16/04/2016

Dead Boys: punk, rock, extremos

O Dead Boys em 1977
Em 1975 o punk ainda não existia "oficialmente". Mas o Dead Boys já. E era assustadoramente punk. Não é exagero dizer que deram uma contribuição à altura do Ramones para que todo o processo, movimento, fenômeno ou seja lá o que for, chamado punk se espalhasse pelo mundo.

Com um som que entra facilmente no rol dos mais agressivos daquele período, o Dead Boys literalmente encarnava tudo o que viria a ser o punk desde então. E ainda possuíam uma habilidade musical inegável, quer seja em estúdio ou no palco, onde Stiv Bators o vocalista detonava em performances inspiradas em seu ídolo, o Godfather Iggy Pop. As inspirações são óbvias, além dos Stooges, é fácil identificar algo de MC5 e New York Dolls.

Diferente do punk que surgiria na Inglaterra, politizado, os caras do Dead Boys não estavam nem um pouco interessado no assunto. Cantavam sobre  sexo, drogas, solidão e o lado "sujo" da sociedade. Não tentavam fazer a cabeça de ninguém. No fundo, queriam apenas se divertir, beber, arrumar confusão e ter sexo livre e grátis. Queriam ser rockstars, não vozes ou mártires de qualquer revolução, embora estivessem no olho do furacão da mesma. Eram pobres loucos para ficarem ricos e "detonar".

O som das tumbas
A banda é de Cleveland e sua origem remonta ao lendário Rocket From The Tombs, que se dissolveu em julho de 1975. A dissolução acontecera porque o grupo estava dividido com o guitarrista Cheetah Chrome e o batera Johnny Blitz de um lado, querendo fazer um rock mais pesado, e o vocalista David Thomas e o guitarrista Peter Laughner, de outro, com uma proposta mais "art-rock".

Após o fim do Rocket, os dois últimos fundaram o Pere Ubu, grupo seminal para o que viria a ser o "pos-punk". Já os dois primeiros se juntariam a Stiv Bators, o guitarrista Jimmy Zero e o baixista Jeff Magnum, que ensaiavam covers do Stooges e procuravam outros caras para formar uma banda. A união já se desenhara na última fase do Rocket, quando Stiv teve uma passagem relâmpago por uma das últimas formações da banda. Na derradeira apresentação do RFTT, ele subiu ao palco e fez uma performance improvisada com Cheetah e o batera, sem os dois futuros Pere Ubu.

Nascia assim o... Frankenstein. Isso mesmo. Esse foi o primeiro nome que escolheram, sob o qual fizeram quatro apresentações em Cleveland e gravaram uma demo com três faixas: Sonic Reducer, High Tension Wire e Down In Flames. Três meses depois, desanimados com a falta de espaço (que pressa tinham...), decidiram dar um tempo.

Então Stiv conhece Johnny Thunders, ex-guitarman do New York Dolls e na época destruindo no Heartbreakers, que o apresenta à cena novaiorquina. Stiv percebeu no ato que ali teriam mais espaço. Então, convence os demais integrantes do Frankenstein que deveriam se mudar para NY. Antes, porém, decidem mudar o nome (ufa!) para Dead Boys, tirado da letra de Down In Flames, inegável clássico do punk.

Dead boy - dead boy running scared
Dead boy - dead boy caught in a nuclear weird
Dead boy - dead boy gonna fall
Dead boy - to sick to wanna crawl

Down in flames, Down in flames

Red blip, red whine, lock in true
Dead boy, dead boy, line on you
Dead eyes feeding your dead, dead brain
Dead boy, dead boy, always end the same

Em Nova York, os Dead Boys se aproximam de Joey Ramone, com quem já haviam tido contato quando a banda dele tocou em Cleveland. Foi o "Magrão" que arranjou uma audição do grupo para tocar no CBGB. Em agosto de 76, o Dead Boys subia pela primeira vez ao palco do lendário clube. A performance incendiária de Stiv, aliada à agressividade das músicas, agradou em cheio e eles se tornariam habitués do local. E a julgar pela rapidez dos fatos, o barulho que fizeram foi grande. Poucos meses depois já tinham um contrato com a Sire Records, a mesma gravadora do Ramones.

Uma gema
Em julho de 1977 é lançado Young Loud & Snotty. Pesado, furioso do início ao fim. Uma bomba de desilusão e niilismo. Entra fácil na lista dos dez álbuns mais pesados e agressivos da época. No disco, conseguem passar o espírito do estilo de vida que tinham. "O Dead Boys eram lixo pobre, garotos da classe media baixa de Youngstown, Ohio. O grupo surgiu num meio violento. Eles cresceram em gangues, eram a coisa real. Com eles era mais que uma atitude, era um estilo de vida", conta Gyda Gash, que presenciou a ascensão do Dead Boys na Big Apple.

Gravado no Electric Ladyland Studio, abre com Sonic Reducer, a música mais conhecida deles. Entre os clássicos da bolacha, na minha modesta opinião estão também I Need Lunch, What Love Is e a já citada Down In Flames. Mas nenhuma faixa destoa, não há deslizes, é energia bruta - e às vezes angustiante - da primeira à última nota. Mesmo nos dias de hoje soa enérgico e pesado. Claro que foi um fracasso de vendas, obviamente por não ter a mínima preocupação comercial.

Como parte da campanha promocional do disco, embarcaram em uma turnê como banda de abertura de Iggy Pop pelos EUA e, logo depois, tocariam no Reino Unido com o Damned, que anteriormente dividira o palco com eles no CBGB. Privilegiados os que viram.

Matando os Dead Boys
Mas a Sire não estava interessada na história e nos sentimentos das ruas ou do que quer que fosse que não vendesse. E o punk não vendia a contento nos EUA. Nem o Ramones, nem qualquer outra banda atingira o mínimo necessário para dar lucro. Então, para o segundo álbum vetaram a produção de Lou Reed, como a banda solicitara, e chamaram Felix Pappalardi, músico e produtor que nos anos 60 trabalhou com Cream. Nada menos apropriado para uma banda punk. Até o visual dos caras foi mudado. Pressionados, aceitaram, afinal não teriam como pagar uma multa contratual.  

O fato é que We Have Come From Your Children chegou ao mercado e foi ainda mais decepcionante em termos de vendas. A autenticidade sumira. Aquele nunca havia sido o Dead Boys. A dúvida é: por que diabos então o fizeram? Por que não se recusaram? Talvez por serem mesmo uns fodidos sem dinheiro que acreditaram nos executivos. Nos aos 70, a indústria musical impunha condições para as bandas, mas não era uma imposição à força. Oferecia-se dinheiro. Simples assim.

A Sire fez isso com os caras (eles aceitaram, claro) 
O termo "vender a alma" talvez seja bastante adequado para descrever o que aconteceu com o Dead Boys e inúmeras bandas, especialmente a partir de 1978 quando os produtores constataram que o punk não tinha o mercado que se imaginava. Como desconto, todos os membros da própria banda sempre criticaram o álbum. A mesma Gyda Gash diz que Cheetah teria ligado para James Williamson (do Stooges) durante as gravações, perguntando se ele não podera r lá para tentar salvar o disco.

Lendas à parte, pouco tempo depois, Johnny Blitz foi esfaqueado em uma briga de rua e Cheetah Chrome quebrou o braço andando de skate. Impossibilitados de fazer shows e desinteressados no que a banda se tornara o fim era inevitável. Para fechar com "chave de ouro" a história e o relacionamento coma  Sire Records, a fim de cumprir o contrato (deviam mais um álbum) fizeram um show que deveria ser gravado e lançado em disco. Mas Stiv, malandramente, desligou o microfone que captava sua voz para a gravação. Foi impossível para a gravadora salvar o registro e o dito cujo não foi lançado. Não imediatamente. Anos depois, Stiv colocou sua voz sobre a gravação e a bolacha saiu pela independente Bomp! Records.

Após o fim do Dead Boys, ainda em 1979, Stiv Bators lançou dois compactos pela mesma Bomp! Records. Em 1980, lançou seu primeiro álbum solo, Disconnected, com um estilo mais sessentista e "psicodélico". A seguir, foi para a Europa e formou o Wanderers - e depois o Lord Of The New Church - com os caras do Sham 69. Morreu em 1990, após ser atropelado em Paris.
Este vídeo dá uma ideia de como era um show do Dead Boys em 77,
apesar da péssima qualidade do som no YouTube