground”. As palavras do próprio Osgood, publicadas no jornal Twin City Readers, de 8 de Julho de 1977, definem melhor o que era o Suicide Commandos: “juntamos o menor número de pessoas possível, que eram três, tentamos fazer o máximo de barulho que dava, do jeito mais agressivo e divertido que poderíamos. Não havia uma direção a seguir, um mapa, exceto fazer todo o caminho de volta a Eddie Cochran e o início do rock’n’roll. Nós procurávamos qualquer coisa que fosse absolutamente imediata e nem queríamos muito mais que isso”.
O primeiro registro em vinil do grupo, lançado em 1976, foi o compacto Emission Control, com três músicas: a do título, mais Cliche Ole e Monster Au-Go-Go. Nesse disco o som pode ser descrito como “proto punk”, ou seja, estava mais para um rock’n’roll básico do que punk propriamente. Mas com a explosão do punk logo ganharam fama e em 77 fizeram a abertura de um show do Ramones em St. Paul (a cidade gêmea de Minneapolis). Abriram também para Iggy Pop e Patti Smith. Neste mesmo ano excursionam por toda Costa Oeste, tocam no CBGB e lançam o segundo single com Match Miss Match e Mark He’s a Terror.
A essa altura já eram bastante famosos, assinam com a Blank, selo da major Mercury Records, e começam a preparar o primeiro LP, que sai em 78 com o título Make a Record. O disco, com 15 faixas, é considerado como um dos melhores do punk norte-americano pré-hardcore. Excelente, sem dúvida.
Ainda em 78, o tecladista Mark Goldstein junta-se ao trio, que abandona o “Suicide” do nome e tenta caminhar por um caminho mais pop. Não era a praia deles, então resolvem voltar a ser um trio, reassumem o Suicide e fazem alguns shows de despedida, para dar fim a uma história curta, mas intensa. Os shows finais foram gravados e lançados em vinil com o sugestivo título The Commandos Commit Suicide Dance Concert, primeiramente em um LP simples com 20 faixas e, depois, em um álbum duplo com mais 18 sons (também lançado em CD).
Baixe Make a Record, outra gema do punk norte-americano.

COMMANDOS FACTS
  • Os primeiros e últimos shows do Suicide Commandos foram realizados no Longhorn Bar, um lendário antro de roqueiros, punks e afins de Minneapolis.
  • Após o fim do SC, Steve Almaas formou o the Crackers e, mais tarde, o Beat Rodeo, ambos com estilo pop. Depois mudou-se para a Suécia, onde é professor, mas não abandonou a música e já gravou quatro discos solos.
  • No início da carreira, Chris Osgood trabalhava como agente de shows em uma produtora e quando clientes procuravam uma banda de rock para fazer shows em universidades ele oferecia os serviços do Suicide Commandos pela metade do preço das bandas da agência. Com isso, o SC conseguia muitos shows na região de Minneapolis-St Paul.
  • Em 77, a casa que eles ensaiavam foi condenada e devia ser demolida. O proprietário resolveu queimá-la e a banda aproveitou para gravar um clip, dirigido por Chuck Statler, um dos pioneiros do vídeo-clip, com o incêndio ao fundo. A música? Burn it down, claro.
  • O nome da banda foi inspirado em um filme B filipino, de 1962, chamado Suicide Commandoes. A pelícua, do desconhecidíssimo diretor Armando Garces, rende tributo aos "valorosos soldados" daquele país.
Obs: fotos dos integrantes separados por Michael Markos

12/09/2008

Santos demônios

Sempre defendo a idéia de que o punk rock é um fenômeno sem pátria, que aconteceu lenta e simultaneamente em diversos lugares até ser catalisado e viver um momento de explosão, na Inglaterra e nos EUA, entre 1976 e 77. Na época, a indústria fonográfica, "dona" da música, soube usar estratégias midiáticas eficientes para rotular, embalar e vender um “novo rock” que grasava nos subúrbios e nas garagens das grandes cidades do mundo todo. Um rock destituído de virtuosismo, inspirado em bandas dos anos 60, principalmente Stooges, MC5 e Velvet Underground. O The Saints é mais um elemento que sustenta essa teoria.
A história da banda começa em 1972, em Brisbane, Austrália, quando Chris Bailey e Ed Kuepper se conheceram na escola. Eram os únicos cabeludos. Como é de praxe, quando dois moleques roqueiros se conhecem, resolveram montar uma banda. O primeiro nome foi Kid Galahad & The Eternals, com Bailey nos vocais, Kuepper na guitarra e Ivor Hay no piano. Tocavam apenas covers e fizeram pouquíssimas apresentações. No início de 1974, adotam o nome The Saints (inspirados em gangues e bandas de garagem sessentistas) e começam a fazer suas próprias músicas. Nessa época, Hay tornara-se baixista. A primeira baterista foi Laurie "Mistery" Cuff, logo substituída por Jeffery Wegener. Este também não ficou muito tempo e Hay assumiu as baquetas para a entrada do baixista Doug Balmanno, que também não demorou a debandar. A essa altura, o grupo já organizava shows por conta própria e criara uma reputação, ainda que não fosse das melhores. Tinham poucos seguidores e eram considerados muito barulhentos, primitivos. Ainda em 75, Wegener deixa o grupo e Kym Bradshaw torna-se o novo baixista. É com essa formação que o The Saints ganharia fama (fortuna, não!).
Nessa época o grupo envia demo tapes para as gravadoras australianas. A maioria sequer dá resposta. Então, resolveram gravar um compacto por conta própria. Alugam duas horas em um estúdio chamado Bruce Windows e gravam as clássicas (aliás, superclássicas) I'm Stranded e No time, dois petardos para a época e ainda atualíssimas. O disco saiu com selo da própria banda, o Fatal Records, e foi ignorado pela mídia australiana. A indiferença local incentivou Bailey e Kuepper a enviarem diversas cópias do compacto para críticos musicais dos EUA e da Inglaterra. Era o meio do ano de 1976 e o hemisfério norte começava a esquentar com um tal punk rock. Os felizardos que receberam as cópias ficaram de cara. As críticas favoráveis fizeram com que "olheiros" da EMI na Inglaterra ordenassem à filial australiana que os contratassem imediatamente. Assim, já no início de 77, gravam o LP (I'm) Stranded, em minha opinião, um dos melhores de todos os tempos.
A mudança para a Inglaterra foi inevitável. Mas aí começaram os problemas. Apesar de agradarem musicalmente, a crítica detestou o visual e o comportamento da banda. Não se pareciam com punks (na verdade, não eram, não no sentido estético). Foram as primeiras vítimas de um patrulhamento, que ditava quem e o que era ou não punk. Mas eles pouco ligavam para as críticas, queriam apenas tocar um som, fazer shows, gravar discos. Tocaram a barca e fizeram uma turnê, ao lado dos Ramones e dos Talking Heads. Continuaram também a ser os mesmos caras que eram em Brisbane, recusaram-se a adotar o visual "sugerido" pela EMI (que já perdera os Pistols e tentava compreender e faturar em cima da onda punk). Não quiseram arrepiar os cabelos. Pelo contrário, Bailey deixou-os mais longos. Apesar de terem alcançado fama e saído de Brisbane graças à explosão punk, à qual tiveram seu nome associado, o The Saints não conseguia se ligar ao "movimento". Consideravam aquilo apenas uma grande jogada capitalista. Bailey declarou publicamente que, para ele, Generation X e Johnny Rotten, eram fabricados, nada autênticos. Paralelamente, críticos que desconheciam a história da banda taxavam o The Saints como "cópia" dos Ramones.
O segundo disco, Eternally Yours, gravado com mais tempo e melhor produzido, também não foi bem recebido pelos patrulheiros de plantão. Mas no disco, em Lost and found, Bailey já dava-lhes uma resposta antecipada: Ain't nobody tells me what to do now/I've heard all the lies and been promised the world/ No business man is going to use or confuse me/ 'Cause I ain't no puppet for his capital gain. Com uma sonoridade mais melódica, ainda que se mantivesse o peso e a agressividade, associada a elementos novos, como saxofones, harmônicas e cordas clássicas, Eternally Yours não foi instantaneamente compreendido. Outra mudança neste disco foi a troca de Bradshaw por Alasdair Ward. O LP acabou sendo um fracasso de vendas e a banda começava a implodir.
Antes de iniciarem as gravações de um terceiro LP, Bailey chegou a deixar o grupo, mas retornou e logo sairia Prehistoric Sounds, recheado de baladas. Um bom disco de rock, mas muito longe do punk. Logo começaram as discussões internas sobre o caminho a seguir: Kuepper buscava cada vez mais um som próximo do jazz-rock; Bailey, por sua vez, queria aprofundar-se no terreno do pop e das baladas. Enquanto isso, as fracas vendas desencorajaram a EMI a renovar o contrato. Era o fim da parceria e do Saints original. Desde então, Bailey tem lançado diversos discos com o nome da banda, sempre com formações diferentes. O Saints ainda existe, mas já não passam de fantasmas perto do vigor inicial. Se você ainda não tem (heresia!) baixe (I'm) Stranded, um dos melhores discos de punk e de rock de todos os tempos.

Saints facts
  • Spiral Scratch, do Buzzcocks, é considerado o primeiro single punk independente, mas I'm Stranded não só foi gravado, como lançado, alguns meses antes.
  • Boa parte das músicas do primeiro LP - e até algumas do segundo - foram compostas em 1974 e estão no CD The most primitive band in the world, que compila diversas demos da banda gravadas naquela época.
  • O LP (I'm) Stranded foi gravado em apenas dois dias.
  • Depois de sair do Saints, o baixista Kym Bradshaw foi um dos fundadores do Small Hours, grupo que chegou a colocar alguns compactos nas paradas inglesas.
  • Após o (teórico) fim do Saints, Ed Kuepper voltou para a Austrália e formou o Laughing Clowns. Atualmente é um dos guitarristas mais respeitados na Austrália, tendo gravado diversos discos solos. Recentemente, criou o The Aints, clara alusão à banda, com uma sonoridade bem parecida. Além disso, nos shows tocam músicas antigas do Saints.
  • Ivor Hay teve uma prápida passagem pelo Damned e depois formou o Tank.
  • Chris Bailey radicou-se em Amsterdam, onde toca o Saints. Atualmente, o grupo é um trio, com Bailey na guitarra e vocal, Pete Wilkinson na bateria e Caspar Wijnberg no baixo. O último lançamento da banda chamou-se Imperious Delirium, nada a ver com o Saints original, mas um bom disco.

04/09/2008

Camaradas, pero no mucho

Formado em 76 pelos irmãos Chip e Tony Kinman, o THE DILS foi uma das bandas mais ativas nos primórdios do cenário punk da Costa Oeste dos EUA. No início, era uma banda de rock de garagem, com quatro integrantes, mas depois que Chip e Tony assistiram um show do Damned, os rumos musicais e, principalmente, a atitude da banda mudaram. Cortaram os cabelos e passaram escrever letras politizadas, como I hate the rich, o que desagradou os outros dois integrantes: eram ricos! Então os irmãos Kinman recrutaram Andre Algover, roadie da banda, para a bateria. Chip (guitarra) e Tony (baixo) passaram a dividir os vocais. Com essa formação gravaram o primeiro single, em 77, com as músicas I Hate The Rich e You're Not Blank. Pouco depois do lançamento, Andre deixou o DILS para voltar a estudar. Em seu lugar entrou Randy McNally, que produziu o segundo single, no mesmo ano. O compacto recebeu o nome 198 seconds of the Dils, com a clássica Class War e Mr. Big no lado b. Mas Randy mexeu na equalização da gravação sem falar com os Kinman, que só perceberam as alterações quando o disco foi lançado. Demissão sumária, claro.
Ainda em 77, John Silvers, que adotou o apelido de John Dil, tal foi sua identificação com a banda, assumiu as baquetas. Curiosamente, essa formação foi a mais duradoura (um ano e meio) e a que mais shows fez, mas não chegou a entrar em estúdio. O terceiro disco sairia apenas em meados de 79 já com o batera Zippy Pinhead, que ficou com a banda apenas por três meses. Este último lançamento é um compacto duplo, não quatro faixas, mas dois vinis de 7", sendo um deles com apenas um lado gravado! A essa altura o DILS já buscava novas sonoridades, mais rock do que punk. Depois deste lançamento o grupo acabou. Após o fim da banda surgiram algumas gravações de shows que foram parar em discos, mas sem a qualidade de estúdio. A principal marca do DILS são as letras politizadas, com tendências socialistas. Em alguns shows, Chip usava uma camiseta estampada com a foice e o martelo, o que aproximou militantes comunistas do grupo. Mas eles nunca se filiaram a nenhum partido e a simpatia pelo comunismo acabou tão logo descobriram as atrocidades do regime soviético. O som, nos dois primeiros singles é o mais puro punk rock californiano, rápido e melódico, sem deixar de ser agressivo.


DILS FACTS
  • O DILS aparece (na verdade, há uma cena em que o som de fundo é a banda tocando) no filme Up in Smoke da dupla de maconheiros inveterados Cheech e Chong. A gravação foi feita no clube Whiskey e eles tocam You're not blank.
  • O grande objetivo do grupo era gravar um LP, por isso, recusaram alguns contratos, que propunham primeiro o lançamento de singles. Afinal, isso eles mesmos podiam produzir. Em 78, após abrirem um show de John Cale em San Francisco, o ex-Velvet Underground ficou impressionado com a versão deles pra What goes on e se propôs a produzir o sonhado LP. Infelizmente, isso jamais se concretizou e o mundo tem de se contentar com as poucas gravações que fizeram.
  • Após o final da banda, os irmãos Kinman formaram o Rank and File, banda que alguns críticos rotularam como "cow punk", ou seja, country music com a energia do punk rock. Já nos anos 90, criaram o Cowboy Nation, com a mesma pegada.
  • Com a onda de "reuniões" de bandas antigas, claro que o DILS recebeu vários convites. Mas os irmãos Kinman insistem em tocar apenas como Cowboy Nation. Honestos!
Baixe aqui os três compactos do DILS