29/08/2008

Bem vindos ao mundo punk

O Condutores de Cadáver é uma das três bandas pioneiras do punk rock no Brasil. As outras duas são Restos de Nada e AI-5. Tudo começou em 78, na zona norte de São Paulo, região da Vila Carolina e Santa Maria, próximas ao Bairro do Limão. Como acontecia em diversos bairros paulistanos daquela época, grupos de roqueiros (não gangues) reuniam-se aos finais de semana para ouvir som e beber (beber muito). Na turma da Carolina, já começava a surgir a idéia de montar bandas, uma delas era dos amigos Callegari, Hélio e Nelsinho Teco-Teco, que moravam na mesma rua. Por outro lado, algumas dessas turmas promoviam sons (de fita) em locais improvisados – algumas vezes rolava em quintais cobertos com lonas. Uma delas era “Os Ostrogodos”, que tinha entre seus integrantes Índio (se não me engano, o Fábio do Olho Seco também era dessa turma). Num dos sons os três amigos conversaram com ele sobre a banda. Surgia o NAI – Nós Acorrentados no Inferno, com Callegari na guitarra, Hélio no baixo, Nelsinho na bateria e Índio no vocal. Depois de alguns (poucos) ensaios o NAI fez sua estréia. O show, em conjunto com o Restos de Nada e o AI-5, aconteceu no Construção, salão que ficava na Vila Mazzei. O local era um dos poucos que tocava rock pesado e começava a abrir espaço para os punks. Mas a apresentação acabou sendo um desastre e eles resolveram mudar o nome da banda, com medo de que ninguém mais quisesse vê-los. Nascia então o Condutores de Cadáver, nome surgido a partir de uma letra de Índio, que falava sobre campos de concentração.
O “novo” grupo estreou em 79, já com Clemente no baixo. Com letras incomuns, longe do panfletarismo que predominaria na cena punk nacional nos anos 80, falando sobre mortos, cemitérios, carnificinas, “vivos que não viviam”, construíam um cenário tétrico e apolíptico, acusando a todos e recusando tudo. Tudo sustentado por uma potente parede sonora construída por Callegari, Hélio (depois, Clemente) e Nelsinho (depois, Marcelino), com uma guitarra distorcida ao máximo e acordes básicos de três cordas. Exatamente o que a molecada, já de saco cheio de ouvir rocks românticos e disco music, queria e precisava: punk rock visceral e autêntico.
O Condutores seguiu seu caminho no inexistente mercado para bandas desse estilo. Por isso, os shows eram raros e a chance de gravar um disco praticamente nula. Paralelamente, em 1981, o punk brasileiro começava a ganhar forma e crescia, ainda que muito modestamente em relação a países europeus e os EUA, que já viviam a “segunda onda”. Vislumbrando a chance de ocupar um espaço maior no emergente cenário punk paulistano, Clemente, influenciado pelo filme Rude Boys, do Clash, sugeriu novos rumos para a banda. Índio também, mas por outros caminhos: queria radicalizar ainda mais. No entanto, Callegari e Marcelino ficaram com Clemente e o Condutores chegava ao fim. No lugar de Índio, entrou Maurício e o nome mudou para Inocentes. Índio montou o Hino Mortal, que fazia um som hardcore, antes mesmo de existir o termo por aqui. Começava outra página da história do punk (e do) rock brasileiro. Sem ter realizado qualquer registro em vinil, o Condutores tornou-se uma banda lendária e assim permaneceu por 20 anos. Em 2001, porém, começava o justo resgate de quem plantou sementes poderosas e viu outros colherem frutos. Convidados a participar do festival “A um passo do fim do mundo”, que reuniu mais de 50 bandas em São Paulo, em dois dias, o Condutores ressurgia das cinzas. Com três membros da formação original – Índio, Callegari e Hélio – mais o baterista Babão, a banda fez um show memorável. A boa recepção do público incentivou o Condutores a gravar um compacto com quatro músicas (Alta Velocidade, Choque-choque-choque, Cemitérios de Concreto e Bem-vindos ao Novo Mundo). Até então, os únicos registros do som deles eram fitas cassete piratas, com gravações caseiras e ao vivo, editadas por pequenos selos europeus. O disco é uma raridade, pois foram prensadas apenas 500 cópias. Desde então, o grupo faz apresentações esporádicas e deve lançar em breve seu primeiro CD. Enquanto isso não acontece, baixe o EP Condutores de Cadáver, mas cinco músicas que estarão no CD, clicando no link abaixo:

http://www.mediafire.com/?229jtq59ytbutc5

Sons:
Bem-vindos ao novo mundo
Alta velocidade
Choque choque choque
Cemitérios de concreto
Futebol
Cavar seu túmulo
Condução para o inferno
Tão seco aniversário
Onde estão os vivos


Condutores Facts
  • Um dos shows lendários do Condutores aconteceu na Gruta, um dos primeiros redutos exclusivamente punk de São Paulo. Durante o show, a indiferença de alguns punks, sentados à beira do palco, de costas para a banda, irritou Índio que não teve dúvida: mijou nos caras!
  • Declarações do baixista Helinho sobre o show do Construção, ainda como NAI: "o show foi ruim de qualidade técnica e bom de empolgação. Chapei e me lembro de ter pulado como um cabrito. Acertei uma mina com o baixo e ela desmaiou no meio da platéia. Depois o namorado dela agradeceu dizendo que era uma chata. O Callegari mudou o nome da banda e me substituiu pelo Clemente. Se bem que me lembro de ter feito ao menos um ensaio como Condutores. Depois dessa fui montar o Cólera com o Redson."
  • Índio, provavelmente, foi o primeiro moicano brasileiro e, quando estreou o novo visual, ganhou de presente de Callegari uma machadinha (roubada da cozinha de sua mãe), que o fazia lembrar um apache, ameaçando o público. Callegari se arrependeria disso mais tarde, pois o instrumento tornou-se comum entre algumas gangues punks que começavam a surgir...
  • A maior influência do som do Condutores é o Speed Twins. Por coincidência, as duas bandas fizeram músicas criticando o futebol. Mas foi coincidência mesmo, já que Football Song do ST não estava no LP It's more fun to compete, que era o único vinil da banda holandesa conhecido por aqui...

10 comentários:

  1. Rafael8/29/2008

    Esses contos do punk brasuca são os mais legais!

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  2. Com certeza, Rafael! Vou postar mais histórias de bandas nacionais, aos poucos....
    Valeu meu camarada...

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  3. gran blog!
    saludos desde Chile ;)

    visit plz www.crucifiedforyoursins.blogspot.com

    Suerte!

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  4. Volto mais uma cez pra elogiar esse blog, p melhor blog em portugiês sobre punk rock.

    Strongos, gostaria de saber de você tem alguma informação sobre o La Manada (1979-1983), banda do arizona que tinha dois brasileiros, um norte-americano e um mexicano, o lendário Chip Ramirez na sua formação. As únicas informações que tenho deles é de um pequeno texto contido no relançamento de seus compactos, escrito por um tal de Pevê Meteiros....

    abraço!

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  5. Teen Trash, obrigado pelos elogios... Cara, realmente só ouvi falar do La Manada e já há bastante tempo, mas ainda não tive a oportunidade de conferir o som deles. Vou dar uma pesquisada, já que o assunto parece ser dos mais interessantes....
    Saudações anárquicas!

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  6. Anônimo9/26/2008

    Eu baixei o Condutores. Dá hora! Goto de ouvir essas histórias sobre os primórdios do punk brasileiro.

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  7. Anônimo9/26/2008

    Eu baixei o Condutores. Dá hora! Goto de ouvir essas histórias sobre os primórdios do punk brasileiro.

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  8. Olá anônimo, realmente há muita coisa engraçada (outras, nem tanto) sobre os primeiros anos do punk nacional. Quem viveu aquele momento sabe como era intensa a cena... Conforme for contando as histórias das bandas vão surgir mais histórias...
    Abcs

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  9. O link já está atualizado. Obrigado pelo aviso!

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