26/05/2009

UK Subs: subversão à inglesa

Nick Garrat, Paul Slack, Charlie Harper e Pete Davies,
a formação clássica do UK Subs

UK SUBS, abreviação para Subversivos do Reino Unido, é um dos grupos punks mais conhecidos do universo (sim, se há vida em outros lugares - e tenho certeza que há - o som deles deve ter ecoado por lá). Não há no mundo um punk que não conheça a banda liderada há 33 anos pelo vocalista Charlie Harper, o bisavô do punk (o avô é Iggy Pop). Apesar de a história da banda também ser bem "popular", o FZ, devido à proposta do blog, não pode deixar de contá-la. No entanto, são mais de três décadas e trocentas mudanças de formação - é provável que algo em torno de uma centena de pessoas já tocou com Charlie Harper. Portanto, vou me concentrar no período entre 76 e 82, época em que o UK Subs se estabeleceu como uma das principais bandas de todos os tempos. Não que após isso não tenha tido mais importância, pelo contrário, mas depois dessa fase inicial as mudanças de formação são tantas que talvez o mais certo seria ter rebatizado o grupo como "Charlie Harper and the (eventuals) UK Subs".


BORN A ROCKER...
A história do grupo é bastante peculiar desde o início. Ao contrário da maioria das bandas inglesas que surgiram na fase inicial do punk, entre 75 e 77, o UK Subs não foi formado por moleques: Harper já tinha 32 anos e era já um veterano no mundo do rock. Sua primeira banda foi o Charlie Harper's Free Press, que começou em 1964 e depois virou Charlie Harper Band. Após essa primeira experiência ainda apareceu algumas vezes como baixista de um grupo de funk chamado Bandanna. Quando o punk começou a "brotar" na Inglaterra, Harper comandava uma banda de Rhytm&Blues chamada Marauders, que fazia um som tipo Dr. Feelgood, bem "pub rock", e ensaiava no fundo do seu salão de cabeleireiro (sim, ele ganhava a vida e sustentava a banda cortando cabelos e tinha uma boa freguesia feminina!).
Então o baterista Rob Harper envolveu-se com alguns punks e convenceu o grupo a mudar de rumo. Os dois Harper (não eram irmãos) juntamente com o baixista Steve Slack e o guitarrista Thomas (há biografias em que aparece como Richard) Anderson formaram o The Subversives, logo abreviado para The Subs (o UK foi adicionado ao nome mais tarde, por influência do hino Anarchy in the UK e porque descobriram que já existia uma banda escocesa chamada The Subs). Mas Anderson, que era negro, resolveu tornar-se missionário na África e abandonou o barco. A vaga foi preenchida por Nick Garrat, que colocaria o Subs de vez nos descaminhos do punk rock. Quando ele entrou na banda, o repertório já tinha alguns dos clássicos do UK Subs, como I Couldn't Be You (composta por Anderson) e I Live in a Car, mas também permaneciam covers de R&B, que Garrat deixou claro deveriam deixar de ser tocadas para ele continuar. Charlie concordou.
Assim como Charlie, Nick tinha uma boa experiência musical. Começou a tocar guitarra em 1970 e passou por diversas bandas de tudo que é estilo, desde soul e jazz-fusion até rock progressivo. Quando entrou no Subs havia acabado de sair do obscuro South of The River, pois queria fazer um som mais enérgico. Sem banda, fez um teste no The Rejects (uma das primeiras bandas punks da Inglaterra, bem desconhecida e que não gravou nada oficialmente). Acabou não entrando, mas descobriu o tipo de som que queria fazer.
Em outubro de 77, três dias depois de Garrat ser admitido, o UK Subs tocou em um pub chamado Tooting Castle com um baterista temporário chamado Steve Jones (não o Pistol) e Steve Slack. Essa apresentação pode ser considerada a estréia da banda. Mas a guinada definitiva para o punk se deu quando Rory Lyons assumiu as baquetas. Ele seria responsável por levar o Subs ao Roxy e ao Vortex, duas mecas do punk londrino. A partir dessas apresentações, em novembro de 77, o grupo começou a ganhar público - obviamente que com toda a energia que sempre tiveram - composto pelos punks mas radicais. E, à medida que consolidavam um estilo, os shows eram cada vez mais intensos tanto por parte da banda como do público. Assim, quase sempre terminava tudo em quebradeira (não brigas). Mas faltava mesmo consolidar uma formação, pois Steve e Rory sempre deixaram claro que eram apenas "quebra-galhos" e deixaram o grupo no final de 77. Para o lugar do baixista, o irmão de Paul, que sempre acompanhara a banda, acabou sendo uma escolha natural. Na batera, a próxima tentativa seria com Robbie Boudock, que se revelaria uma grande heroinômano e depois de umas três apresentações trocou seu equipamento por droga. Teve que sair, claro. Então, Pete Davies, ex-baterista do Dick Envy, banda que de vez em quando tocava junto com os Subs, foi convidado a substitui-lo e aceitou. Enfim, o UK Subs que o mundo conheceria estava formado, com Charlie Harper, Nick Garrat, Paul Slack e Pete Davies. Esta seria, sem qualquer dúvida, a mais estável e criativa formação da banda.
Nesse meio tempo aconteceu a primeira aparição do Subs em vinil, com duas faixas (I Live in a Car e Telephone Numbers) na coletânea Farewell to the Roxy, gravadas ao vivo (ainda com Steve e Rory) no clube onde, para muitos, nasceu o punk rock londrino. Mais tarde o show inteiro do Roxy seria lançado em um LP chamado Live Kicks, que rolou bastante por aqui por na época.
Já passava da hora de procurar uma gravadora. Não foi difícil, principalmente depois de uma bem sucedida aparição no programa de John Peel (mais tarde lançada em compacto), que teria se oferecido a financiar um primeiro EP. Não foi preciso: Phil Scott da independente City Records (que lançou, entre outros, as Gilrschool) foi atrás deles e em 22 de setembro de 78 chegava às loja o EP com C.I.D., I Live in a Car e B.1.C. (parece que Charlie Harper tem uma encanação com siglas). As boas vendas da (clássica) bolachinha, alavancadas por um apoio irrestrito de John Peel (descanse em paz grande homem) e shows cada vez mais lotados facilitou para assinarem um contrato com a GEM Records, pertencente ao grupo RCA.
Contrato com um selo forte, dois a três shows por semana, "popularidade" cada vez maior. Esse foi o espetacular ano de 1979 para o UK Subs. O primeiro single com a nova gravadora foi Stranglehold, com a música título do disco no lado A e War World e Rockers no (sensacional, diga-se) lado B. Apenas uma semana após gravarem o segundo compacto eles já estavam de volta ao estúdio e começaram as sessões para o primeiro LP, no qual registraram praticamente tudo o que tocavam desde o início e apenas cinco sons novos (Killer, TV Blues, Blues, Crash Course e Young Criminals). Another Kind of Blues é uma preciosidade punk. Um clássico atemporal, comparável a LPs consagrados como, entre outros, Never Mind the Bollocks... (Sex Pistols). The Clash (idem) ou Inflammable Material (S.L.F.). Blues, como ficou conhecido o disco, consolidou o Subs como uma das bandas mais radicais de seu tempo. Ao lado de Sham 69 e Angelic Upstarts, Harper e seus comparsas eram considerados os grandes expoentes da segunda onda punk (embora todos tenham começado durante a primeira onda). Ainda que não fizessem um som rápido, a agressividade com que tocavam e as letras politizadas foram precursoras do hardcore, o som que mudaria a cara do punk rock no início da década que se aproximava.
Ainda em 79, lançaram dois compactos. Um deles, Tomorrow's Girls, com a música título no lado A (remix da versão do LP) mais Scum of The Earth e Telephone Numbers, sobras das sessões de Blues (ambas incluídas na versão do LP em CD). O outro, com um cover de She's Not There (do Zombies), Kicks, Victim e The Same. Um grande EP, que dava uma mostra do que estava por vir, além de marcar a estréia de Nick Garrat como produtor.
1980 começou com os Subs no estúdio para a gravação do segundo LP, Brand New Age. Mais um clássico. Até hoje tenho dúvidas de qual dos dois LPs é melhor. Atualmente prefiro Blues, mas já gostei muito do segundo. A produção de Charlie e Nick conseguiu manter a energia da banda ao vivo, mas com uma qualidade de gravação superior ao primeiro LP. É de Brand New Age a faixa Warhead, provavelmente a música mais conhecida do Subs, que pouco depois sairia em compacto com as inéditas The Harper, um instrumental composto por Nick em homenagem a Charlie e um cover de I'm Waiting For My Man, de Lou Reed. Outro single extraído deste sgundo LP foi Teenage, com um dos melhores lados B de todos os tempos: Left For Dead e New York State Police.
Agora o UK Subs já era uma das maiores bandas punks do mundo. As tournês sucediam-se em ritmo alucinante. Tocaram por toda a Europa e foram aos EUA. No giro histórico, estavam acompanhados pelo Ramones. Quem viu, viu. Enquanto isso, nós aqui no Brasil brigávamos para fazer um ou outro festival, sempre com a políca nos calcanhares....
Mas com a banda no auge, os primeiros problemas começaram a surgir. A cada dia ficava mais claro que havia dois UK Subs. O de Charlie e Nick e o Pete e Paul. Enquanto os dois primeiros dedicavam-se de corpo e alma à banda, os outros pareciam querer apenas curtir, ou seja, "cumpriam tabela", nada mais. Não demorou, os líderes do grupo decidiram que após o fim de mais uma das muitas tournês, colocariam as cartas na mesa e mudariam tudo. Com Paul nem foi preciso, pois cansado das inúmeras viagens, pediu para sair. Já Pete, foi dispensado. O último show do quarteto foi no Rainbow Theater, em Londres. A apresentação foi gravada para um futuro disco ao vivo, lançado pouco depois da mudança. Ironicamente, Crash Course tornaria-se o LP mais vendido do UK Subs. Mas chegava ao fim uma das melhores formações da história do punk. Um quarteto semininal para que o Exploited proclamasse que Punk's Not Dead (infelizmente, uma parte dele, sim, morria com a decisão de Charlie e Nick).


...DIE A ROCKER
A nova cozinha do UK Subs foi formada com Alvin Gibbs, ex-The Users, e Steve Roberts, ex-Cyanide. Ambos bem familiarizados com o som da banda (qual punk não era à quela altura?). Nos shows não tiveram dificuldades, mas em estúdio... O novo UK Subs estreou com um compacto, Party in Paris/Fall of the Empire, extraído das sessões do terceiro LP, Diminished Responsability. As mudanças não se resumiram à formação e ao visual adotado (estilo "new romantic"). Logo na faixa inicial do LP, You Don't Belong, nota-se a adição de um sintetizador. O som continuava pesado e as letras politizadas, mas o Subs parecia perdido entre buscar uma inovação, ou o aperfeiçoamento do "som UK Subs" ou ainda agradar a nova geração punk, representada pelo HC de grupos como GBH, Discharge, Vice Squad, etc. Diminished não é um disco ruim, pelo contrário, mas estava muito longe da genialidade e agressividade dos lançamentos anteriores. Eu sempre digo que é um disco sem rumo, além de a produção de Mike Leander, que trabalhou na maioria dos sucessos do comercialíssimo Gary Glitter, ter deixado muito a desejar. Ele não entendia porra nenhuma de rock pesado, muito menos punk. Em compensação, o disco não ia mal nas lojas, talvez com uma ajuda de Crash Course, que vendia cada vez mais. Além disso, a tour de Diminished Responsabilty foi a maior que haviam realizado até então e a primeira pela Europa com eles como banda principal.
O próximo lançamento, o EP Keep On Running, seria o último pela GEM Records. Além da faixa título a bolacha saiu com uma versão em francês de Party in Paris mais Perfect Girl e Ice Age.
O single fracassou e a GEM perdeu o interesse pela banda. Assim, a quebra do contrato foi natural e sem brigas, mesmo porque tinham uma boa proposta da NEMS, uma gravadora cuja reputação era duvidosa. Ainda em 1981 lançaram o single Countdown/Plan of Action pela nova parceira, mas já sentiram como seriam as coisas: divulgação zero.
Mas, dispostos a apagar a má impressão deixada pelo LP anterior, foram atrás de um produtor mais antenado ao mundo punk. Fizeram contato com Guy Stevens, o mesmo de London Calling do The Clash. Mas depois da primeira conversa desisitiram, já que o cara fez quatro sugestões: colocarem mais teclados, backing vocals femininos, trocar o vocalista e mudar de nome. Bastardo! Nick encarregou-se do serviço e, como sempre, o fez muito bem.
No quarto LP, Endangered Species, lançado apenas em 1982, o UK Subs recuperou, digamos, 80% da energia, o que bastava para fazer um disco genial. A faixa título, principalmente, poderia estar em qualquer um dos primeiros discos. Mas o mais importante é que a antiga coesão e o peso excepcional que marcou o grupo nos primeiros anos estava de volta. Pena que descobriram porque a NEMS tinha má fama: a gravadora não deu qualquer suporte para promover o disco. Por isso, talvez esse tenha sido um dos "melhores discos menos ouvidos dos anos 80". O contrato com a NEMS foi por água abaixo.
A seguir, por conta própria, arranjaram uma agência para promover uma segunda tour pelos EUA, com o Anti Nowhere League como banda de abertura. Antes, porém, na tour européia, Steve Roberts começou a abusar cada vez mais do álcool. Sempre bêbado, acabou provocando vários inconvenientes, como ir preso por zoar no aeroporto. Nada demais se a banda não tivesse de cancelar um show. Ficou claro que ele não poderia acompanhá-los nos EUA, onde fariam até cinco voos em um só dia! A contragosto tiveram de dispensá-lo. Para seu lugar chamaram John Towe (olha ele aí de novo), ex-Chelsea, Generation X e com uma breve passagem pelo Adverts. Mas quem acabou ficando com as baquetas foi Mal Asling, que na época tocava com o Chelsea. Com Charlie, Nick, Alvin e Mal entraram em estúdio e gravaram um EP chamado A.W.O.L., que só seria lançado em 1987! Muito bom, por sinal. Então voaram para os EUA e fizeram uma tour de 40 dias com casas sempre lotadas. Muito trabalho, mas pela primeira vez viram grana de verdade.
No retorno à Inglaterra, mais uma vez o grupo se mostrava dividido. Desta vez, com Alvin e Nick, certamente tocados elo sucesso nos EUA, com planos de fazer discos mais elaborados e Charlie Harper cada vez mais convicto de que sua vida estava no palco. Tocar ao vivo tornara-se uma espécie de droga para ele. Assim, montou o Urban Dogs, um grupo paralelo junto com Knox (guitarrista do Vibrators) para manter-se em atividade enquanto os Subs, agora uma banda "grande" que dificilmente fazia shows em pequenos pubs, os locais preferidos de Charlie, não tinha nada agendado.
Apesar de o fim parecer eminente, ainda em 1982 gravariam o single Shake Up the City, com três faixas (Self Destruct, Police State e War of the Roses) e JohnTowe na bateria. A seguir, fizeram mais uma tour de muito sucesso pelos EUA, desta vez com bandas locais abrindo os shows. No retorno, a divisão ficou cada vez mais clara. Nick e Alvin estavam convencidos de que poderiam conseguir um grande contrato nos EUA, não queriam mais tocar em lugares pequenos e, principalmente Nick, estava cansado de tocar as mesmas músicas a cada show (e eram muitos shows!). Uma tour pela Polônia, cancelada meses antes havia sido confirmada. Fizeram lá os últimos shows da primeira fase do UK Subs. A última aresentação, para um público de 24.000 ensandecidos poloneses, em Varsóvia, foi a maior que haviam feito até então. Mas era tarde, algumas decisões já estavam tomadas e na volta a Londres, Alvin e Nick anunciaram a saída.
Poderia ter sido o fim, mas Charlie não podia ficar sem sua "heroína" e chamou Steve Slack e Steve Jones (o batera) de volta e juntamento com Captain Searlet na guitarra, voltou a fazer shows sob o nome "The Original UK Subs". Essa formação chegou a lançar um LP, Flood of Lies, um dos menos conhecidos do grupo, apesar de ser muito bom. Era, na verdade, não um recomeço, mas o início de uma outra história, que dura até os dias de hoje. De 1983 em diante, várias encarnações do UK Subs surgiram a cada ano, inclusive com o retorno de Alvin e Nick em 1988 (gravaram o LP Killing Time), 1996 (gravaram dois LPs de uma só vez: Riot e Quintessentials) e recentemente em 2000 e 2004 para tournês.


Baixe os três melhores discos do UK Subs: Another Kind of Blues, Brand New Age e Endangered Species

SUBS FACTS
  • Rob Harper, o primeiro batera do UK Subs, tocou no embrionário The Clash de 1976.
  • B.1.C. originalmente chamava-se Ronald Biggs, já Rockers era Totters (ciganos que vivem na zona sul de Londres). Nick Garrat foi o responsável pelas mudanças nas duas músicas.
  • A banda ficou muito chateada com a Stiff Records por Live Kicks. Primeiro por não receberem nada pelo lançamento, depois porque nas fotos aparece a formação com Paul Slack e Pete Davies, mas quem tocou no show do Roxy foram Steve Slack e Rory Lyons.
  • Em 1979, Julian Temple, o diretor do filme The Great Rock'n'Roll Swindle (Sex Pistols) fez um documentário de 20 minutos sobre o UK Subs. Em uma das cenas, um punk sai de um caixão coberto com a a bandeira da Inglaterra e atira em quatro pessoas que representavam os skinheads, os hippies, os mods e os roqueiros. Era a representação da morte desses estilos pelo punk rock. Nada demais, se não tivesse sido filmada dentro de uma igreja...
  • Os primeiros três singles e o LP Blues foram gravados no estúdio Kigsway, pertencente a Ian Gillian, do Shit Purple, com produção de John McCoy (baixista da Ian Gillan Band). Ao final das sessões do LP, sempre rolava uma algazarra no estúdio, incentivada or John. Após todas as gravações, os Subs pegaram John e quase o mataram sufocado em uma dessas brincadeiras. Bons tempos...
  • A primeira prensagem inglesa de Crash Course saiu acompanhada de um EP de 12" grátis, também gravado ao vivo, com quatro faixas, chamado For Export Only. Não sei se essas músicas foram incluídas na versão em CD.
  • O Urban Dogs, a banda paralela de Charlie gravou três LPs: Urban Dogs (1983), No PedigreeWipeout Beach (1998). No primeiro, Alvin Gibbs é o baixista.
  • Charlie Harper gavou um disco solo, em 1981, chamado Stolen Property, no qual canta apenas covers de rock dos anos 60 e 70. Lançou ainda dois singles solos: Freaked e London Barmy Army, este segundo, o único com pegada punk.
  • Os nomes dos discos oficiais do grupo seguem uma ordem alfabética, como é possível notar pela lista abaixo (nem todos são de estúdio)

    Another Kind of Blues (1979)
    Brand New Age (1980)
    Crash Course (1980)
    Diminished Responsibility (1981)
    Endangered Species (1982)
    Flood of Lies (1983)
    Gross Out USA (1984)
    Huntington Beach (1985)
    In Action (1986)
    Japan Today (1987)
    Killing Time (1988)
    Live in Paris (1989)
    Mad Cow Fever (1991)
    Normal Service Resumed (1993)
    Occupied (1996)
    Peel Sessions 1978-79 (1997)
    Quintessentials (1997)
    Riot (1997)
    Submission (1999)
    Time Warp (2000)
    Universal (2002)
    Violent State (2005)


13/05/2009

A travessia do Mar Vermelho com os Adverts


I wonder what we'll play for you tonight
Something heavy or something light
Something to set your soul alight
I wonder how we'll answer when you say
"We don't like you - go away,
come back when you've learned to play

I wonder what we'll do when things go wrong
When we're half-way though our favourite song
We look up and the audience has gone
Will we feel a little bit obscure
Think 'We're not needed here,
we must be new wave - they'll like us next year'

The wonders don't care - we don't give a damn
The wonders don't care - we don't give a damn
The wonders don't care - we don't give a damn

Os versos acima são de One Chord Wonders, primeira música lançada pelo ADVERTS, uma das bandas pioneiras da cena punk inglesa de 76-77. A história desse grupo, que considero um dos mais originais (até hoje não ouvi nenhuma banda parecida), começa em 1974, em Torquay, uma pequena cidade litorânea da região sul da Inglaterra, onde Tim Smith era vocalista do Sleaze, uma obscura banda de rock que não saiu dos pubs locais. Nessa época, Tim conheceu uma garota que tinha o apelido de Gaye Black. Os dois se tornaram amigos e ele a ensinou a tocar baixo. No verão de 75 o Sleaze acabou e a dupla resolveu fazer as malas e mudar-se para Londres com a firme intenção de montar uma banda.
Mesmo sem encontrar os demais membros escolheram o nome: primeiro seriam os One Chord Wonders, depois, num bate papo, surgiu The Adverts, nome que ficou. Além de comporem algumas músicas, a dupla tornou-se frequentadora assídua de shows do Stranglers e dos Pistols. Então resolveram anunciar no Melody Maker que precisavam de "um guitarrista especial que não fosse especial". Um tal Howard Boak respondeu ao anúncio e foi aprovado. No entanto, acabou por adotar outro apelido: Howard Pickup ("boak" é uma expressão do norte da Inglaterra para vômito, mas era difícil explicar isso). Ao mesmo tempo Tim resolveu criar um nome mais artístico: juntou o Smith, nome mais popular da Inglaterra, com o do eletrodoméstico mais comum do país e tornou-se TV Smith. Howard foi o responsável por levar a banda a ensaiar em um estúdio (até então, Tim só sabia o que era ensaio em garagens e quartos de amigos, com aparelhagens tranqueiras).
O quarto elemento foi Laurie Muscat, indicado por John Towe, baterista do Generation X (que também esteve no Chelsea), que ensaiava no mesmo estúdio e também era companheiro de trabalho de Howard em uma loja de discos. Desesperados por um baterista, eles admitiram Laurie mesmo sem ouvi-lo. Logo no primeiro ensaio descobriram que ele não sabia tocar porra nenhuma e pediram a Towe para passar uma noção a ele. "Ele era totalmente sem talento, então obviamente era a pessoa ideal para a banda", conta TV em uma entevista à revista Goldmine, em 1997. O batera adotou o apelido de Laurie Driver e não demorou a a aprender o básico. Ainda em 76 gravaram uma demo tape com cinco músicas e em pouco tempo estavam prontos para encarar um palco.
Em 15 de janeiro de 77 o Adverts fez sua estréia como banda de abertura para o Generation X no lendário Roxy Club (claro que o amigo John Towe foi importante para conseguirem a "boquinha"). Logode cara chamaram a atenção por terem uma mulher como baixista, o que era incomum no então ainda mais machista mundo do rock'n'roll. E ainda por cima era bonitinha. Tornaram-se quase que uma banda residente do Roxy - com uma dezena de shows em cerca de três meses - e logo conseguiram lançar o primeiro single, pela Stiff Records (da qual já falei em post anterior). O compacto chamou a atenção não só pelo som, mas também pela capa, com o rosto de Gaye em super close. Apesar de ser considerada uma das melhores capas de discos punks por muita gente (inclusive o próprio TV Smith hoje admite tratar-se de um clássico), na época a banda torceu o nariz. Primeiro, a própria Gaye ficou chateada, pois tinha verdadeira aversão por estrelismos. Considerava-se integrante do grupo e que todos os quatro Adverts tinham a mesma importância. Ela tinha consciência de que estava naquela capa apenas por uma questão sexista e não buscava tal exposição, queria apenas ser "música", não musa. Depois, a banda como um todo não gostou pois tinham feito uma sessão de fotos para aquela capa e jamais imaginariam que um só deles estamparia a "mardita". Para promover o single, fizeram uma tour patrocinada pela Stiff, ao lado do Damned. Mas o vínculo com a Stiff estava comprometido, tanto pela controversa capa como pelo fato de o selo estar centrado no Damned. Como já tinham um empresário, Michael Dempsey (figura lendária do underground londrino, falecido em 1981), não demoraram a conseguir um contrato com um selo maior, a hoje extinta Anchor Records, que tinha ligações com a norte-americana ABC Records, do grupo Paramount (a escolha pelo selo levou em conta uma possível divulgação nos EUA, claro). Antes de lançarem o segundo single foram convidados para uma Peel Session. Isso com menos de seis meses de existência.
Em agosto de 77, saiu o segundo compacto com Gary Gilmore's Eye e Bored Teenagers, dois dos maiores clássicos do Adverts, que chegou ao 18º posto na parada de singles ingleses. O êxito ajudou o grupo a ser indicado para abrir uma série de shows de Iggy Pop em sua tour pelo Reino Unido. Um sonho para Gaye, fan declarada do agora "vovô do punk". Dois meses depois da tour, em novembro, lançaram Safety in Numbers/We Who Wait, sem a mesma repercursão do single anterior.
Depois de quase um ano tocando direto e os três singles reconhecidamente entre os melhores de 77, estava na hora do álbum. Para a gravação escolheram nada menos que o consagrado estúdio Abbey Road. Antes do LP, porém, lançaram mais um single com No Time To Be 21 e New Day Dawning. Em fevereiro de 78 finalmente foi lançado o clássico Crossing the Red Sea with The Adverts. Adquiri este disco por volta de 81 e devo tê-lo ouvido umas 200 vezes em uma semana. Até hoje sinto algo diferente quando roda New Church, On the Roof, Bombsite Boys, Great British Mistake, On Wheels...
Após o lançamento do LP, shows, shows e mais shows. Como até então praticamente não haviam saído de Londres, iniciaram uma tour continental. No entanto, antes mesmo de completarem o giro pela Irlanda, Laurie foi atacado por uma hepatite e a excursão teve de ser interrompida. Fora de combate, o baterista foi substituído por... John Towe, que já não estava mais no Gen X. Mas o novo integrante não se adaptou e deixou o "cargo" após poucas apresentações. As baquetas passaram então para Rod Latter, ex-The Rings (tocou no The Maniacs também).
Depois da excursão pela Europa, os desentendimentos com a Anchor Records começaram. A banda e Dempsey (o empresário) queriam tentar o mercado dos EUA, mas a ABC não acreditava no potencial das bandas punks inglesas e não quis lançar o LP, apesar de muitas cópias terem atravessado o Atlântico, nem investir em uma tournê. Assim, deixaram o selo e assinaram com a RCA. O primeiro single pela nova gravadora, lançado em novembro de 78, foi o excelente Television's Over/Back From the Dead. A produção ficou a cargo de Tom Newman, o mesmo do chatíssimo Tubular Bells de Mike Oldfield. Back... também marcou o inicio de uma parceria entre TV Smith e o tecladista Richard Strange, do Doctors of Madness, banda hoje classificada como "proto-punk". Parecia o prenúncio de uma grande trabalho. O grupo gastou praticamente oito meses para conceber o segundo LP. Nesse meio tempo, o tecladista Tim Cross, que também trabalhara com Mike Oldfield entrou para o grupo. E só há uma palavra para definir Cast of Thousands: decepcionante. O disco não tem nada a ver com o primeiro. Sem energia, sem pegada e musicalmente pretencioso, mas claramente sem inspiração. Eles não precisavam gravar outro Red Sea, nem ter feito outro disco punk, mas também não precisavam fazer algo tão fraco. Ignorado pelo público e pela mídia, o fracasso iniciou o fim ao grupo que também já estava dilacerado. Após aguns shows como quinteto, Howard Pickup simplesmente desapareceu e o Adverts ficou sem guitarrista. Em seu lugar entrou Paul Martinez. Depois, Latter também abandonou o barco e o irmão de Paul, Rick, ficou em seu lugar. Ainda gravaram uma Peel Session, a quarta, em outubro de 79. Mas sem público, castigados pela mídia e ignorados pela RCA, fizeram a última aprsentação em 27 de outubro de 79, no Slough College. Howard Pickup morreu de câncer no cérebro, em 11 de julho de 1997.

Baixe aqui Crossing the Red Sea With The Adverts e aqui o Singles Collection


ADVERTS FACTS
  • O Sleaze, a primeira banda de TV Smith, chegou a gravar um LP por conta própria, do qual foram prensadas apenas 50 cópias, distribuídas para amigos e familiares. Uma das músicas deste disco, Listen don't think, foi reformulada pelo Adverts e rebatizada como New Boys.
  • Gary Gilmore's Eyes foi baseada em uma das mais tétricas histórias da época. Gilmore era um assassino norte-americano condenado a morte que pediu insistentemente para ser executado antes do tempo e que seus olhos fossem doados para transplante, já que "o coração não servia para nada"! Mas na época muita gente confundiu o personagem com Gary Gilmour, um famoso jogador de críquete.
  • Apesar de ajudar a atrair público e atenção da mídia, além de contribuir para que outras minas se aventurassem nos palcos, o fato de Gaye Advert ter se tornado uma espécie de musa punk atrapalhou um pouco a banda, sempre vista como o grupo da "baixista sexy". Alguns tablóides chegaram a comentar qu ela era a vocalista mais sexy de Londres. No máximo, ela fazia um ou outro backing volcal. O tom de voz de TV Smith realmente parece feminino, mas nas capas dos discos tinha os créditos... coisas da gloriosa imprensa musical!
  • O engenheiro de som de Crossing the Red Sea... foi John Leckie, o mesmo do aclamado álbum Dark Side of the Moon do Shit Floyd.
  • Gaye Advert foi convidada por Ari Up para ser uma das Slits, mas recusou, pois "preferia ficar em companhia de garotos".
  • No Crossing the Red Sea... original as faixas Gary Gilmore's Eye e New Day Dawning ficaram de fora e só foram incluídas no relançamento em CD.
  • TV Smith seguiu carreira solo e está em atividade (confira o site oficial). Gaye Advert, que mora com ele, aparece eventualmente em shows do companheiro, mas oficialmente retirou-se do mundo da música. Laurie Driver e Rod Latter também não se envolveram mais com música.

04/05/2009

Pequenos Gigantes V - Good Vibrations Records

Foto recente de Terri Hooley

Nos anos 70, Belfast era uma cidade tão segura quanto Bagdá é hoje. A Irlanda do Norte, ou Ulster, sofria com uma onda de violência por motivos políticos e divergências religiosas que dividem o país até os dias atuais. A diferença é que depois de muitas mortes sem sentido, alguns acordos foram selados e a situação está bem mais tranquila, embora não totalmente resolvida. Mas esse tópico não é sobre a política e a divisão religiosa do Ulster (confesso que não entendo muito bem o que realmente acontece por lá), mas sobre a GOOD VIBRATIONS RECORDS, o principal selo independente e maior responsável pela divulgação do punk norte-irlandês. A importância desse selo é tão grande que relatar sua história é também contar a história do punk naquele país.
O punk rock na Irlanda do Norte surgiu quase que ao mesmo tempo que na Inglaterra. Claro que a proximidade geográfica tem tudo a ver com isso. Mas também a situação político-social do Ulster deu sua "contribuição" ao colocar nas ruas uma geração de jovens sem perspectiva de futuro. "No future" na Irlanda do Norte dos anos 70 não era apenas verso de música. Para muitos jovens, entrar em grupos paramilitares (o IRA era apenas um deles, na verdade, existiam muitos) era o caminho natural. Morrer era muito fácil.
Em tal cenário e com Londres a apenas alguns quilômetros, o punk rock, com toda sua agressividade, além de poder ser tocado com instrumentos baratos e em qualquer esquina, naturalmente conquistou espaço e logo surgiram diversas bandas. Uma característica bastante curiosa de muitos grupos do período inicial (76-78) do punk na Irlanda do Norte, era fazerem um som mais melódico, que oscilava entre o punk rock, o power pop e a new wave.Para isso contribuiu o fato de o glam rock de grupos como T-Rex, Sweet e New York Dolls fazerem bastante sucesso por lá. E é com lembrar que Rory Gallagher, vocalista e guitarrista do Thin Lizzy, é de Belfast. Outro fator que abriu espaço para os punks foi que o rock estava praticamente morto.
As primeiras bandas punks norte-irlandesas (das quais falarei mais em post específicos) foram Rudi, The Undertones e The Outcasts. Entre os pioneiros menos famosos e com existência bem mais efêmera estão The Deotnators, DC9 e Starjets. Todos formados entre 75 e 76.
A cena punk/new wave do Ulster revelou ainda nomes como Boomtown Rats, Radiators From Space e Stiff Little Fingers, mas esses três se mandaram para Londres bem cedo, pois notaram que em seu país, teriam bem poucas chances de gravar alguma coisa. E é aí que entra o herói desse post, um ex-hippie chamado Terri Hooley.
Dono de uma pequena loja de discos em Belfast, que já se chamava Good Vibrations ("homenagem" a uma música do Beach Boys), Hooley simpatizou com o punk após assistir o Rudi e o Outcasts. Conversou com as bandas e resolveu dar uma força para eles conseguirem shows. "Ninguém queria gigs punk naquela época e a única maneira de conseguirmos fazer um era ligar para os locais e dizer que estava organizando uma festa de 21 anos de sua filha e que tocariam algumas bandas. Quando eles descobriam que na verdade era uma gig punk, era tarde demais...", conta Hooley numa entrevista de 2008 ao jornal Belfast News Letter (leia o texto completo aqui).
Depois de organizar um show com sete bandas que acabou em grande confusão e a polícia mandando todo mundo para casa na base da porrada (sem novidades aqui), Hooley sentiu que era hora de por mais lenha na fogueira. Como a possibilidade daquelas bandas gravarem era praticamente zero, arregaçou as mangas e deu vida ao selo GOOD VIBRATIONS. A essa altura, final de 77, o Reino Unido já fervia com o fenômeno punk. Belfast já fora visitada pelo Clash (em um show que entrou para a história por ter sido cancelado pouco antes de começar, o que transformou o local em que se realizaria em um campo de batalha) e outros grupos. O Stiff Little Fingers já lançara seu primeiro single, com Alternative Ulster, revelando que em Belfast tinha muito mais que bombas e grupos paramilitares.
O primeiro compacto da GV foi Big Time/Number One, do Rudi, que saiu em abril de 78, Apesar de ter mandado para rádios e revistas do Reino Uido inteiro, a repercursão des lançamento foi zero. Depois seguiram-se singles do Victim e do Outcasts. Então em setembro, sai o EP Teenage Kicks do Undertones, banda que a princípio nem Hooley queria gravar. O fato é que o disco foi ignorado até cair nas mão de John Peel, que ficou tão entusiasmado ao ouvi-lo que, inusitadamente, o tocou duas vezes seguidas, algo que jamais acontecera em seu programa (e, muito provavelmente, em toda a história da BBC).
Aí, nosso herói deu uma grande prova de integridade. Na manhã seguinte, a Sire Records procurou a banda para contratá-los. Eles aceitaram mas queriam Hooley como empresário. Só que ele se recusou com o argumento de que não estava de saída de Belfast, pois queria ficar lá e colocar a Irlanda do Norte no mapa da música.
O êxito comercial do Undertones impulsionou a GV, que em um espaço de dois anos lançou 15 compactos (incluindo cinco de bandas não irlandesas, cmo o The Bears, já postado aqui no FZ) e dois álbuns. Mas, para variar, Terry Hooley, além de muito honesto com as bandas, não tinha o senso comercial necessário para o ramo e não suportou uma das muitas crises econômicas vividas por seu país. A Good Vibrations fechou as portas em 1980. Ainda fez alguns lançamentos entre 81 e 83, mas já com muito mais dificuldades que no próprio início.
Nos anos 90, com a volta do interesse pelo punk rock, o selo voltou a respirar, porém, uma vez mais não resistu à feorocidade do mercado e voltou a fechar. Uma boa contribuição para esse breve renascimento do selo foi uma frase de Curt Cobain, quando passou por Belfast e foi hospitalizado: "Eu não ligo se morrer aqui, porque é o lar da Good Vibrations Records". Em 2000, a GV reapareceu com um CD-single do grupo Twinkle e um álbum (em CD) do Social Scum, chamado Ooops.
Confira a discografia do selo no site irishrock.org
Para conhecer um pouco do trabalho de Terri Hooley e das bandas pioneiras do punk norte-irlandês, baixe a coletânea GOOD VIBRATIONS SINGLES COLLECTION (parte 1 aqui e parte 2 aqui), com faixas dos primeiros anos deste importantíssimo selo das bandas Rudi, Victim, Outcasts, Undertones, XDreamysts, The Idiots e outras.