30/04/2009

A ressurreição do Death


Em julho do ano passado, no post "Black Power", o FZ deu uma pincelada na incrível história do DEATH. Na época até fiz um breve contato com Bobby Hackney Jr., filho de um dos integrantes da banda e ele me disse que em breve mais músicas do Death seriam lançadas. Até então, apenas as duas músicas do raríssimo compacto de 76 estavam disponíveis para o mundo ouvir. Só que eles haviam gravado outras cinco faixas para o tal LP que a Columbia decidiu não lançar porque eles não aceitaram mudar o nome da banda. As negociações eram com a Livewire, mas o CD acabou sendo lançado pela Drag City no início deste ano.
Enfim, 35 anos depois, o erro foi reparado e um dos trabalhos mais consistentes em termos de rock pesado ou do que muita gente chamaria de "proto punk" pode ser ouvido. Sob o mais que justificável título ... for the whole world to see, o Death renasce das cinzas. E não só o som veio à luz do dia e à alegria da noite, como também a história do grupo foi inteiramente revelada, em detalhes. É tão incrível que até o New York Times não hesitou em publicá-la.
O Death é de Detroit, coincidentemente, ou não, lar dos Stooges e do MC5. Portanto, um dos berços do punk. Por volta de 1971, os irmão Hackney - David (guitarra e vocal), Bobby (baixo) e Dannis (bateria) - começaram a ensaiar na garagem de seus pais. No início, tocavam apenas funk e soul music. No entanto, após assistirem a uma apresentação de Alice Cooper, em 1973, resolveram mudar o estilo. Na verdade, eles já tinham uma tendência roqueira (se não, o que foram fazer num show de Alice Cooper?), já que David ouvia muito The Who. E, como qualquer roqueiro de Detroit, logo começaram a ouvir também Stooges e MC5. Não demorou para que essas influências fossem integradas à música que faziam. Quando resolveram tornar-se uma banda de verdade, adotaram o nome mais "rocker" que puderam pensar: Death. Mal sabiam que isso acabaria por emperrar seus sonhos.
Então começaram a tocar em cabarets e festas de garagem na zona leste de Detroit, onde a maioria dos habitantes eram, como eles, afrodescendentes. Claro que o som extremamente agressivo para a época causou espanto. "Éramos ridicularizado porque naquela época todo mundo de nossa comunidade ouvia o som típico da Philadelphia. Earth, Wind & Fire, The Isley Brothers... As pessoas sentiam que fazíamos um trabalho diferente. Insistimos em continuar a tocar rock'n'roll porque havia muitas vozes tentanto fazer com que abandonássemos isso", afirmou Bobby na entrevista ao NYT (de onde extraí as falas).
Como irmão mais velho, David era o "cabeça" do grupo e quando decidiram gravar foi ele quem escolheu, de modo aleatório numa lista telefônica, um estúdio para a empreitada. Feito o contato assinaram com a Groovesville Production. "Eu sabia que aqueles garotos eram grandes. Mas naquele tempo era duro introduzir um grupo de negros no rock'n'roll", revelou Brian Spears, diretor da Groovesville que acompanhou as sessões. Com a fita em mãos os irmãos Hackney foram a Nova York negociar o lançamento do disco com a Columbia, mais precisamente com um tal de Clive Davis. Foi esse executivo - que até teria gostado do som - quem exigiu que a banda mudasse de nome para fechar o contrato. E foi David, quem deu a resposta: "Não, porra!". "Ele acreditava firmemente que poderíamos assinar com outra companhia. Éramos uns garotos valentes, mas David era o mais valente de nós", conta Bobby.
Como não conseguissem o contrato, decidiram então lançar duas das faixas que gravaram (Politicians in my eyes e Keep on knocking) em compacto por um selo próprio, a Tryangle Records (isso em um tempo em que lançamentos independentes praticamente não existiam). As demais faixas ficariam para quando o sonhado LP se tornasse realidade, o que acabou não acontecendo. Em 1976 (ao contrário do que muita gente pensa) as rádios de Detroit só tocavam disco music e, sem qualquer esquema de distribuição e divulgação, o compacto simplesmente não vendeu. Desiludidos e com a cabeça fervendo, os irmão Hackney foram convidados por um parente distante para passar um tempo em Vermont. Aceitaram, para tentar reorganizar as idéias. "Estamos até hoje tentanto limpar nossas cabeças", brinca Dannis.
Depois disso os caras mudaram totalmente o foco e transformaram o Death em 4th Movement, uma banda de rock gospel que chegou a lançar dois álbuns no início dos anos 80. Por ironia, David, que foi o criador do nome Death e o integrante que mais bateu o pé para sua manutenção, morreu, em 1982. Bobby e Dannis formaram então o Lambsbread, grupo de reggae que se mantém em atividade até hoje e tem alguns discos produzidos por eles mesmos e gravados em um estúdio próprio.
A ressurreição do Death aconteceu por acaso. A história é bem curiosa, mesmo. Julian Hackney, um dos três filhos de Bobby Hackney ouviu o som do Death em uma festa - no ano passado - e pensou ter reconhecido a voz do tio. Pediu informações sobre a banda e, intrigado, contou o ocorrido para seu irmão Bobby Jr.. Daí, resolveram pesquisar na Internet sobre aquela curiosa banda. Claro que nesse universo virtual paralelo acabaram descobrindo o fio da meada. Questionaram Bobby pai (lembram do desenho, Bob pai e Bob filho?) que lhes contou toda a história. Bobby Jr entusiasmou-se mais ainda quando ouviu a fita dos outros sons gravados e iniciou a cruzada para a ressuscitar o Death. Conseguiu. Apesar de ser impossível que o grupo volte realmente a tocar, afinal um terço e a principal cabeça já não está mais entre nós, hoje o mundo já sabe que a banda existiu.
O Death foi sepultado pela arrogância de um executivo sem a mínima visão de mercado; pelo preconceito contra "malucos" que não seguem estereótipos da indústria cultural e, claro, preconceito racial também. O LP deles está no nível de MC5, Stooges, New York Dolls, Dust e muitos outros grupos da era pré-punk. Se tivesse sido gravado por garotos brancos e junkies certamente teria ido para as lojas e conquistado um espaço considerável no mundo do rock. Hoje, os tempos são outros e, ainda que tarde (muito tarde), o Death tem seu recado ouvido.
Para fechar, entusiasmados com tudo isso, os filhos de Bobby Hackney (Bobby Jr., Julian e Urian), formaram o Rough Francis, banda que promete resgatar o estilo do Death. Estão em fase de composição e logo devem lançar algo. Está no sangue.

Baixe aqui For the whole world to see, com as músicas do compacto remasterizadas e as outras cinco faixas inéditas.

25/04/2009

Raízes Germânicas parte 3 - Male, os pioneiros de Düsseldorf


De volta à história do punk alemão, o FZ apresenta o MALE, que tem em seu DNA fatores dos dois posts anteriores sobre o assunto: a veia e a consciência política do Ton Steine Scherben e a sonoridade básica e agressiva do Big Balls and the White Idiot. No entanto, o Male não é uma simples reunião dessas influências, pelo contrário, é difícil achar traços aparentes das duas bandas no som deles.
Formado no final de 76, o Male reivindica para si o pioneirismo no punk alemão, o que muita gente aceita, por não considerar o Big Balls "punk autêntico". Mas outros grupos também estão nessa "disputa", a meu ver inútil e infrutífera, como o The Neat, de Dortmund. Não vou entrar nesse mérito porque defendo a tese de que o punk é um fenômeno urbano espontâneo, portanto, não foi criado por ninguém. São muitos os "pioneiros" do punk: toda uma parcela da juventude mundial da metade dos anos 70, que vivia em médios e grandes centros urbanos, revoltada com algum tipo de repressão, opressão, exclusão, etc, e que esperava encontrar isso na música ou em outras formas de arte. O rock, que desde os anos 50 era o modo de "arte" mais próximo do que sentiam esses jovens, perdera a condição de porta voz desse sentimento constestador, totalmente absorvido pela indústria cultural. No entanto, a molecada, sem perspectiva, reapropriou-se do que era seu e deu nova roupagem e linguagem ao velho e bom rock'n'roll. Curioso que, como em um ciclo sem fim, a indústria cultural absorveu o punk também, e mais tarde até o hardcore...


O Male é da cidade de Düsseldorf e foi criado por por Jürgen Engler (vocal e guitarra), Bernward Malaka (baixo) e Stefan Schaab (guitarra), todos amigos de escola que tiveram contato com o punk inglês (Engler, através de um artigo de jornal mostrado por seu pai, enquanto Schwaab e Malaka ouviram Eddie & the Hot Rods e Sex Pistols no rádio) e decidiram que era aquilo que queriam fazer. Depois, convidaram Claus Ritter para a bateria. As primeiras apresentações foram em escolas locais. Com letras politizadas, a mensagem do Male estava associada também ao cotidiano, às angústias de quatro garotos que ainda não tinham 18 anos quando a banda foi formada. Opressão policial, censura e consumo são alguns dos temas que aparecem nas letras do Male (e de trocentas mil bandas do mundo todo na época).
Apesar de ter surgido em 76 e terem feito algumas apresentações em 77, o Male só chamou a atenção do restante do país em 78, quando participaram de festivais punks em Hamburgo e Berlim. Em vinil, o grupo só apareceu em 1979, com o LP Zensur & Zenzur, este sim, sem qualquer dúvida, o primeiro álbum punk com letras totalmente em alemão (até então, apenas alguns compactos haviam sido lançados no país). Pode não ser um grande disco, um clássico instantâneo, mas vale pela importância histórica e tem faixas muito boas, como Vaterland, Planspiel e Polizei. Particularmente acho o disco um pouco "frio" e difícil de se gostar na primeira audição. Logo após o LP lançaram também o single Clever & Smart/Casablanca, em que a influência do Clash aparece mais nitidamente, principalmente no lado b.
Em 80, o Male parecia estar no auge e tinha tudo para enfim tornar-se uma banda "grande". Convidados para abrirem o show do Clash, em Berlim, tiveram uma exposição que jamais sonharam. No entanto, a apresentação não saiu como planejada. Foi a gota d'água e após o concerto, que deveria ser o grande impulso para a carreira do Male, o grupo dissolveu-se. "Já não era mais o meu mundo, eu queria fazer algo novo", declarou Engler em entrevista recente ao jornal WZ. E fez: juntamente com Malaka fundou o Die Krupps, grupo de música eletrônica - uma tradição em Dusseldorf, lar do Kraftwerk - que ajudou a construir as bases para o que hoje é conhecido como "rock industrial". No início o grupo era bem mais experimental, depois, passou a misturar as guitarras pesadas do heavy metal com os sintetizadores, algo comum hoje, mas revolucionário naquela época. Schwaab e Ritter, por sua vez, fundaram primeiro o Freunde der Nachten e, depois, o Alright Bros, também com som eletrônico.
A importância do Male para o punk alemão pode ser medida nas palavras de Campino, vocalista do Toten Hosen, a banda mais conhecida daquele país atualmente e que abriu vários shows do Male quando ainda eram chamados ZK: "Se não fosse o Male, talvez o Toten Hosen não existisse".
Baixe o histórico Zensur & Zensur e também a coletânea Grosseinsatz 1977-1994



MALE FACTS
  • Logo na estreia, o Male queimou uma bandeira alemã no palco, o que acabou sendo um grande escândalo, afinal, estavam dentro de uam escola. Também o modo como se vestiam fez com que fossem marginalizados em Düsseldorf. Tudo o que queriam...
  • Em um dos shows da banda em Berlim, em 78, na platéia estavam David Bowie e Iggy Pop, que acabou conversando com o grupo nos bastidores.
  • Um dos motivos do fracasso no show com o Clash, que acabou por motivar o fim da banda, foi não poderem passar o som antes da apresentação. Primeiro porque chegaram duas horas atrasados, por estarem bêbados, depois porque tiveram que esperar acabar um jogo de futebol (?) no ginásio.
  • Em 1990, Jürgen Engler agitou uma reunião do grupo que gravou quatro músicas antigas (Wie Bonnie und Clyde, Die Ewigen Verlierier, Sirenen e Irgendwann...). As faixas apareceram na reeedição em CD de Zensur & Zensur e também numa coletânea de raridades do grupo chamada Grosseinsatz 1977-1994.
  • Uma nova reunião foi organizada para comemorar os 25 anos do Male, em 2002, quando fizeram shows em várias cidades alemãs. Atualmente, o site da banda (http://www.male-punkrock.de) anuncia que eles estão em estúdio.

11/04/2009

Entrevista - Redson (Cólera)


O CÓLERA é uma das bandas pioneiras do punk brasileiro, ao lado de Condutores de Cadáver, Restos de Nada e AI-5. Mas diferente dos outros mantém-se em atividade desde sua criação e neste ano completa sua terceira década de existência. Assim, nada melhor que uma entrevista com o mentor e dessa verdadeira instituição do punk nacional, o guitarrista Redson Pozzi.
Além dos irmãos Redson (guitarra e voz) e Pierre (bateria), a formação inicial do Cólera tinha o Hélio no baixo. Depois, Val assumiu as cordas bases e ficou até os anos 90, quando fo substituído por Josué Correira, que mais tarde dara lugar a Fábio Bossi. No entanto, desde 2002 Val retornou e a formação original segue fazendo shows e deve lançar ainda este ano mais um cd.
A importância do Cólera para o punk tupiniquim está muito além do som. O Cólera sempre foi uma das bandas mais ativas do cenário e deu muita força para outros grupos existirem. Foi na aparelhagem do Cólera que o Anarcoólatras e outros grupos aprenderam os primeiros acordes. Na garagem dos Pozzi, no Capão Redondo, nasceu o Olho Seco. Lá também o Ratos de Porão gravou sua primeira demo tape. A disposição de Redson ajudou a abrir portas de muitos lugares para shows punks, inclusive em outras cidades. O Cólera foi a primeira banda punk brasileira a tocar no exterior (excluindo o Mutantes, talvez tenha sido o primeiro grupo de rock brasileiro a fazer shows na Europa). Para facilitar o lançamento dos discos da banda, Redson foi um dos fundadores (sairia depois) da Ataque Frontal, selo que até hoje atua para a existência do punk nacional, inclusive trazendo bandas gringas e lançando outras tantas nacionais.
Como a história deles é bem conhecida, resolvi fazer uma entrevista com o Redson para registrar no FZ mais esse capítulo da história do punk no Brasil.

FZ - Antes do Cólera, o que vc fazia? Como e quando começou a tocar guitarra?
Me interessei em tocar guitarra com 11 anos. Montei a primeira banda com 12, a segunda e a terceira com 14 e a quarta, com quinze. Com 17 anos montei minha quinta banda, o Cólera, ou seja, em outubro de 1979. Antes disso, eu já frequentava o point de roqueiros que era a estação São Bento do metrô, em SP. Durante três anos eu ia com meu violão Rei tocar pra galera durante três, quatro horas seguidas. Rolava desde The Doors, AC/DC, até Ramones, Ultravox. Com isso, fui convidado a tocar guitarra numa banda de punk rock de Pirituba, que se chamava Tropa Maldita.

FZ - Como conheceu o punk rock?
Com o primeiro álbum dos Pistols, mas não foi o que me deu a referência para tocar punk rock. Foi mesmo o The Clash, com seu primeiro LP. Daí veio Stranglers, UK Subs, Stiff ...

FZ - Quando e como resolveu formar o Cólera? Por que Cólera?
Em outubro de 79, conheci o Helinho na Estação São Bento, estávamos munidos de violões. Lá mesmo, depois de fazer um som juntos, decidimos montar uma banda. O nome veio de uma reportagem no jornal: “Cólera mata milhares de porcos no sul do país.”

FZ - Quem eram os primeiros integrantes? Qual, ou quais foram as primeiras músicas?
Eu no baixo e vocal, Pierre na bateria e Helinho na guitarra.

FZ - No começo, a banda tinha vocalista (Kino, se não me engano), porque saiu?

Ele era brother meu de rolê e, antes do Cólera, estávamos cogitando fazer um som juntos. Em janeiro de 1980, ele entrou como backing vocal. Depois que o Val entrou tocando baixo e eu fui pra guitarra, o Kino ficou mais três meses com a banda e teve que mudar de SP, daí perdemos contato até hoje.

FZ - E o Val? Quando entrou na banda?
Maio de 1980.

FZ - Quais eram as maiores dificuldades no começo?
Equipamento, pois não haviam opções, era caro e muito ruim. As tretas eram uma barreira frequente e o lance de não ter onde tocar, gravar, etc... Hoje temos aqui em Sampa um circuito urderground espetacular que é visitado por bandas da Europa, Japão, América Latina e América do Norte.

FZ - Onde e como o Cólera se apresentou pela primeira vez? Como foi?
Em 12 de dezembro de 1979 na escola municipal CETAL (hoje é ETAL). Foi ao lado de Restos de Nada e Condutores de Cadávers. Tocamos as 11 músicas que fizemos durante os dois primeiros meses da banda . A galera curtiu e pediu mais...daí, sem mais sons pra tocar, fizemos um som ali, na hora, um punk rock repente, chamado Desratear.

FZ - Depois de tanto tempo, como vc avalia as primeiras gravações do Cólera (Grito e Tente Mudar o Manhã)?
Fudidas em ambos os sentidos!

FZ - No LP "Pela Paz em Todo Mundo" o Cólera adotou uma postura mais politizada. Parece que houve uma espécie de "guinada" pacifista nas mensagens. Como foi esse processo?
O pacifismo foi uma veia que eu tinha desde minhas primeiras bandas de rock, antes do Cólera. Também músicas como Viralatas, Zero Zero.. Com as músicas que foram surgindo nos anos anteriores, era inevitável que fosse um álbum temático e que tudo seria com uma nova linguagem; as cores, pois os punks só usavam preto e branco...he he he, os arranjos, letras e a mensagem central: Pela Paz em Todo Mundo.

FZ - Como vc vê hoje a explosão do punk no Brasil no início dos anos 80? E a que atribui a decadência vivida por esse "movimento" a partir de 84/85?
Bem não vejo uma decadência mas sim altos e baixos com uma recente e positiva transformação. Naquela época, tivemos um ímpeto de fazer, de acreditar. Éramos basicamente um pouco mais de um mil. A situação e estilo de vida da época eram de precariedade, ditadura militar e desinformação. Atualmente, a parada não existe somente em Sampa ou Rio, mas é no país todo. Existem centenas de pessoas na cena sem saber o que fazem e porque fazem parte daquilo, mas por outro lado, há uma quantidade significativa e crescente de pessoas acreditando no D.I.Y. Viajo muito pelo Brasil em tours e posso afirmar que o que vejo é gente colocando a mão na massa, tendo resultado e crescendo sua idéia. Hoje, com internet, circuito para shows e tudo o que dispomos de recursos está rolando uma febre de lançamento de CDs produzidos pelas próprias bandas. Numa época em que venda de CD está em baixa, a cena punkrock continua realizando suas produções sem parar. Acho que cada época tem seu valor e significado.

FZ - O que vc lembra da primeira tour européia? Vc ainda tem contato com o pessoal que recebeu o Cólera por lá? Como aconteceu o convite? Vcs ganharam dinheiro lá?
Não ganhamos cash, perdemos. Nas duas tours mais recentes, 2004 e 2008, encontramos muitos amigos de 1987 na Bélgica, Alemanha e Áustria. O convite: como os LPs do Cólera vendiam muito bem na Europa, um fã da Bélgica propôs pra banda ir pra lá e fazer alguns shows. Daí emprestamos dinheiro pra comprar passagens e pagar as taxas que eram bem altas e tinha
um tal de empréstimo compulsório do governo. Conseguimos resolver e fomos com 18 shows marcados. Cinco meses depois voltamos com um total de 56 shows realizados em 10 países da Europa.

FZ - Como e porque se deu a ruptura da banda com a Ataque Frontal? Vc tem alguma mágoa com Renato Filho?
Não. Eu quis sair. Não falávamos a mesma língua.

FZ - E as hostilidades do RDP? Como vc encarou isso? Vcs chegaram a ter alguma treta física?
Faz anos que tudo isso está resolvido. Ontem mesmo tocamos juntos em Sampa, no Combat Rock, com Clemente, Mingau e Ari, recebemos os convidados, João Gordo, Jão, Sandra (Mercenárias), Daniel Beleza... Sem seqüelas...

FZ - Nos anos 90, o Cólera deu um tempo ou havia acabado?
O Cólera está realizando atualmente a tour: “CÓLERA 30 ANOS SEM PARAR!”

FZ - Vc já fez diversos projetos paralelos pode falar deles?

AXO = eu tocava tudo sozinho. Montei em 1982 e fiz uma demo nos Estudios Vermelhos.
Rosa Luxemburgo = foi um projeto com influências de Ultravox, Depeche Mode, com pegadas de funk antigo e letras em português. Durou de 1984 até 1992. Eu era o vocal.
BIKE: Toquei bateria neste projeto que tocava sons pra andar de bike. Durou 1 ano (1990).

FZ - Hoje vc considera que o Cólera é mais reconhecido que antes? Pq?
Melhoramos nossa forma de mostrar nossa idéias.

FZ - Quantas tours já fizeram no exterior?

Três: 1987, 2004 e 2008.

FZ - Como vc compara o público punk de hoje e dos anos70/80?
Hoje é mais amplo e as pessoas são bem sedentas por música ao vivo cantada em português e com conteúdo. Antes, dava-se preferência pro som de fita mais do que pras bandas.

FZ - Qual é o disco do Cólera que mais vendeu? E qual vc considera o melhor?
Pela Paz. Nenhum é melhor, é como filho, cada um é cada um. Claro que, atualmente, estou mais envolvido no próximo.... he he he he

FZ - Quais são os próximos projetos?
CD de inéditas: ACORDE ACORDE ACORDE e DVD “CÓLERA 30 ANOS SEM PARAR!

FZ - Fique à vontade para tecer quaisquer comentarios adicionais.
Deixar um salve pra todos que fazem alguma coisa legal, um som, zine, desenho....muita saúde pra todos.

FZ - Ah, posso disponibilizar alguns sons do Cólera para o povo baixar? Gostaria de disponibilizar o Tente Mudar o Amanhã. Mas se vc tiver alguma objeção dê um toque...
Pega no my space/coleraoficial, somente as que estão lá é que pode disponibilizar.

Cólera no Myspace
Comunidade Cólera no Orkut
Site oficial do Cólera




Discografia
1982 - Grito Suburbano (coletânea, participa com quatro faixas)
1984 - Tente Mudar o Amanhã (LP)
1985 - Cólera/RDP - Split ao Vivo
1986 - Dê o Fora(EP 7", lançado na Alemanha)
1986 - Pela Paz em Todo Mundo (LP)
1987 - É Natal (EP 12")
1988 - European Tour 87 (LP ao vivo)
1989 - Verde não Devaste (LP)
1991 - Mundo Mecânico Mundo Eletrõnico (LP)
1998 - Caos Mental Geral (LP)
2002 - 20 Anos Ao Vivo (CD)
2004 - Deixe A Terra Em Paz (CD)
2004 - The Best of Alemanha (CD)
2006 - Primeiros Sintomas (CD)

10/04/2009

The Lurkers: das sombras saístes, às sombras voltarás....


Entre os muitos jargões criados a respeito do punk rock, um dos que mais me irrita é quando se fala em "punk autêntico". Ora, se não o fosse como seria punk? Mas a expressão nem sempre é usada com má intenção, pois pretende descrever bandas que tenham feito parte dos primórdios do punk. Subentende-se também, que sejam bandas "não-fabricadas", ou seja, surgidas espontaneamente sob a influência do furacão punk representado por ícones como Sex Pistols, que, ao contrário do que muitos afirmam, não foi fabricado e nem totalmente criado por Malcom McLaren. Na verdade, o cara apenas adotou a banda - que já existia - e propôs novos rumos em cima de todo um contexto que percebera à sua volta.
O difícil nisso tudo é separar o joio do trigo. Afinal quem era "autêntico" e quem aproveitou-se do momento para arrepiar o cabelo, fazer caras e bocas, um som pesadinho, assinar um contrato e se arrumar? Nos dois grupos dá para colocar uma porrada de bandas. Para piorar tem aquelas que começaram de um lado e debandaram para o outro (sempre indo do primeiro para o segundo, claro, pois no mundo do showbusiness o dinheiro fala mais alto).
Por que faço esse raciocínio? Para falar do THE LURKERS, uma das bandas mais importantes e mais conhecidas na época da explosão punk e que depois sofreria com um injusto ostracismo. Aliás, desde o início o Lurkers sofreu com pré-julgamentos. Eram constantemente taxados como "o Ramones inglês", a "resposta inglesa ao Ramones", etc. Tudo porque a voz de Howard Hall era incrivelmente parecida com a de Joey Ramone. Mas as semelhanças paravam por aí. O som básico de três acordes não era muito diferente do que punks do mundo inteiro sempre fizeram. Eles nunca negaram a influência dos cabeludos de Nova York, assim como do Faces (isso mesmo), Stooges, New York Dolls, Velvet, etc, bandas que cresceram ouvindo.
O LURKERS começou em 76, em Londres, quando o guitarrista Pete Stride, convidou Manic Esso (Peter Haynes, então um baterista iniciante) e o baixista Nigel Moore para formarem uma banda que fizesse um som próprio, sem frescuras. O primeiro vocalista foi um garoto apelidado de Plug (nome real: Peter Edwards) que mostrou-se totalmente inadequado para a função e acabou tornando-se roadie. Em seu lugar, entrou Howard Wall. Depois de alguns ensaios, fizeram a primeira apresentação abrindo para o Screaming Lord Sutch, lendário grupo (na verdade, a banda do tal Lord) de rock que fazia um som a la Stooges. Pouco depois da estréia, o Lurkers começou a ensaiar em uma loja da Beggars Banquet (na época ainda não era um selo, mas uma rede que vendia discos novos e usados), no bairro de Fulham - daí algumas biografias do Lurkers apontarem a banda como sendo deste bairro, mas na verdade, não é.
O gerente dessa filial da Beggars, Mike Stone, há algum tempo pensava em diversificar o negócio e já começara a produzir alguns shows. Antenado, logo percebeu que a procura por discos punks era grande, mas a quantidade de títulos era muito pequena. Por outro lado, via aumentar o número de lançamentos independentes. Não demorou, fez a ligação e levou a idéia aos donos da rede - Martin Mills e Nick Austin - que aceitaram patrocinar o primeiro single do Lurkers. Nascia então o selo Beggars Banquet, que alguns anos depois se tornaria um dos maiores da Inglaterra (hoje é praticamente uma major). Apesar de tudo ter dado certo depois, houve uma pequena resistência dos proprietários da BB em assinar com o Lurkers, principalmente porque eles não adotavam o visual de grupos como Sex Pistols, Generation X e outros. Pareciam roqueiros comuns e, para piorar, não tinham o mínimo senso de profissionalismo. No fim, concordaram em lançar o disco, como Mike Stone queria, mas sem contrato!
Antes de gravar o single, Nigel resolveu sair para formar sua banda, o Swank, com um som nada a ver com o Lurkers. Em seu lugar entrou Arturo Bassick (nome verdadeiro: Arthur Billingsley). Já era 77 e o compacto com Shadow e Love Story acabou sendo muito bem recebido. Logo em seguida, mais um single, com as faixas Freak Show e Mass Media Believer. Os dois foram os primeiros discos da BB. O Lurkers também participou do primeiro LP do selo, a coletânea Streets (já postada aqui), com Be My Prisoner e, àquela altura já era uma das bandas mais comentadas da cena londrina, inclusive com um público fiel (a maioria moleques de Fulham), que acompanhava o grupo onde quer que fosse. Outro fator que ajudou o Lurkers a ganhar popularidade foi terem participado de diversas Peel Sessions, na época um dos programas mais ouvidos do rádio inglês.
Como as grandes gravadoras estavam loucas à procura de novos Sex Pistols e Clashs, a Beggars Banquet resolveu enfim dar um contrato ao Lurkers e produzir o primeiro LP. Antes, porém, Arturo resolveu sair da banda para formar o Pinpoint, grupo em que poderia colocar suas idéias, mais sérias. As músicas do Lurkers eram na maioria de Pete Stride e tratavam de temas mais pessoais, possuíam uma boa dose de humor e tiradas que hoje seriam consideradas "politicamente incorretas". Tudo bem distante de qualquer padrão político-ideológico. Exatamente o contrário do que Art queria (Mass Media é uma música dele e, não por acaso, a letra mais "séria" gravada por eles até então).
No lugar de Art, entrou ninguém menos que Kim Bradshaw, ex-The Saints. Embora tenha contribuído com uma certa evolução musical, nos bastidores as idéias de Kim não batiam com as do restante da banda. Basicamente a divergência era que os três Lurkers eram rapazes suburbanos que só queriam fazer um som louco e divertir-se bebendo todas, enquanto Kim havia saído da Austrália para vencer no showbusiness. Um músico profissional de certa experiência que não entendia as atitudes despretensiosas daquele "bando de lunáticos". O namoro durou apenas alguns shows e antes mesmo de entrarem em estúdio para gravarem o já esperado LP, Kim também saiu. E como o bom filho a casa torna (que chavão de merda seu Strongos!), um arrependido Nigel Moore o substituiu.
Em janeiro de 78, saiu o terceiro single, com a clássica Ain't Got a Clue e a sarcástica Ooh! Ooh! I Love You, que teve ótima repercussão (chegou a figurar entre os 20 mais vendidos da parada independente) e ajudou a apressar a gravação de Fulham Fallout, disco que mostra o grupo em plena forma e tem lugar garantido na lista de clássicos do punk. A referência ao bairro no título do LP - na verdade, uma homenagem aos seguidores da banda - costuma reforçar a equivocada convicção de historiadores do punk de que o Lurkers é daquela região londrina.
Com o álbum o Lurkers passou a tocar para públicos maiores e a ser a banda principal, não mais de abertura. Entra 79 e sai mais um grande single, com Just 13 e Countdown. Com mais moral junto à gravadora, foram para os EUA para gravar o segundo LP. Depois de muitos percalços na terra do Tio Sam, finalizam God's Lonely Men. O disco não tem o nível de agressividade do primeiro, consequência óbvia de uma natural evolução musical e uma produção mais cuidada. A bolacha mostra um Lurkers mais rock'n'roll, mas ainda uma banda suburbana, sem pretensões de conquistar o mundo. Até hoje tenho dúvidas se gosto mais desse ou do primeiro. Considero os dois clássicos.
Ainda em 79, o Lurkers passou a contar com mais um guitarrista: "Honest" John Plain, ex-The Boys. Como quinteto gravaram o excelente New Guitar in Town/Little Ole Wine Drinker. Infelizmente este single foi o último da formação original da banda. Em 1980, a cena punk estava bem mudada, com o HC predominando. Por outro lado, a Beggars Banquet, entusiasmada com as vendas milionárias de Gary Numam, deixou a banda de lado. Já cansados e, como Pete Hayne afirmaria em seu livro, God's Lonely Men, que conta a história do grupo em detalhes, "sentindo que o recado já estava dado", decidem dar um fim ao grupo.
Assim terminou a primeira fase do Lurkers. Depois disso, Mike Stone finalmente fundou seu selo, a Clay Records, sendo responsável pelo lançamento de bandas como Discharge e GBH. Fez história e muito dinheiro, mas não se esqueceu dos velhos amigos e incentivou o Lurkers a reformar. No retorno, Howard Wall foi substituído por Mark Fincham e Arturo Bassick reassumiu o baixo, com Stride e Esso. Essa formação lançou o pesado, mas não tão criativo, This Dirty Town. Pouco depois, mais um fim, para novo retorno em 1987, patrocinado pelos alemães do Toten Hose. Só que desta vez, apenas Arturo do velho e bom Lurkers estava disposto a voltar à estrada. Deste então, com várias formações, Arturo e o "novo" Lurkers lançaram mais de uma dezena de LPs e singles. Apesar de não ter mais a originalidade dos anos 70, principalmente pela ausência de Pete Stride, Howard Wall e Esso, que seguiram caminhos diferentes, pelo menos a banda manteve-se fiel ao som pesado.

Baixe Fulham Fallout, God's Lonely Men e o Singles Collection (com todos os compactos lançados entre 77 e 99), para conhecer (ou relembrar) a primeira fase desse clássico punk.


LURKERS FACTS
  • Na fase embrionária do grupo, Pete Stride e Esso frequentavam um pub chamado Coach & Horses em Ickenham, zona suburbana de Londres. Um outro frequentador do local, um mineiro (de mina de carvão inglesa, não de MG!), quando ficava bêbado costumava chamá-los de Lurkers (mais ou menos algo como "espreitadores"), por ficarem sempre meio escondidos no bar. Daí saiu o nome da banda, que por pouco não se chamou The Chains!
  • A saída de Kim Bradshaw pouco depois de entrar no lugar de Arturo rendeu uma troca de farpas via imprensa musical. O ex-Saints afirmou que foi chutado do grupo devido à ciumeira de Pete Stride, já que ele (o australiano) começara a compor músicas melhores que as dele. Stride, por sua vez, com o aval dos demais integrantes, disse que o motivo foi mesmo o comportamente "certinho" e profissional de Kim fora dos palcos. "Ele parecia um homem casado", afirmou Stride ao NME.
  • O (péssimo e nojento) costume dos punks dos primórdios em dar uma chuva de cusparada nas bandas rendeu uma internação por suspeita de meningite a Howard Wall, em 79.
  • O "novo" Lurkers já veio quatro vezes ao Brasil (1996, 2001, 2002 e 2004) e pode aportar por aqui mais uma vez a qualquer momento, junto com o 999, banda que tem Arturo no baixo há mais de uma década.

04/04/2009

UM ANO NO AR

O Factor Zero chega a um ano de vida com muito mais "a fazer" do que realizado. Sei que nesses 12 meses poderia ter postado mais regularmente, mas esse é meu ritmo. Se não estou a fim de fazer, não faço mesmo. Por outro lado, acho que o blog conseguiu cumprir o papel a que se propôs: mostrar que o punk rock foi muito mais que o sucesso de algumas bandas. Acho que consegui trazer à luz sons pouco conhecidos no Brasil e histórias de grupos não tão obscuros, mas cuja trajetória poucos realmente sabiam. O maior objetivo do Factor Zero é contar a história deste fenômeno urbano mundial através da história das bandas. Missão que a princípio calculei concluir em cinco anos. Assim o que fiz até aqui deveria representar um quinto de tudo a ser feito, o que me faz suspeitar que devo "trabalhar" em um ritmo um pouco mais intenso...
Quanto a repercursão do blog, não posso me queixar. Consegui atingir uma média de mais de 100 acessos diários nos últimos seis meses e perto de cinco mil downloads dos arquivos disponibilizados. Talvez seja pouco comparado aos superblogs, mas é muito mais do que eu esperava (na verdade, eu não esperava porra nenhuma, só queria fazer o blog). O melhor, porém, foi conhecer pessoas interessadas pelo assunto e dispostas a discutir os posts, fazerem sugestões, correções, acrescentar informações, etc. A esses amigos devo a motivação em continuar o blog.

MUITO OBRIGADO E SAUDAÇÕES ANÁRQUICAS A TODOS!

Strongos

02/04/2009

Direito ao trabalho e ao reconhecimento


O bairro londrino de Chelsea atualmente é mais conhecido pelo time de futebol que leva seu nome e, curiosamente, tem seu estádio - o Stamford Bridge - no bairro vizinho de Fulham. Mas a área é também famosa na cidade como um bairro boêmio, local de encontro de artistas marginais. Não por acaso, tem uma ligação muito forte com a música underground e, claro, as raízes do punk inglês, tanto que batiza uma das bandas pioneiras do fenômeno. CHELSEA, a banda, surgiu em agosto de 1976 e seus componentes também não moravam no bairro! O nome surgiu apenas como referência aos anos 60, já que a região era a casa de várias bandas de rock daquele período. O grupo foi formado a partir do vocalista Gene October e a primeira formação contou ainda com o guitarrista William Broad, a.k.a. Billy Idol, o baixista Tony James e o baterista John Towe. Ainda sem nome, apresentaram-se pela primeira vez como LSD, abrindo para o Throbbing Gristle, grupo de música eletrônica (não dance). Em novembro de 76, depois de de três apresentações, Gene ficou sozinho, já que os outros três integrantes saíram para formar o Generation X.
Gene não se abalou e rapidamente recrutou o guitarrista Marty Stacey e o baixista Bob Jessie. No entanto, antes mesmo de arrumar um novo baterista os dois novos integrantes também deram no pé. Insistente Gene colocou anúncios no Melody Maker - na época era o melhor caminho para arrumar alguém a fim de tocar - e logo a banda estava reformada, com James Stevenson na guitarra, Henry Daze no baixo e Carey Fortune na batera. Outra mudança foi o conteúdo das letras, que ficaram mais politizadas. O primeiro single foi lançado pelo selo Step Forward, depois de uma negociação mal sucedida com a Polydor. E a estréia em vinil foi um clássico: no lado A, Right to work (uma letra que casaria muito bem com os dias atuais, marcados pelo desemprego em massa) e, no b, The Loner, mais lenta.

RIGHT TO WORK
Standing around just

For seven days a week
I won't even get no singing on fee
I feel ripped off, yeah
Hey, what about you?
Where was I born

What are we gonna do?

But this I say
We have the right to work

I don't even know what tomorrow will bring
But let me tell you, having no future is a terrible thing
Standing around just waiting for a career
I don't take drugs and I don't drink beer
But this I say
We have the right to work
Yes we do!
I don't even know what tomorrow will bring

Having no future is a terrible thing
Standing around just waiting for a career
I take lives and drugs
And I'm pissed up yeah
Cause I'm a nutter
We have the right to work

Ainda em 77, sairia o segundo single, com High Rise Living e No Admission. Apesar de não ser tão bom quanto o primeiro, tem qualidade, em uma linha mais melódica. Após o lançamento deste compacto e uma tour pela Inglaterra, seria a vez de Daze e Fortune deixarem a banda. Novamente reformado, agora com dois guitarristas (Stevenson e Dave Martin) mais o baterista Steve J. Jones e o baixista Geoffey Miles, o Chelsea entrou em estúdio para gravar seu esperado primeiro LP. O disco levou o nome da banda e saiu com dez faixas. Um dos melhores daquele ano, sem dúvida. A destruidora abertura com I'm on fire, uma das melhores músicas da época, anuncia que as muitas mudanças na formação não tiraram o fôlego do grupo. Destaco ainda a instigante Decide, a "clashniana" Twelve Men e o "hino" Trouble is the Day.
Após mais uma mudança na formação, desta vez, Chris Bashford no lugar de Steve J. Jones, sai o terceiro compacto, Urban Kids/No Flowers. A bolacha apresenta um Chelsea mais maduro e consistente. Entre 79 e 80, com October, Stevenson, Martin, Bashford e Myles o Chelsea viveu seu auge. Nessa época sai o segundo LP, na verdade, uma coletânea com várias músicas dos primeiros compactos e algumas inéditas. Na Inglaterra, o disco foi lançado com o nome Alternative Hits e nos EUA, No Escape. Particularmente, gosto mais deste do que do primeiro, talvez pela diversidade sonora em consequência de ser mais uma coletânea.
Em 1980, depois do cancelamento de uma tour pelos EUA, a banda, mais uma vez se desintegrou. James Stevenson foi para o GenX, enquanto Myles e Martin formaram o obscuro The Smart. Quando tudo levava a crer que o Chelsea acabara, Gene - com a companhia dos guitarristas Nic Austin e Stephen Corfield, do baixista Tim Griffin e do baterista Sol Mintz - manteve o grupo em atividade. Antes de entrar em estúdio para gravar o terceiro (segundo, na verdade) LP, Corfield debandou e Paul Linc assumiu as baquetas. Novamente um quarteto, a banda produziu Evacuate, um disco muito mais trabalho que os anteriores. Um grande disco, pouco valorizado na época de seu lançamento (1982), em que o hardcore predominava de um lado e o pop barato de outro.
Depois deste disco, o grupo manteve-se em atividade até 83, incrivelmente, sem mudanças na formação. Seguiu-se um breve período em que Gene partiu para a carreira solo. Como não conseguiu destaque, retomou o nome Chelsea. Entre 1986 e 1994, o grupo (Gene, na verdade) lançou os apenas medianos álbuns Original Sinners, Rocks Off e Underwraps, cada um com uma formação diferente. Mais um hiato seguiu-se até que em 1999 o grupo (assim como uma centena de outros) voltou à ativa com Gene, Bashford, Stevenson e Myles. Desde então, o Chelsea tem feito turnês esporádicas e lançou alguns CDs com regravações de seus clássicos, até que em 2005 chegou à lojas Faster Cheap and Better Looking o primeiro de inéditas após o retorno. Por sinal, um disco muito bom, ainda que não tão criativo quantoos lançamentos do período 76-84. Essa é a história resumida do Chelsea, a banda, muito melhor que o time e outras Chelseas por aí....
Baixe aqui Chelsea, o primeiro LP e aqui, Alternative Hits (No Escape).

O Chelsea de 82, época de Evacuate

CHELSEA FACTS
  • Nos anos 70, Gene October tentou a carreira de ator. Além de alguns filmes pornôs fez uma pequena ponta em Caravaggio, película com temática gay. Também trabalhou em musicais como Urgh! A Musical War e Jubilee, filme que tem Right to Work na trilha sonora.
  • Em 76, foi Gene quem conveceu o dono do Roxy, até então um clube exclusivamente gay, a abrir as portas para bandas punk.
  • O Chelsea tinha estreitas relações com os membros do The Police, muito devido à amizade com o produtor musical Miles Copeland, irmão de Stewart, baterista da banda de Sting. Este, aliás, chegou a tocar com o Chelsea, em 82, em pequenos shows, quando o grupo ficou sem baixista. Antes, em 79, o Police abriu para o Chelsea em uma rápida turnê pelo Reino Unido.
  • Outra figura conhecida que passou pelo Chelsea foi Topper Headon, o batera do Clash. Ele participou do álbum Underwraps.
  • O guitarrista James Stevenson é um dos membros do Gene Loves Jezebel, banda pop/new wave relativamente bem conhecida e que chegou a fazer sucesso por aqui nos anos 80. Ele também trabalhou com o The Cult e com Beki Bondage, a beldade vocalista do Vice Squad.
  • No Scape, faixa de abertura do segundo LP, é uma música do The Seeds, banda garageira dos anos 60 que muita gente considera como um dos precursores do punk.