09/12/2009

Radio Birdman: a lenda dos homens pássaros


A Austrália é o berço de algumas das melhores bandas de punk (The Saints) e rock (AC/DC) de todos os tempos. Este post é sobre o RADIO BIRDMAN, que pode ser enquadrado nos dois rótulos e também está na lista dos melhores. Trata-se de um grupo formado na década de 70 e bastante influenciado pelo rock de Detroit, ou seja, Stooges e MC5. É mais uma das trocentas bandas da época que faziam um rock pesado e cru, fora dos padrões hoje conhecidos como "mainstream" (nos anos 70 esse termo não era comum) e que foram rotuladas ou se assumiram como punks depois que o termo "explodiu" em 76.

Pré-história
A história do Radio Birdman começa em 1972, quando Deniz Tek, um americano natural de Ann Arbor (o fato de ser a mesma área em que surgiram Stooges e MC5 não é mera coincidência) migrou para a Austrália com a intenção de estudar medicina. Guitarrista de mão cheia, logo formou uma banda com amigos da faculdade, chamada Screaming White Hot Razor Blades. Eles faziam apenas covers de clássicos dos anos 60, principalmente Rolling Stones. Constantes mudanças na formação levaram o grupo a adotar outro nome: primeiro Cunning Stunts e depois T.V. Jones, já em 74. Com esse último nome, a banda chegou a gravar duas músicas para um compacto, que jamais foi lançado, pois por acidente a fita foi apagada! Uma das faixas era Snake, que mais tarde foi incorporada ao repertório do Radio Birdman e lançada no e.p. Burn My Eye. No mesmo ano, Deniz Tek foi despedido e logo a banda acabou.
Naquela época, uma outra banda, chamada The Rats, tocava em Sydney fazendo covers de Stooges, MC5, New York Dolls, Velvet Underground e outras do mesmo calbre. A identificação e aproximação das duas bandas foi natural. O vocalista do Rats, Rob Younger, logo se tornou amigo de Tek e ambos passaram a dividir uma casa. Pouco tempo depois de o TV Jones acabar o Rats seguiu o mesmo caminho. Foi ainda mais natural que os dois camaradas resolvessem formar um novo grupo. Para tal, chamaram o baterista Ron Keeley e o baixista Carl Rourke, que eram do The Rats e o tecladista Pip Hoyle, do TV Jones. Com essa formação, em novembro de 1974, nasceu uma lenda chamada Radio Birdman.

Dias de glória
No início continuaram fazendo as covers costumeiras, mas também introduziram várias composições próprias no repertório. E, aos poucos, passaram a definir uma identidade e postura mais original, mais agressiva no palco. Começaram a criar um público também agressivo e depois de várias aprsentações seguidas de alguma confusão (violência), os shows foram escasseando. Mesmo assim, eles resolveram manter a postura que mais tarde os aproximaria do punk. Ainda era 1975 e o Radio Birdman se convencia de que o caminho era tocar cada vez mais rápido e pesado, ainda que os donos dos pubs de Sydney insistissem para que maneirassem. Muitos barraram novas apresentações. Mas nem isso os convenceu a fazer concessões e o número de seguidores só aumentava. A fama de durões, loucos e barulhentos logo chamou a atenção de uma parte da mídia que já estava de olho na cena underground. Alguns artigos publicados pela (hoje lendária) RAM Magazine aumentaram a fama do grupo.
Só que na mesma proporção, o número de locais que os recusavam, crescia. Como não houvesse tantos bares e teatros em Sydney, não demorou e o Radio Birdman já nãotinha mais onde se apresentar. A solução foi tornarem-se residentes em um dos poucos espaços que ainda os aceitava, a Oxford Tavern. Paralelamente, Tek e Pip Hoyle chegavam ao quinto ano do curso de medicina, o que tornava o tempo de ambos bem escasso. A situação acabou por pbrigar o Radio Birdman a diminuir drasticamente o número de aparições ao vivo. Ruim por um lado, mas bom por outro, pois a cada vez que anunciavam um show, era considerado um evento. Garantia de casa cheia e, consequentemente, noites que entraram para a história do underground da maior cidade australiana.
A essa altura, metade de 1976, o Radio Birdman estava mais do que pronto para uma primeira experiência em estúdio. Gravaram quatro faixas que consituíram o compacto duplo Burn My Eye, vendido via correio através de um anúncio da RAM Magazine. Esgotou rapidamente e hoje é considerado um item raríssimo para colecionadores.
No início de 77, a Oxford Tavern quase foi demolida, mas o grupo se mobilizou para impedir o fi de um dos poucos locais e que ainda podiam tocar, que passou a ser chamado de Oxford Funhouse. Não só salvaram o espaço como o tornaram um dos points cruciais para o desenvolvimento de uma cena independente em Sydney. Centenas de bandas passaram pelo palco da Oxford Funhouse. Além disso, eles começaram a promover seus próprios shows em outros locais, sempre colocando grupos iniciantes para abrirem suas apresentaçõe. Ou seja, deram uma emenda força para que a cena independente de Sydney prosperasse. Entre os grupos que cresceram junto com eles, o Hellcats foi um dos melhores (farei um post sobre essa banda, em breve).

O voo da águia
Em junho de 77 finalmente é lançado Radios Appear, o primeiro álbum do grupo. Um clássico, que teria custado apenas sete mil dólares, uma bagatela em termos de produção. E, pelo resultado, esse custo fica praticamente zerado. Inicialmente Radios Appear foi vendido da mesma forma (via correio, através de anúncios na RAM) que o ep lançado no ano anterior. Mas logo algumas lojas se interessaram e a fama do disco correu o país. Depois de algumas semanas, a WEA australiana ofereceu um contrato para distribuir o petardo, que atingiu o 35º lugar na lista dos mais vendidos daquele ano.
Depois de várias mini-turnês nacionais, boas vendas de discos, músicas tocando direto em programas de rock e rádios alternativas, além de algumas aparições na tevê, o interesse das grandes companhias pelo grupo cresceu. Acabaram por assinar com a Sire Records, que já contratara o The Saints. De olho no mercado internacional, de cara, a gravadora preparou uma reedição de Radios Appear bastante modificada. Para esse lançamento, algumas músicas (New Race e Love Kills) foram totalmente regravadas, outras tiveram apenas os vocais regravados (Do the Pop e Descent Into the Maelstrom), outras ganharam piano (Murder City Nights) e novas mixagens. Assim, há duas versões de Radios Appear. Ambas explosivas, mas a primeira é mais "crua".

A queda
O passo seguinte, óbvio, seria uma turnê pelo Velho Continente. O que foi feito. E o que era para ser o grande salto, acabou em um grande fiasco e eles jamais retornaram ao lar como uma banda. A tour, chamada por eles de "Anglo Strike", começou em março de 78, com shows pequenos em Londres. Aconteceu com eles mais ou menos o que havia acontecido com o The Saints. Ser punk na Inglaterra naquela época, significava ter cabelos curtos e um visual de acordo com o padrão "Sex Pistols-The Clash-etc." (estranhamente o Ramones sempre foi exceção), o que absolutamente não era o caso deles e nem tinham essa intenção. Como resultado, não conseguiram emplacar entre os punks e também eram muito punks para o público roqueiro. Para tentar consertar, a Sire os colocou numa mini-turnê com o Flammin' Grooves, que não eram punks mas eram respeitados pelos punks. Nem assim deu. Apesar das performances enérgicas, poucos entenderam o Radio Birdman na Inglaterra e a gravadora (como sempre) não deu o menor apoio. Paralelamente, a tensão da convivência na estrada entre os membros do grupo começou a crescer e a tornar-se insustentável. Para piorar, uma prometida tour pelos EUA foi cancelada. Então Denis Tek e Pip Hoyle, com a desculpa que precisavam fazer residência e terminar seus cursos de medicina, retornaram a Austrália. Era o fim.

Herança
Mas durante a turnê, eles deram um pulo ao País de Gales e lá gravaram 18 músicas para um segundo LP. Com o fim da banda, a Sire adiou o lançamento do disco. Da Austrália, Tek tentou reaver a fita original e lançar o disco pelo menos em seu país. A gravadora embaçou, óbvio. Por alguns anos, Tek batalhou e recebia sempre a promessa de que no mês seguinte acertariam o lançamento. Até que parou de receber respostas. Cansado, pegou uma fita cassete que havia guardado e preservado, com 13 músicas da sessão, e resolveu lançar assim mesmo, com mais um lado B de um single solo que fizera (Alien Skies). Em 1981, finalmente é lançado Living Eyes, o segundo LP do Radio Birdman. Mutilado e a partir de uma fita cassete. Assim mesmo a qualidade é impressionante. Em 2005, finalmente, Living Eyes foi relançado a partir da gravação original, com 17 músicas. Nunca é tarde!
















Baixe aqui os LPs Radios Appear e Living Eyes

BIRDMAN'S FACTS
  • Durante sua existência, o "núcleo duro" da banda foi formado por Deniz Tek (guitarra), Rob Younger (vocal), Pip Hoyle (teclados) e Ron Keeley (bateria). Os quatro estiveram juntos do início ao fim. O segundo guitarrista, Chris Masuak, juntou-se ao grupo em 75 e também ficou até os últimos dias. No baixo, pasaram Carl Rourke, Chris Jones e Warwick Gilbert (que entrou em 74 como guitarrista, saiu, e retornou em 75 como baixista para não mais sair). Também acompanharam o grupo em diversos shows Mark Sisto, como backing vocals e Johnny Kannis, como MC e backing vocals.
  • Depois do fim, o Radio Birdman se reuniu diversas vezes para apresentações ao vivo. Deniz Tek, Rob Younger e Chris Mazuak fizeram várias turnês com convidados usando o nome da banda, mas desde 2007 eles não se apresentaram mais. Provavelmente, acabaram definitivamente.
  • Mas os membros fundaram outras bandas importantes, como o New Race, que contou com Tek, Younger e Gilbert a lado de Dennis Thompson (ex-baterista do MC5) e o grande Ron Asheton (R.I.P.). Pip Hoyle, por sua vez, fundou o The Visitors, com um som mais new wave-pop, porém, de altíssima qualidade. Outros grupos que contaram com ex-integrantes do Radio Birdman foram o Hitmen, New Christs, The Otherside e Comrades of War, entre outros.
  • No início de 1976, época em que eram residentes da Oxford Tavern, foram convidados para um show na cidade de Armidale. Mas alguém babou, porque era uma festa do Lions Club local, com público de coroas da high society. Depois de três músicas, foram convidados a deixar o palco, claro.
  • Uma das características do Radio Birdman era a identidade visual. Eles costumavam usar uniformes militares e algumas vezes apareciam vestidos com as mesmas roupas. Também criaram um símbolo, que alguns seguidores na época identificaram como o símbolo da "coragem", mas na verdade apenas representava uma águia em pleno voo. Essas caracterizações levaram algumas pessoas a ver conotações nazistas. Nada a ver...
  • O nome da banda nasceu a partir de um erro ao ouvirem 1970 dos Stooges. Eles pensavam que era isso (Radio Birdman) que Iggy Pop cantava, quando na verdade era: "Outta of my mind on a saturday night / 1970 rollin' in sight / Radio burnin' up above / Beautiful baby, be my love. Mas ficou legal assim mesmo.
  • Radios Appear, título do primeiro LP, foi inspirado na música Dominance and Submission do Blue Oyster Cult (para quem não conhece, um grupo de hard rock que tinha letras politizadas).
  • Em 1977 o Radio Birdman foi contratado para abrir uma sére de shows de Iggy Pop na Austrália. Mas o grande inpsirador da banda cancelou a turnê. Alguns cartazes haviam sido impressos e tornaram-se objeto de colecionadores.

10 comentários:

  1. Gostei muito de seu retorno aos posts! sempre ouvi falar deles e nunca escutei! Trust me! Vou conferir! Ah! Dê uma olhada em meu blog também! Abraços!

    ResponderExcluir
  2. Poxa, achei que tu tinha até parado de postar, mas esse post compensou todo esse tempo que tu ficou tem postar! Radio Birdman é sensacional! Valeu.

    ResponderExcluir
  3. Ah e esse visual novo ficou melhor, gostei!

    ResponderExcluir
  4. Ah, posso fazer uma sugestão para um futuro post? Não sei se você tem material deles ou se você curte a banda, mas eu acho que ia ser legal você postar algo do D.O.A., eu tenho toda a discografia deles, qualquer coisa é só me dar um toque!

    ResponderExcluir
  5. David,
    taí uma banda que não conhecia. valeu pelo toque. vamos baixar!
    ab, Fabricio

    ResponderExcluir
  6. Aí pessoal, valeu pelos comentários. Realmente passei por uma fase de inspiração nula, por isso tanto tempo sem posts. Creio que tudo vai voltar ao normal rapidamente...
    Contradição, sempre dou uma zoiada no seu blog... vc tá mandando bem, é isso aí!
    Maurício, gosto muito do D.O.A. e até precisava fazer uns posts sobre o punk canadense. Estava pensando em fazer primeiro do Subhumans, mas acho que pode rolar dos dois de uma vez, né? Vamos ver....
    Saudações anárquicas a todos!

    Strongos

    ResponderExcluir
  7. O Subhumans canadense é uma bandaça! Eu considero o Subhumans de lá melhores do que os ingleses. O Canadá é um país cheio de bandas boas, vide as já citadas Subhumans, D.O.A. e também o Dayglo Abortions e o Inepsy!

    ResponderExcluir
  8. Certamente Maurício. Gosto bastante do Subhumans inglês, mas o canadense é clássico e tem uma história muito bacana. Já comecei a fazer o post. Logo estará no ar. Valeu a sugestão...

    Saudações anarquicas!

    ResponderExcluir
  9. Anônimo12/22/2009

    salve strongos, aqui e do punkrocker-4ever.. to com preguiça de loga a conta do gmail.. hehe, mais o blog ta muito bom, está banda é bem dahora... abraço.

    ResponderExcluir