13/02/2016

Blitzkrieg Bop, a banda


Uma banda chamada Blitzkrieg Bop e cuja música mais famosa tem o título de Let's Go. "Mais um clone dos Ramones" é o primeiro e mais natural julgamento que vem à cabeça. Não é bem assim. Apesar do nome ter sido realmente inspirado no clássico do grupo novaiorquino e de fazer o velho punk rock, genialmente primitivo e com pouquíssimos acordes, as semelhanças param por aí.
O Blitzkrieg Bop foi um grupo que esteve na ativa durante a fase mais fervente do punk no Reino Unido, mas não eram de Londres e sim de uma região no norte da Inglaterra chamada Teeside. Isso pode ter sido um dos fatores que contribuíram para que a banda não despontasse como outros de seus contemporâneos. Apesar de a história do grupo remontar a 1974, o BP propriamente dito começou em 77 e durou até por volta de 79. Nesse período lançaram três singles e chegaram a ficar relativamente bem conhecidos.

Adamanta Chubb
Em 1974, quatro garotos de saco cheio da monotonia da vida em Teeside, uma área urbana e bastante industrializada que reúne pelo menos sete cidades, entre as quais Middlesbrough, resolveram montar uma banda de rock. Algo muito comum naquele país, como visto nas histórias de outras bandas postadas aqui. O grupo recebeu o nome de Adamanta Chubb, personagem do livro Lord of The Rings (sim, O Senhor dos Anéis não é tão novo), e era formado por Alan Cornforth (batera), Kevin McMaster (voz e guitarra), Stephen Sharratt (guitarra) e Mike "Duck" MacDonald (baixo). Pouco depois de começarem a ensaiar, Mike saiu e foi substituído por Damien "Dimmer" Blackwell. Em 75, John Hodgson se junta ao Adamanta, que precisava de alguém para compor músicas próprias, pois até então só fazia covers. John era um músico de certa experiência - estava no circuito desde 1966 - e entrou para o grupo como tecladista e compositor. Apesar de terem crescido um pouco com o novo integrante, não conseguiram muita coisa e não demorou Kevin e Stephen desistiram. Com isso, a banda se tornou um trio provisoriamente com Alan, John e Mike.
Em 76, porém, depois que John resolveu dar um tempo para tocar em uma banda de soul music (chamada Erection) em que poderia fazer uma graninha, o Adamanta Chubb quase deixou de existir. Depois de alguns meses de inatividade, Dimmer começou a remontar o grupo, que voltou definitivamente já no início de 77, com ele na guitarra, John na voz e nos teclados, Mick Hylton no baixo e Alan na batera. Mas ainda faziam um som mais voltado para o hard rock, com um repertório quase totalmente de covers.


A virada e o fim
Naquela época o punk estava no auge e John, especialmente, estava curtindo muito o que rolava mais ao sul e iniciou uma campanha interna para que o Adamanta entrasse por esse caminho. De início, os demais integrantes relutaram bastante, mas aceitaram incluir alguns números punks no repertório. Tocavam covers de The Clash, Eddie and The Hot Rods, Sex Pistols, Adverts e outros. Não demorou para perceberem que o "momento punk" do show agradava mais às plateias, que àquela altura estavam bastante influenciadas pelas novas ideias propostas pelo punk. Além disso, o Adamanta há algum tempo tentava aparecer e com o som que faziam normalmente estava difícil. A simplicidade do punk seria um caminho bem mais fácil para eles.
Aos poucos passaram a ter um repertório predominantemente punk e em maio de 77 mudaram o nome da banda para Blitzkrieg Bop. Outra mudança foi a entrada de Ann Hodgson (apesar do sobrenome, não era parente de John) como guitarrista e Mick Hylton no baixo. Também passaram a adotar pseudônimos. John passou a ser Blank Frank, Alan se tornou Nick Knoxx, Dimmer adotou Fred Fret (depois, Telly Sett), Ann virou Pat Pussy (depois, simplesmente Gloria) e Mick substituiu seu sobrenome por "Sick". Também começaram a compor material próprio e a pensar em gravar discos, uma vez que o espírito DIY facilitava bastante sem a exigência de grandes produções para serem ouvidos.
Ainda naquele maio de 77, aconteceria outro fato decisivo para o BP e a cena punk no norte da Inglaterra: um show do Clash em Middlesbrough. Até então, nenhum dos "grandes" nomes do punk que faziam tremer o Reino Unido havia tocado na região de Teeside. Foi a primeira vez que os vários grupos e pequenas gangs punks do norte da Inglaterra puderam se reunir em um único local e descobrirem-se uns aos outros, e também que havia várias bandas por lá (uma delas, o Penetration, já era até razoavelmente conhecida). Como acontecia em várias outras cidades europeias, sempre que uma banda do porte do Clash tocava, a cena se agitava e o punk se espalhava, como um vírus.
Depois do que viram, John, Mick e Alan chegaram a um consenso: o Blitzkrieg deveria se tornar definitivamente uma banda punk e Dimmer seria dispensado por não ser a favor disso (inclusive, era o único dos quatro que não cortara o cabelo e nem assumira o visual punk). E a decisão foi certeira, pois logo começaram a ser notados como uma das poucas bandas punks de Teeside e um jornal local, o Evening Gazette, publicou uma matéria de página inteira com eles.
Totalmente imersos na cena punk, John e Mick decidiram também fazer um fanzine, ao qual chamaram Gabba Gabba Hey, em mais uma alusão aos Ramones. O passo seguinte seria o lançamento do primeiro single, com três faixas (Let's Go, 9 Till 5 e Bugger Off) gravadas em um pequeno estúdio de Newcastle em uma sessão de quatro horas. O compacto, pelo selo Mortonsound, teve uma tiragem de 500 cópias e foi comentado em um artigo morno no Sounds e em outro, altamente favorável, no NME, os dois principais jornais de música da Europa na época (o Sounds não existe mais). Com isso, chamaram atenção de distribuidores de discos que os procuraram para colocar o compacto nas lojas, uma vez que a procura por discos punks era enorme, mas na metade de 1977 não existiam tantos lançamentos. Ou seja, praticamente tudo o que fosse rotulado como punk venderia e, se fosse autêntico, ainda mais. Mas como trabalhavam e não tinham ninguém para gerenciar a carreira (era tudo na base do amadorismo mesmo) perderam muitas oportunidades de ficarem ainda mais conhecidos no meio do turbilhão punk. Mesmo assim, entraram em acordo com a Lightning Records, selo independente que estava à procura de grupos novos, para regravarem Let's Go e mais duas faixas (Life Is Just A So-So e Mental Case) para um segundo compacto, lançado ainda em 77. Nesse meio tempo, Gloria deixou a banda e foi substituída por Ray "Gunn" Radford. Pouco depois lançariam a terceira bolacha, com (You're Like A) U.F.O. no lado A e Viva Bobby Joe, no B.
Então, foram convidados, ao lado do Eater, para abrirem os shows do Slaughter & The Dogs na fracassada turnê Do It Dog Style, que não chegou ao final. Desiludido, Ray decide sair e é substituído por Mickey Dunne, que adota o apelido "Bert Presley". O som também mudaria, como estava acontecendo com a maioria das bandas punks em 1978, para uma pegada mais comercial ou "new wave", embora continuassem a tocar no circuito punk. Já quase no fim daquele ano, uma nova mudança na formação: Mick Sick passa o baixo para Graham "Kid" Moses. Mas veio 1979 e o punk era declarado morto na Inglaterra. Blank Frank então decide sair para entrar no Basczax, grupo ao qual o baterista Nick Knoxx (que voltou a ser Alan Cornforth) e que tinha uma proposta mais pos-punk. Em 1994 e 1999 o grupo fez algumas apresentações isoladas.


Baixe aqui a coletânea Top of the Bops, com os três compactos lançados pela banda mais faixas ao vivo e de demo tapes

2016




2016 começou estranho. David Bowie morreu. Nuvens negras pairam no horizonte. No Brasil há um surto de crianças nascidas com microcefalia. Atribui-se a culpa a um vírus chamado "zika". O presidente da Assembleia Legislativa, notório criminoso e corrupto, continua em liberdade. Há poucos dias, algum diplomata russo falou em Terceira Guerra Mundial. Os massacres de inocentes acontecem cada vez com mais frequência, na Síria, no Iraque, em Paris, na periferia de São Paulo, em escolas dos Estados Unidos...
Acho que é hora de reativar o Factor Zero.