21/11/2008

VIOLADORES DO SISTEMA D'ALÉM-MAR


Em Portugal também há punk. E como há! E por lá as primeiras bandas apareceram também em 77, obviamente como reverberação do terremoto que sacudia a Inglaterra. É bom dizer que Portugal nos anos 70 vivia uma situação muito diferente da atual. Até 1974 o país viveu sob uma ditadura instituída em 1926. Apesar de não ter sido tão sanguinário como um Stalin, o governo do ditador Antonio Oliveira Salazar, que durou de 1933 a 1968, deixou marcas profundas na sociedade portuguesa. Mesmo depois de sua morte, em 1970, a ditadura instituída por ele seguiu no comando com uma ideologia nacionalista e isolacionista. Enquanto boa pare da Europa caminhava a passos largos para uma modernidade social e tecnológica, além de um significativo avanço econômico, Portugal permanecia estagnado. A censura, como é de praxe nestes casos, comia solta. Mas o inevitável aconteceu em 1974, com a chamada Revolução dos Cravos, oficialmente vitoriosa em 25 de abril daquele ano. A deposição de uma das mais longas ditaduras da história enfim levava novos ventos ao país que um dia já havia sido um império.
Nesse contexto, o rock português da época era marcado por bandas bem comportadas, mais influenciadas pelo rock progressivo. Mas a partir do fim da censura, não demorou para também o rock da terrinha tomar outros rumos, mais contestadores. Os pioneiros do punk tuga são OS FAÍSCAS, que duraram apenas um ano e meio e não chegaram a gravar nada em estúdio, mas teriam servido de inspiração a outros grupos, como o AQUI D’EL ROCK, tema deste post. Outras bandas da época são UHF, MINAS & ARMADILHAS e XUTOS E PONTAPÉS. Ainda na primeira geração do punk português, mas já em 79/80, surgiram SPEEDS, GRUPO PARLAMENTAR, FM e TILT.
O AQUI D’EL ROCK começou a tocar efetivamente em 78, embora seus fundadores, o baterista Zé Serra e o baixista Fernando Gonçalves, tocassem juntos desde 1972 em outras bandas. Mas foi apenas após conhecerem o punk é que resolveram formar o AD’R, para o quê convocaram o guitarrista Alfredo Pereira, com quem tocavam em uma outra banda chamada OSIRIS, mais o guitarrista e vocalista Oscar Martins. Como no Brasil, os “músicos” punks portugueses não tinham dinheiro para comprar equipamentos e sofriam com as reclamações da vizinhança em relação aos ensaios, sempre realizados em garagens ou nos quintais. Assim mesmo, o AD’R consegui gravar um compacto, o primeiro registro vinílico de uma banda punk em Portugal, com duas faixas: Há que violentar o sistema e Quero tudo. Há que... trata-se de um clássico, com frases de efeito muito bem sacadas como “Agora ficou mal/de tanto mudar continua igual”. Além disso, tem guitarras poderosas e uma base baixo+bateria pesadíssima e bastante coesa. Sonzeira.
Com o disco na praça, a banda viveu uma fase intensa de concertos, apesar da falta de estrutura e do esquema amador de “produção”. A maior parte dos shows eram em festivais e com abertura de grupos estrangeiros, inclusive, em 79 , abriram para o Eddie & The Hot Rods, no primeiro show de uma banda punk internacional em solo português, realizado em Lisboa. Um pouco antes dessa apresentação haviam lançado o segundo compacto, com as faixas Eu não sei e (Dedicada) a quem nos rouba.
A postura altamente contestadora e o comportamento agressivo da banda e de seus seguidores criaram muitos problemas ao AD’R. Já no início de 80, o grupo sofre sua primeira mudança na formação, com a saída de Alfredo Pereira, substituído por Carlos Cabral. Um pouco mais tarde, o AD’R ganha um quinto elemento, o guitarrista e vocalista Alberto Barradas. Já com uma postura mais new wave e a vislumbrar novos horizontes musicais, deixam de ser AQUI D’EL ROCK e adotam o nome MAU-MAU. Era o fim de uma lenda, ficou a porrada no sistema português, violentado por mais de 50 anos...
Baixe os imperdíveis compactos do AQUI D’EL ROCK


AQUI D’EL FACTS
  • Como a grana era curta, Zé Serra e Fernando sofreram um bocado para adquirir seus instrumentos. O baixista teria construído ele próprio seu primeiro instrumento, uma guitarra. Já o baterista montou seu equipamento peça a peça, conforme ao dinheiro ia entrando.... O P.A. de voz foi comprado usado e servia também como amplificador. Uma realidade que as primeiras bandas punks do Brasil conheceram muito bem.
  • Em alguns festivais a banda era obrigada a repetir o repertório mais de uma vez, já que havia exigência de que ficassem no placo por um tempo mínimo e o set deles era curtíssimo.
  • Escalados para tocar na abertura de um show do Uriah Heep, tiveram a apresentação cancelada pois o vocalista da banda de hard rock reclamara que o ensaio do AD’R lhe provocara uma forte dor de cabeça. Uma flor o cara, pelo jeito.
  • A primeira audição do AD’R no Brasil, ocorreu em 1980, quando Kid Vinyl tocou Há que violentar o sistema em seu programa de rádio. Como alguns punks tinham o costume de gravar o programa, inclusive eu, o petardo foi bastante ouvido embora seja provável que apenas uma cópia do disco tenha atravessado o Atlântico.
  • Como MAU-MAU, lançaram apenas um compacto (Xangai/Vietsoul).
  • Recentemente, o grupo anunciou no Myspace estar à procura de músicos para o projeto AQUI D’EL ROCK II. A saga dos mortos-vivos continua....


6 comentários:

  1. Ô David! Fazia um bom tempo que não passava por aqui... a correria, já sabe, né? Mas, vou bater cartão de novo. Tá bão dimais!.. Bjs para ti e para a family. Inté!

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  2. Anônimo5/13/2009

    Os Aqui D el Rock foram na minha óptica a melhor banda de Punk Rock em Portugal!!!
    Ao contrário dos Faiscas que eram uns betinhos da Avenida de Roma mais tarde deram origem aos Corpo Diplomático que lançaram um Lp bastante interessante embora mais colado à New Wave.
    Há dois videos no youtube dos Aqui d´el rock um foi gravado pela RTP(televisão portuguesa)

    Um abraço de Portugal!

    Helder

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  3. Anônimo4/07/2010

    ADR eram uma excelente banda!!! Apenas isso. Desde que tentaram regressar apenas tentam aproveitar-se do nome e sucesso e fama do passado. Porque qualidade artistíca actual é zero!!!
    José Serra ainda gravou 4 temas com uma boa banda de punk e RnR de Portugal,os Clockwork Boys.
    Foram esses temas uma versão dos Undertones de teenage kicks,solta a cobra que há em ti,paulinho kascavel,e uma versão mais acelerada do clássico de ADR há que violentar o sistema,onde o baixista deles (Fernando Gonçalves) tbm fez backing vocals. JosÉ Serra e Oscar têm há algum tempo uma nova banda chamada Há Alma,que são horríveis por demais e nada têm haver com punk.

    mais info:

    www.myspace.com/zeserra

    www.myspace.com/haalma

    www.myspace.com/clockworkboys

    cumprimentos de além-mar

    Tony Montana

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  4. Grande post. Sempre quis conhecer mais sobre a banda, fiquei sabendo deles depois do cover de "Eu Não Sei" que o RDP tirou no Sistemados Pelo Crucifa.

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  5. Oscar nao te vejo ha uns anos. Continuo em moncarapacho. Liga me 917 999 899. Fernando nunes

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  6. Oscar nao te vejo ha uns anos. Continuo em moncarapacho. Liga me 917 999 899. Fernando nunes

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