16/04/2016

Dead Boys: punk, rock, extremos

O Dead Boys em 1977
Em 1975 o punk ainda não existia "oficialmente". Mas o Dead Boys já. E era assustadoramente punk. Não é exagero dizer que deram uma contribuição à altura do Ramones para que todo o processo, movimento, fenômeno ou seja lá o que for, chamado punk se espalhasse pelo mundo.

Com um som que entra facilmente no rol dos mais agressivos daquele período, o Dead Boys literalmente encarnava tudo o que viria a ser o punk desde então. E ainda possuíam uma habilidade musical inegável, quer seja em estúdio ou no palco, onde Stiv Bators o vocalista detonava em performances inspiradas em seu ídolo, o Godfather Iggy Pop. As inspirações são óbvias, além dos Stooges, é fácil identificar algo de MC5 e New York Dolls.

Diferente do punk que surgiria na Inglaterra, politizado, os caras do Dead Boys não estavam nem um pouco interessado no assunto. Cantavam sobre  sexo, drogas, solidão e o lado "sujo" da sociedade. Não tentavam fazer a cabeça de ninguém. No fundo, queriam apenas se divertir, beber, arrumar confusão e ter sexo livre e grátis. Queriam ser rockstars, não vozes ou mártires de qualquer revolução, embora estivessem no olho do furacão da mesma. Eram pobres loucos para ficarem ricos e "detonar".

O som das tumbas
A banda é de Cleveland e sua origem remonta ao lendário Rocket From The Tombs, que se dissolveu em julho de 1975. A dissolução acontecera porque o grupo estava dividido com o guitarrista Cheetah Chrome e o batera Johnny Blitz de um lado, querendo fazer um rock mais pesado, e o vocalista David Thomas e o guitarrista Peter Laughner, de outro, com uma proposta mais "art-rock".

Após o fim do Rocket, os dois últimos fundaram o Pere Ubu, grupo seminal para o que viria a ser o "pos-punk". Já os dois primeiros se juntariam a Stiv Bators, o guitarrista Jimmy Zero e o baixista Jeff Magnum, que ensaiavam covers do Stooges e procuravam outros caras para formar uma banda. A união já se desenhara na última fase do Rocket, quando Stiv teve uma passagem relâmpago por uma das últimas formações da banda. Na derradeira apresentação do RFTT, ele subiu ao palco e fez uma performance improvisada com Cheetah e o batera, sem os dois futuros Pere Ubu.

Nascia assim o... Frankenstein. Isso mesmo. Esse foi o primeiro nome que escolheram, sob o qual fizeram quatro apresentações em Cleveland e gravaram uma demo com três faixas: Sonic Reducer, High Tension Wire e Down In Flames. Três meses depois, desanimados com a falta de espaço (que pressa tinham...), decidiram dar um tempo.

Então Stiv conhece Johnny Thunders, ex-guitarman do New York Dolls e na época destruindo no Heartbreakers, que o apresenta à cena novaiorquina. Stiv percebeu no ato que ali teriam mais espaço. Então, convence os demais integrantes do Frankenstein que deveriam se mudar para NY. Antes, porém, decidem mudar o nome (ufa!) para Dead Boys, tirado da letra de Down In Flames, inegável clássico do punk.

Dead boy - dead boy running scared
Dead boy - dead boy caught in a nuclear weird
Dead boy - dead boy gonna fall
Dead boy - to sick to wanna crawl

Down in flames, Down in flames

Red blip, red whine, lock in true
Dead boy, dead boy, line on you
Dead eyes feeding your dead, dead brain
Dead boy, dead boy, always end the same

Em Nova York, os Dead Boys se aproximam de Joey Ramone, com quem já haviam tido contato quando a banda dele tocou em Cleveland. Foi o "Magrão" que arranjou uma audição do grupo para tocar no CBGB. Em agosto de 76, o Dead Boys subia pela primeira vez ao palco do lendário clube. A performance incendiária de Stiv, aliada à agressividade das músicas, agradou em cheio e eles se tornariam habitués do local. E a julgar pela rapidez dos fatos, o barulho que fizeram foi grande. Poucos meses depois já tinham um contrato com a Sire Records, a mesma gravadora do Ramones.

Uma gema
Em julho de 1977 é lançado Young Loud & Snotty. Pesado, furioso do início ao fim. Uma bomba de desilusão e niilismo. Entra fácil na lista dos dez álbuns mais pesados e agressivos da época. No disco, conseguem passar o espírito do estilo de vida que tinham. "O Dead Boys eram lixo pobre, garotos da classe media baixa de Youngstown, Ohio. O grupo surgiu num meio violento. Eles cresceram em gangues, eram a coisa real. Com eles era mais que uma atitude, era um estilo de vida", conta Gyda Gash, que presenciou a ascensão do Dead Boys na Big Apple.

Gravado no Electric Ladyland Studio, abre com Sonic Reducer, a música mais conhecida deles. Entre os clássicos da bolacha, na minha modesta opinião estão também I Need Lunch, What Love Is e a já citada Down In Flames. Mas nenhuma faixa destoa, não há deslizes, é energia bruta - e às vezes angustiante - da primeira à última nota. Mesmo nos dias de hoje soa enérgico e pesado. Claro que foi um fracasso de vendas, obviamente por não ter a mínima preocupação comercial.

Como parte da campanha promocional do disco, embarcaram em uma turnê como banda de abertura de Iggy Pop pelos EUA e, logo depois, tocariam no Reino Unido com o Damned, que anteriormente dividira o palco com eles no CBGB. Privilegiados os que viram.

Matando os Dead Boys
Mas a Sire não estava interessada na história e nos sentimentos das ruas ou do que quer que fosse que não vendesse. E o punk não vendia a contento nos EUA. Nem o Ramones, nem qualquer outra banda atingira o mínimo necessário para dar lucro. Então, para o segundo álbum vetaram a produção de Lou Reed, como a banda solicitara, e chamaram Felix Pappalardi, músico e produtor que nos anos 60 trabalhou com Cream. Nada menos apropriado para uma banda punk. Até o visual dos caras foi mudado. Pressionados, aceitaram, afinal não teriam como pagar uma multa contratual.  

O fato é que We Have Come From Your Children chegou ao mercado e foi ainda mais decepcionante em termos de vendas. A autenticidade sumira. Aquele nunca havia sido o Dead Boys. A dúvida é: por que diabos então o fizeram? Por que não se recusaram? Talvez por serem mesmo uns fodidos sem dinheiro que acreditaram nos executivos. Nos aos 70, a indústria musical impunha condições para as bandas, mas não era uma imposição à força. Oferecia-se dinheiro. Simples assim.

A Sire fez isso com os caras (eles aceitaram, claro) 
O termo "vender a alma" talvez seja bastante adequado para descrever o que aconteceu com o Dead Boys e inúmeras bandas, especialmente a partir de 1978 quando os produtores constataram que o punk não tinha o mercado que se imaginava. Como desconto, todos os membros da própria banda sempre criticaram o álbum. A mesma Gyda Gash diz que Cheetah teria ligado para James Williamson (do Stooges) durante as gravações, perguntando se ele não podera r lá para tentar salvar o disco.

Lendas à parte, pouco tempo depois, Johnny Blitz foi esfaqueado em uma briga de rua e Cheetah Chrome quebrou o braço andando de skate. Impossibilitados de fazer shows e desinteressados no que a banda se tornara o fim era inevitável. Para fechar com "chave de ouro" a história e o relacionamento coma  Sire Records, a fim de cumprir o contrato (deviam mais um álbum) fizeram um show que deveria ser gravado e lançado em disco. Mas Stiv, malandramente, desligou o microfone que captava sua voz para a gravação. Foi impossível para a gravadora salvar o registro e o dito cujo não foi lançado. Não imediatamente. Anos depois, Stiv colocou sua voz sobre a gravação e a bolacha saiu pela independente Bomp! Records.

Após o fim do Dead Boys, ainda em 1979, Stiv Bators lançou dois compactos pela mesma Bomp! Records. Em 1980, lançou seu primeiro álbum solo, Disconnected, com um estilo mais sessentista e "psicodélico". A seguir, foi para a Europa e formou o Wanderers - e depois o Lord Of The New Church - com os caras do Sham 69. Morreu em 1990, após ser atropelado em Paris.
Este vídeo dá uma ideia de como era um show do Dead Boys em 77,
apesar da péssima qualidade do som no YouTube

04/03/2016

SHAM 69 - (anti)-herois da classe trabalhadora


Há bandas que ficam marcadas pela sonoridade, outras pelas letras, muitas também pela atitude e algumas pelo público que atraem. E há aquelas que reúnem tudo isso. O Sham 69 se encaixa perfeitamente nessa última categoria. Todos os integrantes das primeiras formações sempre fizeram questão de frisar que eram oriundos da classe trabalhadora, aquela parcela de todas as sociedades que sempre sofre com mais intensidade os efeitos dos problemas econômicos. E isso era fato na Inglaterra da época.
Não se pode ignorar que muitos integrantes de inúmeras bandas de rock também saíram dos subúrbios e eram filhos de operários. Mas poucos assumiam isso e a maioria que o fazia era parte do chamado circuito de "pub rock". E nem todos colocavam de modo escancarado a (dura) realidade da vida de proletário nas letras das músicas. O punk rock, se não saiu desse nicho, encontrou nele um terreno fértil. Para os milhares de jovens desempregados nos subúrbios, o punk surgiu como uma grande oportunidade, tanto por proporcionar diversão barata (ainda que não beirassem a exploração atual, os ingressos para shows de bandas de rock do mainstream eram caros, especialmente para quem não recebia nada) como de terem suas próprias bandas.
Nesse contexto, era inevitável o cruzamento dos sentimentos de incerteza e angústia da molecada dos subúrbios com o rock cru tocado nos pubs e a agressividade do então novo punk. E poucas bandas captaram com tanta autenticidade esse momento e souberam transformá-lo em música (me perdoem os fãs de clássicos) como o Sham 69, que ainda acrescentou um ingrediente a mais: refrões no estilo cantos de torcidas de futebol.

Fase embrionária
A história começa em 1975, quando James Timothy Pursey, ou simplesmente Jimmy Pursey, formou o Jimmy & The Ferrets junto com Neil Harris (guitarra), Johnny Goodfornothing (guitarra), Albie Slider (baixo) e Billy Bostik (bateria). Em busca de espaço, dublavam Rolling Stones e Gary Glitter no palco de uma casa chamada The Walton Hop, que ficaria famosa nos anos 80 após a descoberta que seu proprietário, Jonathan King, usava o local para seduzir garotos. Um escândalo de pedofilia que foi parar nos tribunais e nos jornais.

A primeira formação do Sham 69
Mais ou menos no início de 1976 eles já haviam incorporado os acordes básicos do punk ao repertório e deixado as dublagens de lado. Ainda naquele ano o grupo foi rebatizado, após Pursey ver uma pichação semi-apagada em um muro, provavelmente uma referência ao lendário time de futebol do Walton & Hershey de 1969, campeão de uma liga amadora. Nascia assim o Sham 69.
Aos poucos a fama foi crescendo e logo o grupo estava abrindo para bandas maiores do circuito punk, como o Generation X. Em junho de 1977, o Sham dividiu uma noite com o Excalibur, banda do guitarrista Dave Parsons que basicamente tocava covers dos anos 60. Pursey e Parsons iniciaram uma amizade e depois de algum tempo constataram que suas respectivas bandas não iam bem. Então, decidiram que era hora de se juntarem e formar um novo grupo. Convidaram Albie e um baterista chamado Mark Cain, que conheceram no Walton Hop. Do repertório antigo sobraria apenas a letra de Borstal Breakout, que mais tarde se tornaria o primeiro "hit" do grupo.
Dave Parsons não era um virtuoso da guitarra, mas conhecia o suficiente para criar riffs simples em cima das letras estilo "todos cantando juntos" de Pursey. Sem dúvida uma das melhores parcerias do punk. A partir desse ponto tudo aconteceu muito rápido. Logo estavam tocando em Londres, em clubes como o lendário Roxy, onde a presença do Sham era garantia de casa cheia.

Skins + punks = "vai dar merda..."
Mas aos poucos o público do Sham começou a se diferenciar das demais bandas. A postura dos integrantes, especialmente de Pursey, que fazia questão de frisar que aquela era uma banda "real", que era a legítima representante do espírito das ruas e não apenas mais uma a embarcar na "moda punk". Palavras que encaixavam perfeitamente com o que pensavam milhares de jovens desempregados que haviam se encantado com o punk, mas que não eram "descolados" o suficiente para frequentarem os locais mais badalados da cena londrina ou de qualquer outra grande cidade.
Então, de acordo com o próprio Pursey, durante uma das apresentações no Roxy, um velho amigo, que como ele e milhares de outros garotos dos subúrbios haviam sido skinheads por um tempo no final dos aos 60, gritou entre uma música e outra: "os skinheads voltaram". E ele concordou: "sim, eles voltaram". Dave Parsons, por sua vez, conta a história de um modo um pouco diferente: "Jimmy viu um amigo que fora skinhead como ele na plateia. Então, apontou para o cara e disse: 'Os skinheads voltaram'".
E aqui é bom abrir um parênteses. Os skinheads dos anos 60 não tinham quase nada a ver com o que se tornariam depois. Era apenas mais um dos muitos subgrupos que surgiram da esteira da contracultura que florescia naquela década. Não estavam interessados em questões políticas, queriam apenas curtir um som, preferencialmente reggae/ska ou soul/funk (ou seja, black music), beber e brigar, especialmente nos estádios de futebol, mas também nas ruas e pubs. Em geral, as tretas eram com hippies e gangues de motoqueiros. Muitos skinheads eram negros, ou seja, não havia espaço para o racismo. Mas no início dos anos 70 os skinheads (sabe-se lá por quê) sumiram, para ressurgirem no final da década, com toda a merda nazi envolvida.
Seja como for, nos shows seguintes do Sham 69 apareciam cada vez mais skinheads. A fama da banda também começou a atrair grupos de hooligans e todo tipo de delinquentes. Consequentemente, as costumeiras confusões e violência. Uma espécie de "maldição" que acompanharia o grupo e da qual jamais se livrariam. Em janeiro de 1979, a situação que já estava fora de controle, chegou ao ponto mais baixo: em um show na Middlesex University, em Londres, um fã acabou morto. Cinco dias depois, em Aylesbury, nem conseguiram iniciar a apresentação devido às brigas que irrompiam a todo momento, o que levou Jimmy Pursey a declarar, chorando, que era a última vez que subiam ao palco e, daquele momento em diante, apenas gravariam discos. Seriam uma banda de estúdio. O que não aconteceu de fato, já que ainda fizeram algumas apresentações (bem poucas é verdade). Pursey, na verdade, chegou a seu limite, como fica claro no documentário Tell Us The Truth, que postei abaixo. Não tem legendas em português, mas mesmo quem não entende o inglês percebe o clima dos shows e como era difícil (se não impossível), controlar o público.
No fundo, o Sham não tinha nada a ver com os skinheads, mas era cultuado cada vez mais por eles, por conseguir transformar a linguagem das ruas em canções. Para quem gosta de rótulos, se tornaria o pioneiro do "street punk" ou do que mais tarde seria conhecido como Oi! music, o estilo preferido dos skinheads. O problema é que os "novos skins" eram em grande parte racistas e simpatizantes do nazismo e ideologias de direita. E Mesmo o Sham tocando em vários concertos do projeto Rock Against Racism e Pursey não adiantou. Não era raro membros do National Front, um partido de ultra-direita britânico, aparecerem nos shows para recrutar militantes e propagar seu lixo. É provável que tenham conseguido muitos...  
Para piorar as coisas, os carecas elegeram os punks como inimigos - consideravam o Sham como uma "banda deles", portanto, não havia espaço para "poseurs". Obviamente, para os skinheads, esse rótulo era bastante amplo e incluía qualquer punk com visual "não skin". No fim, a violência ganhou uma proporção insustentável. O mesmo público que fez o Sham 69 o levaria ao fim.

Nos vídeos abaixo dá para ver um pouco do que falo.

Trecho de uma apresentação do Sham 69 no Rounhouse, Londres, 1978

Documentário Tell Us The Truth, 1979 


No auge
A estreia do Sham 69 em vinil foi com um compacto pela Step Forward Records, com três faixas: no lado A, I Don't Wanna e no B, Ulster e Red London. Lançado em setembro de 1977, apresenta a banda no seu estado mais bruto, sem qualquer tipo de lapidação. A curiosidade fica por conta da produção de John Cale (ex-Velvet Underground). Outro fato digno de nota é que o grupo combinou uma apresentação para promover o single na laje de uma loja de discos chamada Vortex, mas ao subirem para tocar confundiram o local exato e montaram a aparelhagem na laje errada. Quando começaram a apresentação, o proprietário da loja "invadida" chamou a polícia e armou-se uma enorme confusão. Pursey acabou preso e o episódio deu uma publicidade inesperada para o grupo.

Pursey é levado por policiais após a banda tocar no telhado errado 
Uma consequência não muito legal foi que ao estúdio o grupo finalmente percebeu que Albie não sabia tocar. Após a gravação decidiram que ele deveria sair (na verdade, continuou, mas como roadie) e para seu lugar convocaram Dave Treganna. Com ele, Pursey, Parsons e Mark "Dodie", estava completa a formação clássica do Sham 69, que faria história.
O passo seguinte foi arranjar um empresário. O escolhido foi Tony Gordon - mais tarde, responsável pelo Culture Club de Boy George - que não teve muito trabalho para conseguir um contrato com a Polydor, uma "major" poderosa da época. A primeira ação foi o lançamento de um single promocional com apenas uma música, Song of the Streets, que ficaria mais conhecida pelo refrão What Have We Got.
Capa do primeiro single do Sham 69
Em fevereiro de 78, é lançado o single There's Gonna Be a Borstal Breakout, com a raivosa Borstal Breakout de um lado e Hey Little Rich Boy no outro. Um dos melhores compactos da hstória do punk, sem dúvida. No mês seguinte chegava ao mercado o clássico Tell Us The Truth, o primeiro LP, que ficaria entre os mais vendidos do ano. Tell Us The Truth é um discaço, com um lado ao vivo (uma exigência da banda ao assinar o contrato), que tenta captar um pouco da atmosfera dos shows do Sham. E o outro em estúdio, com oito faixas do mais puro punk rock.  

Quando o álbum foi lançado, o punk era dado como morto pela imprensa. O Sex Pistols já havia ido para o buraco e Johnny Rotten agora liderava o PIL. Ao se manter fieis ao estilo, ao não se render à tentação de fazer um som mais polido e trabalhado como boa parte dos grupos punks estava fazendo, o Sham 69 preenchia um certo vazio e passava a ser a principal banda punk do Reino Unido, ao lado do UK Subs, claro. Um disco tão intenso que dá para sentir que a banda realmente acreditava no que falava. É o Sham 69 ainda em estado bruto. Sem duvidas um dos álbuns mais importantes para a história do punk.
Destaque do lendário fanzine Sniffin' Glue
Na metade de 1978 já podiam ser considerados "estrelas". Lançado em junho daquele ano, o single Angel With Dirty Faces ficaria entre os 20 mais vendidos da Inglaterra por 10 semanas seguidas, algo que quase nenhuma banda punk conseguira até aquele momento (e raras conseguiriam até hoje). Mas era só o começo, o single seguinte, If The Kids Are United, que já era um hino, foi direto para o o Top 10, o mesmo acontecendo com Hurry Up Harry, lançado meses depois.
Ou seja, enquanto a maioria das bandas punk que surgiram em 76 e 77 estavam acabadas ou seguindo outras direções, o Sham 69 continuava crescendo, sem mudar em nada sua postura. De certa forma, um paradoxo mercadológico intrigante. Afinal, "o punk estava morto"...
Em outubro de 1978 sai That's Life, o segundo LP. Desta vez, todo gravado em estúdio, é um "álbum conceitual" que conta a história de um dia na vida de um garoto filho de operários. Poeticamente, diria que é uma crônica da vida privada de um cara pobre da periferia, rejeitado pelo pai, esculhambado pela mãe. A ideia é boa e tal. As canções são entremeadas por diálogos o que às vezes dá preguiça de ouvir o disco todo sem pular essas partes. Em todo caso, com uma produção mais cuidada (mérito de Peter Wilson, produtor que mais tarde trabalharia com o Style Council) e a banda mais afiada do que nunca, That's Life é uma das mais sólidas coleção de hinos punk reunidas em um só disco. E se as letras de Pursey estavam cada vez mais provocativas, Parsons, Treganna e Doide, agora com o reforço do tecladista Tot Taylor, estavam em ótima forma. Enquanto Tell Us The Truth é brilhante pela simplicidade, That's Life se sobressai pela inserção de elementos inusitados sem perder um nada daquela essência. Mais uma aula de punk rock.

A queda
Em meio ao agravamento dos problemas nos shows e os primeiros boatos de que o grupo poderia acabar, sai Questions and Answers, uma de suas melhores músicas, em um compacto que ainda tinha a incrível I Gotta Survive e um cover debochado de With a Little Help From My Friends dos Beatles, na desafinada voz do batera Mark Dodie. Mais um sucesso: Top 20 por 18 semanas seguidas.  
Pouco depois é a vez da festiva Hersham Boys, mais uma demonstração de carinho do grupo para com os fãs que chegou a ser o sexto single mais vendido no Reino Unido e ficou nas paradas por nove semanas consecutivas.
O terceiro LP, o pretencioso The Adventures os Hersham Boys, chegaria às lojas ainda em 1979. No álbum o Sham se aventura por outras praias musicais, com faixas mais lentas (Fly Dark Angel e You're a Better Man Than I), embora sem deixar de lado o som pesado característico dos trabalhos anteriores, como Money e Voices. O uso de teclados não era novidade para eles, mas desta vez pode-se dizer que abusaram e a guitarra de Parsons fica em segundo plano em várias faixas. Nas letras, Pursey tenta mostrar mais maturidade e tenta cantar mais suavemente, o que não agradou muito. O resultado é um disco bem diferente de tudo que haviam feito. Nem melhor, nem pior. Ah, sim, na capa eles aparecem caracterizados como cowboys, algo bastante inusitado para uma banda punk. E apesar das críticas não muito favoráveis, o que não era novidade, o álbum chegou a ficar entre os 10 mais vendidos por sete semanas, o que também não era novidade.
Mas enquanto o disco ia bem nas lojas, a banda, cada vez mais desiludida com o fato de não poderem fazer um show que não acabasse em confusão generalizada, começou a se dissolver. Mark Dodie foi o primeiro a sair, sendo substituído por Ricky Goldstein, que tocava no pouco conhecido Automatics, uma banda de powerpop.
O "Sham Pistols", uma farra que durou pouco
Então em junho de 1979, um fato inusitado surpreende os fãs e a imprensa. Jimmy Pursey e Dave Treganna se juntam aos ex-Sex Pistols Steve Jones e Paul Cook, em um projeto que ganhou o nome provisório de "Sham Pistols" (Sex 69 talvez ficasse melhor, acho). Era uma união fadada ao fracasso desde o início. Afinal, o Sham ainda existia, não estava "oficialmente" acabado e tinha m contrato a cumprir com a Polydor, enquanto os outros dois estavam atrelados à Virgin Records. Mesmo assim, o quarteto chegou a gravar quatro músicas em estúdio e, em uma das últimas apresentações do Sham 69, em Glasgow, na Escócia, os ex-Pistols subiram ao palco no bis. Não há muito tempo, as faixas de estúdio e ao vivo foram reunidas no mini LP Natural Born Killer, por sinal, muito bom.
Anúncio do álbum The Game: sorrisos falsos
Passado o episódio, no dia 28 de julho de 1979, tentaram voltar ao palco, no The Rainbow. A apresentação durou menos de 20 minutos, acabando em briga generalizada. Foi a última tentativa. The Game, o quarto LP, lançado em 1980. No disco retomam alguns elementos do início da carreira. De fato, é o mais pesado da banda e, não fosse o contexto em que foi criado, com o grupo já praticamente acabado, poderia ter sido melhor recebido na época. O fracasso nas vendas foi o tiro de misericórdia. Na verdade, a essência do Sham 69 já estava perdida, ou melhor, pisoteada pelos coturnos dos skinheads.    
Mas antes de anunciarem o fim, precisavam cumprir o contrato. Deviam ainda dois álbuns para a Polydor. Foi assim que geraram






Afterlife 
Para o Factor Zero, a história do Sham acaba em The Game. Logo após, Jimmy Pursey lançou um álbum solo chamado Imagination Camouflage, com Parsons, Treganna e dois ex-membros do Generation X (o batera Mark Laff e o guitarrista Bob Andrews). Um bom disco, mas que não deu em nada. Pouco depois Parsons, Treganna e Goldstein chamaram Stiv bators (ex-Dead Boys) e formaram o The Wanderers, que durou pouco tempo: lançou apenas um LP e dois singles em 1981 e acabou. Treganna e Bators continuaram juntos e formaram o Lords Of The New Church com o ex-Damned Brian James e Nick Turner, ex-Barracudas.
Em 1988, Pursey e Parsons tentaram reerguer o Sham 69, com o desastroso LP Volunteer. Em 1992, fizeram uma nova tentativa com Information Libre, um pouco melhor, mas ainda há anos-luz do Sham 69 original. As tentativas se repetiriam em 1995, com Soapy Water And Mister Marmalade; em 1997, com The A Files; e, em 2001, com Direct Action: Day 21. Álbuns no máximo razoáveis.
Mas desastroso mesmo foi a banda despachar Jimmy Pursey em 2006 e substitui-lo por Tim V. A gota d'água teria sido um single beneficente lançado por Jimmy Pursey com uma releitura de Hurry Up Harry, com o refrão modificado para Hurry Up England, como tema não-oficial da seleção inglesa de futebol para a Copa do Mundo. No YouTube tem, claro (clique aqui para ver).  
Esse "novo" Sham lançou três LPs:  Western Culture, também conhecido como Hollywood Hero (2007), Seriously Ultimate! (2008) e Who Killed Joe Public (2010).
Em 2011, Dave Parsons tentou remontar o Sham com Pursey, mas os demais integrantes não deixaram de tocar e desde então há dos Sham 69. Em 2014, o "Sham de Parsons e Pursey", gerou o álbum The Evolution Of Punk, mas não deu certo e tudo acabou de novo. Em 2015, o "falso Sham" lançou mais um álbum, It'll End In Tears. Se juntar todos esses álbuns pós-1980 e espremer, não dá uma gota do primeiro single de 1977...


Links:








13/02/2016

Blitzkrieg Bop, a banda


Uma banda chamada Blitzkrieg Bop e cuja música mais famosa tem o título de Let's Go. "Mais um clone dos Ramones" é o primeiro e mais natural julgamento que vem à cabeça. Não é bem assim. Apesar do nome ter sido realmente inspirado no clássico do grupo novaiorquino e de fazer o velho punk rock, genialmente primitivo e com pouquíssimos acordes, as semelhanças param por aí.
O Blitzkrieg Bop foi um grupo que esteve na ativa durante a fase mais fervente do punk no Reino Unido, mas não eram de Londres e sim de uma região no norte da Inglaterra chamada Teeside. Isso pode ter sido um dos fatores que contribuíram para que a banda não despontasse como outros de seus contemporâneos. Apesar de a história do grupo remontar a 1974, o BP propriamente dito começou em 77 e durou até por volta de 79. Nesse período lançaram três singles e chegaram a ficar relativamente bem conhecidos.

Adamanta Chubb
Em 1974, quatro garotos de saco cheio da monotonia da vida em Teeside, uma área urbana e bastante industrializada que reúne pelo menos sete cidades, entre as quais Middlesbrough, resolveram montar uma banda de rock. Algo muito comum naquele país, como visto nas histórias de outras bandas postadas aqui. O grupo recebeu o nome de Adamanta Chubb, personagem do livro Lord of The Rings (sim, O Senhor dos Anéis não é tão novo), e era formado por Alan Cornforth (batera), Kevin McMaster (voz e guitarra), Stephen Sharratt (guitarra) e Mike "Duck" MacDonald (baixo). Pouco depois de começarem a ensaiar, Mike saiu e foi substituído por Damien "Dimmer" Blackwell. Em 75, John Hodgson se junta ao Adamanta, que precisava de alguém para compor músicas próprias, pois até então só fazia covers. John era um músico de certa experiência - estava no circuito desde 1966 - e entrou para o grupo como tecladista e compositor. Apesar de terem crescido um pouco com o novo integrante, não conseguiram muita coisa e não demorou Kevin e Stephen desistiram. Com isso, a banda se tornou um trio provisoriamente com Alan, John e Mike.
Em 76, porém, depois que John resolveu dar um tempo para tocar em uma banda de soul music (chamada Erection) em que poderia fazer uma graninha, o Adamanta Chubb quase deixou de existir. Depois de alguns meses de inatividade, Dimmer começou a remontar o grupo, que voltou definitivamente já no início de 77, com ele na guitarra, John na voz e nos teclados, Mick Hylton no baixo e Alan na batera. Mas ainda faziam um som mais voltado para o hard rock, com um repertório quase totalmente de covers.


A virada e o fim
Naquela época o punk estava no auge e John, especialmente, estava curtindo muito o que rolava mais ao sul e iniciou uma campanha interna para que o Adamanta entrasse por esse caminho. De início, os demais integrantes relutaram bastante, mas aceitaram incluir alguns números punks no repertório. Tocavam covers de The Clash, Eddie and The Hot Rods, Sex Pistols, Adverts e outros. Não demorou para perceberem que o "momento punk" do show agradava mais às plateias, que àquela altura estavam bastante influenciadas pelas novas ideias propostas pelo punk. Além disso, o Adamanta há algum tempo tentava aparecer e com o som que faziam normalmente estava difícil. A simplicidade do punk seria um caminho bem mais fácil para eles.
Aos poucos passaram a ter um repertório predominantemente punk e em maio de 77 mudaram o nome da banda para Blitzkrieg Bop. Outra mudança foi a entrada de Ann Hodgson (apesar do sobrenome, não era parente de John) como guitarrista e Mick Hylton no baixo. Também passaram a adotar pseudônimos. John passou a ser Blank Frank, Alan se tornou Nick Knoxx, Dimmer adotou Fred Fret (depois, Telly Sett), Ann virou Pat Pussy (depois, simplesmente Gloria) e Mick substituiu seu sobrenome por "Sick". Também começaram a compor material próprio e a pensar em gravar discos, uma vez que o espírito DIY facilitava bastante sem a exigência de grandes produções para serem ouvidos.
Ainda naquele maio de 77, aconteceria outro fato decisivo para o BP e a cena punk no norte da Inglaterra: um show do Clash em Middlesbrough. Até então, nenhum dos "grandes" nomes do punk que faziam tremer o Reino Unido havia tocado na região de Teeside. Foi a primeira vez que os vários grupos e pequenas gangs punks do norte da Inglaterra puderam se reunir em um único local e descobrirem-se uns aos outros, e também que havia várias bandas por lá (uma delas, o Penetration, já era até razoavelmente conhecida). Como acontecia em várias outras cidades europeias, sempre que uma banda do porte do Clash tocava, a cena se agitava e o punk se espalhava, como um vírus.
Depois do que viram, John, Mick e Alan chegaram a um consenso: o Blitzkrieg deveria se tornar definitivamente uma banda punk e Dimmer seria dispensado por não ser a favor disso (inclusive, era o único dos quatro que não cortara o cabelo e nem assumira o visual punk). E a decisão foi certeira, pois logo começaram a ser notados como uma das poucas bandas punks de Teeside e um jornal local, o Evening Gazette, publicou uma matéria de página inteira com eles.
Totalmente imersos na cena punk, John e Mick decidiram também fazer um fanzine, ao qual chamaram Gabba Gabba Hey, em mais uma alusão aos Ramones. O passo seguinte seria o lançamento do primeiro single, com três faixas (Let's Go, 9 Till 5 e Bugger Off) gravadas em um pequeno estúdio de Newcastle em uma sessão de quatro horas. O compacto, pelo selo Mortonsound, teve uma tiragem de 500 cópias e foi comentado em um artigo morno no Sounds e em outro, altamente favorável, no NME, os dois principais jornais de música da Europa na época (o Sounds não existe mais). Com isso, chamaram atenção de distribuidores de discos que os procuraram para colocar o compacto nas lojas, uma vez que a procura por discos punks era enorme, mas na metade de 1977 não existiam tantos lançamentos. Ou seja, praticamente tudo o que fosse rotulado como punk venderia e, se fosse autêntico, ainda mais. Mas como trabalhavam e não tinham ninguém para gerenciar a carreira (era tudo na base do amadorismo mesmo) perderam muitas oportunidades de ficarem ainda mais conhecidos no meio do turbilhão punk. Mesmo assim, entraram em acordo com a Lightning Records, selo independente que estava à procura de grupos novos, para regravarem Let's Go e mais duas faixas (Life Is Just A So-So e Mental Case) para um segundo compacto, lançado ainda em 77. Nesse meio tempo, Gloria deixou a banda e foi substituída por Ray "Gunn" Radford. Pouco depois lançariam a terceira bolacha, com (You're Like A) U.F.O. no lado A e Viva Bobby Joe, no B.
Então, foram convidados, ao lado do Eater, para abrirem os shows do Slaughter & The Dogs na fracassada turnê Do It Dog Style, que não chegou ao final. Desiludido, Ray decide sair e é substituído por Mickey Dunne, que adota o apelido "Bert Presley". O som também mudaria, como estava acontecendo com a maioria das bandas punks em 1978, para uma pegada mais comercial ou "new wave", embora continuassem a tocar no circuito punk. Já quase no fim daquele ano, uma nova mudança na formação: Mick Sick passa o baixo para Graham "Kid" Moses. Mas veio 1979 e o punk era declarado morto na Inglaterra. Blank Frank então decide sair para entrar no Basczax, grupo ao qual o baterista Nick Knoxx (que voltou a ser Alan Cornforth) e que tinha uma proposta mais pos-punk. Em 1994 e 1999 o grupo fez algumas apresentações isoladas.


Baixe aqui a coletânea Top of the Bops, com os três compactos lançados pela banda mais faixas ao vivo e de demo tapes

2016




2016 começou estranho. David Bowie morreu. Nuvens negras pairam no horizonte. No Brasil há um surto de crianças nascidas com microcefalia. Atribui-se a culpa a um vírus chamado "zika". O presidente da Assembleia Legislativa, notório criminoso e corrupto, continua em liberdade. Há poucos dias, algum diplomata russo falou em Terceira Guerra Mundial. Os massacres de inocentes acontecem cada vez com mais frequência, na Síria, no Iraque, em Paris, na periferia de São Paulo, em escolas dos Estados Unidos...
Acho que é hora de reativar o Factor Zero.

05/10/2011

Redson e o A.C.X.O.

Passado o susto (não a tristeza) pela morte do Redson, quero compartilhar com os leitores do Factor Zero um momento bem pouco conhecido da carreira desse ícone do punk nacional. Em 1981, Redson gravou uma demo tape com quatro músicas. Fez tudo: baixo, bateria, guitarra, voz... e gravou nos fundos de sua casa, no cômodo onde o Cólera ensaiava (e outras bandas também, como o Olho Seco e o Anarcoólatras).
Redson chamou a experiência de A.C.X.O. e, apesar de ser uma gravação de qualidade bem precária, mostra a sua genialidade como compositor. Sempre gostei muito dessas faixas que mostram o Redson numa fase mais revoltada, antes de sua militância pacifista. Não tenho nada contra esse outro lado, mas acho que ele era mais criativo quando não era tão panfletário.
Musicalmente, as músicas do A.C.X.O. têm um pouco de Cólera (claro, ele também compôs 98% do repertório da banda), tanto que duas entraram para o repertório do grupo e estão no primeiro LP (o tosco, mas ótimo, Tente Mudar o Amanhã). Uma foi Anjos do Beco e a outra 11 e 6, esta última com novos acordes e mudanças na letra (passou a se chamar Amnésia).
O registro vale como curiosidade para os fãs e resgata essa fase mais "despojada" do Redson, como mostram esses versos de da faixa Contato:  "Tou revoltado com o barulho do motor / Tou revoltado com a fumaça do cigarro / Tou revoltado com a falta de recurso /E com a deturpação do meu pensamento".
A título de curiosidade, Redson teve outro projeto paralelo ao Cólera, lá por 83 ou 84, na fase em que os punks não podiam tocar em nenhum lugar de São Paulo, chamado Rosa Luxemburgo, uma banda "new wave", da qual, infelizmente, não tenho nenhum registro. 


Descanse em paz, guerreiro!

Obs: este post foi atualizado. A memória me traiu! Como bem lembrado pelo Risto nos comentários, o nome correto do projeto é A.C.X.O. e não "A.X.O."... neurônios, quem precisa deles??? 

Clique aqui para baixar a demo do A.C.X.O. 




28/09/2011

Luto

Acabo de receber a notícia de que o Redson, vocalista do Cólera, morreu. Grande amigo dos bons tempos, um verdadeiro guerreiro, com quem tive a honra de conviver. Descanse em paz, amigo, pois foi por ela que você lutou a vida inteira!

29/03/2011

O Warsaw Pakt original



Não, este não é um texto sobre a primeira encarnação do Joy Division (que eu gosto muito), mas sim sobre o Warsaw Pakt que fez Ian Curtis e seus amigos mudarem o nome do grupo, primeiro para Warsaw e, depois, Joy Division. História bem conhecida aliás. O que não é muito comentado é a (curtíssima) trajetória do Warsaw Pakt original.
Formado em Londres no início de 77, o grupo não chegou a um ano de duração, mas escreveu seu capítulo na história do punk e do rock. E não foi só por causa do lance do nome. O único LP que lançaram, Needle Time, foi o primeiro disco de rock a ser gravado em um processo revolucionário para a época. Tudo foi feito em 21 horas, desde a gravação até a bolacha chegar às lojas. Não tenho muita certeza, mas o fato até entrou para o Guiness Book. Na verdade, eles foram cobaias da Island Records para uma experiência de gravar diretamente para o acetato, sem qualquer tipo de mixagem ou remasterização (se você não conhece o processo de fabricação de um vinil, então veja este vídeo: http://youtu.be/xUGRRUecBik). Acredito que tratou-se de um teste para lançar discos ao vivo 24 horas depois do show. Não sei o que virou a experiência depois, mas o Warsaw Pakt não foi lá muito beneficiado. Apesar de o LP ter vendido cinco mil cópias em uma semana, a Island não quis fazer outra prensagem e nem contratar a banda, além de destruir a fita master da gravação. Sem explicar nada para o grupo. Isso fez com que o disco se tornasse uma raridade muito rapidamente. No Brasil, vi uma cópia apenas (que, infelizmente não era minha). Por essas e outras que tenho certeza que a tal indústria fonográfica tem mesmo é que se foder. Usaram e abusaram do poder para lançar um monte de merda e acabar com boas bandas.

A história dos caras começou mesmo em 1975, quando o guitarrista Andy Colquhoun se juntou ao The Rockets, um grupo do circuito pub rock de Londres que tocava mais covers do que músicas próprias. A banda chegou a ficar conhecida no underground londrino, mas não resistiu às constantes mudanças na formação. Mas as coisas não iam bem para eles em 77 e Andy, juntamete com o vocalista Jimmy Coul e o guitarrista John Manly, resolveu deixar o grupo e formar o Warsaw Pakt. O baixista era Chris Underhill e no início o batera foi Wolf Marlander, mas este ficou por pouco tempo e foi substituído por Lucas Fox. Esta foi a formação que fez a história do Warsaw Pakt. Depois da experiência do "LP mais rápido do mundo", eles ainda lançaram um compacto com as faixas Safe and warm e Sick'n'tired e fizeram vários shows, inclusive abrindo para o The Clash e o Damned. Mas em março de 1978, o grupo se dissolveu. Em 1979, ex-integrantes do grupo juntaram forças e lançaram uma fita K7 com gravações raras, chamada See you in court.  


Warsaw Facts
  • Stewart Copeland tocou em alguns shows com o The Rockets e quando o Warsaw Pakt estava começando convidou Andy Colquhoun para conhecer o vocalista de uma banda que ele estava formando. Andy teria se recusado a juntar-se ao grupo. O vocalista era um tal Sting e a banda, o The Police. 
  • Antes de tocar com o Warsaw Pakt, Lucas Fox foi batera da primeira formação do Motörhead. Nos anos 80, foi baterista do Sisterhood, banda criada por Andrew Eldritch após ter saído do Sisters of Mercy.  
  • Depois do fim do WP, Andy Colquhoun integrou o Tanz Der Youth, grupo pos-punk de Brian James, o guitarrista dos dois primeiros LPs do Damned. Andy tocou ainda com o Pink Fairies e na banda do ex-MC5 Wayne Kramer.
  • O vocalista Jimmy Coul se juntou ao obscuro The Argonauts e depois se retirou do cenário musical. Dos demais ex-integrantes do grupo não consegui saber mais nada.
Para conhecer conhecer melhor esta lenda do punk rock baixe os dois únicos lançamentos clicando nos links abaixo

Warsaw Pakt - Needle Time LP
Warsaw Pakt - See You In Court K7




18/03/2011

THE OUTCASTS - Os adolescentes rebeldes do Ulster



Depois de uma overdose de Canadá vamos atravessar o Atlântico e aportar mais uma vez na Irlanda do Norte, em Belfast. No post sobre a Good Vibrations Records eu prometi contar a história de três bandas: Rudi, Undertones e Outcasts. Então, como 2011 é ano de cumprir promessas (já que 2012 está chegando), vamos lá com o The Outcasts, grupo formado em 1977 pelos irmãos Greg (baixo e voz), Martin (guitarra) e Colin (bateria) Cowan, aos quais se juntou o guitarrista Colin "Getty" Getgood. Bem no comecinho, tinham um vocalista chamado Blair Hamilton, mas logo este deixou o grupo, muito provavelmente por não acreditar que aquilo pudesse dar certo.

Desde as primeiras apresentações o Outcasts ganhou fama de gerar confusão, tanto que o nome deriva deste fato, pois teriam sido expulsos de vários clubes nas primeira tentativas de tocar ao vivo. Isso tem a ver também com serem todos moradores da violenta periferia de Belfast e, em consequência, também não muito pacíficos. Em uma entrevista ao fanzine Ralf Real Shock, em 2004, Greg afirmou que "no início, quando tocávamos em clubes pequenos, era nós contra o público. Se alguém viesse pra cima, logo Colin e Martin podiam revidar com as guitarras. Mas depois fomos conquistando nosso próprio público que nos defendia se estourasse alguma confusão". Só por aí dá pra sentir como era o clima nos "gigs" de Belfast na época.

Mesmo assim, aos poucos, eles foram fazendo fama e, depois de gravarem uma demo tape, fecharam com a IT Records (selo independente já extinto, com sede na cidade vizinha de Portadown) para lançar o primeiro single. O resultado é uma gema rara do punk rock com três faixas: You're a disease, Don't want to be no adult e Frustration. Primitivo e básico. A gravação de You're a disease foi registrada e incluída no documentário Shellshock Rock (John T. Davies), registro histórico da cena punk de Belfast entre 77 e 78 (procure no YouTube que tem). Para os dias atuais, o single (e todos os primeiros trabalhos deles) pode até soar um pouco lento e, principalmente, limitado tecnicamente. No entanto, é impossível não notar que ali destilava-se a fúria adolescente e uma certa angústia de viver em um dos lugares mais perigosos do mundo. Uma cópia do compacto foi parar nas mãos do DJ John Peel (RIP), da BBC de Londres, que colocou Frustration várias vezes o ar. Isso deu uma força enorme pros caras que construíram uma base de seguidores (os tais que os defendiam caso rolasse tretas nos shows) . Não demorou assinaram com a então nascente Good Vibrations.

O trabalho de estreia na casa nova foi o single Justa nother teenage rebel / Love is for sops, que foi muito bem e ganhou até uma segunda prensagem poucas semanas depois de lançado. Na sequência, aumentaram ainda mais a fama de bad boys com a faixa Cops are comin', incluída em um single duplo (dois compactos de 7") chamado Battle of bands que tinha ainda faixas dos grupos Rudi, Idiots e Spider. Ao vivo, sempre que entoavam  o refrão "Better start runnin' cuz the cops are comin", o pogo rolava solto e, não raro, a pancadaria também.

O primeiro  LP seria lançado apenas em 1979, sob o título Self conscious over you. O disco inclui algumas surpresas como teclados e saxofone em algumas faixas, entretanto, nada comercial (pelo menos para a época, já que hoje, o punk se tornou comercial). Comprei este LP em 1980 e confesso que não gostei muito na primeira audição. Parece um tanto lento. Mas aos poucos fui me acostumando e depois este se tornou um dos discos que mais rolava no meu velho Gradiente. Outra coisa que ficou clara no LP, era a limitação de Colin como batera. Só mesmo o fato de ele ser o verdadeiro fundador do grupo o mantinha na função. E também a qualidade da gravação (mais exatamente a mixagem) deixava muito a desejar. Infelizmente isto parecia ser o karma do Outcasts, já que o próprio Greg Cowan reconheceria na citada entrevista que eles jamais conseguiram gravar algo realmente com boa qualidade técnica, mesmo nos álbuns subsequentes, quando tinham mais grana e experiência. Concordo em termos. Em Self conscious... pode faltar produção, mas sobra coração. E o verdadeiro punk tem que ter a superação da limitação técnica pelo sentimento, pela raiva ou pela angústia. Por isso, Self conscious... ganha o ouvinte aos poucos.

The Outcasts em 1980, com cinco integrantes

Na sequência, ainda em 1979, gravaram mais uma faixa (Cyborg) para uma coletânea em single, chamada Room to move, que tinha também sons do Shock Treatment, The Vipers e Big Self. No ano seguinte, Greg sofreu um acidente de moto e ficou impossibilitado de tocar baixo por um bom tempo. Assim, tornou-se apenas vocalista e Gord Blair (ex-Rudi) assumiu o instrumento nos shows. Outra mudança foi a entrada de um segundo batera, para segurar mais o som, já que Colin realmente não conseguira evoluir musicalmente como os demais integrantes. Então, com essa formação gravaram o ótimo single Magnum Force / Gangland Warfare, no qual dá para sentir uma rande mudança no estilo. E a capa desse disco tem algo macabro. Eles tiraram a foto em um cemitéro. No clique, Colin Cowan aparece abaixo da inscrição "Sacred to the memory of". Não muito tempo depois de o disco ser lançado, o cara morreu em um acidente de carro. Macabro.

Mas antes dessa tragédia, eles fundaram seu próprio selo, a GBH Records. Em meados de 1981, lançaram o primeiro trampo pelo selo exclusivo, um EP com as faixas Programme Love, Beating and screaming pt. 1 and 2 e Mania), que representou uma grande evolução. Na sequência, lançariam o single Angel Face / Gangland Warfare, o último trabalho de Colin Cowan antes de morrer. O baterista nem chegou a ver como ficou o disco.

O golpe foi duro, afinal Greg e Martin eram irmãos dele e a ideia de começar a banda, bem como o nome do grupo, haviam saído de sua cabeça. "Quando eu penso no Outcasts, sempre lembro da morte do Colin. Ele era um baterista terrível, mas era nosso líder e o coração da banda. Apesar de termos alcançado mais sucesso depois que ele foi morto, muito da graça morreu com ele", afirmou Greg na entrevista de 2004.

Sim, depois da morte de Greg, o Outcasts conseguiu relativo sucesso. A primeira gravação sem o baterista (a função ficou apenas para Ray Falls) foi o álbum Blood and Thunder, o segundo da banda, lançado em novembro de '82. O disco ficou por oito semanas entre os mais vendidos no Reino Unido, chegando a alacançar a vigésima posição. De fato, é um grande disco. Não tão punk e com o mesmo "sentimento de rebeldia" do primeiro, mas um belo trabalho instrumental. É possível sentir um clima mais "dark" no som e alguma pitada de psicodelia em faixas como Beating & Screaming ou The Winter.

No ano seguinte, eles acentuaram a pegada psicodélica, usando sintetizadores, efeitos e bateria eletrônica (não confundir com batida eletrônica pré-programada) no EP Nowhere left to run, com três faixas. Na minha opinião este disco representa o auge musical deles, mas já bem distante do punk rústico dos primeiros dias, embora sem cair no comercialismo barato. Era o que eles queriam fazer mesmo, pois evoluíram musicalmente. É desse EP a faixa Ruby, com seu estilo meio rockabilly, meio punk 77, uma das minhas preferidas de todos os tempos.

Nessa época, o Outcasts passou a ser considerado uma banda grande, fazendo shows sempre lotados e com bom desempenho em termos de vendas para uma banda independente. No início de 1984, lançaram um mini LP, Seven deadly sins. A faixa título e Swamp Fever, são dois ótimos rockabillies. Five Years podia ser uma música de David Bowie nos anos 70 e Waiting for the rain foi produzida para ser um hit, mas não pegou e ainda decepcionou boa parte do público da banda.

No ano seguinte, lançaram o que seria o último registro em vinil do grupo: um single com uma versão matadora de 1969 (Stooges) e Psychotic Shakedown, que como sugere o nome trata-se de um psychobilly. Mas já sem qualquer tesão em continuar sendo o The Outcasts, resolveram dar um fim à banda. Descanse em paz.


Conheça melhor o som do The Outcasts:

Self Conscious Over You (LP + dois primeiros singles)

Blood and Thunder (LP)

Seven Deadly Sins (mini LP)

Punk Singles (coletânea com todos os singles, part 1)
Punk Singles (coletânea com todos os singles, part 2)


10/03/2011

De volta, no mesmo ponto

Não o Factor Zero não morreu. Está de volta exatamente de onde parou. Na sequência da saga do punk canadense é hora de voltar a Vancouver que, como já disse, desenvolveu também uma rica cena punk (e alternativa) em 77. E a primeira banda a fazer um som punk por lá foi o The Furies, embora um outro grupo, formado só por minas, tenha surgido quase ao mesmo tempo: o The Dishrags (na verdade, elas eram de Victoria, que fica ao lado de Vancouver). Ambos tiveram uma vida bem curta, mas não há banda que tenha surgido depois, na época, claro, que não os cite como referência.



THE FURIES - O Furies começou no início de 77 e acabou no mesmo ano, ou seja, não chegaram a completar um ano de existência. A primeira apresentação deles foi em maio e a última, em setembro. Mas o fato de terem sido os pioneiros do punk em Vancouver chamou a atenção da mídia local. Nos poucos meses em que estiveram em atividade apareceram em jornais, revistas e até em um programa de televisão, o que contribuiu para que outros jovens resolvessem formar suas bandas. Certamente, se não tivessem existido, o punk floresceria em Vancouver da mesma maneira - era inevitável, lá com em todas as partes do mundo - mas eles deram o ponta pé inicial e merecem ser lembrados por isso.
A ideia de montar o Furies foi do guitarrista e vocalista Chris Arnett que convidou os amigos de faculdade Malcom Hasman (baixo e vocal) e Jim Albert (bateria) para a empreitada. Mesmo com tão pouco tempo, o grupo ainda teve a substituição de Malcom por John Warner, um mês antes de acabar. Embora não tenham gravado nenhum disco, entraram em estúdio e registraram duas músicas em uma demo tape. Apenas uma delas saiu em uma coletânea chamada Last Call, lançada em 1991.
Para variar, em 2007, o grupo se reuniu para um "remember", com Chris, John e o baterista Taylor Little. Entusiasmados com a resposta do público resolveram gravar dez músicas dos bons tempos e ainda compuseram mais duas. O CD está rolando por aí (não tenho).
A título de curiosidade, após o fim da banda John e Jim mudaram-se para a Inglaterra e Jim tornou-se baterista do PIL (sim, a banda de John Lydon, vulgo Johnny Rotten), além de ter tocado no Human Condition, junto com Jah Wobble (também do PIL), e no The Pack, com Kirk Brandon (futuro Theatre of Hate) e Rab Fae Beith (The Wall). John Warner também era integrante da primeira formação do The Pack. Tem história!



THE DISHRAGS - Se a Inglaterra tinha as Slits e Toronto o The Curse, Vancouver tinha as Dishrags como pioneiras da cena punk. Nascido praticamente junto com o Furies (abriu o primeiro show deles, com o nome Dee Dee and The Dishrags, em homenagem ao guitarrista do Ramones) era um trio de garotas com idade entre 15 e 16 anos! Uma possível explicação para que existisse um grupo só de mulheres tão cedo por lá é que a vocalista e guitarrista Jade Blade, fundadora do Dishrags, era prima de Chris Arnett. A primeira formação tinha ainda a baixista Dale Powers e a baterista Scout. No início, faziam um som bem básico, primitivo mesmo, pois mal sabiam dominar seus instrumentos. Mas conseguiram evoluir e superaram musicalmente várias bandas da época. Em 78, abriram o show do Clash em Vancouver.
Em termos de gravação, participaram da histórica coletânea Vancouver Complication e lançaram dois compactos. O primeiro, de 1979, tem três faixas: Past is Past, Love is Shit e Tormented. O incrível é que o som tem uma pegada hardcore! O disco foi gravado em Seattle (que não é distante de Vancouver) no Triangle Studios, o mesmo em que mais tarde o Nirvana registraria suas primeiras canções.
Mas pouco depois de sair a bolachinha, Dale Powers deixou o grupo. Em seu lugar entrou a baixista Kim Henriksen e o grupo ainda ganhou uma guitarrista extra: Sue MacGillivray. As duas novas integrantes eram de um outro grupo só de minas, chamado Devices, que havia acabado. Agora um quarteto, elas foram para a Inglaterra gravar o segundo single, pela Stiff Records e distribuído pela RCA inglesa, já em 1980. O compacto tem quatro músicas e chama-se Death in the Family, que além da faixa-título trouxe All the Pain e Beware of the Dog. Bem diferente do primeiro, mais lento e mais apurado, mas sem concessões comerciais. No entanto, discussões internas levaram ao fim da banda, provavelmente ainda durante as gravações do segundo disco, que chegou às lojas já com a banda fora de atividade. Em 1997, foi lançado um CD com tudo o que elas gravaram (incluindo faixas de demo tapes e ao vivo), chamado Love/Hate, que ajudou a resgatar esse pedaço precioso da história não contada do punk. Em tempo: dishrag pode ser traduzido como "puta rampeira", ou algo parecido...



ACTIVE DOG - Mais um grupo de vida curta , porém, que lançou sementes fortíssimas na cena punk de Vancouver. A história deles começa em 1978 quando três integrantes do The Monitors (também conhecido como The Shits) - o tecladista Dash Ham, o guitarrista John "Buck Cherry" Armstrong e o vocalista Bill Shirt - saíram da pequena Surrey-White Rock para a vizinha Vancouver. Lá se uniram a Terry Bowes (guitarra), Ross Carpenter (baixo) e Robert Bruce e adotaram o nome Active Dog. Com essa formação tocaram por mais ou menos um ano e meio e ganharam respeito e fama na cena underground. Em 1979, pouco antes de entrarem em estúdio para fazerem suas primeiras gravações, Dash e Bruce deixaram a banda para formar o Pointed Sticks (no qual o tecladista assumiria com o nome Gord Nichol). Mesmo assim, o Active Dog gravou, mas a banda já não existia mais pra promover a bolacha quando ela saiu. Armstrong foi para o The Modernettes, enquanto Bowes e Carpenter formaram o Antheads (que nem chegou a gravar nada). Já Bill Shirt se juntou a Art Bergmann (ex-Young Canadians) no Los Popularos.


O LEGADO - Dá para dizer que foi a partir dessas três bandas (mais DOA e Subhumans, claro) que a cena punk de Vancouver se desenvolveu. Não se pode falar em "explosão", como aconteceu em outros lugares, pois na verdade, não eram muitos os punks, como Joey Shithead deixou claro em seu livro. Os poucos locais que haviam para as bandas tocarem abriam e fechavam com a mesma rapidez que a molecada começava e acabava essas mesmas bandas. Vou falar rapidamente de mais alguns dos principais grupos da primeira era do punk de Vancouver.



O POINTED STICKS começou a tocar no início de 78 como um grupo punk, mas depois assumiu uma identidade "power pop". Mesmo assim, o primeiro LP deles (Perfect Youth ,1980) é excelente e foi uma das primeiras produções do hoje mundialmente famoso Bob Rock. É "punk pop" na veia. Out of Luck, música do segundo single deles, de 1979, poderia fazer parte do repertório de qualquer grupo "pos-Green Day". A formação original tinha o vocalista Nick Jones, o o guitarrista Bill Napier-Hemy, o baixista Tony Bardach e o batera Ian Tiles. Mais tarde o tecladista Gord Nicholl (ex-Active Dog) e o saxofonista Johnny Ferreira (português) juntaram-se ao grupo. Também tocaram com os Sticks o baterista Robert Bruce (ex-Active Dog) e nosso amigo Ken "Dimiwitt" Montgomery (veja os posts sobre o DOA e o Subhumans), além do baixista Scott Watson. O grupo esteve na ativa até 1981 e lançou quatro compactos e um LP. Curiosamente assinaram com a Stiff Records, da Inglaterra e eram mais famosos fora de seu país. Em 2006, a Sudden Death Records, de Joey Shithead, relançou Perfect Youth e, no ano passado, com a formação original, voltaram a gravar em estúdio e lançaram o CD Three Lefts Make a Right. Não tão bom quanto nos velhos tempos, mas ainda (muito) bom.

Outro grupo que trabalhava na fronteira entre o punk e o power pop, mas com mais peso, era o THE MODERNETTES, formado em 79 por John Armstrong, também conhecido por Buck Cherry (guitarra e vocal), Mary-Jo Kopechne (baixo) e Jughead (bateria). Armstrong também foi integrante do Active Dogs. Mary (cujo verdadeiro nome é Mary Armstrong) trocou a música por uma pacata vida na zona rural de Alberta. A curta discografia da banda inclui um single (Strictly Commercial) e dois EPs (o clássico Teen City, de longe o melhor momento deles, e View From The Bottom, um pouco mais comercial) enquanto esteve em atividade, já que acabou em março de 1981. Pouco depois do final do grupo, em outubro de 1981, saiu um EP de 12" chamado Gone... But Not Forgotten, raríssimo por sinal, mas que atualmente foi incluído na coletânea Get It Straight, da Sudden Death Records, que reúne praticamente tudo o que eles gravaram.

Também muito importante foi o I, BRAINEATER. Na verdade, este foi um dos muitos projetos de Jim Cummins, um artista plástico loucaço que visualizou na cena punk/new wave uma maneira de expressão. O cara fez as capas de vários discos, incluindo a do primeiro álbum do Pointed Sticks. Mas o I, Braineater nunca foi um grupo fixo e punk rock mesmo só na primeira encarnação que tinha além de Cummins, Dave Greg (D.O.A.) na guitarra, Art Bergmann (K-Tels) no teclado, Buck Cherry (Modernettes) no baixo e Ian Tiles (Pointed Sticks) na batera. Um supergrupo que gravou um apenas compacto. Depois, a banda teve várias formações diferentes, nas quais apareceram com mas frequência o tecladista Steve Laviolette e o percussionista Ivo Zenatta. Mas sempre com uma pegada mais experimental. Em todo caso, o início foi marcante e Cummins ajudou a desenvolver a cena de Vancouver.

O citado K-TELS teve sua importância, mas ficou mais famoso como YOUNG CANADIANS. A mudança não foi espontânea, mas sim resultado de uma ação jurídica movida pela multinacional K-Tel Inc., na época, uma gigante do entretenimento. Por um curto período chegaram a se chamar X-Tel. O grupo era um trio comandado pelo talentoso vocalista e guitarrista Art Bergmann, com Jim Boscott no baixo e voz e Barry Taylor na batera. Apesar de terem conquistado bom público e feito vários shows grandes, eles resolveram colocar um ponto final na história da banda em 1980. Lançaram dois EPs de 12" (Hawaii e This Is Your Life), ambos com produção de Bob Rock, mais um compacto de 7" (Automan), que foi distribuído junto com a primeira prensagem de Hawaii. Bergmann era a figura da banda. O cara recebeu um prêmio Juno, um dos mais importantes na música do Canadá, como artista revelação e... o trocou por drogas. Chegou a assinar com grandes selos e gravar com assistência de produtores renomados (John Cale, inclusive), mas nunca fez as concessões exigidas pelas gravadoras e, consequentemente, jamais produziu um grande "hit" para a indústria fonográfica. Jogaria no meu time, tranquilamente. Logo após o fim do YC, Art Bergmann fundou o Los Popularos, com um estilo mais rock'n'roll e que se tornou uma lenda na história do rock canadense. Na verdade, era um projeto em que ele convidava membros de outros grupos para shows e gravações em estúdio. Jim tocou em diversas bandas desconhecidas e morreu em 2005, em um acidente não esclarecido dentro de um estacionamento de carros. Após o fim do grupo, Barry se juntou ao Shanghai Dog e eventualmente toca com bandas menos famosas ainda.

Impossível falar do punk de Vancouver da década de 70 sem citar o UJ3RKS (lê-se "u jerkers"). Apesar de não serem realmente punks, acabaram adotados pela cena (o que não era raro nos primeiros anos do punk rock e aconteceu muito em outros países). A história desses malucos começa quando Frank Ramirez e Rodney Graham resolveram se apresentar em cafés de Vancouver ora como "U2" (sim!), ora, "Gentlemen2". Até que resolveram ampliar a brincadeia e convidar outros artistas. Assim, em 77, adotaram o estranho nome. Fizeram gravações, mas só começaram a se apresentar ao vivo como um grupo em 79 e foram imediatamente identificados como punks pela estranheza de suas músicas e a temática crítica das letras, embora o som estivesse mais para oque muita gente chama de "art-rock".

Por fim, é preciso falar sobre o WASTED LIVES, que começou em 1978 e acabou no ano seguinte. No início se chamavam 4 Day Wonder, mas pouco depois dos primeiros ensaios, dois integrantes deixaram o grupo (um deles era o guitarrista Brad Kent, que foi para o Avengers). A verdadeira formação da banda era: Phil Smith (voz e teclados), Colin Griffiths (guitarra), Mary J-Kopechne (baixo) e Andy Graffiti (batera).  O Wasted Lives se apresentou poucas vezes, gravou uma faixa para a coletânea Vancouver Complication e um compacto lançado postumamente com dois sons (Divorce e False Hopes), sendo que a segunda música foi creditada como de um grupo chamado Big Black Puppets, mas o que aconteceu é que eles precisavam de mais um som para lançar o single e Phil Smith e Mary chamaram amigos para gravar o lado b. Teria sido uma banda promissora, but...


Creio que, com esse post, termino a saga do punk canadense. Embora outras cidades como Montreal, Ottawa e Quebec tenham tido suas bandas e num futuro próximo falarei de algumas (como o incrível The Action, por exemplo), foi em Vancouver e Toronto que o punk surgiu no Canadá. E, pelo que vocês podem ouvir baixando esses sons, não é por acaso que ganhou respeito com o passar dos anos. Se quiser mais informações sobre a cena de Vancouver, o site Bloodied But Unbowed é a melhor fonte possível na Web. Também o site da Sudden Death Records, selo dirigido por Joey Shithead (DOA), tem bastante informações e vende material relacionado. E abaixo vão os links para conhecer o som desses verdadeiros herois do underground, pioneiros não apenas de uma cena local, mas de um novo estilo de vida. Vocês sabem do que estou falando...

The Furies
The Dishrag
Active Dog + Wasted Live
Pointed Sticks (Perfect Youth LP)
Pointed Sticks (Perfect Youth bonus tracks) 
The Modernettes
I, Braineater
UJ3RK5
K-Tels / Young Canadians
Vancouver Complication (coletânea)

02/02/2010

Caos, desordem e punk rock: pesadelo em Toronto

O punk canadense tem uma história tão (ou mais) rica e interessante quanto a de suas duas principais crias, dissecadas nos posts anteriores. Mesmo em Vancouver, entre 1977 e 1982, surgiram (e acabaram) dezenas de outros grupos; D.O.A. e Subhumans eram apenas a ponta do iceberg, apesar de todo seu poderio sonoro e ideológico. Mas outras cidades também desenvolveram cenas intensas. Algumas, como Toronto, realmente surpreendentes. A proximidade com New York certamente foi determinante para isso e, não por mera coincidência, há uma forte influência do som de NY e Detroit na maioria das bandas.
O estopim para o surgimento de uma cena punk em Toronto foi um show do Ramones em setembro de 1976. Na plateia daquela apresentação, que teria durado meros 20 minutos, estavam membros fundadores das primeiras bandas locais. A consequência disso - claro, aliada a diversos outros fatores - foi que no verão de 77, Toronto viveu sua "explosão punk", capitaneada por bandas como Diodes, The Viletones, The Curse, The Ugly e Teenage Heads, entre outras. Vou falar um pouco de cada.


THE DIODES - Grupo formado em 76 pelo vocalista Paul Robinson e o baixista Ian Mackay, aos quais se juntou o guitarrista John Catto. Diversos bateristas passaram pelo grupo até a entrada de Mike Lengyell, já no meio de 1978, que se firmou no posto. O Diodes é considerado com o primeiro grupo punk canadense. No entanto, em que pese a atitude, muitos conterrâneos e contemprâneos deles não os consideram exatamente punk, pois desde o início é notável influências de grupos como The Who e Kinks. Daí serem cultuados por "mods revivalistas" do mundo todo. A meu ver, eles começaram como punks e foram determinantes para o surgimento de uma cena em Toronto, mas como conseguiram um contrato com uma grande gravadora, acabaram influenciados pelas "leis de mercado", daí...
A primeira apresentação do Diodes foi realizada apenas em janeiro de 77, quando tocaram com o ainda não tão famoso Talking Heads. E, se não tinham um som "puramente" punk, eles contribuíram de uma forma decisiva para o florescimento de uma cena em Toronto, ao gerenciar o The Crash 'n' Burn, um clube noturno exclusivo para bandas new wave e punk. O local acabou sendo fechado pelo Partido Liberal, que tinha sede no mesmo quarteirão, mas em sua curta existência abriu espaço para o surgimento de várias bandas.
Em 77, lançaram um "split single" com o The Curse, hoje raríssimo, chamado Raw/War. Ainda naquele ano, fizeram os primeiros shows em New York e foram muito elogiados pela crítica. A boa repercursão lhes rendeu um contrato com a CBS, o que fez do Diodes o primeiro grupo punk do Canadá a assinar com uma major. O primeiro LP, chamado simplesmente The Diodes, foi bem recebido por público e imprensa, o que lhes proporcionou uma certa fama nos EUA. No entanto, o disco não captou a energia da banda em suas apresentações ao vivo. Por outro lado, há quem o considere um clássico do que hoje muita gente chama pop-punk, outros de power pop (apesar de no Brasil já ter gente confundindo esse estilo). Claro, que por estarem em um grande selo, o som deles foi bastande dilapidado, mesmo assim, é bem criativo.
Em 79, lançaram o segundo LP, Released, bem mais produzido que o primeiro e com mais acentos pop. Em certas passagens eles lembram bem o Ramones em seus momentos mais alegres e menos densos. É neste LP que está Tired of Waking Up Tired, o maior sucesso da banda. Em 1980, depois de não terem o contrato renovado com a CBS, o Diodes, apenas com Catto e Robinson, mudou-se para a Inglaterra. Lá, juntamente com o baixista Steve Robinson, ex-Barracudas, e o baterista Richard Citroen deram sequência ao trabalho e lançaram o terceiro LP, Action/Reaction, pelo selo Orient, outro ótimo LP, a meu ver, superior a Released, mas que jamais recebeu a devida atenção. Em 82, lançaram Survivors, uma coletânea de sobras de estúdio e gravações raras. Pouco depois desse lançamento, a banda acabou. Na verdade, o que houve foi uma grande mudança de direção o que levou Robinson e Catto a proporem um novo nome para o grupo: High Noon. Dessa forma, estabeleceram-se em Londres e por lá fizeram uma breve carreira até 1985. Diz a lenda que há gravações não lançadas desse período. No final dos anos 90 e depois em 2007, o Diodes se reuniu para algumas apresentações. E "só".


VILETONES - Se o mundo se assustou com o comportamento dos Sex Pistols em Londres, a sorte é que os holofotes não se viraram para Toronto. Os Viletones certamente causariam mais indignação. Um artigo do jornal Record Week descreveu o grupo como "a resposta cultural do Ocidente para Idi Amin Da Da" (para quem não sabe, Idi Amin era presidente de Uganda e tinha manias "estranhas", como comer carne humana e guardar partes dos corpos de seus desafetos em geladeiras....).
Tal afirmação tinha como base o perfil do vocalista que no palco - e fora dele, também - destilava raiva, ódio, violência extrema, autodestruição, escatologia e... simpatia pelo nazismo! Sim, Steven Leckie adotou o pseudônimo "Nazi Dog", usava suásticas e dizia não apenas ser admirador H. Himmler, mas também descendente do número um da SS de Hitler. E orgulhava-se disso. Óbvio que tal comportamento é abominável até mesmo entre os punks. Mas a questão não era ideológica. Steven demorou um pouco a perceber o quanto estava sendo ingênuo ao promover a merda nazista. Sua intenção era causar o máximo de repulsa que pudesse nos mais velhos e incitar a violência em seu público. Conseguiu, claro. Mas já na virada de 77 para 78, depois de assistir ao filme Holocausto, se tocou da besteira e deixou o apelido e a propaganda nazista de lado. Diz a lenda que ele teria sofrido ameaças de morte por parte do serviço secreto israelense, o que facilitou ainda mais a decisão de mudar o discurso...
Nazi Dog era desprezível, mas era também um soco na cara da sociedade canadense e o som do Viletones um chute dolorido no saco da pasmaceira musical que predominava naquele país. Os outros integrantes do grupo eram o guitarrista Freddy Pompeii, o baterista Mike "Motor X" Anderson e o baixista Jackie Death (que ficou pouco tempo, sendo substituído por Chris "Hate" Haight).
O Viletones foi um meteoro destruidor que durou (a formação original) por cerca de dois anos apenas. Nesse período, conseguiram chamar a atenção da imprensa, com vários artigos publicados, inclusive na Europa, sobre a selvageria promovida por eles no palco. Também fizeram uma apresentação no CBGB, ao lado do Diodes, The Curse e do Teenage Head. Em termos de gravações, lançaram dois compactos. O primeiro, Screamin' Fist, saiu em 77, e o segundo, Look Back in Anger, em 78. Pouco depois desse segundo ep, o baixista Sam Ferrara, ex-The Ugly, entrou no grupo e Chris Haight assumiu a segunda guitarra.
Quando o Viletones parecia que ia tomar um rumo, sem muitas explicações, três integrantes originais da banda saíram, deixando Nazi Dog e Sam. Pompeii, Haight e Anderson juntaram-se ao baterista John Hamilton (que tocou com o Dodes em sua fase incial) para formar o The Secrets, com um som menos agressivo. Não virou e ainda deram fim a mais original banda que surgira em Toronto desde a invenção do rock'n'roll.


THE UGLY
- Da mesma estirpe que o Viletones, mas com algumas diferenças: eram melhores musicalmente e piores como pessoas. Não gostavam muito das outras bandas, especialmente do pessoal do Diodes, que eram ligados a uma escola de arte. Os integrantes doUgly eram marginais mesmo, inclusive tiveram muitos problemas porque virava e mexia um deles estava em cana. A banda é, na verdade, de Hamilton, que fica muito próxima a Toronto, mas como não tinha onde tocar em sua cidade natal, acabaram se tornando, por osmose um grupo de Toronto.
O grupo começou por volta do final de 76, depois que o baixista Sam "Ugly" Ferrara e o guitarrista Tony "Torture" Vincent ouviram o primeiro LP do Ramones (sempre eles!) e decidiram mudar o estilo de som que faziam (eles tocavam numa banda chamada The Markeys, que fazia covers do Yardbirds, The Who, Stones e outros). Na reformulação, recrutaram Mike "Nightmare" Mulhoney para o vocal e dispensaram o baterista Brian Vadders, pois ele não quis cortar o cabelo estilo hiponga! No lugar dele, entrou o irmão de Mike, Ray "Gunner".
Como muitas bandas punks daquele tempo, o Ugly poderia fazer um som mais trabalhado, mas optaram pelo mais agressivo que podiam. Outro fato curioso é que por acharem que alguns grupos punks eram muito "sofisticados" (e também pelo fato que muitos integrantes das outras bandas serem alunos de uma escola de arte), costumavam dizer que não tocavam punk rock, mas sim "hoodlum rock", algo como "rock de bandido".
Assim como o Viletones, a natureza desencanada e anárquica (não na acepção política do termo) do Ugly não permitiu que eles tivessem um futuro no cenário musical. Também passaram como um meteoro e a formação original se desmantelou em 78. Mike reformou a banda e chegou a lançar um single (Stranded In The Laneway (of love) / To Have Some Fun), bem mais para o rock'n'roll. Do Ugly original, o único registo da época é uma faixa na coletânea And Now Live From Toronto - The Last Pogo, hoje considerado um raro e precioso documento da história do punk canadense. Este disco seria uma espécie de trilha sonora de um filme captado em um show na Horseshow Tavern (lendário clube de Toronto que abrigou o início da cena na cidade), realizado pela dupla Gary Toppie e Gary Cormmier, donos do local considerados os maiores incentivadores do punk por lá. (Sempre digo que o que faltou no início do punk brasileiro era um espaço desse tipo, para as bandas tocarem e ensaiarem). Parece que já há DVD desse filme, não tenho certeza.
O Ugly acabou pouco depois do lançamento so single, que passou completamente batido. Em 97, Mike faleceu. Dez anos depois Sam e Tony, na onde de "ressuscitamento" de todas as bandas punks dos anos 70 e 80, voltaram a tocar sob o nome The Ugly, juntamente com o guitarrista Steve Koch e o vocalista Greg Dick (ex-Dream Dates, outra banda obscura dos anos 70). A verdadeira volta dos mortos-vivos!


THE CURSE - Candidatíssima ao posto de primeira banda feminina de punk da América do Norte, ao lado das Dishrags (curiosamente também canadenses, mas de Vancouver), essa é mais uma banda que costuma surpreender quem começa a descobrir a real história do punk. O The Curse foi criado no verão de 77 pelas amigas Mickey Skin (voz) e Dr. Bourque (baixo). Patsy Poizon (bateria) e Trixie Danger (guitarra), completaram a formação. Também tocaram na histórica noite canadense do CBGB em 77, com os Diodes, o Teenage Head e o Viletones (o Cramps ainda se apresentou nesse dia). As peformances das meninas eram marcados por atitudes inesperadas de Mickey como espalhar e atirar restos de comida no público.
Quanto ao som, enquanto estavam em atividade lançaram apenas o split com o Diodes (mas a faixa delas, Raw, não é uma música, apenas a voz de Mickey sobreposta a uma fala de alguém sobre teoria social. Ela vai xingando o cara) e um compacto com as faixas Shoeshine Boy e Killer Bees. Muito bom, punk primitivo de primeira.
Em 78, cerca de um ano depois da apresentação no CBGB, retornaram a New York e tocaram no Max's Kansas City, que acabou sendo o último show do grupo. Em 1996, o selo Other Peoples Music lançou uma coletânea com tudo o que foi possível garimpar delas. Tem as faixas dos compactos, demos e algumas ao vivo. Um registro histórico. Mas teria sido interessante se elas tivessem gravado um LP. Em tempo: "curse" é uma das expressões para menstruação.



TEENAGE HEAD - São conhecidos também (mais um) como Ramones canadense. E realmente existem algumas semelhanças, observando-se o chavão desde que guardadas as devidas proporções. O Teenage Head foi criado em 1975 por quatro colegas de faculdade: Frank "Venom" Kerr Jr. (vocal), Gordon "Lazy Legs" Lewis guitarra, Steve "Marshall" Mahon (baixo) e Nick Stipanitz (bateria). Todos eram fãs de Iggy and The Stooges, MC5, Flamin' Grooves e New York Dolls. Assim, antes de terem suas próprias músicas, faziam covers dessas bandas, cujo som foi fundamental para a existência do punk rock. Uma escola e tanto. Inclusive tiraram o nome de um LP do Grooves, de 1971. Foram dois anos de ensaios antes de tomarem a decisão de mudar-se para Toronto (eram de Hamilton).
De casa nova, começaram a tocar no pequeno mas frequente e agitado circuito punk, ao lado das bandas pioneiras já citadas neste post. Em 78, lançaram o primeiro single Picture My Face / Tearin' Me Apart pelo selo Interglobal Music. A primeira parece muito com Stooges, principalmente o vocal. A segunda, é Heartbreakers puro. Ainda no mesmo ano fizeram mais um compacto com as faixas Top Down e Kissin' the Carpet. A guitarra a la Ramones é evidente na primeira faxa. Mas é bom dizer que ao mesmo tempo eles tinham um estilo próprio.
A repercursão destes lançamentos ficou restrita ao circuit underground. Mas a banda já criara uma certa fama e, em 78, lançou o primeiro LP, Teenage Head. No entanto, pouco depois e justamente quando começavam a ver a fama crescer, a Interglobal faliu. Assim, por muito tempo, estes três discos ficaram fora de catálogo, sendo relançados apenas nos anos 90, quando iniciou-se a era do CD. No disco, as influências citadas são bem claras. É "punk mais rock do que nunca" para ser ouvido no volume máximo.
Em 1980 assinaram com um selo maior, a Attic Records. Com isso puderam investir mais na gravação do segundo LP, Frantic City, produzido pelo ex-guitarrista de David Bowie, Stacey Heydon. O resultado é um som bem mais polido e 99% rock'n'roll. Vale a pena ouvir, mas nada tem a ver com punk. E daí em diante a banda seguiu essa linha, embora o terceiro LP, de 82, chamado Some Kinda od Fun, seja mais pesado e tenha ficado famoso como "trilha sonora ideal para festas regadas a cerveja". Daí em diante e principalmente após assinarem com a CBS, que os forçou a mudar o nome para Teenage Heads, distanciaram-se do punk, embra usassem a fama de banda punk - especialmente com a retomada do interesse pelo gênero nos anos 90. Seja como for, o Teenage Head foi uma das mais influentes bandas dos primeiros anos do punk canadense e merece ser incluído em qualquer historiografia que se faça em relação ao punk rock no mundo. Em tempo: Frank Venom morreu em 2007, em consequência de um câncer na garganta.