26/05/2009

UK Subs: subversão à inglesa

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13/05/2009

A travessia do Mar Vermelho com os Adverts


I wonder what we'll play for you tonight
Something heavy or something light
Something to set your soul alight
I wonder how we'll answer when you say
"We don't like you - go away,
come back when you've learned to play

I wonder what we'll do when things go wrong
When we're half-way though our favourite song
We look up and the audience has gone
Will we feel a little bit obscure
Think 'We're not needed here,
we must be new wave - they'll like us next year'

The wonders don't care - we don't give a damn
The wonders don't care - we don't give a damn
The wonders don't care - we don't give a damn

Os versos acima são de One Chord Wonders, primeira música lançada pelo ADVERTS, uma das bandas pioneiras da cena punk inglesa de 76-77. A história desse grupo, que considero um dos mais originais (até hoje não ouvi nenhuma banda parecida), começa em 1974, em Torquay, uma pequena cidade litorânea da região sul da Inglaterra, onde Tim Smith era vocalista do Sleaze, uma obscura banda de rock que não saiu dos pubs locais. Nessa época, Tim conheceu uma garota que tinha o apelido de Gaye Black. Os dois se tornaram amigos e ele a ensinou a tocar baixo. No verão de 75 o Sleaze acabou e a dupla resolveu fazer as malas e mudar-se para Londres com a firme intenção de montar uma banda.
Mesmo sem encontrar os demais membros escolheram o nome: primeiro seriam os One Chord Wonders, depois, num bate papo, surgiu The Adverts, nome que ficou. Além de comporem algumas músicas, a dupla tornou-se frequentadora assídua de shows do Stranglers e dos Pistols. Então resolveram anunciar no Melody Maker que precisavam de "um guitarrista especial que não fosse especial". Um tal Howard Boak respondeu ao anúncio e foi aprovado. No entanto, acabou por adotar outro apelido: Howard Pickup ("boak" é uma expressão do norte da Inglaterra para vômito, mas era difícil explicar isso). Ao mesmo tempo Tim resolveu criar um nome mais artístico: juntou o Smith, nome mais popular da Inglaterra, com o do eletrodoméstico mais comum do país e tornou-se TV Smith. Howard foi o responsável por levar a banda a ensaiar em um estúdio (até então, Tim só sabia o que era ensaio em garagens e quartos de amigos, com aparelhagens tranqueiras).
O quarto elemento foi Laurie Muscat, indicado por John Towe, baterista do Generation X (que também esteve no Chelsea), que ensaiava no mesmo estúdio e também era companheiro de trabalho de Howard em uma loja de discos. Desesperados por um baterista, eles admitiram Laurie mesmo sem ouvi-lo. Logo no primeiro ensaio descobriram que ele não sabia tocar porra nenhuma e pediram a Towe para passar uma noção a ele. "Ele era totalmente sem talento, então obviamente era a pessoa ideal para a banda", conta TV em uma entevista à revista Goldmine, em 1997. O batera adotou o apelido de Laurie Driver e não demorou a a aprender o básico. Ainda em 76 gravaram uma demo tape com cinco músicas e em pouco tempo estavam prontos para encarar um palco.
Em 15 de janeiro de 77 o Adverts fez sua estréia como banda de abertura para o Generation X no lendário Roxy Club (claro que o amigo John Towe foi importante para conseguirem a "boquinha"). Logode cara chamaram a atenção por terem uma mulher como baixista, o que era incomum no então ainda mais machista mundo do rock'n'roll. E ainda por cima era bonitinha. Tornaram-se quase que uma banda residente do Roxy - com uma dezena de shows em cerca de três meses - e logo conseguiram lançar o primeiro single, pela Stiff Records (da qual já falei em post anterior). O compacto chamou a atenção não só pelo som, mas também pela capa, com o rosto de Gaye em super close. Apesar de ser considerada uma das melhores capas de discos punks por muita gente (inclusive o próprio TV Smith hoje admite tratar-se de um clássico), na época a banda torceu o nariz. Primeiro, a própria Gaye ficou chateada, pois tinha verdadeira aversão por estrelismos. Considerava-se integrante do grupo e que todos os quatro Adverts tinham a mesma importância. Ela tinha consciência de que estava naquela capa apenas por uma questão sexista e não buscava tal exposição, queria apenas ser "música", não musa. Depois, a banda como um todo não gostou pois tinham feito uma sessão de fotos para aquela capa e jamais imaginariam que um só deles estamparia a "mardita". Para promover o single, fizeram uma tour patrocinada pela Stiff, ao lado do Damned. Mas o vínculo com a Stiff estava comprometido, tanto pela controversa capa como pelo fato de o selo estar centrado no Damned. Como já tinham um empresário, Michael Dempsey (figura lendária do underground londrino, falecido em 1981), não demoraram a conseguir um contrato com um selo maior, a hoje extinta Anchor Records, que tinha ligações com a norte-americana ABC Records, do grupo Paramount (a escolha pelo selo levou em conta uma possível divulgação nos EUA, claro). Antes de lançarem o segundo single foram convidados para uma Peel Session. Isso com menos de seis meses de existência.
Em agosto de 77, saiu o segundo compacto com Gary Gilmore's Eye e Bored Teenagers, dois dos maiores clássicos do Adverts, que chegou ao 18º posto na parada de singles ingleses. O êxito ajudou o grupo a ser indicado para abrir uma série de shows de Iggy Pop em sua tour pelo Reino Unido. Um sonho para Gaye, fan declarada do agora "vovô do punk". Dois meses depois da tour, em novembro, lançaram Safety in Numbers/We Who Wait, sem a mesma repercursão do single anterior.
Depois de quase um ano tocando direto e os três singles reconhecidamente entre os melhores de 77, estava na hora do álbum. Para a gravação escolheram nada menos que o consagrado estúdio Abbey Road. Antes do LP, porém, lançaram mais um single com No Time To Be 21 e New Day Dawning. Em fevereiro de 78 finalmente foi lançado o clássico Crossing the Red Sea with The Adverts. Adquiri este disco por volta de 81 e devo tê-lo ouvido umas 200 vezes em uma semana. Até hoje sinto algo diferente quando roda New Church, On the Roof, Bombsite Boys, Great British Mistake, On Wheels...
Após o lançamento do LP, shows, shows e mais shows. Como até então praticamente não haviam saído de Londres, iniciaram uma tour continental. No entanto, antes mesmo de completarem o giro pela Irlanda, Laurie foi atacado por uma hepatite e a excursão teve de ser interrompida. Fora de combate, o baterista foi substituído por... John Towe, que já não estava mais no Gen X. Mas o novo integrante não se adaptou e deixou o "cargo" após poucas apresentações. As baquetas passaram então para Rod Latter, ex-The Rings (tocou no The Maniacs também).
Depois da excursão pela Europa, os desentendimentos com a Anchor Records começaram. A banda e Dempsey (o empresário) queriam tentar o mercado dos EUA, mas a ABC não acreditava no potencial das bandas punks inglesas e não quis lançar o LP, apesar de muitas cópias terem atravessado o Atlântico, nem investir em uma tournê. Assim, deixaram o selo e assinaram com a RCA. O primeiro single pela nova gravadora, lançado em novembro de 78, foi o excelente Television's Over/Back From the Dead. A produção ficou a cargo de Tom Newman, o mesmo do chatíssimo Tubular Bells de Mike Oldfield. Back... também marcou o inicio de uma parceria entre TV Smith e o tecladista Richard Strange, do Doctors of Madness, banda hoje classificada como "proto-punk". Parecia o prenúncio de uma grande trabalho. O grupo gastou praticamente oito meses para conceber o segundo LP. Nesse meio tempo, o tecladista Tim Cross, que também trabalhara com Mike Oldfield entrou para o grupo. E só há uma palavra para definir Cast of Thousands: decepcionante. O disco não tem nada a ver com o primeiro. Sem energia, sem pegada e musicalmente pretencioso, mas claramente sem inspiração. Eles não precisavam gravar outro Red Sea, nem ter feito outro disco punk, mas também não precisavam fazer algo tão fraco. Ignorado pelo público e pela mídia, o fracasso iniciou o fim ao grupo que também já estava dilacerado. Após aguns shows como quinteto, Howard Pickup simplesmente desapareceu e o Adverts ficou sem guitarrista. Em seu lugar entrou Paul Martinez. Depois, Latter também abandonou o barco e o irmão de Paul, Rick, ficou em seu lugar. Ainda gravaram uma Peel Session, a quarta, em outubro de 79. Mas sem público, castigados pela mídia e ignorados pela RCA, fizeram a última aprsentação em 27 de outubro de 79, no Slough College. Howard Pickup morreu de câncer no cérebro, em 11 de julho de 1997.

Baixe aqui Crossing the Red Sea With The Adverts e aqui o Singles Collection


ADVERTS FACTS
  • O Sleaze, a primeira banda de TV Smith, chegou a gravar um LP por conta própria, do qual foram prensadas apenas 50 cópias, distribuídas para amigos e familiares. Uma das músicas deste disco, Listen don't think, foi reformulada pelo Adverts e rebatizada como New Boys.
  • Gary Gilmore's Eyes foi baseada em uma das mais tétricas histórias da época. Gilmore era um assassino norte-americano condenado a morte que pediu insistentemente para ser executado antes do tempo e que seus olhos fossem doados para transplante, já que "o coração não servia para nada"! Mas na época muita gente confundiu o personagem com Gary Gilmour, um famoso jogador de críquete.
  • Apesar de ajudar a atrair público e atenção da mídia, além de contribuir para que outras minas se aventurassem nos palcos, o fato de Gaye Advert ter se tornado uma espécie de musa punk atrapalhou um pouco a banda, sempre vista como o grupo da "baixista sexy". Alguns tablóides chegaram a comentar qu ela era a vocalista mais sexy de Londres. No máximo, ela fazia um ou outro backing volcal. O tom de voz de TV Smith realmente parece feminino, mas nas capas dos discos tinha os créditos... coisas da gloriosa imprensa musical!
  • O engenheiro de som de Crossing the Red Sea... foi John Leckie, o mesmo do aclamado álbum Dark Side of the Moon do Shit Floyd.
  • Gaye Advert foi convidada por Ari Up para ser uma das Slits, mas recusou, pois "preferia ficar em companhia de garotos".
  • No Crossing the Red Sea... original as faixas Gary Gilmore's Eye e New Day Dawning ficaram de fora e só foram incluídas no relançamento em CD.
  • TV Smith seguiu carreira solo e está em atividade (confira o site oficial). Gaye Advert, que mora com ele, aparece eventualmente em shows do companheiro, mas oficialmente retirou-se do mundo da música. Laurie Driver e Rod Latter também não se envolveram mais com música.

04/05/2009

Pequenos Gigantes V - Good Vibrations Records

Foto recente de Terri Hooley

Nos anos 70, Belfast era uma cidade tão segura quanto Bagdá é hoje. A Irlanda do Norte, ou Ulster, sofria com uma onda de violência por motivos políticos e divergências religiosas que dividem o país até os dias atuais. A diferença é que depois de muitas mortes sem sentido, alguns acordos foram selados e a situação está bem mais tranquila, embora não totalmente resolvida. Mas esse tópico não é sobre a política e a divisão religiosa do Ulster (confesso que não entendo muito bem o que realmente acontece por lá), mas sobre a GOOD VIBRATIONS RECORDS, o principal selo independente e maior responsável pela divulgação do punk norte-irlandês. A importância desse selo é tão grande que relatar sua história é também contar a história do punk naquele país.
O punk rock na Irlanda do Norte surgiu quase que ao mesmo tempo que na Inglaterra. Claro que a proximidade geográfica tem tudo a ver com isso. Mas também a situação político-social do Ulster deu sua "contribuição" ao colocar nas ruas uma geração de jovens sem perspectiva de futuro. "No future" na Irlanda do Norte dos anos 70 não era apenas verso de música. Para muitos jovens, entrar em grupos paramilitares (o IRA era apenas um deles, na verdade, existiam muitos) era o caminho natural. Morrer era muito fácil.
Em tal cenário e com Londres a apenas alguns quilômetros, o punk rock, com toda sua agressividade, além de poder ser tocado com instrumentos baratos e em qualquer esquina, naturalmente conquistou espaço e logo surgiram diversas bandas. Uma característica bastante curiosa de muitos grupos do período inicial (76-78) do punk na Irlanda do Norte, era fazerem um som mais melódico, que oscilava entre o punk rock, o power pop e a new wave.Para isso contribuiu o fato de o glam rock de grupos como T-Rex, Sweet e New York Dolls fazerem bastante sucesso por lá. E é com lembrar que Rory Gallagher, vocalista e guitarrista do Thin Lizzy, é de Belfast. Outro fator que abriu espaço para os punks foi que o rock estava praticamente morto.
As primeiras bandas punks norte-irlandesas (das quais falarei mais em post específicos) foram Rudi, The Undertones e The Outcasts. Entre os pioneiros menos famosos e com existência bem mais efêmera estão The Deotnators, DC9 e Starjets. Todos formados entre 75 e 76.
A cena punk/new wave do Ulster revelou ainda nomes como Boomtown Rats, Radiators From Space e Stiff Little Fingers, mas esses três se mandaram para Londres bem cedo, pois notaram que em seu país, teriam bem poucas chances de gravar alguma coisa. E é aí que entra o herói desse post, um ex-hippie chamado Terri Hooley.
Dono de uma pequena loja de discos em Belfast, que já se chamava Good Vibrations ("homenagem" a uma música do Beach Boys), Hooley simpatizou com o punk após assistir o Rudi e o Outcasts. Conversou com as bandas e resolveu dar uma força para eles conseguirem shows. "Ninguém queria gigs punk naquela época e a única maneira de conseguirmos fazer um era ligar para os locais e dizer que estava organizando uma festa de 21 anos de sua filha e que tocariam algumas bandas. Quando eles descobriam que na verdade era uma gig punk, era tarde demais...", conta Hooley numa entrevista de 2008 ao jornal Belfast News Letter (leia o texto completo aqui).
Depois de organizar um show com sete bandas que acabou em grande confusão e a polícia mandando todo mundo para casa na base da porrada (sem novidades aqui), Hooley sentiu que era hora de por mais lenha na fogueira. Como a possibilidade daquelas bandas gravarem era praticamente zero, arregaçou as mangas e deu vida ao selo GOOD VIBRATIONS. A essa altura, final de 77, o Reino Unido já fervia com o fenômeno punk. Belfast já fora visitada pelo Clash (em um show que entrou para a história por ter sido cancelado pouco antes de começar, o que transformou o local em que se realizaria em um campo de batalha) e outros grupos. O Stiff Little Fingers já lançara seu primeiro single, com Alternative Ulster, revelando que em Belfast tinha muito mais que bombas e grupos paramilitares.
O primeiro compacto da GV foi Big Time/Number One, do Rudi, que saiu em abril de 78, Apesar de ter mandado para rádios e revistas do Reino Uido inteiro, a repercursão des lançamento foi zero. Depois seguiram-se singles do Victim e do Outcasts. Então em setembro, sai o EP Teenage Kicks do Undertones, banda que a princípio nem Hooley queria gravar. O fato é que o disco foi ignorado até cair nas mão de John Peel, que ficou tão entusiasmado ao ouvi-lo que, inusitadamente, o tocou duas vezes seguidas, algo que jamais acontecera em seu programa (e, muito provavelmente, em toda a história da BBC).
Aí, nosso herói deu uma grande prova de integridade. Na manhã seguinte, a Sire Records procurou a banda para contratá-los. Eles aceitaram mas queriam Hooley como empresário. Só que ele se recusou com o argumento de que não estava de saída de Belfast, pois queria ficar lá e colocar a Irlanda do Norte no mapa da música.
O êxito comercial do Undertones impulsionou a GV, que em um espaço de dois anos lançou 15 compactos (incluindo cinco de bandas não irlandesas, cmo o The Bears, já postado aqui no FZ) e dois álbuns. Mas, para variar, Terry Hooley, além de muito honesto com as bandas, não tinha o senso comercial necessário para o ramo e não suportou uma das muitas crises econômicas vividas por seu país. A Good Vibrations fechou as portas em 1980. Ainda fez alguns lançamentos entre 81 e 83, mas já com muito mais dificuldades que no próprio início.
Nos anos 90, com a volta do interesse pelo punk rock, o selo voltou a respirar, porém, uma vez mais não resistu à feorocidade do mercado e voltou a fechar. Uma boa contribuição para esse breve renascimento do selo foi uma frase de Curt Cobain, quando passou por Belfast e foi hospitalizado: "Eu não ligo se morrer aqui, porque é o lar da Good Vibrations Records". Em 2000, a GV reapareceu com um CD-single do grupo Twinkle e um álbum (em CD) do Social Scum, chamado Ooops.
Confira a discografia do selo no site irishrock.org
Para conhecer um pouco do trabalho de Terri Hooley e das bandas pioneiras do punk norte-irlandês, baixe a coletânea GOOD VIBRATIONS SINGLES COLLECTION (parte 1 aqui e parte 2 aqui), com faixas dos primeiros anos deste importantíssimo selo das bandas Rudi, Victim, Outcasts, Undertones, XDreamysts, The Idiots e outras.