20/06/2009

THE SILLIES - De quando éramos sujos e malvados

Detroit é o berço do punk. Foi lá que nasceram Stooges e MC5, grupos que deixaram como herança o estilo agressivo e a atitude rebelde, quase criminosa (afinal, é apenas música), que deu origem ao punk rock. Milhares de bandas em todo o planeta deram continuidade, nas mais variadas formas, ao som sujo, pesado e com letras ofensivas ou politizadas das duas bandas, surgidas, ironicamente, na efervescência do flower power. Uma outra consequência da monstruosidade sonora desses grupos foi uma forte influência nas bandas locais. Ser roqueiro em Detroit nos anos 70 e passar incólume a Wayne Kramer, Igyy Pop e cia, era como ser londrino em 76 e não perceber o punk...
É nesse quadro que surgiu o THE SILLIES, para muitos a primeira banda essencialmente "punk" de Detroit (há controvérsias, claro). O grupo foi criado em abril de 77 pelo guitarrista, cantor e compositor Ben Waugh e a cantora Sheila Edwards. Após participarem de uma jam seesion, os dois decidiram formar o que seria um grupo de "progressive punk" (vai saber....). A eles juntaram-se o baterista Steve Sortor, a.k.a. Perry Noyd, ex-Mutants (os de lá eram bem melhores que os de cá); o guitarrista Tommy Kilowatt, ex-Flirt; o tecladista Ed Mich e o baixista Vince Volatile. Como membro extra, a performer Tamara, amiga de Sheila, fazia parte da banda, mas era apenas uma espécie de dançarina (não dançava, mas ficava no palco em atitudes obscenas e provocando a plateia). Todos músicos com uma certa experiência, por isso, não demorou a estarem aptos para debutar.
A primeira aparição pública do grupo aconteceu em agosto de 77 e foi um teste de fogo para qualquer um: tocaram para uma audiência de mais de mil pessoas, como abertura do (new) MC5, uma reencarnação do lendário grupo encabeçada pelo vocalista Rob Tyner, mas sem qualquer outro membro original. Aliás, na mesma noite, o Destroy All Monsters também tocou, com Ron Asheton e Michael Davis (ex-baixista do mesmo MC5). Uma zona!
A estreia chamou a atenção pela energia da música e a atitude no palco: uma mistura de pornografia e provocação ao público. Sexistas e machistas. Politicamente, socialmente, eticamente incorretos. A escola Iggy Pop levada ao extremo.
Bastaram poucas apresentações para a reputação do grupo correr Detroit. Não demorou a ficar complicado arrumarem m local para tocar. Para piorar, entre o final de 77 e os primeiros meses de 78, o grupo praticamente se desintegrou. Sheila deixou a banda e se juntou ao The Screamers pouco depois. Perry Noyd voltou ao Mutants (que havia acabado, mas retomou as atividades, ainda em 77), Tom e Ed (provavelmente temendo pelo futuro incerto da aventura) também saíram. Mas Ben Waugh, mente e alma do grupo, não desisitiu e tocou o barco.
O "novo" Sillies passou a contar então com Waugh, Vince (agora guitarrista), o baixista Michael Profane (que participara da jam session que deu origem ao grupo) e o baterista Bob Mulhoney, a.k.a. Bootsey X, ex-Ramrods e Nikki Corvette. Como já se tornara marca registrada do grupo, Katy Hait entrou como backing vocals e Gloria Love como performer.
As mudanças não chegaram a afetar o estilo do grupo, nem melhoraram a reputação. As coisas iam ficando cada vez piores devido a "pequenos" incidentes sempre que eles tocavam. Em Cleveland tiveram de sair escoltados pela polícia, com a promessa de que se voltassem por lá, seriam presos. Tudo por causa de um quebra-quebra que destruiu o bar do clube onde tocavam. No que era para ser um show comum, na Universidade de Detroit, acabou com a banda expulsa do campus. Tiveram sérios problemas também em Michigan e Chicago. Enfim, onde passavam, era um desastre. Como era cada vez mais difícil arrumar um local para se apresentar, os Sillies tiveram um ideia original e que não apenas solucionou o problema como deu uma força incrível para muitas outras bandas da cidade dos motores. Alugaram um clube decadente por um final de semana e foi um sucesso. Então o dono ofereceu a eles um aluguel permanente do local. Começava a história de um dos mais importantes night clubs da cena underground de Detroit, o Bookie's Club 870. Além de se tornar um espaço para ensaio, por lá passaram grupos como Police (antes de se tornarem superstars, claro), The Clash, Damned, Dead Boys, Ultravox, Cramps e muitos outros. Algo comparável ao que hoje representa o Hangar 110 em São Paulo.
Mas em meio a tantas atividades, o grupo parecia não se importar tanto em gravar. O único registro em vinil que fizeram nesse período intenso foi um compacto com duas músicas (No Big Deal e Is There Lunch After Death), totalmente independente. Hoje, é considerado uma preciosidade e vendido por cerca de US$ 200. Me lembro que o Fábio da Punk Rock Discos tinha uma cópia, a única que vi.
A bolachinha foi lançada no verão de 79 e junto com ela mais uma crise entre os membros. De uma só vez, Katy, Bob, Vince e Gloria saíram. Mais uma vez Ben Waugh reformou o Sillies, agora com ele, Profane, a tresloucada Kirsten Rogoff, a.k.a. Kurse-Ten nos teclados e Chip Sercombe na bateria. Essa formação, mais musical mas não menos "barra pesada", acabou sendo a mais produtiva (a maioria das músicas do LP America's Most Wanton, lançado postumamente em 2002, foi registrada nessa época). O "novo" Sillies durou até 1980. Após uma tumultuada turnê com os Heartbreakers de Johnny Thunders, as relaçoes entre os membros desgastaram-se bastante. Como não tinham nenhum contrato profissional e o punk rock que faziam estava em baixa (naqueles dias, ou se era HC ou power pop) o fim foi inevitável. Em 1981, Ben, com auxílio de amigos, ainda gravou um música - Real Live Love, que até no título dá para perceber que nada tinha a ver com o Sillies original - para a coletânea Detroit on a Platter. Foi o tiro de misericórdia em um grupo que escreveu mas um rico capítulo para a história do punk, embora muitos nem o considerem "autênticos". Afinal, não tnham letras engajadas, não soavam como os Ramones ou os Dead Kennedys. "Apenas" tpcavam um rock'nroll pesado e cru e eram um pouco sujos e malvados. Para mim, basta.

Baixe America's Most Wanton, o CD póstumo (2002) com 12 músicas. Infelizmente é um CD raro e não consegui uma cópia até hoje. Embora o arquivo contenha todas as 12 faixas do LP, foram ripadas de uma fita cassete.

SILLIES FACTS
  • Kurse-Ten
  • O Sillies reuniu-se para três shows em 1989, com Waugh, Kirsten e Tommy Kilowatt, mais o baixista Skid Marx (do Flirt, outra lendária banda de Detroit).
  • Uma segunda reunião aconteceu em 1992, de novo com Ben, Kirsten, Marx e Kilowatt, além de Jackie Jung, uma amiga de Kirsten, nos vocais e os bateristas Don Bloxson e Keith Brown, que revezaram-se nas apresentações que se seguiram até 1994.
  • O grupo ressurgiu das cinzas, mais uma vez, em 98, na comemoração dos 20 anos do Bookie's Club.
  • Em 2001, Ed Mich, o primeiro tecladista do Sillies, morreu após sofrer um choque elétrico.
  • Chip Sercombe tocou também no Hysteric Narcotics e, mais recentemente, no Fondas, uma interessante banda com pegada soul e garage.
  • A partir de 2002, Ben Waugh reformou de vez a banda (quem não reformou, né?), que teve o já citado CD lançado, bem como passou a tocar esporadicamente. Além dele, Tommy Kilowatt está no grupo. O pulso ainda pulsa, mas e a alma?

7 comentários:

  1. Maurício6/21/2009

    Caralho hein, se continuar nesse ritmo logo logo tu estora meu HD! hehehe

    Esse The Sillies é outra banda que eu não conhecia. Achei o som muito bacana.

    Eu me pergunto, como bandas ótimas como o Sillies, e outras inúmeras que tu já postou anteriormente, como o Impatient Youth e o No Alternative, não conseguiram o merecido respeito, enquanto tem um monte de merda que está aí limpando a bunda com dinheiro ou teve pelo menos um reconhecimento...Cada coisa...

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  2. Pois é Maurício... e tem muito mais, mas meu ritmo de "trabalho" não é dos mais intensos e ainda tenho muitos outros compromissos. Mas continue passando por aqui que vamos "desencavando" muitas coisa boa.
    Quanto ao não reconhecimento de bons grupos, creio que pesa muito o lance de estas bandas não estarem vinculadas a grandes selos e adotarem posturas independentes. Também a mídia cultural tem uma parcela de culpa, ao divulgar apenas a pontinha do iceberg (além do quê, revistas, sites, rádios, etc, copiam um ao outro e limitam ainda mais a divulgação).
    Enfim, há muito mais coisas legais rolando (ou que já rolaram) do que imaginamos e também muita coisa ruim impedindo que saibamos de tudo...
    Valeu o comentário parceiro,

    Saudações anarquistas

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  3. Maurício6/24/2009

    Pois é, hoje em dia por incrivel que pareça tem bandas boas, só que a mídia não divulga, porque não dá dinheiro.

    Cara, eu acho que todos os estilos tinham que ter divulgação na mídia. Assim o povo poderia saber melhor o que está rolando por aí...

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  4. Anônimo6/25/2009

    bela postagem

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  5. caramba, não conheçia a historia nem o som dos caras, apenas o nome, me interessei e vo fazer o down do lp aqui, bela postagem, parabens.

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  6. Anônimo6/26/2009

    Um minuto de silêncio pelo Michael Jackson

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  7. Desculpe, mas silêncio por quem?
    Sinto pelo ser humano (como qualquer outro) e por ter sido infeliz em sua passagem por aqui. Mas o artista MJ para mim não existe. O som dele não me diz nada...

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