08/01/2010

Subhumanos, superpolitizados


You and me, girl, we’ll fight it out against the world
If she believes that, she’ll believe everything she’s told

I’ll never leave you, not till the mountains turn to dust

If he believes that, he’s got a little too much trust

She’s nothing to him
He’s nothing to her

And both of them are less than that to me

They’ve both been had

A lie behind the smile

Perjuring to cultivate a dream

Businessmen and workers help each other make their way

If you believe that, just look around and count your pay

The government will help you, protect the old and feed the poor

You might believe that, till the police are at your door


You’re nothing to them

They’re nothing to you
And both of you are less than that to me

The skull and the badge

Are the lie behind the smile

Used against the powerless and weak


I’m a hero, I’m the spokesman for the crowd

My only claim to fame is a machine that makes me loud

Where am I leading you, why can’t you get there on your own

If you believe in me, someday I’ll leave you all alone


I’m nothing to you

You’re nothing to me
And less than nothing’s what I want to be
Confusion and noise

I’m sick behind my smile

Sick of every face that I see

I’m sick of every face that I see

I’m sick of every face that I see


(Tradução livre)
Garota, eu e você vamos lutar contra o mundo
Se ela acreditar nisso, ela acreditará em tudo o que lhe disserem
Eu nunca vou te abandonar, não até que as montanhas desapareçam
Se ele acreditar nisso, mostra que tem um pouco de confiança demais

Ela é nada para ele
Ele é nada para ela
E ambos são menos que isso pra mim
Ambos tinham
Uma mentira por trás do sorriso
Jurando cultivar um sonho

Homens de negócio e trabalhadores se ajudam para construir seus caminhos
Se você acredita nisso, olhe à sua volta e faça as contas do que eles pagam
O governo vai ajudá-lo, vai proteger os velhos e salvar os pobres
Você tem de acreditar nisso, até que a polícia bata em sua porta

Você é nada para eles
Eles são nada para você
E ambos são menos que isso pra mim
A caveira e o emblema
São uma mentira por trás do sorriso
Usados contra os fracos e sem poder

Eu sou um herói, eu sou o líder da multidão
Para chegar a fama só preciso de uma máquina que me faça soar alto
Para onde eu levo vocês? Por que vocês não vão por conta própria?
Se vocês acreditarem em mim, um dia os deixarei sozinhos

Eu sou nada pra vocês
Vocês são nada pra mim
E menos do que nada é o que quero ser
Barulho e confusão
Sinto nojo por trás de meu sorriso
Nojo de todos as caras que vejo
Eu estou com nojo de todas as caras que vejo
Eu estou com nojo de todas as caras que vejo

A letra acima é da música Behind My Smile do Subhumans canadense. Não a coloquei só porque é muito legal, mas também porque foi a primeira música deles que ouvi, lá por 81 ou 82, quando comprei uma coletânea chamada Vancouver Independence. Chapei com o som e a letra. Depois fui atrás de outras coisas deles e também adquiri o LP chamado Incorrect Thoughts, que confesso não achei lá essas coisas na época. Mas hoje reconheço como um clássico, basta ouvir faixas como War In The Head e We're Alive. Aliás, tudo o que eles gravaram é de extrema qualidade. Para completar, os membros do grupo - tal qual o homônimo inglês (carma?) - eram (e são) todos militantes políticos, o que fez do Subhumans uma das principais bandas punks canadenses, ao lado do D.O.A.

Primórdios
Subhumans e DOA têm muito mais em comum do que serem ambos canadenses. Gerry Hannah, baixista do Subhumans, e Joey Shithead, fundador do DOA, são amigos de infância e se iniciaram juntos no mundo da música e da política. Nos anos 70, eles e outros amigos moraram em comunidades no campo, como faziam muitos hipies. A diferença é que não eram da turma da paz e do amor e causavam problemas com a vizinhança. Mas o essencial desta época é que formaram suas primeiras bandas. Nenhuma vingou, mas as experiências mostraram que o que eles queriam mesmo era fazer um som.
O primeiro show que conseguiram foi em 1975, como The Ressurrection. Tocaram apenas covers de Beatles, Black Sabbath e outros. Só que como era num salão comunitário do interior, em um evento extremamente familiar, depois da quarta música tiveram de se retirar. Nessa época, viviam em uma localidade chamada Cherryville, na região das Montanhans Monashee. No Canadá, isso quer dizer que era bem longe de tudo. Depois de muitos problemas com a vizinhança e a polícia, claro, além da pouca grana e do inverno rigoroso do local, resolveram retornar a Vancouver. Junto de Kent Montgomery e Brian Goble fundaram um grupo chamado Stone Crazy, com o qual fizeram algumas apresentações em universidades.
Por volta do final de 1976 e início de 77, os caras começaram a ouvir Ramones, Igyy Pop e outros grupos ligados ao punk. Decidiram então entrar nessa praia. No entanto, Gerry ainda não havia se sintonizado com o som punk. O Stone Crazy acabou e Joey fundou o The Skulls, sem Gerry. Em seu lugar entrou o vocalista Lee Kendall (Ken Dimwit). Essa foi uma das primeiras bandas punks canadenses ao lado do The Furies, The Ugly, The Diodes e do Dishrags.
Depois de algum tempo, ainda em 77, o Skulls se mudou para Toronto. Gerry Hannah também estava por lá e já se entrosara com o punk rock. Então ele mostrou duas músicas para Joey, Brian e Simon. As músicas eram Slave to My Dick e Fuck You, que mais tarde fariam parte do repertório do Subhumans. Eles gostaram tanto que resolveram formar uma outra banda (sem acabar com o Skulls), que chamaram Wimpy and The Bloated Cows, com Gerry no baixo, Joey (Flab Jiggle) na bateria, Brian Wimpy no vocal e Simon na guitarra. A brincadeira durou pouco tempo e alguns meses depois não só o Wimpy como o Skulls acabaram.


Nasce o Subhumans
Depois da "experiência" de Toronto, essa turma toda voltou para Vancouver. Brad Kunt, Brian "Wimpy" Goble e Ken "Dimwit" Montgomery (todos com passagem pelo The Skulls) formaram então o Subhumans. A primeira apresentação da nova banda foi no dia 1 de julho de 78, em um evento anarquista.
Gerry Hannah (que a essa altura adotara o apelido de Gerry Useless) juntou-se ao The Stiffs. Logo Brad deixou o Subhumans e Wimpy assumiu o vocal. Para completar a a formação convidaram Gerry para o baixo e Mike "Normal" Grahan (também do Stiffs) para a guitarra.
Em pouco tempo o Subhumans tornou-se uma das bandas preferidas dos punks canadenses, com shows sempre lotados e bastante agitação. As letras de conteúdo político e inteligentes, sustentadas por um som rápido, pesado e ao mesmo tempo com um ritmo excelente para pogar, conquistaram a molecada que em 78 já fazia de Vancouver uma das cenas mais quentes do hemisfério norte.
Com a primeira formação, ainda em 78, o Subhumans lançou apenas um single. Obviamente um clássico com as faixas Death To The Sickoids e Oh Canaduh. Pouco depois, Ken deixou o grupo e as baquetas ficaram com Koichi "Jim" Imagawa. Com ele, seguiram-se o lançamento do EP Subhumans, de 79, que contém as faixas Fuck You, Slave To My Dick, Inquisition Day e Death Was Too Kind; um single com as faixas Firing Squad e No Productivity
e o primeiro LP, Incorrect Thoughts. Além disso, a banda fez várias turnês, que invariavelmente incluíam a Costa Oeste dos EUA, o que deu boa visibilidade à banda por tocar ao lado de bandas consideradas grandes, como Black Flag, Dead Kennedys, X e outras.

Ação Direta
E, quanto mais experiência ganhavam, mais politizados ficavam. E isso não se resumia a fazer punk rock. Todos os integrantes da banda tinham alguma ligação com grupos políticos, especialmente anarquistas e ambientalistas. Apesar de a maioria das letras serem de Brian, Gerry Hannah sempre foi o mais radical e isso ficou claro quando abandonou a banda no início de 1981. Motivo: engajou-se em um grupo político e ambientalista chamado Direct Action, que, como revela o nome, pregava ações diretas contra o sistema. Isso incluía sabotagens a indústrias poluidoras e fabricantes de armas, por exemplo.

Na real, era uma guerrilha urbana que tinha como alvo principal o capitalismo e a indústria armentista. O grupo ficou conhecido na imprensa comercial como The Squamish Five e na alternativa como The Vancouver Five. Os outros membros do grupo eram Ann Hansen, Brent Taylor, Juliet Belmas e Doug Stewart.
Determinados a provocar danos irreversíveis à cultura capitalista, acreditavam que apenas causando prejuízos físicos e materiais ao inimigo poderiam destrui-lo. Ou seja, o grupo transitava na tênue linha entre a militância e do terrorismo. Assim, realizaram alguns atentados a bomba (sem causar vítimas). A primeira explosão foi contra uma usina hidrelétrica em Vancouver, na época ainda em construção, que os ambientalistas acusavam de provocar danos ao meio ambiente. Os prejuízos com essa explosão teriam passado de cinco milhões de dólares.
Mas o grande atentado mesmo foi conta a Litton, uma fábrica de componentes para fabricação de mísseis a serviço dos EUA. Outra explosão famosa foi contra uma locadora de vídeo especializada em filmes pornôs, acusada pelo grupo de exploração sexual.
Estes atos e o pico das atividades do grupo foram realizados no ano de 1982. No entanto, em janeiro de 83, os cinco foram capturados pela polícia nas proximidades de uma pequena cidade chamada Squamish, daí o nome dado pela grande mídia. Gerry Hannah foi condenado a dez anos de prisão, dos quais cumpriu cinco. Atualmente todos os integrantes do grupo estão livres.

O último suspiro
Mas o Subhumans não acabara quando Gerry saiu, apesar de Jim também ter deixado a banda (por motivos pessoais). Em seus lugares, entraram
o baixista Ron Allan e o baterista Randy Bowman. A nova formação chegou a gravar um LP, chamado No Wishes, No Prayers, também muito bom.
No entanto, antes mesmo que o grupo chegasse a fazer shows com as músicas deste disco, veio o golpe fatal. Brian Goble, que era realmente o showman, o líder da banda (embora nem ele nem os demais integrantes assumissem o fato) aceitou o convite para ser baixista do D.O.A. que àquela altura se tornara uma das bandas mais conhecidas do universo punk. Assim, no outono de 1982, o Subhumans deixava de existir.
Em 1995, na onda da reunião e retorno de 9 entre 10 bandas que acabaram, o Subhumans fez alguns shows com Gerry e Brian. Dez anos depois dessa breve reaparição, o grupo foi definitivamente reformado, com Gerry no baixo, Brian no vocal, Mike Graham na guitarra e e Jon Card (ex-DOA) na batera. Ao contrário de muitos retornos, eles gravaram novo material e não estão presos unicamente ao passado punk, por mais glorioso que tenha sido. O CD New Dark Age Parade comprova isso, com um som longe das raízes punk da banda, mas assim mesmo vigoroso e, principalmente, engajado, com letras profundas sobre a merda política atual.

Baixe aqui Death Was Too Kind,
(coletânea com todos os EPs da primeira fase, à qual acrescentei as duas faixas do LP Vancouver Independence)





Subhumans Facts
  • O EP Subhumans, de 79, foi produzido por um tal e Bob Rock, o mesmo cara que depois trabalhou com Metallica, The Cult, Aerosmith, Mtley Crue, Offspring, etc.
  • Em 1983, o D.O.A. lançou um ep beneficente com o título Right To Be Wild para arrecadar fundos para a campanha "Free The Five", que ajudou a pagar as custas judiciais do processo contra Gerry Hannah e seus companheiros. Uma das faixas do ep era Fuck You, verdadeiro hino do Subhumans.
  • Enquanto esteve preso, Gerry gravou dois álbuns de folk music (Sounds Of The Underground e Whereabouts Unknown).
  • Brian Goble também é chegado a um violão e já gravou canções folk, inclusive costuma fazer apresentaçõs solos, em que toca folk. O lance é que as letras são sempre de muita crítica sócio-política.
  • O baterista Ken Montgomery é irmão mais velho de outro batera: Chuck Biscuits, que além de ter participado da primeira formação do DOA, tocou em grupos como Social Distortion, Circle Jerks, Black Flag e Danzig.
  • Após o "fim" (afinal, estão em atividade) do Subhumans, Mike Normal formou um grupo chamado Shangai Dogs, que lançou um Ep (Clanging Bell, 1983) e um LP (This Evolution, 1985). Ambos são raríssimos e o som é o que hoje se chamaria "progressive punk" (que será isso?). Na verdade, um som mais elaborado sem perder a alma contestadora e o peso.
  • As ações do Vancouver Five e a vida de Gerry Hannah são tema do documentário Useless do cineasta Glen Sanford. Ann Hansen, que fazia parte do grupo, escreveu o livro Direct Action: memoirs of an urban guerrilla (Between The Lines Publishers )
  • Em 1994, Ken "Dimwit" Montgomery morreu de overdose de heroína. Mais uma vítima da mais perigosa das drogas. Descanse em paz!

O Subhumans em 2006: Brian Goble, Gerry Hannah, Mike Graham e Jon Card


3 comentários:

  1. Baita post! Como já falei por aqui antes Subhumans é uma banda que gosto muito. As letras deles são muito boas e inteligentes, e a sonoridade, nem comento. E muito interessante a história do Gerry com ações diretas. Além de protestarem faziam algo pra tentar mudar, atitude digna de respeito!

    Abraços.

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  2. Pra mim, é um dos capítulos mais ricos na história do punk. E o mais legal é que os caras mantêm a postura política até hoje!
    Valeu o comentário e desculpe não responder antes...

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  3. Anônimo10/22/2011

    Concordo sobre a questão da postura política. Valorizo muito isso nas bandas punks. Em termos de som prefiro bem mais o Subhumans britânico. E considero esse CD "novo" do Subhumans melhor que os dois primeiros LPs da banda.

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