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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A lenda dos homens pássaros


A Austrália é o berço de algumas das melhores bandas de punk (The Saints) e rock (AC/DC) de todos os tempos. Este post é sobre o RADIO BIRDMAN, que pode ser enquadrado nos dois rótulos e também está na lista dos melhores. Trata-se de um grupo formado na década de 70 e bastante influenciado pelo rock de Detroit, ou seja, Stooges e MC5. É mais uma das trocentas bandas da época que faziam um rock pesado e cru, fora dos padrões hoje conhecidos como "mainstream" (nos anos 70 esse termo não era comum) e que foram rotuladas ou se assumiram como punks depois que o termo "explodiu" em 76.

Pré-história
A história do Radio Birdman começa em 1972, quando Deniz Tek, um americano natural de Ann Arbor (o fato de ser a mesma área em que surgiram Stooges e MC5 não é mera coincidência) migrou para a Austrália com a intenção de estudar medicina. Guitarrista de mão cheia, logo formou uma banda com amigos da faculdade, chamada Screaming White Hot Razor Blades. Eles faziam apenas covers de clássicos dos anos 60, principalmente Rolling Stones. Constantes mudanças na formação levaram o grupo a adotar outro nome: primeiro Cunning Stunts e depois T.V. Jones, já em 74. Com esse último nome, a banda chegou a gravar duas músicas para um compacto, que jamais foi lançado, pois por acidente a fita foi apagada! Uma das faixas era Snake, que mais tarde foi incorporada ao repertório do Radio Birdman e lançada no e.p. Burn My Eye. No mesmo ano, Deniz Tek foi despedido e logo a banda acabou.
Naquela época, uma outra banda, chamada The Rats, tocava em Sydney fazendo covers de Stooges, MC5, New York Dolls, Velvet Underground e outras do mesmo calbre. A identificação e aproximação das duas bandas foi natural. O vocalista do Rats, Rob Younger, logo se tornou amigo de Tek e ambos passaram a dividir uma casa. Pouco tempo depois de o TV Jones acabar o Rats seguiu o mesmo caminho. Foi ainda mais natural que os dois camaradas resolvessem formar um novo grupo. Para tal, chamaram o baterista Ron Keeley e o baixista Carl Rourke, que eram do The Rats e o tecladista Pip Hoyle, do TV Jones. Com essa formação, em novembro de 1974, nasceu uma lenda chamada Radio Birdman.

Dias de glória
No início continuaram fazendo as covers costumeiras, mas também introduziram várias composições próprias no repertório. E, aos poucos, passaram a definir uma identidade e postura mais original, mais agressiva no palco. Começaram a criar um público também agressivo e depois de várias aprsentações seguidas de alguma confusão (violência), os shows foram escasseando. Mesmo assim, eles resolveram manter a postura que mais tarde os aproximaria do punk. Ainda era 1975 e o Radio Birdman se convencia de que o caminho era tocar cada vez mais rápido e pesado, ainda que os donos dos pubs de Sydney insistissem para que maneirassem. Muitos barraram novas apresentações. Mas nem isso os convenceu a fazer concessões e o número de seguidores só aumentava. A fama de durões, loucos e barulhentos logo chamou a atenção de uma parte da mídia que já estava de olho na cena underground. Alguns artigos publicados pela (hoje lendária) RAM Magazine aumentaram a fama do grupo.
Só que na mesma proporção, o número de locais que os recusavam, crescia. Como não houvesse tantos bares e teatros em Sydney, não demorou e o Radio Birdman já nãotinha mais onde se apresentar. A solução foi tornarem-se residentes em um dos poucos espaços que ainda os aceitava, a Oxford Tavern. Paralelamente, Tek e Pip Hoyle chegavam ao quinto ano do curso de medicina, o que tornava o tempo de ambos bem escasso. A situação acabou por pbrigar o Radio Birdman a diminuir drasticamente o número de aparições ao vivo. Ruim por um lado, mas bom por outro, pois a cada vez que anunciavam um show, era considerado um evento. Garantia de casa cheia e, consequentemente, noites que entraram para a história do underground da maior cidade australiana.
A essa altura, metade de 1976, o Radio Birdman estava mais do que pronto para uma primeira experiência em estúdio. Gravaram quatro faixas que consituíram o compacto duplo Burn My Eye, vendido via correio através de um anúncio da RAM Magazine. Esgotou rapidamente e hoje é considerado um item raríssimo para colecionadores.
No início de 77, a Oxford Tavern quase foi demolida, mas o grupo se mobilizou para impedir o fi de um dos poucos locais e que ainda podiam tocar, que passou a ser chamado de Oxford Funhouse. Não só salvaram o espaço como o tornaram um dos points cruciais para o desenvolvimento de uma cena independente em Sydney. Centenas de bandas passaram pelo palco da Oxford Funhouse. Além disso, eles começaram a promover seus próprios shows em outros locais, sempre colocando grupos iniciantes para abrirem suas apresentaçõe. Ou seja, deram uma emenda força para que a cena independente de Sydney prosperasse. Entre os grupos que cresceram junto com eles, o Hellcats foi um dos melhores (farei um post sobre essa banda, em breve).

O voo da águia
Em junho de 77 finalmente é lançado Radios Appear, o primeiro álbum do grupo. Um clássico, que teria custado apenas sete mil dólares, uma bagatela em termos de produção. E, pelo resultado, esse custo fica praticamente zerado. Inicialmente Radios Appear foi vendido da mesma forma (via correio, através de anúncios na RAM) que o ep lançado no ano anterior. Mas logo algumas lojas se interessaram e a fama do disco correu o país. Depois de algumas semanas, a WEA australiana ofereceu um contrato para distribuir o petardo, que atingiu o 35º lugar na lista dos mais vendidos daquele ano.
Depois de várias mini-turnês nacionais, boas vendas de discos, músicas tocando direto em programas de rock e rádios alternativas, além de algumas aparições na tevê, o interesse das grandes companhias pelo grupo cresceu. Acabaram por assinar com a Sire Records, que já contratara o The Saints. De olho no mercado internacional, de cara, a gravadora preparou uma reedição de Radios Appear bastante modificada. Para esse lançamento, algumas músicas (New Race e Love Kills) foram totalmente regravadas, outras tiveram apenas os vocais regravados (Do the Pop e Descent Into the Maelstrom), outras ganharam piano (Murder City Nights) e novas mixagens. Assim, há duas versões de Radios Appear. Ambas explosivas, mas a primeira é mais "crua".

A queda
O passo seguinte, óbvio, seria uma turnê pelo Velho Continente. O que foi feito. E o que era para ser o grande salto, acabou em um grande fiasco e eles jamais retornaram ao lar como uma banda. A tour, chamada por eles de "Anglo Strike", começou em março de 78, com shows pequenos em Londres. Aconteceu com eles mais ou menos o que havia acontecido com o The Saints. Ser punk na Inglaterra naquela época, significava ter cabelos curtos e um visual de acordo com o padrão "Sex Pistols-The Clash-etc." (estranhamente o Ramones sempre foi exceção), o que absolutamente não era o caso deles e nem tinham essa intenção. Como resultado, não conseguiram emplacar entre os punks e também eram muito punks para o público roqueiro. Para tentar consertar, a Sire os colocou numa mini-turnê com o Flammin' Grooves, que não eram punks mas eram respeitados pelos punks. Nem assim deu. Apesar das performances enérgicas, poucos entenderam o Radio Birdman na Inglaterra e a gravadora (como sempre) não deu o menor apoio. Paralelamente, a tensão da convivência na estrada entre os membros do grupo começou a crescer e a tornar-se insustentável. Para piorar, uma prometida tour pelos EUA foi cancelada. Então Denis Tek e Pip Hoyle, com a desculpa que precisavam fazer residência e terminar seus cursos de medicina, retornaram a Austrália. Era o fim.

Herança
Mas durante a turnê, eles deram um pulo ao País de Gales e lá gravaram 18 músicas para um segundo LP. Com o fim da banda, a Sire adiou o lançamento do disco. Da Austrália, Tek tentou reaver a fita original e lançar o disco pelo menos em seu país. A gravadora embaçou, óbvio. Por alguns anos, Tek batalhou e recebia sempre a promessa de que no mês seguinte acertariam o lançamento. Até que parou de receber respostas. Cansado, pegou uma fita cassete que havia guardado e preservado, com 13 músicas da sessão, e resolveu lançar assim mesmo, com mais um lado B de um single solo que fizera (Alien Skies). Em 1981, finalmente é lançado Living Eyes, o segundo LP do Radio Birdman. Mutilado e a partir de uma fita cassete. Assim mesmo a qualidade é impressionante. Em 2005, finalmente, Living Eyes foi relançado a partir da gravação original, com 17 músicas. Nunca é tarde!
















Baixe aqui os LPs Radios Appear e Living Eyes

BIRDMAN'S FACTS
  • Durante sua existência, o "núcleo duro" da banda foi formado por Deniz Tek (guitarra), Rob Younger (vocal), Pip Hoyle (teclados) e Ron Keeley (bateria). Os quatro estiveram juntos do início ao fim. O segundo guitarrista, Chris Masuak, juntou-se ao grupo em 75 e também ficou até os últimos dias. No baixo, pasaram Carl Rourke, Chris Jones e Warwick Gilbert (que entrou em 74 como guitarrista, saiu, e retornou em 75 como baixista para não mais sair). Também acompanharam o grupo em diversos shows Mark Sisto, como backing vocals e Johnny Kannis, como MC e backing vocals.
  • Depois do fim, o Radio Birdman se reuniu diversas vezes para apresentações ao vivo. Deniz Tek, Rob Younger e Chris Mazuak fizeram várias turnês com convidados usando o nome da banda, mas desde 2007 eles não se apresentaram mais. Provavelmente, acabaram definitivamente.
  • Mas os membros fundaram outras bandas importantes, como o New Race, que contou com Tek, Younger e Gilbert a lado de Dennis Thompson (ex-baterista do MC5) e o grande Ron Asheton (R.I.P.). Pip Hoyle, por sua vez, fundou o The Visitors, com um som mais new wave-pop, porém, de altíssima qualidade. Outros grupos que contaram com ex-integrantes do Radio Birdman foram o Hitmen, New Christs, The Otherside e Comrades of War, entre outros.
  • No início de 1976, época em que eram residentes da Oxford Tavern, foram convidados para um show na cidade de Armidale. Mas alguém babou, porque era uma festa do Lions Club local, com público de coroas da high society. Depois de três músicas, foram convidados a deixar o palco, claro.
  • Uma das características do Radio Birdman era a identidade visual. Eles costumavam usar uniformes militares e algumas vezes apareciam vestidos com as mesmas roupas. Também criaram um símbolo, que alguns seguidores na época identificaram como o símbolo da "coragem", mas na verdade apenas representava uma águia em pleno voo. Essas caracterizações levaram algumas pessoas a ver conotações nazistas. Nada a ver...
  • O nome da banda nasceu a partir de um erro ao ouvirem 1970 dos Stooges. Eles pensavam que era isso (Radio Birdman) que Iggy Pop cantava, quando na verdade era: "Outta of my mind on a saturday night / 1970 rollin' in sight / Radio burnin' up above / Beautiful baby, be my love. Mas ficou legal assim mesmo.
  • Radios Appear, título do primeiro LP, foi inspirado na música Dominance and Submission do Blue Oyster Cult (para quem não conhece, um grupo de hard rock que tinha letras politizadas).
  • Em 1977 o Radio Birdman foi contratado para abrir uma sére de shows de Iggy Pop na Austrália. Mas o grande inpsirador da banda cancelou a turnê. Alguns cartazes haviam sido impressos e tornaram-se objeto de colecionadores.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Zineiros, unidos, jamais serão vencidos!

A cultura zineira busca espaço na web. Visitem o site do ZINE OFICIAL

O pessoal não fica de braço cruzado não! (clique na imagem para ver do que se trata)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Factor Zero número 2

Enfim, aqui está o terceiro FZ. Quase temático, pode-se dizer que é o FZ sacana. Quando fiz esta edição, estava numa fase "eu quero sexo"! E, no fundo, queria chamar a atenção para o fato de, no Brasil, naquela época, o punk ter uma maiora absoluta de garotos. Logo após a publicação, algumas punketes vieram me questionar sobre as cutucadas, tipo a da matéria das Go-Go's, em que eu escrevi que "no Brasil devia ter bandas como essa, mas não temos minas assim nem na platéia, que dirá no palco"! As minas ficaram furiosas, mas foi bom, porque depois da discussão, acabei ficando com uma delas.... ha, ha, ha!
Mas esta edição teve uma pequena evolução também. Novamente, preferia ler comentários (que parece não ser a praia da maioria dos leitores do blog) do que tecê-los. Em tempo: se minha memória não me trai (e isso é duvidoso) comecei a fazer a quarta edição, mas não a terminei... Assim, este foi o último FZ publicado.

O esquema segue o mesmo. Para ver as imagens maiores, basta clicar nelas. Para baixar em JPG, em alta definição, clique aqui.

Se preferir, leia os PDFs no blog Haverá Som de Fita, que foi o responsável por resgatar esse pedaço da história do punk nacional. Mais uma vez, valeu George!

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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Factor Zero número 1

A primeira edição do FZ pode-se dizer que foi um experimento. A resposta foi muito positiva, com isso, senti-me incentivado a fazer algo mais "trabalhado". A essa altura, descobri que havia toda uma cultura fanzineira em outros países. Assim, o segundo FZ foi muito superior ao primeiro em termos de conteúdo.

Gostaria de ler comentários sobre o zine, lançado em 1981.

O esquema é o mesmo: para baixar uma cópia do zine inteiro (restaurado) em JPG, clique aqui; para ver o PDF, visite o blog Haverá Som de Fita.

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sábado, 12 de setembro de 2009

FACTOR ZERO ZERO

Enfim faço a postagem que mais esperei desde que criei este blog. Graças a uma grande força do meu amigo George do sensacional blog Haverá Som de Fita, apresento o Factor Zero número zero, o primeiro fanzine punk feito no Brasil. É tosco? Sim, muito. É ingênuo? Certamente. Mal escrito? Propositalmente. Mas foi feito com muito idealismo, com a vontade de gritar: PORRA, ESTAMOS AQUI E TEMOS MUITO A DIZER!
Antes que se faça qualquer juízo, quero esclarecer algumas coisas:
- trata-se de uma cópia (os originais foram perdidos), foi feito em 1980, portanto, é um xerox guardado por 29 anos! Assim, a qualidade que já não era lá essas coisas pode dificultar a leitura de algumas partes, especialmente da história em quadrinhos;
- quando fiz esse exemplar eu sequer conhecia a palavra fanzine, apenas queria fazer um "jornalzinho" para mostrar que havia punk em SP;
- a história em quadrinhos foi tirada da revista MAD e é uma sátira sobre o punk. Na época mesmo teve gente que não entendeu por que a coloquei, já que "detratava o movimento". Não acho, é só humor;
- minha opinião sobre o Cólera mudou bastante (ainda os acho bonzinhos demais, corretos demais, porém, reconheço que peguei pesado com eles, injustamente). Um erro, mas era o que eu pensava.
Espero que se divirtam com a leitura, comentem e aguardem os próximos números, pois estou restaurando no Photoshop. No blog do George vocês encontrarão as cópias dos três Factor Zero em PDF. Aqui, vou postar em JPG já restaurado, ok?
Links: Blog Haverá Som de Fita (PDFs)
Para baixar o número zero em JPG restaurado clique aqui

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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Velozes e furiosos (de verdade)


O ano era 1978 e o mundo ainda tentava entender o que acontecia com os jovens. A crítica musical tentava explicar o que se passava com o rock'n'roll: estaria morto? Mas punk não é rock? E o punk também não havia morrido com Sid Vicious e o Sex Pistols? Então o que a molecada dos subúrbios estava fazendo? Por que não parava de aparecer bandas e mais bandas, cada vez mais barulhentas?
É. O tal de punk mudara mesmo a cara da cultura urbana no mundo todo. Mal sabiam que o próprio punk começava a se transformar. Começava a deixar de ser uma brincadeira inconsequente para se tornar ainda mais inconsequente, mais furioso, mais politizado e menos brincadeira. Muitas das primeiras bandas da leva 75-77 já não existiam ou haviam assumido uma postura mais comportada, mais profissional. No entanto, a molecada que os vira em ação, que percebera o punk como um meio para canalizar uma energia represada em forma de ódio sem precisar pegar em armas para isso, apenas usando palavras, roupas fora dos padrões e instrumentos musicais baratos, no máximo volume possível, queria agora fazer algo ainda mais ousado. Nas garagens e galpões abandonados começava a nascer o hardcore. O punk levado às última consequências. Surgiam bandas que tinham como referência não o rock, mas o próprio punk. Moleques que não ouviram Led Zeppelin, nem Deep Purple, muito menos Yes e outros supergrupos, superricos superdistantes da realidade das ruas. Aliás, não conheciam nenhum outro tipo de som a não ser The Clash, Stranglers, Ramones, Sex Pistlos, etc.
É nesse contexto que nasceu o MIDDLE CLASS, uma banda de Santa Ana, no condado de Orange County, zona sul de Los Angeles. O grupo tinha na formação três irmãos: Mike (guitarra), Bruce (bateria) e Jeff Atta (vocal), mais um baixista chamado Mike Patton, que não é o mesmo do Faith No More. A carreira da banda foi intensa - apesar dos poucos registros em vinil - e durou até 1982. Nesse tempo, lançaram apenas dois compactos (Out Of Vogue e Scavenged Luxury) e apareceram na histórica coletânea Tooth and Nail (citada no post anterior, do Controllers), com duas faixas. Por volta de 1980, mais hábeis musicalmente e influenciados pelo pos-punk inglês, mudaram o estilo, mas não deixaram de fazer um som com personalidade. Nessa última fase, gravaram o LP Homeland, com uma sonoridade ainda hoje incomum para bandas norte-americanas. Neste disco, o baterista Matt Simon substituiu Bruce Atta.
Eles estiveram no centro da cena punk de Los Angeles e tocaram com todos os principais nomes daquela época. Mas o grande feito do MIDDLE CLASS foi tocar tão rápido, que os próprios punks talvez não entenderam o que se passava com eles. O primeiro EP, de 1978, Out Of Vogue, é hoje considerado o marco zero do hardcore. Ou seja, eles teriam sido os pioneiros do estilo que deu uma nova alma ao punk. Há controvérsias, claro, mas até prova em contrário, antes deles ninguém tocara tão rápido. Algumas bandas resvalaram no som HC em uma ou duas músicas, como o Buzzcocks com You Tear Me Up e o F-Word com Eat Your Dinner, mas não era o "som" deles, como o era o do Middle Class. Vários grupos contemporâneos do MC, como Black Flag por exemplo, mais tarde capitanearam o HC nos EUA (na Europa, a história é outra). Por fim, os próprios integrantes do MC não se consideravam uma banda hardcore, nem mesmo depois da explosão do gênero.
Para apresentar melhor essa verdadeira preciosidade do punk da década de 70, traduzi uma entrevista do guitarrista Mike Atta concedida ao blog Agony Shorthand, publicada em 26 de julho de 2006. Para ler o original clique aqui.



Agony Shorthand: Vamos começar com, provavelmente, a mais genérica de todas as questões sobre o Middle Class. O que você acha da idéia de o EP Out of Vogue ser agora considerado o primeiro disco de hardcore?
Mike Atta: É bom ter algo para ser lembrado, mas garotos, me desculpem, o Middle Class era tão hardcore quanto o Dr. Pepper (refrigerante dos EUA similar à Coca-Cola) que, aliás, deu um gás na nossa velocidade. Nós éramos muito rápidos, tensos, sônicos, barulhentos, jovens, animados, nervosos, ingênuos e um pouco entediados... na verdade, mais irritados do que entediados. Nossos shows da época do Out of Vogue conseguiram provocar um certo frenesi, mas nada tão agressivo ou violento como hardcore seria mais tarde. No que diz respeito a esse ser o primeiro disco de hardcore, eu não tenho certeza se eu sei o que isso significa, mas ... hum. ... ok, é algo para nosso obituário....

Agony Shorthand: Que tipo de reação a banda provocou na turma de Hollywood e do Masque? Havia um preconceito real contra qualquer coisa diferente vinda do sul de Hollywood ou vocês se deram bem com bandas como The Bags, Germs, Weirdos, X, Metrosquad, etc?
Mike Atta: Logo de cara a Exene (vocalista do X) nos perguntou: "Por que vocês têm que tocar tão rápido?" Eu acho que ninguém sabia o que fazer com nós, 20 canções em 20 minutos, nós não parecíamos uma coisa à parte, mas algumas pessoas descobriram que éramos algo ainda mais perturbador. O Middle Class não era baseado em blues, rock ou pop. Não havia qualquer referência no nosso som para os adeptos do rock’n’roll se agarrarem. Você podia gostar daquilo ou não. Alguns reagiram bem, outros apenas nos ignoraram. Quanto ao lance de sermos de OC (Orange County, distrito ao sul de L.A.), não havia preconceito quando começamos, havia muito preconceito, mas não no viés geográfico. Isso veio mais tarde, quando outro tipo de "beach boys" (OC tem várias praias) trocaram as ombreiras e chuteiras (eram jogadores de futebol) por bandanas e coturnos. A maioria das pessoas da cena punk, no início, vinham de lugares variados. Naquele tempo, ser de OC era como ser do Vale (do Silício), apenas mais um lugar fora do eixo das cinco freeways. Na verdade, conseguimos aparecer em um momento oportuno. A comunidade punk era muito pequena, por isso, se 75 pessoas achassem você menos chato, você já teria uma maioria. As bandas tinham estilos mais diversificados na época. Qualquer coisa fora do mainstream e que tivesse atitude se sobressaía. Depois da nossa primeira apresentação (Germs, The Bags, The Controllers e Middle Class por U$ 2. O melhor preço!) ficou muito fácil arrumar outros shows, pelo menos no início, quando nos contentávamos em ser a banda de abertura. Todas as outras bandas daquela época estavam na cena há algum tempo e ninguém queria abrir. Ficamos muito felizes por isso. Olhando para trás, nós tivemos muito apoio de outras bandas, como The Dils, Germs, Alleycats, Screamers e, em particular, Zeros. Nos dávamos muito bem com o The Bags, tanto que meu irmão Bruce namorou a Alice (vocalista do Bags) por quatro ou cinco anos. Nós também tivemos espaço no Slash e no Flipside (fanzines mais famosos da época). Nosso terceiro show (no Whiskey), mereceu uma resenha longa, muito boa no Slash. Em apenas seis semanas, saímos do zero para o centro da cena punk de LA. Foi bastante gratificante para nós.

Agony Shorthand: Segunda questão genérica: como você explica três irmãos, todos no punk rock, todos na mesma banda, tocando instrumentos diferentes e complementares?
Mike Atta: Eu realmente não sei explicar. Acho que é por isso que deu certo. Nós basicamente aprendemos juntos. Não tivemos nenhum tipo de formação, treinamento ou pedigree musical. No final de 76, eu já tocava há uns seis meses quando me liguei a Mike Patton, camarada de meu irmão Jeff na faculdade. Jeff e Mike estavam sempre do lado de fora ouvindo The Stooges, Sonics, MC5, Eno, Bowie, Modern Lovers. Assim, quando punk mostrou sua cara com os Ramones, eles estavam prontos. Patton começou um grupo comigo, apressando-me a abandonar minha queda por Joe Perry, alo natural para um cara de 16 anos, mais meu irmão Bruce nos vocais e um cara de Huntington Beach na bateria. Quando as covers do Ramones começaram a ficar muito rápidas para o carinha de HB, Bruce decidiu que era hora de ele aprender bateria e Jeff achou que se Bruce podia tocar bateria, então ele podia cantar. Nós não tínhamos nada a não ser a banda. Você sabe, éramos os caras desajustados. Então nós nos trancamos por cerca de um ano em um galpão de Santa Ana (área central de OC), descobrimos juntos como tocar nossos instrumentos e o que se ouve é o que saiu dali. Foi do jeito que o punk deveria ser: quatro pessoas decidem que podem ser uma banda e, em seguida, a montam.

Agony Shorthand: Como seus pais reagiram à invasão de um bando de adolescentes em sua casa? Você deve ter algumas boas histórias deles dando de cara com Darby Crash ou Randy Black nos shows...
Mike Atta: Nossos pais nos apoiaram bastante. Fomos criados em uma parte não muito agradável de Santa Ana, éramos seis filhos e havia pouco dinheiro. O Middle Class proporcionou um rumo e deu confiança para aqueles filhos sem propósito e entediados. Eu estava indo rapidinho para a vagabundagem, então o Jeff e eu passamos a ficar mais tempo trancados no quarto. Assim, eles ficaram muito felizes por termos encontrado algo pra fazer. Além disso, eles achavam que nossas amigas punks eram bonitas. O nosso pai nunca nos viu tocar ao vivo. Nossa mãe nos viu tocar com o Germs no Whiskey. Ela e minha irmã mais nova (tinha nove anos naquela época) se encontraram com Darby, Lorna, Dinky (Bonebrake) e Michelle. Nós cuidamos para que elas ficassem mais perto de Pat e Don (respectivamente guitarrista e baterista do Germs, que eram mais “light” do que Darby). Minha mãe achou que eram todos muito gente fina. Ela também gostava de Bowie. Darby ficaria feliz de saber isso.

Agony Shorthand: Uma vez você me falou sobre uma mini-tour pela Costa Oeste em que seu irmão mais novo Bruce não foi autorizado a acompanhá-los e que você teve que pedir para Don Bolles (o batera do Germs) tocar no lugar dele. Como foi aquela viagem?
Mike Atta: Bruce tinha apenas 15 anos na época e nossos pais não estavam preparados para vê-lo no mundo do rock além de Grapevine. Nós havíamos tocado várias vezes com o Germs e pedimos ao Don para pegar a bateria pra nós naquela turnê. Nós ensaiamos umas duas ou três vezes no porão do Canterbury e deu para perceber que Don não tinha vontade de aprender nossas músicas. Ele acabou tocando o riff de abertura de Lexicon Devil (música do Germs) na velocidade do Middle Class em todas as 20 músicas do nosso repertório. Minha memória pode não estar certa, mas acho que foi nessa viagem que fomos atacados por Marines descontentes, que pensaram que pagaram cinco dólares para ver um show de tetas de North Beach e acabaram com o Middle Class. Deve ter sido terrível para eles.... Eu tenho muitas histórias sobre Don Bolles, mas, como com um monte de histórias de Don Bolles, elas não acabam muito bem.

Agony Shorthand: Os vocais de Jeff no primeiro EP é uma das performances mais distintas na história do punk que eu já ouvi, em especial em Out of Vogue. Por favor, comente sobre isso.
Mike Atta: Jeff tinha muito o que dizer. O problema era que ele tinha de fazer isso muito rapidamente, porque nós não íamos esperar por ele. Ele tinha de colocar todas as letras, versos e refrões de uma canção de três minutos em um festival de velocidade de um minuto. Sua voz tornou-se como a bateria ou as guitarras. Eu acho que ele não teve escolha, tinha que ser daquele jeito.

Agony Shorthand: Desde as primeiras gravações, o Middle Class pode ser considerado um grupo mais “artístico” do que a maioria das bandas às quais vocês foram associados automaticamente, tanto que vocês tocaram em lugares que nem sempre recebia apenas bandas punks. O que vocês buscavam na época e como isso evoluiu para a gravação do LP de 1982, o Homeland?
Mike Atta: Nós sempre fomos uma banda influenciada pelo que acontecia no nosso tempo. Musicalmente, politicamente e socialmente. Fomos totalmente marcados pelo mantra do Clash: "nada de Elvis, Beatles ou Rolling Stones". Mais uma vez, era o Jeff que estava no lado underground da música, comprando logo que saíam todos primeiros lançamentos punks ou de outras bandas rotuladas como tal porque não havia outra categoria para enquadrá-las. Minhas referências de guitarra foram Wire (12XU), Buzzcocks (EP Spiral Scratch) e Ramones (primeiro LP). A coisa mais antiga que eu ouvia na época era o The Modern Lovers. Eu sempre amei a diversidade das bandas do nosso pequeno universo. O caos do Germs, a tensão da Screamers, o espetáculo do Black Randy, a postura política do Dils, etc, etc ... Foi tudo muito brilhante. Um pouco mais tarde, quando a definição do punk se fechou mais (ficou mais estreita), bandas como Pop Group, Gang of Four e Joy Division tiveram um efeito óbvio sobre nós.

Agony Shorthand: O som que vocês fizeram na década de 80 não era tipicamente associado ao que se fazia em Orange County durante a explosão do hardcore e do beachpunk. Como isso foi recebido na região? Havia outras bandas com o mesmo espírito que tocavam regularmente com vocês naquele tempo?
Mike Atta: Como de costume, o Middle Class estava fazendo algo um pouco fora do normal. Quando o som de OC e o hardcore ficaram grandes nós evoluímos, quando esse outro tipo de som começou a pegar, nós saímos. Por volta de 81, muitos caras daquela cena nos odiavam. Várias bandas de OC, que fizeram seus primeiros shows em Los Angeles por causa de Middle Class, não entenderam o que estava acontecendo conosco. Eles se tornaram o hardcore de OC. Nós fugimos disso. Começamos a fazer shows com bandas que se formaram a partir das cinzas de bandas do passado e outras formadas por fãs da primeira onda punk. Pessoas que estavam ouvindo Joy Division e Gang of Four. Eu não consigo me lembrar de alguma banda de OC que estivesse indo na mesma direção que nós naquele momento. Muitas das bandas originais de LA reagiram de forma diferente ao hardcore de OC. Poucas abraçaram a causa, a maioria estava com medo daquilo, muitas acabaram, seja explorando suas raízes folk, morrendo ou tornando-se estrelas da música pop.

Agony Shorthand: Eu sinto que você está muito bem. E seus irmãos Jeff e Bruce? E Mike Patton e Matt Simon?
Mike Atta: Jeff trabalha comigo e minha mulher na nossa loja de arte e design em Fullerton. Fica ao lado da nossa loja de móveis e roupas estilo vintage moderno. Bruce é professor de filosofia na Cal State LA. Mike Patton era, na última vez que soube algo, negociador sindical dos motoristas de ônibus da OCTA (cia. de ônibus de OC). Matt Simon, que eu vejo com freqüência, é professor de terceiro grau.

Agony Shorthand: Será que o Middle Class foi seriamente abordado para se reunir, mesmo que apenas para um show ou dois?
Mike Atta: Eu já falei isso antes. Somos muito bem lembrados pela História, não devemos acabar com isso tocando novamente. Eu realmente tenho sentimentos mistos quanto a um retorno. Aquele momento, aquela música, aquela banda, aquela cena, a coisa toda me ajudou a formar minha opinião, o meu humor, meus gostos e desgostos. Aquelas bandas realmente tinham algo a dizer, pois eles mudaram a música e quebraram barreiras. Bandas eram fãs e os fãs eram bandas. Qualquer um podia fazê-lo, de verdade. Voltar a tocar hoje seria apenas nostalgia pura. Não significaria nada. E isso me incomoda.
(em tom de deboche) Eu tenho receio de que, num futuro não muito distante, todas as bandas que alguma vez fizeram algo diferente vão acabar em um especial da tevê pública. Tipo um evento de gala, "The Stars of LA Punk Rock", com Nicholas Cage como anfitrião com sua "Valley Girl" e todos com a mesma banda de apoio. Exene cantará Los Angeles, John Denney cantará Life of Crime, todos os 35 cantores que passaram pelo Black Flag cantarão Nervous Breakdown juntos, e porque ninguém se lembra realmente, aquele cara do ER (seriado Plantão Médico) ainda se passará por Darby. Igual aqueles shows de doo-wop dos anos 50... Estivemos perto de nos reunirmos uma vez. Há alguns anos, Brendan Mullen (fundador do The Masque), que sempre foi um cara legal com a gente, nos pediu para tocarmos em um show de bandas de '77. Para minha surpresa, meus irmãos concordaram; o único problema foi termos apenas duas semanas de preparação. Tocar rápido daquele jeito após uma parada de vinte e cinco anos seria, na melhor das hipóteses, difícil. Os caras do Adolescents também nos pediram para sermos os convidados surpresa em um show na House of Blues, mas .... bah. Fomos convidados ainda para tocar no show de retorno do Germs. Eles queriam recriar o show original com Germs, Middle Class e o Minutemen. Eu respondi que éramos os únicos que tinham o vocalista original ainda vivo e eu não queria matar o meu irmão para fazer o show. Jeff disse que iria fazê-lo se tivéssemos um ator do ER para substituí-lo. Talvez aquele tal de Noah Wyle... Se nos próximos anos nós fizermos um show de reencontro, desconsiderem tudo o que eu disse.

Baixe aqui Out Of Vogue + Scavenged Luxury + as faixas da coletânea Tooth and Nail + 10 faixas ao vivo
Aqui, o LP Homeland

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

(Eles eram) a bomba de neutrons


Primeiramente devo pedir desculpas pelo longo tempo sem postagem. Mas estou de volta e vou tentar ser mais frequente. Retorno com uma banda californiana: THE CONTROLLERS, uma das pioneiras da cena da Costa Oeste dos EUA. Formado em 77 e extinto em 79, o grupo nunca chegou a gravar um LP, nem fizeram grandes tournês, tocando poucas vezes fora dos limites de Los Angeles e San Francisco, o que contribuiu para que acabassem esquecidos e ficassem de fora de muitos livros e coletânas sobre a história do punk. Mas eles foram muito importantes para preparar o caminho para o estilo que viria a ser conhecido mundialmente como hardcore. Não foram os primeiros (é difícil dizer quem fez isso), nem talvez possam ser classificados assim, mas a fúria de suas músicas e a atitude punk ao extremo certamente influenciaram muitos dos pioneiros do HC.
Apesar de uma carreira tão curta, o Controllers teve tempo de passar por duas fases. A primeira começou no 4 de julho de 1977, quando John Stingray, sua então namorada Charlie Thrash e o irmão dela, Kidd Spike, resolveram montar uma banda. O nome foi inspirado após uma exibição de bombeiros nas comemorações do dia da independência dos EUA, em Santa Monica. Bêbados, eles pixaram um muro com a palavra "Controlers" (com erro de grafia mesmo). John era vocalista e guitarrista, Charlie a baterista e Kidd Spike, também guitarrista. O primeiro baixista foi DOA Dan.
Na procura de locais para ensaiar acabaram conhecendo um tal de Brendan Mullen, que pouco depois fundaria o The Masque, point que abriu suas portas para muitas bandas, como Dils, Avengers, Weirdos, Dickies , Zeros, Germs, Screamers, só para citar algumas. Um verdadeiro templo punk. O Controllers teve a honra de ser a primeira banda a tocar lá.
Ainda em 77, gravaram um compacto, o clássico Neutron Bomb (com Killer Queers no lado b), que só seria lançado em 78. Esse verdadeiro artefato é uma gema gravada em quatro canais no estúdio Sunbird que pertencia a Chris Ashford, nada menos que o fundador da What? Records (mais um "pequeno gigante", que merece um post à parte). Mais tarde esse single passou a ser chamado de (the original) Neutron Bomb, já que o Weirdos lançou uma música com o mesmo título.
Mas o grupo tinha problemas. Charlie era extremamente egocêntrica. Achava que ela era a "estrela" da banda. O ápice aconteceu em um show em que queria por que queria que a bateria ficasse à frente no palco e não no fundo, como é de praxe. John e Kidd não concordaram e ela acabou saindo. Para surpresa dos outros dois, DOA Dan resolveu acompanhá-la (os dois se casaram depois).
Mas junto com as malas que saem, há males que vêm para o bem. Graças à saída de Charlie e Dan, eles conheceram Karla Maddog, o demônio negro da bateria. Na primeira audição os caras ficaram boquiabertos e a escalaram rapidinho. Sem baixista, John reslveu deixar a guitarra para Kidd, que mostrara ser capaz de fazer tudo sozinho. Reduzido a um trio, o Controllers passou a viver um grande momento, principalmente devido à capacidade de Karla, que para completar ainda conhecia muita gente e ajudou o grupo a fazer vários shows.
O renovado Controllers lançou mais um EP clássico, em 1979, com três faixas: Slow Boy, Suburban Suicide e Do the Uganda. Teve gente que viu racismo na letra dessa última (só por causa dos versos I wanna be black and look like Idi Amin, algo mais ou menos como "Eu quero ser negro e parecido com o Idi Amin"). Mas como podiam ser racistas com uma baterista negra? Coisa de policiadores de plantão....
Ainda no mesmo ano participaram da histórica coletânea Tooth and Nail (faixas Another Day, Electric Church e Jezebel) , junto com o UXA, Germs, Negative Trend e Flesh Eaters. As coisas iam bem, mas sem muita explicação, o grupo acabou. Talvez, o espírito auto-destrutivo da maioria das bandas dquela época tenha contribuído. Ninguém estava muito peocupado em ter uma carreira musical. A maioria queria apenas fazer um som e chapar o côco. Resultado: mais uma grande banda que se dissolveu no nada e que poderia (e merecia) ter deixado algo mais do que dois compactos e três faixas numa coletânea. Descontrolados!

Baixe aqui uma coletânea com tudo o que eles gravaram.

CONTROLLERS FACTS
  • Antes mesmo do compacto com Neutron Bomb ser lançado, a música foi incluída em um outro compacto junto com faixas dos grupos The Skulls e The Eyes. O disco saiu com o título What? Sampler EP. Uma raridade realmente rara!
  • A capa do segundo compacto foi feita por Al Hansen, um artista hoje bem famoso, mas que na época era pouco conhecido, apesar de já ter trabalhado com Yoko Ono, Andy Warhol e outros. Este disco saiu pela Siamese Records, selo de propriedade de um tal Philipe Mogane, que lançou o histórico compacto I Got a Rigth/Gimme Some Skin do Stooges, simplesmente o single mais punk da era que essa palavra ainda não existia enquanto estilo musical e etc.
  • Após o fim do Controllers, Spike foi tocar com o The Gears; John formou o Kaos e Maddog chegou a integrar os grupos The 45's (com membros do D.O.A. e do Avengers) e um outro grupo chamado Sexsick, antes de tentar a vida do outro lado do Atlântico. Ela foi para a Inglaterra com a firme intenção de tornar-se baterista do Siouxsie and The Banshees! Não conseguiu a vaga, claro, mas teve momentos intensos por lá: trabalhou como bartender, morou em um squat, montou uma banda (Precious Few), conheceu e tornou-se amiga de Malcom McLaren, roubou carros, foi presa e repatriada para os EUA.
  • Nos anos 90, Maddog e Spike voltaram a tocar juntos no Skull Control. A banda chegou a gravar um CD (Radio Danger), hoje bem raro, inclusive com participação do ex-guitarrista do Germs Pat Smears. O grupo acabou em 97, por não conseguir um contrato.
  • Na coletânea aqui postada, a faixa Top Secret é do Kaos e Your World e Hot Stumps do Skull Control.

A primeira formação do Controllers

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Punk-Reggae Party II - Basement 5


Bandas punks adotarem o reggae como uma de suas influências eram até comuns nos primórdios do punk. No entanto, o contrário, ou seja, músicos de reggae "cruzarem" o ritmo com o punk, não. Aliás era até bem raro. Uma das exceções foi o BASEMENT 5. Surgido em 1978, a banda teve uma carreira bem curta - acabou em 1981 - e lançou apenas um LP, chamado 1965-1980, e alguns compactos (também gravaram quatro músicas em uma Peel Session, lançadas posteriormente). O flerte com o punk aparece em algumas faixas pesadas e, principalmente, nas letras que expressavam exatamente as mesmas angústias dos moleques de jaqueta preta e cabelos arrepiados. Também o envolvimento de membros com a cena punk londrina contribuiu para a ligação. No entanto, seja pela época em que começaram ou pela co-produção de Martin Hannet (Joy Division e Magazine) no LP, há uma certa atmosfera pos-punk no som deles, talvez mais explícita que o "punk puro" (se é que isso possa existir). Mas o que impressiona no Basement 5 é que não se tratava simplesmente de uma "colagem" de algumas partes reggae e outras punk, é realmente uma mistura. Um híbrido dos dois ritmos.
Na verdade, os Basements foram uma criação de Don Letts, figura carimbadíssima no circuito punk. Para quem não sabe ele é considerado maior responsável pela introdução do reggae no punk, quando era DJ do Roxy. No início do lendário clube, como não haviam ainda muitos discos punks lançados, para entreter a moçada entre uma banda e outra ele rodava bolachas de reggae (sempre "do bom", óbvio). Além disso ele produziu o seminal Punk Rock Movie, um dos primeiros filmes sobre o punk rock, que se você ainda não viu, não deveria sequer estar vivo!
Bom, Letts usou uma verba que recebera da Island Records para produzir o disco que quisesse. Como jamais tocara nada, colocou na fita alguns amigos. A primeira formação do BASEMENT 5 tinha Winston Fergus no vocal, Leo Williams (barman do Roxy) no baixo, JR na guitarra e Tony "T" na bateria. Pouco menos de um ano após começarem a tocar, Fergus, pulou fora. Letts quebrou o galho no vocal por um tempo até surgir Dennis Morris, que assumiu o microfone definitivamente. Outra mudança foi na bateria, com a entrada de Richard Dudanski. Leo e JR permaneceram e com esse lineup o grupo gravou 1965-1980 (apesar do título não se trata de uma coletânea, já que a banda não existia há tanto tempo). Após o lançamento o Basement durou apenas mas um ano, fez diversas apresentações (maioria como banda de abertura) e estranhamente desapareceu do mapa. Lendários.



Baixe aqui o LP 1965-1980 e aqui um catadão, com a Peel Session, o primeiro single e duas faixas ao vivo

Basement 5 FACTS
  • Winston Fergus, o primeiro vocalista do Basement já gravou com verdadeiros deuses do ritmo jamaicano, como Augustos Pablo.
  • Dennis Morris era (e possivelmente, é) fotógrafo. Ele acompanhou os Pistols por um bom tempo e trabalhou com Bob Marley também.
  • Don Letts e Leo Williams (amigos de longa data) ajudaram a formar o Big Audio Dynamite (B.A.D.) junto com o ex-Clash Mick Jones.
  • Richard Dudansky foi baterista do 101'ers, a banda que deu origem ao Clash e também do PIL.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Anarcoólatras no Youtube

sábado, 11 de julho de 2009

Punk-Reggae Party - o som dos subúrbios


Quando resolvi criar esse blog, o primeiro nome que me veio à mente foi "Sound of the Suburbs". Referência a uma música do THE MEMBERS e à essência do punk rock. No fim optei por Factor Zero por motivos já explicados. Por isso, até agora não sei porque ainda não havia postado algo mais substancial sobre essa que considero uma das melhores bandas da primeira era punk. Mas nunca é tarde.
Muito comparados ao Clash (com razão) e ao Ruts (nem tanto), o Members é uma autêntica banda dos subúrbios londrinos, o que explica, em parte, a forte influência do reggae no som deles. A associação punk-reggae foi um fenômeno quase exclusivamente de Londres, já que foi daquelas quebradas que saiu a horda de desempregados responsável pela explosão punk de 76 e o som que predominava por lá antes do punk era o "pub rock" e o reggae (o que não falta na periferia londrina é jamaicano e afins). Outra característica marcante da banda eram as letras com temas mais ligados ao cotidiano e a tiração de sarro do que à política.
O Members foi formado em Camberley, uma espéce de cidade satélite de Londres, em 1976, por Nicky Tesco (vocal) e Jean-Marie Carroll, ak.a. JC (guitarra). Nos primeiros meses a formação sofreu muitas mudanças até se estabilizar com a dupla mais o baixista Nigel Bennett, o guitarrista Chris Payne e o baterista Adrian Lillywhite (irmão de Steve, o famoso produtor musical). A primeira aparição em vinil foi na coletânea Streets (um dos discos mais importantes da primeira era punk, já postado aqui no FZ) com a faixa Fear in the Streets, um manifesto contra os cabeças ocas nazistas do National Front (a palhaçada é antiga). A música também foi o único registro da formação original, com o guitarrista Gary Baker, e uma das primeiras produções de Steve Lillywhite. Meses depois, lançaram um compacto pela Stiff Records, com Solitary Confinement e Rat Up a Drain Pipe. A primeira, um clássico; a segunda, um reggae (ou ska, como queiram). Solitary é uma letra autobiográfica de Nick, sobre um cara que sai dos subúrbios e vai para Londres, onde se perde na solidão da metrópole. A mesma história de muita gente, o que ajudou a banda a conseguir a simpatia da molecada. Na época, poucas bandas cantavam sobre pequenos dramas pessoais ou problemas comuns do dia a dia.
A aproximação com o reggae e uma pegada mais melódica, com uso de metais, era outro diferencial do Members, o que também afastava o público mais radical. O flerte de Nick com o ritmo jamaicano começou por volta de 72/73, quando era estudante em Liverpool. É bom lembrar que o "movimento" 2 Tone surgiria apenas alguns anos depois e não dá para negar que o Members ajudou a pavimentar o caminho para o fenômeno que teve expoentes como The Specials, Madness, The Beat e outros tantos.
No final de 78 o Members era uma das mais famosas bandas punks do Reino Unido e a Virgin Records não perdeu tempo para contratá-los. O primeiro lançamento pela nova gravadora foi o compacto The Sound of the Suburbs, um clássico tanto em termos de som como letra.


Same old boring sunday morning
Old dad’s out washing the car

Mum’s in the kitchen cook sunday dinner

Her best meal, moaning while it lasts

And Johnny is upstairs in his bedroom sitting in the
dark
Annoying the neighbors with his punk rock electric
guitar

This is the sound of the suburbs


Every lousy monday morning

Heathrow jets go crashing over our home

Ten o’clock, broadmoor siren driving me mad

Won’t leave me alone
The woman next door just sits inside and cries

She hasn’t come out once ever since her husband died

Youth Club Groups used to wanna be free

Now they want Anarchy
They play too fast, they play out of tune
Practice in the singers bedroom
Drums quite good, the bass is too loud
And I can’t hear the words

This is the sound of the suburbs


Saturday morning family shoppers
Crowding out the center of town

Young blokes sitting on the benches
Shouting at the young girls walking around
And Johnny just stands there
In his window looking at the night
Says “Hey, what you listening to?
There’s nothing there!”
That’s right


Uma perfeita descrição do dia a dia dos subúrbios, com um acorde "clashniano", mas totalmente original. No lado b, a instrumental Handling the Big Jets acabou apenas preenchendo espaço, mas a bolachinha vendeu, na época, cerca de 250 mil cópias, algo bem incomum para uma banda punk. Isso ajudou - e muito - para que tivessem todo apoio em termos de produção para gravarem o primeiro LP. Tiveram o tempo que precisassem no estúdio e ainda contaram com a produção de Steve Lillywhite, que já começava a ganhar experiência e fama (trabalhava na época com o Siouxsie and the Banshees). O resultado foi o excelente At Chelsea Night Club (apesar do título, não é ao vivo), um disco indispensável em qualquer coleção que pretenda cobrir a melhor época do punk rock (76-82). Não gosto de "analisar" discos (melhor quem ouve fazer isso por conta própia), mas para este vou abrir uma exceção. Marca registrada do grupo, o LP começa com um instrumental (nos shows também faziam isso). A segunda faixa, Sally, já mostra a energia e criatividade do Members, ao mesclar acordes básicos com partes de reggae (algo que se tornaria muito comum nos anos 90, em grupos da linha do Sublime). A terceira faixa - uma de minhas favoritas - é Soho a Go-Go, que começa lenta e depois vai ganhando corpo em um acorde melódico, porém, pesado. Don't Push poderia ter sido incluída pelo Clash em London Calling que ninguém notaria que não era uma música deles. Na sequência, para fechar o lado A do LP (em CD isso não existe!) vem uma versão mais bem produzida de Solitary Confinement. O lado B abre com com o empogante e sananíssimo "punkabilly" Frustated Bagshot e segue com Stand Up and Spit, um reggae de refrão instigante antes de uma outra regravação, desta vez, The Sound of The Suburbs. Depois, a satírica Phone in Show, mais um roquinho sacana sobre masturbação precede a faixa mais comercial do disco é Love in a Lift, outro reggae com quase cinco minutos de duração e que termina com guitarras pesadas em alta velocidade. A última faixa, Chelsea Night Club, é a mais punk de todas, com acorde simples e vocais agressivos. Para muita gente, o maior clássico deles. Enfim, é um disco para muitos gostos, que os mais radicais podem considerar "comercial", mas é apenas rock'n'roll (ou punk rock) com molho reggae (ou ska). At Chelsea... foi bem recebido por público e crítica e colocou o Members no patamar de bandas grandes, além de tornar o grupo idolatrado entre a molecada suburbana.
Depois desse lançamento, o grupo manteve o ritmo de trabalho com uma média de quatro shows por semana e, nem bem colheram todos os frutos do disco, estavam em estúdio mais uma vez para conceber o single Offshore Bank Business. A música que dá título à bolachinha é um reggae que fala sobre as falcatruas financeiras de grandes empresas em paraísos fiscais. Isso em 1979! Uma letra que caberia perfeitamente nos dias atuais, marcados por uma "crise" (golpe) econômica evidentemente gerada pela ganância especulativa do mercado financeiro. Além disso, o compacto saiu um ano antes da explosão 2 tone. Nem precisa falar mais, né?
E, para mostrar que ainda tinham o punk na veia, no início de 1980 colocaram nas lojas outro single, com Killing Time e GLC, faixas em um estilo próximo ao Oi. Os dois compactos prenunciavam o que viria no segundo LP: mais versatilidade. The Choice is Yours foi o título escolhido para o disco, na prática, uma continuação do primeiro. No entanto, a produção, desta vez a cargo de Rupert Hine, tendo em vista que Steve já não estava mais tão disponível (nem para a banda do irmão!), não conseguiu manter a qualidade. Não que seja ruim, mas Rupert não conhecia o Members, nem o punk, nem o reggae, era apenas um produtor pop da área de "fabricação de hits" da Virgin. Apenas após o disco lançado é que ele foi assistir um show da banda. Pecado mortal. Mas o disco é bom. Aliás, muito bom. Há momentos puramente pop, como Romance e flertes com o som "new wave", como em Phisycal Love. Mas a banda ainda era o The Members e a energia punk se faz presente em Goodbye to the Job, Flying Again e Muzak Machine. Gosto muito também de Police Car, Gang War e Brian Was, tanto pelas letras como pelo som um pouco mais lento, porém, com o espírito punk setentista. O reggae, já com uma tendência mais para o ska, aparece na instrumental The Ayatollah Harmony que abre o disco e também em Clean Men. Em resumo, o Members mantinha-se à frente de seu tempo e, óbvio, pouco compreendidos na época. Estranhamente, The Choice is Yours teve melhor repercusão nos EUA que na Inglaterra.
Como não conseguissem vendas estupendas, o descontentamento da Virgin não demorou a se manifestar. E da banda também. Assim, o contrato com a major foi rompido. Em consequência, eles voltariam ao estúdio apenas na segunda metade de 1981, pelo selo Genetic, de Mike Rushent (Human League) amigo do empresário da banda, Ian Grant, ligado à Arista e à IRS. A partir daí, o Members assumiu uma posição claramente comercial, abandonou de vez o "som do subúrbio" e passou a fazer o som das pistas de dança, com um estilo disco, funk, soul, etc. Em 1983, lançaram o terceiro LP, Uprhythm Downbeat, um disco decepcionante, que sepultou o passado glorioso da banda. O LP saiu apenas nos EUA, aliás, nessa época o grupo praticamente mudou-se para a terra do Tio Sam em clara tentativa de fazer sucesso por lá com o "novo" som. Não funcionou e história acabou ainda em 83, após mais uma das muitas tours que fizeram pela América do Norte.

Baixe aqui At Chelsea Night Club, aqui The Choice is Yours e aqui os Singles (que juntei em um arquivo, já que nunca foram lançados em um só disco)


THE MEMBERS FACTS
  • Durante um bom tempo o Members existiu apenas na cabeça de Nick Tesco, que para impressionar garotas e enturmar-se falava para todo mundo que tinha uma banda, mas não tinha. Mentiroso! Então, certo dia um tal de Mike Kingsley (empresário e proprietário de um estúdio) o viu usando uma máquina de escrever em uma festa e perguntou o que fazia. A resposta: "estou escrevendo uma canção". Então o cara concluiu que ele tinha uma banda e disse que gostaria de ouvir o som... Nick não negou e em uma semana arrumou alguns músicos e fez três ou quatro sons (um deles, GLC, faixa que seria lançada em compacto alguns anos depois). JC entraria no grupo pouco depois. O fato é que em pouco tempo o Members saía da imaginação de Nick e tornava-se realidade.
  • As primeiras cópias de The Choice is Yours saíram com uma gravata do Members (um símbolo da banda) de brinde.
  • Uprhythm Downbeat foi lançado com alguns anos de atraso na Inglaterra, com o título Go West, pela Albion Records, sem autorização da banda.
  • Após o fim do Members, JC Carol formou o JC Mainmen e mais tarde o JC and the Disciples, ainda em atividade. Em 1985, participou como acordeonista no LP Que Sera Sera, de Johnny Thunders (o disco tem ainda participações de Steve Bators, Perry Nolan, Steve Jones e Paul Cook, entre outros).
  • Nick Tesco, por sua vez, ainda nos anos 80, lançou um single com o rapper nova iorquino J. Walter Negro e depois trabalhou como ator com o diretor finlandês Aki Kaurismäki na série de filmes que criou o grupo fictício Leningrad Cowboys (que depois, tornou-se uma banda de verdade).
  • Em 2006, o Members reuniu-se para comemorar o aniversário de JC Carroll e desde então voltaram a tocar esporadicamente. Inclusive, recentemente lançaram uma regravação de Offshore Bank Business, com o título International Financial Crisis. Nick Tesco não faz parte do Members ressuscitado, que tem Nick, Chris e Nigel (que também toca com o reformado Vibrators) da formação original.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

PANDEMIA OBSESSIVA ou ESCARLATINA PANDÊMICA....


A banda pos-punk Escarlatina Obsessiva acaba de lançar seu terceiro CD. Trata-se de Pandemic, um trabalho que mostra o amadurecimento e o vigor do som da dupla formada por Karolina e Zaf. Nas dez faixas de Pandemic os sintetizadores mantêm-se como condutores primordiais, mas agora dividem mais espaço com as distorções da guitarra e uma bateria mais roqueira e menos eletro. O que é muito bom! Mas o que ainda me surpreende no E.O. são os vocais de Ka, cada vez mais parecidos com Sioux Siouxie, a deusa-mor do gothic rock. O que é ótimo!
Embora não sejam "punks" na acepção do termo, a forma totalmente independente com que desenvolvem o trabalho traduz o ideal do it yourself em sua mais pura acepção. E, além de tudo, mostram sintonia com os novos tempos ao disponibilizar o disco para download. Podem não militar pela causa anarquista, mas anarquizam mais que muita gente que desenha um A dentro de uma bolinha....

Baixe direto do site http://www.zorchfactoryrecords.com/escarlatina

sábado, 20 de junho de 2009

THE SILLIES - De quando éramos sujos e malvados

Detroit é o berço do punk. Foi lá que nasceram Stooges e MC5, grupos que deixaram como herança o estilo agressivo e a atitude rebelde, quase criminosa (afinal, é apenas música), que deu origem ao punk rock. Milhares de bandas em todo o planeta deram continuidade, nas mais variadas formas, ao som sujo, pesado e com letras ofensivas ou politizadas das duas bandas, surgidas, ironicamente, na efervescência do flower power. Uma outra consequência da monstruosidade sonora desses grupos foi uma forte influência nas bandas locais. Ser roqueiro em Detroit nos anos 70 e passar incólume a Wayne Kramer, Igyy Pop e cia, era como ser londrino em 76 e não perceber o punk...
É nesse quadro que surgiu o THE SILLIES, para muitos a primeira banda essencialmente "punk" de Detroit (há controvérsias, claro). O grupo foi criado em abril de 77 pelo guitarrista, cantor e compositor Ben Waugh e a cantora Sheila Edwards. Após participarem de uma jam seesion, os dois decidiram formar o que seria um grupo de "progressive punk" (vai saber....). A eles juntaram-se o baterista Steve Sortor, a.k.a. Perry Noyd, ex-Mutants (os de lá eram bem melhores que os de cá); o guitarrista Tommy Kilowatt, ex-Flirt; o tecladista Ed Mich e o baixista Vince Volatile. Como membro extra, a performer Tamara, amiga de Sheila, fazia parte da banda, mas era apenas uma espécie de dançarina (não dançava, mas ficava no palco em atitudes obscenas e provocando a plateia). Todos músicos com uma certa experiência, por isso, não demorou a estarem aptos para debutar.
A primeira aparição pública do grupo aconteceu em agosto de 77 e foi um teste de fogo para qualquer um: tocaram para uma audiência de mais de mil pessoas, como abertura do (new) MC5, uma reencarnação do lendário grupo encabeçada pelo vocalista Rob Tyner, mas sem qualquer outro membro original. Aliás, na mesma noite, o Destroy All Monsters também tocou, com Ron Asheton e Michael Davis (ex-baixista do mesmo MC5). Uma zona!
A estreia chamou a atenção pela energia da música e a atitude no palco: uma mistura de pornografia e provocação ao público. Sexistas e machistas. Politicamente, socialmente, eticamente incorretos. A escola Iggy Pop levada ao extremo.
Bastaram poucas apresentações para a reputação do grupo correr Detroit. Não demorou a ficar complicado arrumarem m local para tocar. Para piorar, entre o final de 77 e os primeiros meses de 78, o grupo praticamente se desintegrou. Sheila deixou a banda e se juntou ao The Screamers pouco depois. Perry Noyd voltou ao Mutants (que havia acabado, mas retomou as atividades, ainda em 77), Tom e Ed (provavelmente temendo pelo futuro incerto da aventura) também saíram. Mas Ben Waugh, mente e alma do grupo, não desisitiu e tocou o barco.
O "novo" Sillies passou a contar então com Waugh, Vince (agora guitarrista), o baixista Michael Profane (que participara da jam session que deu origem ao grupo) e o baterista Bob Mulhoney, a.k.a. Bootsey X, ex-Ramrods e Nikki Corvette. Como já se tornara marca registrada do grupo, Katy Hait entrou como backing vocals e Gloria Love como performer.
As mudanças não chegaram a afetar o estilo do grupo, nem melhoraram a reputação. As coisas iam ficando cada vez piores devido a "pequenos" incidentes sempre que eles tocavam. Em Cleveland tiveram de sair escoltados pela polícia, com a promessa de que se voltassem por lá, seriam presos. Tudo por causa de um quebra-quebra que destruiu o bar do clube onde tocavam. No que era para ser um show comum, na Universidade de Detroit, acabou com a banda expulsa do campus. Tiveram sérios problemas também em Michigan e Chicago. Enfim, onde passavam, era um desastre. Como era cada vez mais difícil arrumar um local para se apresentar, os Sillies tiveram um ideia original e que não apenas solucionou o problema como deu uma força incrível para muitas outras bandas da cidade dos motores. Alugaram um clube decadente por um final de semana e foi um sucesso. Então o dono ofereceu a eles um aluguel permanente do local. Começava a história de um dos mais importantes night clubs da cena underground de Detroit, o Bookie's Club 870. Além de se tornar um espaço para ensaio, por lá passaram grupos como Police (antes de se tornarem superstars, claro), The Clash, Damned, Dead Boys, Ultravox, Cramps e muitos outros. Algo comparável ao que hoje representa o Hangar 110 em São Paulo.
Mas em meio a tantas atividades, o grupo parecia não se importar tanto em gravar. O único registro em vinil que fizeram nesse período intenso foi um compacto com duas músicas (No Big Deal e Is There Lunch After Death), totalmente independente. Hoje, é considerado uma preciosidade e vendido por cerca de US$ 200. Me lembro que o Fábio da Punk Rock Discos tinha uma cópia, a única que vi.
A bolachinha foi lançada no verão de 79 e junto com ela mais uma crise entre os membros. De uma só vez, Katy, Bob, Vince e Gloria saíram. Mais uma vez Ben Waugh reformou o Sillies, agora com ele, Profane, a tresloucada Kirsten Rogoff, a.k.a. Kurse-Ten nos teclados e Chip Sercombe na bateria. Essa formação, mais musical mas não menos "barra pesada", acabou sendo a mais produtiva (a maioria das músicas do LP America's Most Wanton, lançado postumamente em 2002, foi registrada nessa época). O "novo" Sillies durou até 1980. Após uma tumultuada turnê com os Heartbreakers de Johnny Thunders, as relaçoes entre os membros desgastaram-se bastante. Como não tinham nenhum contrato profissional e o punk rock que faziam estava em baixa (naqueles dias, ou se era HC ou power pop) o fim foi inevitável. Em 1981, Ben, com auxílio de amigos, ainda gravou um música - Real Live Love, que até no título dá para perceber que nada tinha a ver com o Sillies original - para a coletânea Detroit on a Platter. Foi o tiro de misericórdia em um grupo que escreveu mas um rico capítulo para a história do punk, embora muitos nem o considerem "autênticos". Afinal, não tnham letras engajadas, não soavam como os Ramones ou os Dead Kennedys. "Apenas" tpcavam um rock'nroll pesado e cru e eram um pouco sujos e malvados. Para mim, basta.

Baixe America's Most Wanton, o CD póstumo (2002) com 12 músicas. Infelizmente é um CD raro e não consegui uma cópia até hoje. Embora o arquivo contenha todas as 12 faixas do LP, foram ripadas de uma fita cassete.

SILLIES FACTS
  • Kurse-Ten
  • O Sillies reuniu-se para três shows em 1989, com Waugh, Kirsten e Tommy Kilowatt, mais o baixista Skid Marx (do Flirt, outra lendária banda de Detroit).
  • Uma segunda reunião aconteceu em 1992, de novo com Ben, Kirsten, Marx e Kilowatt, além de Jackie Jung, uma amiga de Kirsten, nos vocais e os bateristas Don Bloxson e Keith Brown, que revezaram-se nas apresentações que se seguiram até 1994.
  • O grupo ressurgiu das cinzas, mais uma vez, em 98, na comemoração dos 20 anos do Bookie's Club.
  • Em 2001, Ed Mich, o primeiro tecladista do Sillies, morreu após sofrer um choque elétrico.
  • Chip Sercombe tocou também no Hysteric Narcotics e, mais recentemente, no Fondas, uma interessante banda com pegada soul e garage.
  • A partir de 2002, Ben Waugh reformou de vez a banda (quem não reformou, né?), que teve o já citado CD lançado, bem como passou a tocar esporadicamente. Além dele, Tommy Kilowatt está no grupo. O pulso ainda pulsa, mas e a alma?

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Louve ao Senhor e passe pelo (Impatient) Youth

Bill Martin on guitar, Paul Casteel on bass, Chris Coon on drums.
At the Geary Street Theatre, San Francisco, 1978

(Thanx to Chris Coon, who sent me this historical photo)


De volta ao mundo das bandas desconhecidas e não reconhecidas, o FZ relembra o (IMPATIENT) YOUTH. Trata-se de um grupo da cidade de Vallejo, ao norte de San Francisco, onde realmente se firmaram. Com um som melódico recheado de referências sessentistas, o (I.)Y. ajudou a pavimentar o caminho para o "estilo californiano". Conviveram com grupos como The Dils, Avengers, Sleepers, Dead Kennedys, entre outros. No entanto, jamais conseguiram se firmar entre as bandas consideradas de "primeira linha" (odeio categorizações, afinal música é gosto pessoal, totalmente subjetiva).
As raízes do (I.)Y. estão no ainda mais obscuro grupo de rock Faze, que tinha em sua formação o guitarrista e vocalista Bill Martin e o baterista Chris Coon. Os dois, influenciados pelas bandas pioneiras do punk da Costa Oeste norte-americana, deixaram o Faze para fazer um som mais agressivo. No início o baixista era um cara chamado Michael, que logo seria substituído por Paul Casteel, que empresariava o grupo. Essa primeira encarnação do (I.)Y. durou pouco mais de um ano, até Paul e Chris resolverem formar o Woundz (com Paul trocando o baixo pelos vocais).
Bill Martin, que era o verdadeiro fundador do grupo e quem compunha as músicas deu sequência ao trabalho com Mark Anderson no baixo e Christopher Fisher nas baquetas. Com essa segunda formação, o (I.)Y. conseguiu um pouco mais de exposição, já que a música Praise the Lord and Pass the Ammunition foi incluída na histórica coletânea Not So Quiet in The Western Front. O disco, um álbum duplo, não só apresentou ao mundo a nova safra californiana (e de Nevada), com 47 bandas - entre as quais Dead Kennedys, Social Unrest, 7 Seconds, Vicious Circle, M.I.A., Pariah, etc. - como trazia a edição zero da Maximum Rock'nRoll, revista/zine que marcou época no início dos anos 80.
Mas, talvez em consequência da explosão do hardcore, o som mais melodioso do (I.)Y. não chamou a atenção. Além disso, nunca conseguiram um bom contrato ou uma boa produção. Enquanto estiveram em atividade, além da faixa da Not So Quiet..., lançaram apenas um compacto, com seis faixas e chamado simplesmente (Impatient) Youth, patrocinado totalmente pela própria banda, que fez suas últmas aparições em 1981. Também fizeram um split de 7" com o Mutants, '78 on 45, no qual aparecem com duas faixas gravadas ao vivo.
Em 1990, o selo alemão Lost and Found resgatou gravações antigas do grupo e lançou o EP Frontline, com quatro faixas. No embalo, ainda sairia o LP Don't Listen, com 16 músicas. Uma merecida homenagem póstuma, curiosamente realizada do outro lado do Atlântico. Aliás, não consigo entender porque o (I.)Y. não teve reconhecimento em sua terra natal. A banda era bastante criativa,com ótimas letras e atitude. Talvez estivessem no lugar errado e no momento errado (nos anos em que estiveram ativos, o HC predominou nos EUA).
Depois desses lançamentos da Lost and Found, Bill Martin (desta vez, como Billy Ray Martin) tentou ressuscitar o grupo ao lado de sua esposa, Suzy Mae Martin, e do baterista Curt Anderson, que produziu o maxisingle All for Fun, com cinco faixas (nunca ouvi este disco, mas sempre li que é bem fraquinho...). Não deu em nada e a terceira encarnação também naufragou. Com tantas "reuniões" que andam ocorrendo por aí, é possível que uma quarta apareça. Difícil será conseguir recuperar a energia original das duas primeiras fases (na verdade, uma só, com duas formações diferentes).

Baixe os compactos (I.)Y., Frontline e '78 on 45 e o LP Don't Listen



(Impatient) Facts
  • O grupo deveria abrir para o The Clash no Kezar Pavillion, no giro norte-amerccano da London Calling Tour, mas na última hora o produtor da tournê, Bill Graham, comunicou a banda que não tocariam, sem maiores explicações.
  • Depois do Woundz, Paul Casteel fundou o Black Athletes. Já Chris Coon, tocou com o No Alternative. Os dois ainda estiveram juntos no House of Wheels. Ambos se mantêm em atividade. Recentemente, Paul cantou em uma das muitas aparições do Negative Trend. Longe do punk rock, Chris lançou um disco solo em 2008, chamado License to Departure, recheado de teclados, mais para o jazz ou "art-rock".
  • Muita gente pensou que Praise the Lord... fosse uma versão punk de uma canção de guerra, feita por aviadores-combatentes dos EUA durante a II Guerra Mundial, mas a letra de uma não tem nada a ver com outra, só o título.
Praise the Lord original:
Down went the gunner, a bullet was his fate
Down went the gunner, then the gunners mate

Up jumped the sky pilot, gave the boys a look

And manned the gun himself as he laid aside The Book, shouting

Praise the Lord and pass the ammunition!

Praise the Lord and pass the ammunition!
Praise the Lord and pass the ammunition and we'll all stay free!

Praise the Lord and swing into position!

Can't afford to sit around and wishin'

Praise the Lord we're all between perdition
and the deep blue sea!

Yes the sky pilot said it

You've got to give him credit
for a son-of-gun-of-a-gunner was he,
Shouting

Praise the Lord we're on a mighty mission!
All aboard, we're not a - goin' fishin

Praise the Lord and pass the ammunition and we'll all stay free!


A versão do (Impatient) Youth:
Praise the Lord and pass the ammunition!
Praise the Lord and pass the ammunition!

Praise the Lord and pass the ammunition!

God is on our side...

Battling over the book, slaughtering over the psalms

Onward Christian soldier with your sword and cross

Putting the fear of god into heathen flesh

The blood easily washed off of the Christian hand

Cleansed in the river of lies promise of salvation

From the mouth of madmen’s interpretations

Don’t forget the golden rule

The man with the gold is making the rules

Praise the Lord and pass the ammunition!

Praise the Lord and pass the ammunition!
Praise the Lord and pass the ammunition!
God is on our side...


terça-feira, 26 de maio de 2009

Subversão à inglesa

Nick Garrat, Paul Slack, Charlie Harper e Pete Davies,
a formação clássica do UK Subs

UK SUBS, abreviação para Subversivos do Reino Unido, é um dos grupos punks mais conhecidos do universo (sim, se há vida em outros lugares - e tenho certeza que há - o som deles deve ter ecoado por lá). Não há no mundo um punk que não conheça a banda liderada há 33 anos pelo vocalista Charlie Harper, o bisavô do punk (o avô é Iggy Pop). Apesar de a história da banda também ser bem "popular", o FZ, devido à proposta do blog, não pode deixar de contá-la. No entanto, são mais de três décadas e trocentas mudanças de formação - é provável que algo em torno de uma centena de pessoas já tocou com Charlie Harper. Portanto, vou me concentrar no período entre 76 e 82, época em que o UK Subs se estabeleceu como uma das principais bandas de todos os tempos. Não que após isso não tenha tido mais importância, pelo contrário, mas depois dessa fase inicial as mudanças de formação são tantas que talvez o mais certo seria ter rebatizado o grupo como "Charlie Harper and the (eventuals) UK Subs".


BORN A ROCKER...
A história do grupo é bastante peculiar desde o início. Ao contrário da maioria das bandas inglesas que surgiram na fase inicial do punk, entre 75 e 77, o UK Subs não foi formado por moleques: Harper já tinha 32 anos e era já um veterano no mundo do rock. Sua primeira banda foi o Charlie Harper's Free Press, que começou em 1964 e depois virou Charlie Harper Band. Após essa primeira experiência ainda apareceu algumas vezes como baixista de um grupo de funk chamado Bandanna. Quando o punk começou a "brotar" na Inglaterra, Harper comandava uma banda de Rhytm&Blues chamada Marauders, que fazia um som tipo Dr. Feelgood, bem "pub rock", e ensaiava no fundo do seu salão de cabeleireiro (sim, ele ganhava a vida e sustentava a banda cortando cabelos e tinha uma boa freguesia feminina!).
Então o baterista Rob Harper envolveu-se com alguns punks e convenceu o grupo a mudar de rumo. Os dois Harper (não eram irmãos) juntamente com o baixista Steve Slack e o guitarrista Thomas (há biografias em que aparece como Richard) Anderson formaram o The Subversives, logo abreviado para The Subs (o UK foi adicionado ao nome mais tarde, por influência do hino Anarchy in the UK e porque descobriram que já existia uma banda escocesa chamada The Subs). Mas Anderson, que era negro, resolveu tornar-se missionário na África e abandonou o barco. A vaga foi preenchida por Nick Garrat, que colocaria o Subs de vez nos descaminhos do punk rock. Quando ele entrou na banda, o repertório já tinha alguns dos clássicos do UK Subs, como I Couldn't Be You (composta por Anderson) e I Live in a Car, mas também permaneciam covers de R&B, que Garrat deixou claro deveriam deixar de ser tocadas para ele continuar. Charlie concordou.
Assim como Charlie, Nick tinha uma boa experiência musical. Começou a tocar guitarra em 1970 e passou por diversas bandas de tudo que é estilo, desde soul e jazz-fusion até rock progressivo. Quando entrou no Subs havia acabado de sair do obscuro South of The River, pois queria fazer um som mais enérgico. Sem banda, fez um teste no The Rejects (uma das primeiras bandas punks da Inglaterra, bem desconhecida e que não gravou nada oficialmente). Acabou não entrando, mas descobriu o tipo de som que queria fazer.
Em outubro de 77, três dias depois de Garrat ser admitido, o UK Subs tocou em um pub chamado Tooting Castle com um baterista temporário chamado Steve Jones (não o Pistol) e Steve Slack. Essa apresentação pode ser considerada a estréia da banda. Mas a guinada definitiva para o punk se deu quando Rory Lyons assumiu as baquetas. Ele seria responsável por levar o Subs ao Roxy e ao Vortex, duas mecas do punk londrino. A partir dessas apresentações, em novembro de 77, o grupo começou a ganhar público - obviamente que com toda a energia que sempre tiveram - composto pelos punks mas radicais. E, à medida que consolidavam um estilo, os shows eram cada vez mais intensos tanto por parte da banda como do público. Assim, quase sempre terminava tudo em quebradeira (não brigas). Mas faltava mesmo consolidar uma formação, pois Steve e Rory sempre deixaram claro que eram apenas "quebra-galhos" e deixaram o grupo no final de 77. Para o lugar do baixista, o irmão de Paul, que sempre acompanhara a banda, acabou sendo uma escolha natural. Na batera, a próxima tentativa seria com Robbie Boudock, que se revelaria uma grande heroinômano e depois de umas três apresentações trocou seu equipamento por droga. Teve que sair, claro. Então, Pete Davies, ex-baterista do Dick Envy, banda que de vez em quando tocava junto com os Subs, foi convidado a substitui-lo e aceitou. Enfim, o UK Subs que o mundo conheceria estava formado, com Charlie Harper, Nick Garrat, Paul Slack e Pete Davies. Esta seria, sem qualquer dúvida, a mais estável e criativa formação da banda.
Nesse meio tempo aconteceu a primeira aparição do Subs em vinil, com duas faixas (I Live in a Car e Telephone Numbers) na coletânea Farewell to the Roxy, gravadas ao vivo (ainda com Steve e Rory) no clube onde, para muitos, nasceu o punk rock londrino. Mais tarde o show inteiro do Roxy seria lançado em um LP chamado Live Kicks, que rolou bastante por aqui por na época.
Já passava da hora de procurar uma gravadora. Não foi difícil, principalmente depois de uma bem sucedida aparição no programa de John Peel (mais tarde lançada em compacto), que teria se oferecido a financiar um primeiro EP. Não foi preciso: Phil Scott da independente City Records (que lançou, entre outros, as Gilrschool) foi atrás deles e em 22 de setembro de 78 chegava às loja o EP com C.I.D., I Live in a Car e B.1.C. (parece que Charlie Harper tem uma encanação com siglas). As boas vendas da (clássica) bolachinha, alavancadas por um apoio irrestrito de John Peel (descanse em paz grande homem) e shows cada vez mais lotados facilitou para assinarem um contrato com a GEM Records, pertencente ao grupo RCA.
Contrato com um selo forte, dois a três shows por semana, "popularidade" cada vez maior. Esse foi o espetacular ano de 1979 para o UK Subs. O primeiro single com a nova gravadora foi Stranglehold, com a música título do disco no lado A e War World e Rockers no (sensacional, diga-se) lado B. Apenas uma semana após gravarem o segundo compacto eles já estavam de volta ao estúdio e começaram as sessões para o primeiro LP, no qual registraram praticamente tudo o que tocavam desde o início e apenas cinco sons novos (Killer, TV Blues, Blues, Crash Course e Young Criminals). Another Kind of Blues é uma preciosidade punk. Um clássico atemporal, comparável a LPs consagrados como, entre outros, Never Mind the Bollocks... (Sex Pistols). The Clash (idem) ou Inflammable Material (S.L.F.). Blues, como ficou conhecido o disco, consolidou o Subs como uma das bandas mais radicais de seu tempo. Ao lado de Sham 69 e Angelic Upstarts, Harper e seus comparsas eram considerados os grandes expoentes da segunda onda punk (embora todos tenham começado durante a primeira onda). Ainda que não fizessem um som rápido, a agressividade com que tocavam e as letras politizadas foram precursoras do hardcore, o som que mudaria a cara do punk rock no início da década que se aproximava.
Ainda em 79, lançaram dois compactos. Um deles, Tomorrow's Girls, com a música título no lado A (remix da versão do LP) mais Scum of The Earth e Telephone Numbers, sobras das sessões de Blues (ambas incluídas na versão do LP em CD). O outro, com um cover de She's Not There (do Zombies), Kicks, Victim e The Same. Um grande EP, que dava uma mostra do que estava por vir, além de marcar a estréia de Nick Garrat como produtor.
1980 começou com os Subs no estúdio para a gravação do segundo LP, Brand New Age. Mais um clássico. Até hoje tenho dúvidas de qual dos dois LPs é melhor. Atualmente prefiro Blues, mas já gostei muito do segundo. A produção de Charlie e Nick conseguiu manter a energia da banda ao vivo, mas com uma qualidade de gravação superior ao primeiro LP. É de Brand New Age a faixa Warhead, provavelmente a música mais conhecida do Subs, que pouco depois sairia em compacto com as inéditas The Harper, um instrumental composto por Nick em homenagem a Charlie e um cover de I'm Waiting For My Man, de Lou Reed. Outro single extraído deste sgundo LP foi Teenage, com um dos melhores lados B de todos os tempos: Left For Dead e New York State Police.
Agora o UK Subs já era uma das maiores bandas punks do mundo. As tournês sucediam-se em ritmo alucinante. Tocaram por toda a Europa e foram aos EUA. No giro histórico, estavam acompanhados pelo Ramones. Quem viu, viu. Enquanto isso, nós aqui no Brasil brigávamos para fazer um ou outro festival, sempre com a políca nos calcanhares....
Mas com a banda no auge, os primeiros problemas começaram a surgir. A cada dia ficava mais claro que havia dois UK Subs. O de Charlie e Nick e o Pete e Paul. Enquanto os dois primeiros dedicavam-se de corpo e alma à banda, os outros pareciam querer apenas curtir, ou seja, "cumpriam tabela", nada mais. Não demorou, os líderes do grupo decidiram que após o fim de mais uma das muitas tournês, colocariam as cartas na mesa e mudariam tudo. Com Paul nem foi preciso, pois cansado das inúmeras viagens, pediu para sair. Já Pete, foi dispensado. O último show do quarteto foi no Rainbow Theater, em Londres. A apresentação foi gravada para um futuro disco ao vivo, lançado pouco depois da mudança. Ironicamente, Crash Course tornaria-se o LP mais vendido do UK Subs. Mas chegava ao fim uma das melhores formações da história do punk. Um quarteto semininal para que o Exploited proclamasse que Punk's Not Dead (infelizmente, uma parte dele, sim, morria com a decisão de Charlie e Nick).


...DIE A ROCKER
A nova cozinha do UK Subs foi formada com Alvin Gibbs, ex-The Users, e Steve Roberts, ex-Cyanide. Ambos bem familiarizados com o som da banda (qual punk não era à quela altura?). Nos shows não tiveram dificuldades, mas em estúdio... O novo UK Subs estreou com um compacto, Party in Paris/Fall of the Empire, extraído das sessões do terceiro LP, Diminished Responsability. As mudanças não se resumiram à formação e ao visual adotado (estilo "new romantic"). Logo na faixa inicial do LP, You Don't Belong, nota-se a adição de um sintetizador. O som continuava pesado e as letras politizadas, mas o Subs parecia perdido entre buscar uma inovação, ou o aperfeiçoamento do "som UK Subs" ou ainda agradar a nova geração punk, representada pelo HC de grupos como GBH, Discharge, Vice Squad, etc. Diminished não é um disco ruim, pelo contrário, mas estava muito longe da genialidade e agressividade dos lançamentos anteriores. Eu sempre digo que é um disco sem rumo, além de a produção de Mike Leander, que trabalhou na maioria dos sucessos do comercialíssimo Gary Glitter, ter deixado muito a desejar. Ele não entendia porra nenhuma de rock pesado, muito menos punk. Em compensação, o disco não ia mal nas lojas, talvez com uma ajuda de Crash Course, que vendia cada vez mais. Além disso, a tour de Diminished Responsabilty foi a maior que haviam realizado até então e a primeira pela Europa com eles como banda principal.
O próximo lançamento, o EP Keep On Running, seria o último pela GEM Records. Além da faixa título a bolacha saiu com uma versão em francês de Party in Paris mais Perfect Girl e Ice Age.
O single fracassou e a GEM perdeu o interesse pela banda. Assim, a quebra do contrato foi natural e sem brigas, mesmo porque tinham uma boa proposta da NEMS, uma gravadora cuja reputação era duvidosa. Ainda em 1981 lançaram o single Countdown/Plan of Action pela nova parceira, mas já sentiram como seriam as coisas: divulgação zero.
Mas, dispostos a apagar a má impressão deixada pelo LP anterior, foram atrás de um produtor mais antenado ao mundo punk. Fizeram contato com Guy Stevens, o mesmo de London Calling do The Clash. Mas depois da primeira conversa desisitiram, já que o cara fez quatro sugestões: colocarem mais teclados, backing vocals femininos, trocar o vocalista e mudar de nome. Bastardo! Nick encarregou-se do serviço e, como sempre, o fez muito bem.
No quarto LP, Endangered Species, lançado apenas em 1982, o UK Subs recuperou, digamos, 80% da energia, o que bastava para fazer um disco genial. A faixa título, principalmente, poderia estar em qualquer um dos primeiros discos. Mas o mais importante é que a antiga coesão e o peso excepcional que marcou o grupo nos primeiros anos estava de volta. Pena que descobriram porque a NEMS tinha má fama: a gravadora não deu qualquer suporte para promover o disco. Por isso, talvez esse tenha sido um dos "melhores discos menos ouvidos dos anos 80". O contrato com a NEMS foi por água abaixo.
A seguir, por conta própria, arranjaram uma agência para promover uma segunda tour pelos EUA, com o Anti Nowhere League como banda de abertura. Antes, porém, na tour européia, Steve Roberts começou a abusar cada vez mais do álcool. Sempre bêbado, acabou provocando vários inconvenientes, como ir preso por zoar no aeroporto. Nada demais se a banda não tivesse de cancelar um show. Ficou claro que ele não poderia acompanhá-los nos EUA, onde fariam até cinco voos em um só dia! A contragosto tiveram de dispensá-lo. Para seu lugar chamaram John Towe (olha ele aí de novo), ex-Chelsea, Generation X e com uma breve passagem pelo Adverts. Mas quem acabou ficando com as baquetas foi Mal Asling, que na época tocava com o Chelsea. Com Charlie, Nick, Alvin e Mal entraram em estúdio e gravaram um EP chamado A.W.O.L., que só seria lançado em 1987! Muito bom, por sinal. Então voaram para os EUA e fizeram uma tour de 40 dias com casas sempre lotadas. Muito trabalho, mas pela primeira vez viram grana de verdade.
No retorno à Inglaterra, mais uma vez o grupo se mostrava dividido. Desta vez, com Alvin e Nick, certamente tocados elo sucesso nos EUA, com planos de fazer discos mais elaborados e Charlie Harper cada vez mais convicto de que sua vida estava no palco. Tocar ao vivo tornara-se uma espécie de droga para ele. Assim, montou o Urban Dogs, um grupo paralelo junto com Knox (guitarrista do Vibrators) para manter-se em atividade enquanto os Subs, agora uma banda "grande" que dificilmente fazia shows em pequenos pubs, os locais preferidos de Charlie, não tinha nada agendado.
Apesar de o fim parecer eminente, ainda em 1982 gravariam o single Shake Up the City, com três faixas (Self Destruct, Police State e War of the Roses) e JohnTowe na bateria. A seguir, fizeram mais uma tour de muito sucesso pelos EUA, desta vez com bandas locais abrindo os shows. No retorno, a divisão ficou cada vez mais clara. Nick e Alvin estavam convencidos de que poderiam conseguir um grande contrato nos EUA, não queriam mais tocar em lugares pequenos e, principalmente Nick, estava cansado de tocar as mesmas músicas a cada show (e eram muitos shows!). Uma tour pela Polônia, cancelada meses antes havia sido confirmada. Fizeram lá os últimos shows da primeira fase do UK Subs. A última aresentação, para um público de 24.000 ensandecidos poloneses, em Varsóvia, foi a maior que haviam feito até então. Mas era tarde, algumas decisões já estavam tomadas e na volta a Londres, Alvin e Nick anunciaram a saída.
Poderia ter sido o fim, mas Charlie não podia ficar sem sua "heroína" e chamou Steve Slack e Steve Jones (o batera) de volta e juntamento com Captain Searlet na guitarra, voltou a fazer shows sob o nome "The Original UK Subs". Essa formação chegou a lançar um LP, Flood of Lies, um dos menos conhecidos do grupo, apesar de ser muito bom. Era, na verdade, não um recomeço, mas o início de uma outra história, que dura até os dias de hoje. De 1983 em diante, várias encarnações do UK Subs surgiram a cada ano, inclusive com o retorno de Alvin e Nick em 1988 (gravaram o LP Killing Time), 1996 (gravaram dois LPs de uma só vez: Riot e Quintessentials) e recentemente em 2000 e 2004 para tournês.


Baixe os três melhores discos do UK Subs: Another Kind of Blues, Brand New Age e Endangered Species

SUBS FACTS
  • Rob Harper, o primeiro batera do UK Subs, tocou no embrionário The Clash de 1976.
  • B.1.C. originalmente chamava-se Ronald Biggs, já Rockers era Totters (ciganos que vivem na zona sul de Londres). Nick Garrat foi o responsável pelas mudanças nas duas músicas.
  • A banda ficou muito chateada com a Stiff Records por Live Kicks. Primeiro por não receberem nada pelo lançamento, depois porque nas fotos aparece a formação com Paul Slack e Pete Davies, mas quem tocou no show do Roxy foram Steve Slack e Rory Lyons.
  • Em 1979, Julian Temple, o diretor do filme The Great Rock'n'Roll Swindle (Sex Pistols) fez um documentário de 20 minutos sobre o UK Subs. Em uma das cenas, um punk sai de um caixão coberto com a a bandeira da Inglaterra e atira em quatro pessoas que representavam os skinheads, os hippies, os mods e os roqueiros. Era a representação da morte desses estilos pelo punk rock. Nada demais, se não tivesse sido filmada dentro de uma igreja...
  • Os primeiros três singles e o LP Blues foram gravados no estúdio Kigsway, pertencente a Ian Gillian, do Shit Purple, com produção de John McCoy (baixista da Ian Gillan Band). Ao final das sessões do LP, sempre rolava uma algazarra no estúdio, incentivada or John. Após todas as gravações, os Subs pegaram John e quase o mataram sufocado em uma dessas brincadeiras. Bons tempos...
  • A primeira prensagem inglesa de Crash Course saiu acompanhada de um EP de 12" grátis, também gravado ao vivo, com quatro faixas, chamado For Export Only. Não sei se essas músicas foram incluídas na versão em CD.
  • O Urban Dogs, a banda paralela de Charlie gravou três LPs: Urban Dogs (1983), No PedigreeWipeout Beach (1998). No primeiro, Alvin Gibbs é o baixista.
  • Charlie Harper gavou um disco solo, em 1981, chamado Stolen Property, no qual canta apenas covers de rock dos anos 60 e 70. Lançou ainda dois singles solos: Freaked e London Barmy Army, este segundo, o único com pegada punk.
  • Os nomes dos discos oficiais do grupo seguem uma ordem alfabética, como é possível notar pela lista abaixo (nem todos são de estúdio)
    Another Kind of Blues (1979)
    Brand New Age (1980)
    Crash Course (1980)
    Diminished Responsibility (1981)
    Endangered Species (1982)
    Flood of Lies (1983)
    Gross Out USA (1984)
    Huntington Beach (1985)
    In Action (1986)
    Japan Today (1987)
    Killing Time (1988)
    Live in Paris (1989)
    Mad Cow Fever (1991)
    Normal Service Resumed (1993)
    Occupied (1996)
    Peel Sessions 1978-79 (1997)
    Quintessentials (1997)
    Riot (1997)
    Submission (1999)
    Time Warp (2000)
    Universal (2002)
    Violent State (2005)



quarta-feira, 13 de maio de 2009

A travessia do Mar Vermelho com os Adverts


I wonder what we'll play for you tonight
Something heavy or something light
Something to set your soul alight
I wonder how we'll answer when you say
"We don't like you - go away,
come back when you've learned to play

I wonder what we'll do when things go wrong
When we're half-way though our favourite song
We look up and the audience has gone
Will we feel a little bit obscure
Think 'We're not needed here,
we must be new wave - they'll like us next year'

The wonders don't care - we don't give a damn
The wonders don't care - we don't give a damn
The wonders don't care - we don't give a damn

Os versos acima são de One Chord Wonders, primeira música lançada pelo ADVERTS, uma das bandas pioneiras da cena punk inglesa de 76-77. A história desse grupo, que considero um dos mais originais (até hoje não ouvi nenhuma banda parecida), começa em 1974, em Torquay, uma pequena cidade litorânea da região sul da Inglaterra, onde Tim Smith era vocalista do Sleaze, uma obscura banda de rock que não saiu dos pubs locais. Nessa época, Tim conheceu uma garota que tinha o apelido de Gaye Black. Os dois se tornaram amigos e ele a ensinou a tocar baixo. No verão de 75 o Sleaze acabou e a dupla resolveu fazer as malas e mudar-se para Londres com a firme intenção de montar uma banda.
Mesmo sem encontrar os demais membros escolheram o nome: primeiro seriam os One Chord Wonders, depois, num bate papo, surgiu The Adverts, nome que ficou. Além de comporem algumas músicas, a dupla tornou-se frequentadora assídua de shows do Stranglers e dos Pistols. Então resolveram anunciar no Melody Maker que precisavam de "um guitarrista especial que não fosse especial". Um tal Howard Boak respondeu ao anúncio e foi aprovado. No entanto, acabou por adotar outro apelido: Howard Pickup ("boak" é uma expressão do norte da Inglaterra para vômito, mas era difícil explicar isso). Ao mesmo tempo Tim resolveu criar um nome mais artístico: juntou o Smith, nome mais popular da Inglaterra, com o do eletrodoméstico mais comum do país e tornou-se TV Smith. Howard foi o responsável por levar a banda a ensaiar em um estúdio (até então, Tim só sabia o que era ensaio em garagens e quartos de amigos, com aparelhagens tranqueiras).
O quarto elemento foi Laurie Muscat, indicado por John Towe, baterista do Generation X (que também esteve no Chelsea), que ensaiava no mesmo estúdio e também era companheiro de trabalho de Howard em uma loja de discos. Desesperados por um baterista, eles admitiram Laurie mesmo sem ouvi-lo. Logo no primeiro ensaio descobriram que ele não sabia tocar porra nenhuma e pediram a Towe para passar uma noção a ele. "Ele era totalmente sem talento, então obviamente era a pessoa ideal para a banda", conta TV em uma entevista à revista Goldmine, em 1997. O batera adotou o apelido de Laurie Driver e não demorou a a aprender o básico. Ainda em 76 gravaram uma demo tape com cinco músicas e em pouco tempo estavam prontos para encarar um palco.
Em 15 de janeiro de 77 o Adverts fez sua estréia como banda de abertura para o Generation X no lendário Roxy Club (claro que o amigo John Towe foi importante para conseguirem a "boquinha"). Logode cara chamaram a atenção por terem uma mulher como baixista, o que era incomum no então ainda mais machista mundo do rock'n'roll. E ainda por cima era bonitinha. Tornaram-se quase que uma banda residente do Roxy - com uma dezena de shows em cerca de três meses - e logo conseguiram lançar o primeiro single, pela Stiff Records (da qual já falei em post anterior). O compacto chamou a atenção não só pelo som, mas também pela capa, com o rosto de Gaye em super close. Apesar de ser considerada uma das melhores capas de discos punks por muita gente (inclusive o próprio TV Smith hoje admite tratar-se de um clássico), na época a banda torceu o nariz. Primeiro, a própria Gaye ficou chateada, pois tinha verdadeira aversão por estrelismos. Considerava-se integrante do grupo e que todos os quatro Adverts tinham a mesma importância. Ela tinha consciência de que estava naquela capa apenas por uma questão sexista e não buscava tal exposição, queria apenas ser "música", não musa. Depois, a banda como um todo não gostou pois tinham feito uma sessão de fotos para aquela capa e jamais imaginariam que um só deles estamparia a "mardita". Para promover o single, fizeram uma tour patrocinada pela Stiff, ao lado do Damned. Mas o vínculo com a Stiff estava comprometido, tanto pela controversa capa como pelo fato de o selo estar centrado no Damned. Como já tinham um empresário, Michael Dempsey (figura lendária do underground londrino, falecido em 1981), não demoraram a conseguir um contrato com um selo maior, a hoje extinta Anchor Records, que tinha ligações com a norte-americana ABC Records, do grupo Paramount (a escolha pelo selo levou em conta uma possível divulgação nos EUA, claro). Antes de lançarem o segundo single foram convidados para uma Peel Session. Isso com menos de seis meses de existência.
Em agosto de 77, saiu o segundo compacto com Gary Gilmore's Eye e Bored Teenagers, dois dos maiores clássicos do Adverts, que chegou ao 18º posto na parada de singles ingleses. O êxito ajudou o grupo a ser indicado para abrir uma série de shows de Iggy Pop em sua tour pelo Reino Unido. Um sonho para Gaye, fan declarada do agora "vovô do punk". Dois meses depois da tour, em novembro, lançaram Safety in Numbers/We Who Wait, sem a mesma repercursão do single anterior.
Depois de quase um ano tocando direto e os três singles reconhecidamente entre os melhores de 77, estava na hora do álbum. Para a gravação escolheram nada menos que o consagrado estúdio Abbey Road. Antes do LP, porém, lançaram mais um single com No Time To Be 21 e New Day Dawning. Em fevereiro de 78 finalmente foi lançado o clássico Crossing the Red Sea with The Adverts. Adquiri este disco por volta de 81 e devo tê-lo ouvido umas 200 vezes em uma semana. Até hoje sinto algo diferente quando roda New Church, On the Roof, Bombsite Boys, Great British Mistake, On Wheels...
Após o lançamento do LP, shows, shows e mais shows. Como até então praticamente não haviam saído de Londres, iniciaram uma tour continental. No entanto, antes mesmo de completarem o giro pela Irlanda, Laurie foi atacado por uma hepatite e a excursão teve de ser interrompida. Fora de combate, o baterista foi substituído por... John Towe, que já não estava mais no Gen X. Mas o novo integrante não se adaptou e deixou o "cargo" após poucas apresentações. As baquetas passaram então para Rod Latter, ex-The Rings (tocou no The Maniacs também).
Depois da excursão pela Europa, os desentendimentos com a Anchor Records começaram. A banda e Dempsey (o empresário) queriam tentar o mercado dos EUA, mas a ABC não acreditava no potencial das bandas punks inglesas e não quis lançar o LP, apesar de muitas cópias terem atravessado o Atlântico, nem investir em uma tournê. Assim, deixaram o selo e assinaram com a RCA. O primeiro single pela nova gravadora, lançado em novembro de 78, foi o excelente Television's Over/Back From the Dead. A produção ficou a cargo de Tom Newman, o mesmo do chatíssimo Tubular Bells de Mike Oldfield. Back... também marcou o inicio de uma parceria entre TV Smith e o tecladista Richard Strange, do Doctors of Madness, banda hoje classificada como "proto-punk". Parecia o prenúncio de uma grande trabalho. O grupo gastou praticamente oito meses para conceber o segundo LP. Nesse meio tempo, o tecladista Tim Cross, que também trabalhara com Mike Oldfield entrou para o grupo. E só há uma palavra para definir Cast of Thousands: decepcionante. O disco não tem nada a ver com o primeiro. Sem energia, sem pegada e musicalmente pretencioso, mas claramente sem inspiração. Eles não precisavam gravar outro Red Sea, nem ter feito outro disco punk, mas também não precisavam fazer algo tão fraco. Ignorado pelo público e pela mídia, o fracasso iniciou o fim ao grupo que também já estava dilacerado. Após aguns shows como quinteto, Howard Pickup simplesmente desapareceu e o Adverts ficou sem guitarrista. Em seu lugar entrou Paul Martinez. Depois, Latter também abandonou o barco e o irmão de Paul, Rick, ficou em seu lugar. Ainda gravaram uma Peel Session, a quarta, em outubro de 79. Mas sem público, castigados pela mídia e ignorados pela RCA, fizeram a última aprsentação em 27 de outubro de 79, no Slough College. Howard Pickup morreu de câncer no cérebro, em 11 de julho de 1997.

Baixe aqui Crossing the Red Sea With The Adverts e aqui o Singles Collection


ADVERTS FACTS
  • O Sleaze, a primeira banda de TV Smith, chegou a gravar um LP por conta própria, do qual foram prensadas apenas 50 cópias, distribuídas para amigos e familiares. Uma das músicas deste disco, Listen don't think, foi reformulada pelo Adverts e rebatizada como New Boys.
  • Gary Gilmore's Eyes foi baseada em uma das mais tétricas histórias da época. Gilmore era um assassino norte-americano condenado a morte que pediu insistentemente para ser executado antes do tempo e que seus olhos fossem doados para transplante, já que "o coração não servia para nada"! Mas na época muita gente confundiu o personagem com Gary Gilmour, um famoso jogador de críquete.
  • Apesar de ajudar a atrair público e atenção da mídia, além de contribuir para que outras minas se aventurassem nos palcos, o fato de Gaye Advert ter se tornado uma espécie de musa punk atrapalhou um pouco a banda, sempre vista como o grupo da "baixista sexy". Alguns tablóides chegaram a comentar qu ela era a vocalista mais sexy de Londres. No máximo, ela fazia um ou outro backing volcal. O tom de voz de TV Smith realmente parece feminino, mas nas capas dos discos tinha os créditos... coisas da gloriosa imprensa musical!
  • O engenheiro de som de Crossing the Red Sea... foi John Leckie, o mesmo do aclamado álbum Dark Side of the Moon do Shit Floyd.
  • Gaye Advert foi convidada por Ari Up para ser uma das Slits, mas recusou, pois "preferia ficar em companhia de garotos".
  • No Crossing the Red Sea... original as faixas Gary Gilmore's Eye e New Day Dawning ficaram de fora e só foram incluídas no relançamento em CD.
  • TV Smith seguiu carreira solo e está em atividade (confira o site oficial). Gaye Advert, que mora com ele, aparece eventualmente em shows do companheiro, mas oficialmente retirou-se do mundo da música. Laurie Driver e Rod Latter também não se envolveram mais com música.

domingo, 10 de maio de 2009

BRAZILIAN TRIBUTE TO THE ORIGINAL TSOL



Quando ouço a palavra "tributo" fico desconfiado. Muito desconfiado. Primeiro pelo significado do termo, que remete a pagar imposto para uma cambada de salafrário viver no bem bom enquanto boa parte do país está literalmente na merda. E segundo, pelo outro significado, ligado ao mundo musical, mais especificamente ao "tar" de show business (ou bizz ou o raio que o parta). A maioria dos tributos são discos para vender mais do(s) mesmo(s). A praga dessas "homenagens" é tão grande que hoje já não há quase nenhuma banda ou artista solo que tenha gravado mais de dois discos que não tenha recebido seu "tributo".
Por isso, quando recebi um e-mail sobre um tributo de bandas brasileiras ao TSOL já me arrepiei: "porra, até com eles?". Mas uma pequena olhada na lista do pessoalque ia prestar a hmenagem e uma aprofundada no que realmente se tratava, a parada me despertou a curiosidade: só conhecia o Shit With Corn Flakes, e ainda assim, havia acabado de conhecer o som deles. Como algumas músicas do projeto estavam disponíveis no Myspace fui conferir. Surpresa: o trabalho é bom e não se trata de oportunismo. São bandas independentes que realmente curtem o som e gravaram algumas das melhores músicas, com estilo próprio. É TSOL, mas não uma simples reprodução. Outra coisa revelada pelo projeto é que o Brasil tem uma cena pos-punk muito ativa e com bandas de ótima qualidade, confesso que estava bem por fora disso tudo. Há vida após a morte!
BRAZILIAN TRIBUTE TO THE ORIGINAL TSOL é a melhor coletânea nacional que ouvi desde há muito tempo, embora tenha de admitir que nos últimos anos esteja desiludido com o punk/pos-punk brasileiro.
São dez faixas de nove bandas e desde a primeira, Soft Focus, com o Vitrine, até Waiting for You, com o Escarlatina Obsessiva (não sei se foi mera coincidência mas as duas faixas também abrem e fecham o excelente LP Beneath the Shadows, de 1982) o trabalho é de uma densidade digna dos homenageados. E como prova maior de que não se trata de oportunismo, o disco só pode ser "adquirido" de uma forma: baixando gratuitamete na rede.
O projeto foi desenvolvido pela dupla Karolina e Zaf, que formam o Escarlatina Obsessiva, banda que me impressionou bastante, principalmente pelo vocal, um timbre de voz raro no punk/pos-punk nacional. É o duo que dá mais informações sobre o projeto.

FZ - Como e quando surgiu a idéia do tributo? Karolina - No final do ano passado (2008) mais ou menos em novembro...não sei como ela surgiu... acho que pelo fato de o TSOL ser uma das bandas que mais ouvimos, de termos contato com o Jack e também pelo fato do TSOL original ser muito pouco divulgado no Brasil... Na verdade, existem duas bandas com o nome TSOL... é uma puta confusão, mas vou tentar resumir e explicar o porquê: "Jack Grisham, Ron Emory, Mike Roche e Todd Barnes eram quatro garotos que cresceram juntos em Huntington Beach e, após formarem a banda em 1979 na Califórnia, se tornaram a sensação do momento na costa oeste dos EUA. Foi nesta época que a banda estrelou no filme SUBURBIA. Em 84, Jack e Todd deixam a banda. Com Ron ainda na guitarra e Mike no baixo, vem o novo membro, Joe Wood, nos vocais (cunhado de Jack) e Mitch Dean na bateria. Este álbum iniciou a transformação do TSOL para um estilo mais rock'n'roll. Após o LP Change Today (primeiro deles lançado por aqui) vieram Revenge, Hit and Run, TSOL Live (gravado na Coach House em San Juan Capistrano, California) e Strange Love (neste álbum, os únicos dois membros restantes da formação inicial do TSOL deixaram a banda, não restando, assim, nenhum membro original)... Nos dias atuais, temos os membros originais stão juntos novamente, produzindo shows e gravando novos trabalhos." (créditos ao site do TSOL original....) www.truesoundsofliberty.com
O que sabemos é que teve uma época que haviam duas bandas tocando nos EUA com o nome TSOL.....às vezes na mesma noite, nos mesmos clubes... isso gerou uma baita confusão! Os envolvidos fizeram um acordo judicial. Não sabemos exatamente o conteúdo do acordo, mas parece que a banda do Joe Wood só pode tocar aqui no Brasil! Por isso sempre tem shows do TSOL fake por aqui. Infelizmente, o TSOL original ainda não pode tocar aqui, isso explica o porquê da maioria dos brasileiros só conhecerem o TSOL do Joe Wood.
Esse era o ponto onde queríamos chegar. O Tributo veio com o intuito de divulgar o verdadeiro True Sounds Of Liberty, o punk/pos-punk/hardcore, porque este outro TSOL denegriu o som da banda original fazendo um rock and rollzinho glam.
Nos EUA é o contrário daqui, lá ninguém quer saber deste outro TSOL, eles preferem os originais. Não há como comparar as duas bandas, são muito diferentes... Bom, mas quem entende de música e de punk rock sabe... rs
Conclusão: o intuito principal foi fazer a distinção destes dois TSOL aqui no Brasil, além, é claro, da grande divulgação das bandas brasileiras undergrounds por lá, mostrando que aqui existe um trabalho sério acontecendo e colocando o "verde-amarelo" na parada!

FZ - Houve algum critério para escolher as bandas?
Karolina - São bandas que curtimos e são nossos amigos... não teve nenhum critério! Fomos chamando as bandas amigas que conhecíamos e eles curtiram muito a idéia e se disponibilizaram a gravar numa boa. Inclusive agradeço muito a eles pelas ótimas versões e pela disponibilidade.

FZ - Quem financiou as gravações? Karolina - As bandas financiam suas próprias gravações. A maioria destas bandas são DIY, como nós, que gravamos em nossa casa... mas outras gravam em estúdio. Mas ningúem financia, nós mesmo temos que correr atrás, se quisermos que as coisas sejam feitas...

FZ - E onde a Zorch Factory entra nisso?
Karolina - A Zorch Factory é um selo virtual francês, eles lançam CDs inteiros virtualmente e tal. Eles nos procuraram interessados em lançar o Tributo e achamos uma boa, já que ninguém ganha nada com isso... nem as bandas, nem eles. E a Zorch também é adepta ao DIY. Eles entram como selo virtual e na divulgação também.

FZ - Quanto tempo levou da idéia original até a publicação? Mais ou menos seis meses.

FZ - Quem quiser comprar o CD (no Brasil) como faz? Ou só tem via Internet?
Só free download via Internet mesmo, pelo site da Zorch: http://www.zorchfactoryrecords.com. É só entrar e clicar na capinha do disco e baixar!

FZ - "Fale" um pouco de cada cada banda ?

# THE SILENT PARTY (ABC-SP)
POST PUNK/ ALTERNATIVE/ ROCK
Banda formada em 2005
MEMBROS - Anderson Tilly (teclados, vocais e guitarras), Carlos Porto (baixo, guitarras, vocais), Eduardo Leite (guitarras e backing vocals), Sandro Gavião (bateria e backing vocals) e Luciano Silva (baixo)
SITE: www.silentpartyband.com
MYSPACE: www.myspace.com/silentparty
ÁLBUNS LANÇADOS: "I guess you wouldn’t feel shocked"

# SHIT WITH CORN FLAKES (São Paulo-SP)
HARDCORE/ PUNK
Formada em 2005
MEMBROS: Uilha (bateria), Maldito (guitarra), Kanella (vocal) e Barreto (baixo)
MYSPACE: www.myspace.com/swcf
ÁLBUNS LANÇADOS: demo - Baseado na velha escola do caos (2008)

# ELEGIA (São José dos Campos-SP)
Banda formada em 1989
MEMBROS: Escobar (bateria), Emerson Deniz (baixo, viola, back up vocal), Marcelo D'Angelo Mayumi (backing vocals) e Paulo Gotoh (vocal)
MYSPACE: www.myspace.com/3legia
ÁLBUNS LANÇADOS: Elegia (2000) e Underworld (2004)

# VITRINE (Brasília-DF)
Post punk / New Wave
MEMBROS: Mark Santana (baixo), Israel Veloso (guitarra/Voz), Davi Kaus (guitarra) e Anderson Gomes (bateria)
MYSPACE: ww.myspace.com/vitrinebrasilia
ÁLBUNS LANÇADOS: demo "Pretensão" (2007)

# ESCARLATINA OBSESSIVA (São Thomé das Letras/MG)
Pos-Punk/Punk
Banda formada em 2006
MEMBROS: Karolina (baixo, vocal) e Zaf (guitarra, teclados, bateria eletrônica)
MYSPACE: www.myspace.com/escarlatinaobsessiva
ÁLBUNS LANÇADOS: Chants of Lethe (2006) e Blossomy Parks (2007)

# LUIZA FRIA (Brasília-DF)
Death Rock/Pos-punk
Banda formada em 2007
MYSPACE: http://www.myspace.com/luizafria
MEMBROS: Kel Killer Suxxx (vocal), Luc (baixo/guitarra), Moiirah Kadaver (guitarra/baixo), F. Rodríguez (bateria) e Lex Sothan (teclado)
AINDA NÃO POSSUEM ÁLBUM LANÇADO

# BELLS OF SOUL (São Paulo-SP)
Pos-punk/Gothic
Banda formada em 2003
MYSPACE: www.myspace.com/bellsofsoul
MEMBROS: CLAUDIONOSFERA (guitarras/vocais/bateria/efeitos) e SANIAN (teclados/vocais/efeitos)
ÁLBUNS LANÇADOS: Bells of Soul (2005) e The Sadness and the Garden (2007)

# DAYS ARE NIGHTS (São Paulo-SP)
New wave/Cold Wave/Pos-Punk/Rock 80
Formada em 2006
MYSPACE: www.myspace.com/daysarenights
MEMBROS: Dennis 80's (voz, teclado, programações), Brunno (guitarra), Ruti Monteiro (bateria eletrônica)
ÁLBUNS LANÇADOS: Sounds of the end (2006) e Eu te vejo dormir enquanto o temponos mata (2008)

# IGREJA DO SEXO
Death Rock /Gothic /Punk
Formada em 2007
MYSPACE: www.myspace.com/igrejadosexo
MEMBROS: Sonâmbulo (voz, guitarra, baixo e programações), Rasputina (guitarras), Carne Seca (teclado), PinHead (baixo) e BlackVomit (bateria)
AINDA NÃO POSSUEM ÁLBUM LANÇADO

Então, entra no site da Zorch e confira

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Pequenos Gigantes V - Good Vibrations Records

Foto recente de Terri Hooley

Nos anos 70, Belfast era uma cidade tão segura quanto Bagdá é hoje. A Irlanda do Norte, ou Ulster, sofria com uma onda de violência por motivos políticos e divergências religiosas que dividem o país até os dias atuais. A diferença é que depois de muitas mortes sem sentido, alguns acordos foram selados e a situação está bem mais tranquila, embora não totalmente resolvida. Mas esse tópico não é sobre a política e a divisão religiosa do Ulster (confesso que não entendo muito bem o que realmente acontece por lá), mas sobre a GOOD VIBRATIONS RECORDS, o principal selo independente e maior responsável pela divulgação do punk norte-irlandês. A importância desse selo é tão grande que relatar sua história é também contar a história do punk naquele país.
O punk rock na Irlanda do Norte surgiu quase que ao mesmo tempo que na Inglaterra. Claro que a proximidade geográfica tem tudo a ver com isso. Mas também a situação político-social do Ulster deu sua "contribuição" ao colocar nas ruas uma geração de jovens sem perspectiva de futuro. "No future" na Irlanda do Norte dos anos 70 não era apenas verso de música. Para muitos jovens, entrar em grupos paramilitares (o IRA era apenas um deles, na verdade, existiam muitos) era o caminho natural. Morrer era muito fácil.
Em tal cenário e com Londres a apenas alguns quilômetros, o punk rock, com toda sua agressividade, além de poder ser tocado com instrumentos baratos e em qualquer esquina, naturalmente conquistou espaço e logo surgiram diversas bandas. Uma característica bastante curiosa de muitos grupos do período inicial (76-78) do punk na Irlanda do Norte, era fazerem um som mais melódico, que oscilava entre o punk rock, o power pop e a new wave.Para isso contribuiu o fato de o glam rock de grupos como T-Rex, Sweet e New York Dolls fazerem bastante sucesso por lá. E é com lembrar que Rory Gallagher, vocalista e guitarrista do Thin Lizzy, é de Belfast. Outro fator que abriu espaço para os punks foi que o rock estava praticamente morto.
As primeiras bandas punks norte-irlandesas (das quais falarei mais em post específicos) foram Rudi, The Undertones e The Outcasts. Entre os pioneiros menos famosos e com existência bem mais efêmera estão The Deotnators, DC9 e Starjets. Todos formados entre 75 e 76.
A cena punk/new wave do Ulster revelou ainda nomes como Boomtown Rats, Radiators From Space e Stiff Little Fingers, mas esses três se mandaram para Londres bem cedo, pois notaram que em seu país, teriam bem poucas chances de gravar alguma coisa. E é aí que entra o herói desse post, um ex-hippie chamado Terri Hooley.
Dono de uma pequena loja de discos em Belfast, que já se chamava Good Vibrations ("homenagem" a uma música do Beach Boys), Hooley simpatizou com o punk após assistir o Rudi e o Outcasts. Conversou com as bandas e resolveu dar uma força para eles conseguirem shows. "Ninguém queria gigs punk naquela época e a única maneira de conseguirmos fazer um era ligar para os locais e dizer que estava organizando uma festa de 21 anos de sua filha e que tocariam algumas bandas. Quando eles descobriam que na verdade era uma gig punk, era tarde demais...", conta Hooley numa entrevista de 2008 ao jornal Belfast News Letter (leia o texto completo aqui).
Depois de organizar um show com sete bandas que acabou em grande confusão e a polícia mandando todo mundo para casa na base da porrada (sem novidades aqui), Hooley sentiu que era hora de por mais lenha na fogueira. Como a possibilidade daquelas bandas gravarem era praticamente zero, arregaçou as mangas e deu vida ao selo GOOD VIBRATIONS. A essa altura, final de 77, o Reino Unido já fervia com o fenômeno punk. Belfast já fora visitada pelo Clash (em um show que entrou para a história por ter sido cancelado pouco antes de começar, o que transformou o local em que se realizaria em um campo de batalha) e outros grupos. O Stiff Little Fingers já lançara seu primeiro single, com Alternative Ulster, revelando que em Belfast tinha muito mais que bombas e grupos paramilitares.
O primeiro compacto da GV foi Big Time/Number One, do Rudi, que saiu em abril de 78, Apesar de ter mandado para rádios e revistas do Reino Uido inteiro, a repercursão des lançamento foi zero. Depois seguiram-se singles do Victim e do Outcasts. Então em setembro, sai o EP Teenage Kicks do Undertones, banda que a princípio nem Hooley queria gravar. O fato é que o disco foi ignorado até cair nas mão de John Peel, que ficou tão entusiasmado ao ouvi-lo que, inusitadamente, o tocou duas vezes seguidas, algo que jamais acontecera em seu programa (e, muito provavelmente, em toda a história da BBC).
Aí, nosso herói deu uma grande prova de integridade. Na manhã seguinte, a Sire Records procurou a banda para contratá-los. Eles aceitaram mas queriam Hooley como empresário. Só que ele se recusou com o argumento de que não estava de saída de Belfast, pois queria ficar lá e colocar a Irlanda do Norte no mapa da música.
O êxito comercial do Undertones impulsionou a GV, que em um espaço de dois anos lançou 15 compactos (incluindo cinco de bandas não irlandesas, cmo o The Bears, já postado aqui no FZ) e dois álbuns. Mas, para variar, Terry Hooley, além de muito honesto com as bandas, não tinha o senso comercial necessário para o ramo e não suportou uma das muitas crises econômicas vividas por seu país. A Good Vibrations fechou as portas em 1980. Ainda fez alguns lançamentos entre 81 e 83, mas já com muito mais dificuldades que no próprio início.
Nos anos 90, com a volta do interesse pelo punk rock, o selo voltou a respirar, porém, uma vez mais não resistu à feorocidade do mercado e voltou a fechar. Uma boa contribuição para esse breve renascimento do selo foi uma frase de Curt Cobain, quando passou por Belfast e foi hospitalizado: "Eu não ligo se morrer aqui, porque é o lar da Good Vibrations Records". Em 2000, a GV reapareceu com um CD-single do grupo Twinkle e um álbum (em CD) do Social Scum, chamado Ooops.
Confira a discografia do selo no site irishrock.org
Para conhecer um pouco do trabalho de Terri Hooley e das bandas pioneiras do punk norte-irlandês, baixe a coletânea GOOD VIBRATIONS SINGLES COLLECTION (parte 1 aqui e parte 2 aqui), com faixas dos primeiros anos deste importantíssimo selo das bandas Rudi, Victim, Outcasts, Undertones, XDreamysts, The Idiots e outras.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Ressurreição


Em julho do ano passado, no post "Black Power", o FZ deu uma pincelada na incrível história do DEATH. Na época até fiz um breve contato com Bobby Hackney Jr., filho de um dos integrantes da banda e ele me disse que em breve mais músicas do Death seriam lançadas. Até então, apenas as duas músicas do raríssimo compacto de 76 estavam disponíveis para o mundo ouvir. Só que eles haviam gravado outras cinco faixas para o tal LP que a Columbia decidiu não lançar porque eles não aceitaram mudar o nome da banda. As negociações eram com a Livewire, mas o CD acabou sendo lançado pela Drag City no início deste ano.
Enfim, 35 anos depois, o erro foi reparado e um dos trabalhos mais consistentes em termos de rock pesado ou do que muita gente chamaria de "proto punk" pode ser ouvido. Sob o mais que justificável título ... for the whole world to see, o Death renasce das cinzas. E não só o som veio à luz do dia e à alegria da noite, como também a história do grupo foi inteiramente revelada, em detalhes. É tão incrível que até o New York Times não hesitou em publicá-la.
O Death é de Detroit, coincidentemente, ou não, lar dos Stooges e do MC5. Portanto, um dos berços do punk. Por volta de 1971, os irmão Hackney - David (guitarra e vocal), Bobby (baixo) e Dannis (bateria) - começaram a ensaiar na garagem de seus pais. No início, tocavam apenas funk e soul music. No entanto, após assistirem a uma apresentação de Alice Cooper, em 1973, resolveram mudar o estilo. Na verdade, eles já tinham uma tendência roqueira (se não, o que foram fazer num show de Alice Cooper?), já que David ouvia muito The Who. E, como qualquer roqueiro de Detroit, logo começaram a ouvir também Stooges e MC5. Não demorou para que essas influências fossem integradas à música que faziam. Quando resolveram tornar-se uma banda de verdade, adotaram o nome mais "rocker" que puderam pensar: Death. Mal sabiam que isso acabaria por emperrar seus sonhos.
Então começaram a tocar em cabarets e festas de garagem na zona leste de Detroit, onde a maioria dos habitantes eram, como eles, afrodescendentes. Claro que o som extremamente agressivo para a época causou espanto. "Éramos ridicularizado porque naquela época todo mundo de nossa comunidade ouvia o som típico da Philadelphia. Earth, Wind & Fire, The Isley Brothers... As pessoas sentiam que fazíamos um trabalho diferente. Insistimos em continuar a tocar rock'n'roll porque havia muitas vozes tentanto fazer com que abandonássemos isso", afirmou Bobby na entrevista ao NYT (de onde extraí as falas).
Como irmão mais velho, David era o "cabeça" do grupo e quando decidiram gravar foi ele quem escolheu, de modo aleatório numa lista telefônica, um estúdio para a empreitada. Feito o contato assinaram com a Groovesville Production. "Eu sabia que aqueles garotos eram grandes. Mas naquele tempo era duro introduzir um grupo de negros no rock'n'roll", revelou Brian Spears, diretor da Groovesville que acompanhou as sessões. Com a fita em mãos os irmãos Hackney foram a Nova York negociar o lançamento do disco com a Columbia, mais precisamente com um tal de Clive Davis. Foi esse executivo - que até teria gostado do som - quem exigiu que a banda mudasse de nome para fechar o contrato. E foi David, quem deu a resposta: "Não, porra!". "Ele acreditava firmemente que poderíamos assinar com outra companhia. Éramos uns garotos valentes, mas David era o mais valente de nós", conta Bobby.
Como não conseguissem o contrato, decidiram então lançar duas das faixas que gravaram (Politicians in my eyes e Keep on knocking) em compacto por um selo próprio, a Tryangle Records (isso em um tempo em que lançamentos independentes praticamente não existiam). As demais faixas ficariam para quando o sonhado LP se tornasse realidade, o que acabou não acontecendo. Em 1976 (ao contrário do que muita gente pensa) as rádios de Detroit só tocavam disco music e, sem qualquer esquema de distribuição e divulgação, o compacto simplesmente não vendeu. Desiludidos e com a cabeça fervendo, os irmão Hackney foram convidados por um parente distante para passar um tempo em Vermont. Aceitaram, para tentar reorganizar as idéias. "Estamos até hoje tentanto limpar nossas cabeças", brinca Dannis.
Depois disso os caras mudaram totalmente o foco e transformaram o Death em 4th Movement, uma banda de rock gospel que chegou a lançar dois álbuns no início dos anos 80. Por ironia, David, que foi o criador do nome Death e o integrante que mais bateu o pé para sua manutenção, morreu, em 1982. Bobby e Dannis formaram então o Lambsbread, grupo de reggae que se mantém em atividade até hoje e tem alguns discos produzidos por eles mesmos e gravados em um estúdio próprio.
A ressurreição do Death aconteceu por acaso. A história é bem curiosa, mesmo. Julian Hackney, um dos três filhos de Bobby Hackney ouviu o som do Death em uma festa - no ano passado - e pensou ter reconhecido a voz do tio. Pediu informações sobre a banda e, intrigado, contou o ocorrido para seu irmão Bobby Jr.. Daí, resolveram pesquisar na Internet sobre aquela curiosa banda. Claro que nesse universo virtual paralelo acabaram descobrindo o fio da meada. Questionaram Bobby pai (lembram do desenho, Bob pai e Bob filho?) que lhes contou toda a história. Bobby Jr entusiasmou-se mais ainda quando ouviu a fita dos outros sons gravados e iniciou a cruzada para a ressuscitar o Death. Conseguiu. Apesar de ser impossível que o grupo volte realmente a tocar, afinal um terço e a principal cabeça já não está mais entre nós, hoje o mundo já sabe que a banda existiu.
O Death foi sepultado pela arrogância de um executivo sem a mínima visão de mercado; pelo preconceito contra "malucos" que não seguem estereótipos da indústria cultural e, claro, preconceito racial também. O LP deles está no nível de MC5, Stooges, New York Dolls, Dust e muitos outros grupos da era pré-punk. Se tivesse sido gravado por garotos brancos e junkies certamente teria ido para as lojas e conquistado um espaço considerável no mundo do rock. Hoje, os tempos são outros e, ainda que tarde (muito tarde), o Death tem seu recado ouvido.
Para fechar, entusiasmados com tudo isso, os filhos de Bobby Hackney (Bobby Jr., Julian e Urian), formaram o Rough Francis, banda que promete resgatar o estilo do Death. Estão em fase de composição e logo devem lançar algo. Está no sangue.

Baixe aqui For the whole world to see, com as músicas do compacto remasterizadas e as outras cinco faixas inéditas.

sábado, 25 de abril de 2009

Novatos com estilo - SHIT WITH CORN FLAKES


O nome não é dos mais agradáveis: SHIT WITH CORN FLAKES. Mas eles não querem agradar mesmo, tanto que fazem questão de dizer que tocam um hardcore "tosco e ruim". É mais uma banda em atividade que dá sua contribuição para manter a chama da rebelião punk acesa. O grupo é de São Paulo e ainda não gravou CD, mas tem uma demo - Baseado na velha escola do caos - com oito sons, lançada no ano passado. Ouvi e gostei. Os caras têm estilo. Velocidade, peso, boas letras e um excelente vocal, que em alguns momentos me lembrou Ian Mackaye (Minor Threat). Se continuarem nesse caminho vão conquistar seu espaço, com certeza. Fiz uma entrevista por e-mail com eles para apresentar melhor as idéias e a história da banda.
SWCF na internet:
http://www.myspace.com/swcf
http://www.fotolog.com/swcf

Baixe aqui a demo Baseado na velha escola do caos


FZ - Quando, onde, como e por que a banda começou?
Kanella - Bem, o SWCF teve início em meados de 2005, com a simples proposta de tocar punk rock com influência das bandas que gostamos e, claro, nos divertirmos fazendo isto.

FZ - Quem são os integrantes atuais e o que cada um toca? (E se alguém saiu, quem?)
Kanella - Eu no vocal, Maldito (guitarra), Uilha (bateria) e Od (baixo). O Od entrou na banda em setembro do ano passado, no lugar do Barreto que tocava com o SWCF desde o início.

FZ - Vcs costumam fazer shows? Onde já tocaram?
Kanella - Temos feito em média um show por mês. Tocamos em lugares como o Germinal, Estúdio Caffeine, Chamegos Bar e na casa de amigos, onde acontecem os melhores shows (he, he). Tivemos a oportunidade de tocar nas cidades de Piracicaba, Limeira e Ribeirão Preto. Está confirmado um show em Campinas no próximo mês, tocamos onde surgirem convites e assim vamos nós!!

FZ - O que é punk rock para vocês?
Kanella - Na minha opinião o Punk Rock é toda a sua cultur,a é uma escola que liberta nossas mentes desse maldito padrão convencional em que estamos inseridos.

FZ - Vcs têm posicionamento político? Qual o tema predominante nas letras?
Maldito - Somos contra qualquer forma de estado, seja de direita ou de esquerda, pois acreditamos que o princípio da desorganização social está na autoridade. Em nossas letras procuramos retratar a realidade do mundo que vivemos, como por exemplo a música Voices, que fala sobre o sofrimento e angústia das vítimas da guerra de classes ou de nações que acontecem diariamente no globo . Em Excluído tentamos explicar como é sentir na pele ser um excluído social e ou ser um jovem marginal que tenta lutar para sobreviver. Na Paz Mundial expomos uma visão meio que "niilista" sobre o mundo hipócrita e podre em que vivemos, onde pessoas egoístas, gananciosas, religiosas e nacionalistas matam e morrem por pura ignorância e ainda dizem que são a favor da paz mundial.

FZ - Como vêem o cenário punk nacional de hoje? Quais bandas em atividade vcs curtem? E quais das antigas mais influenciaram o som e a cabeça da banda?
Kanella - O cenário nacional é imenso, bem diverso e inúmeras sub-cenas, com características boas e ruims. Nossa, tem tanta banda boa em atividade hoje, dá um trabalhão pensar... ha, ha, ha, ha... Bem, vai algumas aí: Invasores de Cérebro, Agrotóxico, Nerds Attack, Isabella Superstar, Herdeiros do Ódio, Comedores de Lixo, Rotten Flyes, etc...
Já em relação às bandas que nos influenciaram... Circle Jerks, Minor Threat, Black Flag, Ulster, Grinders, Restos de Nada, tem muito mais bandas, mas pra resumir geral: HC Brasileiro, Italiano, Norte-Americano, Sueco e Japonês dos anos 80.

FZ - Pretendem conquistar o mundo? Onde querem chegar?
Maldito - Ha, ha, ha, ha! Não temos essa pretensão não...

FZ - Fiquem à vontade para colocar mais coisas...
Kanella - Quero agradecer pela oportunidade (admiro o Fator Zero), agradecer às bandas que sempre nos apoiaram, aos coletivos que sempre tiveram a coragem de convidar a gente pra tocar em seus shows, nossos amigos que estão sempre por perto e têm paciência de aturar o som do SWCF e as nossas pessoas ... ha, ha, ha.

Raízes Germânicas parte 3 - Male, os pioneiros de Düsseldorf


De volta à história do punk alemão, o FZ apresenta o MALE, que tem em seu DNA fatores dos dois posts anteriores sobre o assunto: a veia e a consciência política do Ton Steine Scherben e a sonoridade básica e agressiva do Big Balls and the White Idiot. No entanto, o Male não é uma simples reunião dessas influências, pelo contrário, é difícil achar traços aparentes das duas bandas no som deles.
Formado no final de 76, o Male reivindica para si o pioneirismo no punk alemão, o que muita gente aceita, por não considerar o Big Balls "punk autêntico". Mas outros grupos também estão nessa "disputa", a meu ver inútil e infrutífera, como o The Neat, de Dortmund. Não vou entrar nesse mérito porque defendo a tese de que o punk é um fenômeno urbano espontâneo, portanto, não foi criado por ninguém. São muitos os "pioneiros" do punk: toda uma parcela da juventude mundial da metade dos anos 70, que vivia em médios e grandes centros urbanos, revoltada com algum tipo de repressão, opressão, exclusão, etc, e que esperava encontrar isso na música ou em outras formas de arte. O rock, que desde os anos 50 era o modo de "arte" mais próximo do que sentiam esses jovens, perdera a condição de porta voz desse sentimento constestador, totalmente absorvido pela indústria cultural. No entanto, a molecada, sem perspectiva, reapropriou-se do que era seu e deu nova roupagem e linguagem ao velho e bom rock'n'roll. Curioso que, como em um ciclo sem fim, a indústria cultural absorveu o punk também, e mais tarde até o hardcore...


O Male é da cidade de Düsseldorf e foi criado por por Jürgen Engler (vocal e guitarra), Bernward Malaka (baixo) e Stefan Schaab (guitarra), todos amigos de escola que tiveram contato com o punk inglês (Engler, através de um artigo de jornal mostrado por seu pai, enquanto Schwaab e Malaka ouviram Eddie & the Hot Rods e Sex Pistols no rádio) e decidiram que era aquilo que queriam fazer. Depois, convidaram Claus Ritter para a bateria. As primeiras apresentações foram em escolas locais. Com letras politizadas, a mensagem do Male estava associada também ao cotidiano, às angústias de quatro garotos que ainda não tinham 18 anos quando a banda foi formada. Opressão policial, censura e consumo são alguns dos temas que aparecem nas letras do Male (e de trocentas mil bandas do mundo todo na época).
Apesar de ter surgido em 76 e terem feito algumas apresentações em 77, o Male só chamou a atenção do restante do país em 78, quando participaram de festivais punks em Hamburgo e Berlim. Em vinil, o grupo só apareceu em 1979, com o LP Zensur & Zenzur, este sim, sem qualquer dúvida, o primeiro álbum punk com letras totalmente em alemão (até então, apenas alguns compactos haviam sido lançados no país). Pode não ser um grande disco, um clássico instantâneo, mas vale pela importância histórica e tem faixas muito boas, como Vaterland, Planspiel e Polizei. Particularmente acho o disco um pouco "frio" e difícil de se gostar na primeira audição. Logo após o LP lançaram também o single Clever & Smart/Casablanca, em que a influência do Clash aparece mais nitidamente, principalmente no lado b.
Em 80, o Male parecia estar no auge e tinha tudo para enfim tornar-se uma banda "grande". Convidados para abrirem o show do Clash, em Berlim, tiveram uma exposição que jamais sonharam. No entanto, a apresentação não saiu como planejada. Foi a gota d'água e após o concerto, que deveria ser o grande impulso para a carreira do Male, o grupo dissolveu-se. "Já não era mais o meu mundo, eu queria fazer algo novo", declarou Engler em entrevista recente ao jornal WZ. E fez: juntamente com Malaka fundou o Die Krupps, grupo de música eletrônica - uma tradição em Dusseldorf, lar do Kraftwerk - que ajudou a construir as bases para o que hoje é conhecido como "rock industrial". No início o grupo era bem mais experimental, depois, passou a misturar as guitarras pesadas do heavy metal com os sintetizadores, algo comum hoje, mas revolucionário naquela época. Schwaab e Ritter, por sua vez, fundaram primeiro o Freunde der Nachten e, depois, o Alright Bros, também com som eletrônico.
A importância do Male para o punk alemão pode ser medida nas palavras de Campino, vocalista do Toten Hosen, a banda mais conhecida daquele país atualmente e que abriu vários shows do Male quando ainda eram chamados ZK: "Se não fosse o Male, talvez o Toten Hosen não existisse".
Baixe o histórico Zensur & Zensur e também a coletânea Grosseinsatz 1977-1994



MALE FACTS
  • Logo na estreia, o Male queimou uma bandeira alemã no palco, o que acabou sendo um grande escândalo, afinal, estavam dentro de uam escola. Também o modo como se vestiam fez com que fossem marginalizados em Düsseldorf. Tudo o que queriam...
  • Em um dos shows da banda em Berlim, em 78, na platéia estavam David Bowie e Iggy Pop, que acabou conversando com o grupo nos bastidores.
  • Um dos motivos do fracasso no show com o Clash, que acabou por motivar o fim da banda, foi não poderem passar o som antes da apresentação. Primeiro porque chegaram duas horas atrasados, por estarem bêbados, depois porque tiveram que esperar acabar um jogo de futebol (?) no ginásio.
  • Em 1990, Jürgen Engler agitou uma reunião do grupo que gravou quatro músicas antigas (Wie Bonnie und Clyde, Die Ewigen Verlierier, Sirenen e Irgendwann...). As faixas apareceram na reeedição em CD de Zensur & Zensur e também numa coletânea de raridades do grupo chamada Grosseinsatz 1977-1994.
  • Uma nova reunião foi organizada para comemorar os 25 anos do Male, em 2002, quando fizeram shows em várias cidades alemãs. Atualmente, o site da banda (http://www.male-punkrock.de) anuncia que eles estão em estúdio.