04/05/2009

Pequenos Gigantes V - Good Vibrations Records

Foto recente de Terri Hooley

Nos anos 70, Belfast era uma cidade tão segura quanto Bagdá é hoje. A Irlanda do Norte, ou Ulster, sofria com uma onda de violência por motivos políticos e divergências religiosas que dividem o país até os dias atuais. A diferença é que depois de muitas mortes sem sentido, alguns acordos foram selados e a situação está bem mais tranquila, embora não totalmente resolvida. Mas esse tópico não é sobre a política e a divisão religiosa do Ulster (confesso que não entendo muito bem o que realmente acontece por lá), mas sobre a GOOD VIBRATIONS RECORDS, o principal selo independente e maior responsável pela divulgação do punk norte-irlandês. A importância desse selo é tão grande que relatar sua história é também contar a história do punk naquele país.
O punk rock na Irlanda do Norte surgiu quase que ao mesmo tempo que na Inglaterra. Claro que a proximidade geográfica tem tudo a ver com isso. Mas também a situação político-social do Ulster deu sua "contribuição" ao colocar nas ruas uma geração de jovens sem perspectiva de futuro. "No future" na Irlanda do Norte dos anos 70 não era apenas verso de música. Para muitos jovens, entrar em grupos paramilitares (o IRA era apenas um deles, na verdade, existiam muitos) era o caminho natural. Morrer era muito fácil.
Em tal cenário e com Londres a apenas alguns quilômetros, o punk rock, com toda sua agressividade, além de poder ser tocado com instrumentos baratos e em qualquer esquina, naturalmente conquistou espaço e logo surgiram diversas bandas. Uma característica bastante curiosa de muitos grupos do período inicial (76-78) do punk na Irlanda do Norte, era fazerem um som mais melódico, que oscilava entre o punk rock, o power pop e a new wave.Para isso contribuiu o fato de o glam rock de grupos como T-Rex, Sweet e New York Dolls fazerem bastante sucesso por lá. E é com lembrar que Rory Gallagher, vocalista e guitarrista do Thin Lizzy, é de Belfast. Outro fator que abriu espaço para os punks foi que o rock estava praticamente morto.
As primeiras bandas punks norte-irlandesas (das quais falarei mais em post específicos) foram Rudi, The Undertones e The Outcasts. Entre os pioneiros menos famosos e com existência bem mais efêmera estão The Deotnators, DC9 e Starjets. Todos formados entre 75 e 76.
A cena punk/new wave do Ulster revelou ainda nomes como Boomtown Rats, Radiators From Space e Stiff Little Fingers, mas esses três se mandaram para Londres bem cedo, pois notaram que em seu país, teriam bem poucas chances de gravar alguma coisa. E é aí que entra o herói desse post, um ex-hippie chamado Terri Hooley.
Dono de uma pequena loja de discos em Belfast, que já se chamava Good Vibrations ("homenagem" a uma música do Beach Boys), Hooley simpatizou com o punk após assistir o Rudi e o Outcasts. Conversou com as bandas e resolveu dar uma força para eles conseguirem shows. "Ninguém queria gigs punk naquela época e a única maneira de conseguirmos fazer um era ligar para os locais e dizer que estava organizando uma festa de 21 anos de sua filha e que tocariam algumas bandas. Quando eles descobriam que na verdade era uma gig punk, era tarde demais...", conta Hooley numa entrevista de 2008 ao jornal Belfast News Letter (leia o texto completo aqui).
Depois de organizar um show com sete bandas que acabou em grande confusão e a polícia mandando todo mundo para casa na base da porrada (sem novidades aqui), Hooley sentiu que era hora de por mais lenha na fogueira. Como a possibilidade daquelas bandas gravarem era praticamente zero, arregaçou as mangas e deu vida ao selo GOOD VIBRATIONS. A essa altura, final de 77, o Reino Unido já fervia com o fenômeno punk. Belfast já fora visitada pelo Clash (em um show que entrou para a história por ter sido cancelado pouco antes de começar, o que transformou o local em que se realizaria em um campo de batalha) e outros grupos. O Stiff Little Fingers já lançara seu primeiro single, com Alternative Ulster, revelando que em Belfast tinha muito mais que bombas e grupos paramilitares.
O primeiro compacto da GV foi Big Time/Number One, do Rudi, que saiu em abril de 78, Apesar de ter mandado para rádios e revistas do Reino Uido inteiro, a repercursão des lançamento foi zero. Depois seguiram-se singles do Victim e do Outcasts. Então em setembro, sai o EP Teenage Kicks do Undertones, banda que a princípio nem Hooley queria gravar. O fato é que o disco foi ignorado até cair nas mão de John Peel, que ficou tão entusiasmado ao ouvi-lo que, inusitadamente, o tocou duas vezes seguidas, algo que jamais acontecera em seu programa (e, muito provavelmente, em toda a história da BBC).
Aí, nosso herói deu uma grande prova de integridade. Na manhã seguinte, a Sire Records procurou a banda para contratá-los. Eles aceitaram mas queriam Hooley como empresário. Só que ele se recusou com o argumento de que não estava de saída de Belfast, pois queria ficar lá e colocar a Irlanda do Norte no mapa da música.
O êxito comercial do Undertones impulsionou a GV, que em um espaço de dois anos lançou 15 compactos (incluindo cinco de bandas não irlandesas, cmo o The Bears, já postado aqui no FZ) e dois álbuns. Mas, para variar, Terry Hooley, além de muito honesto com as bandas, não tinha o senso comercial necessário para o ramo e não suportou uma das muitas crises econômicas vividas por seu país. A Good Vibrations fechou as portas em 1980. Ainda fez alguns lançamentos entre 81 e 83, mas já com muito mais dificuldades que no próprio início.
Nos anos 90, com a volta do interesse pelo punk rock, o selo voltou a respirar, porém, uma vez mais não resistu à feorocidade do mercado e voltou a fechar. Uma boa contribuição para esse breve renascimento do selo foi uma frase de Curt Cobain, quando passou por Belfast e foi hospitalizado: "Eu não ligo se morrer aqui, porque é o lar da Good Vibrations Records". Em 2000, a GV reapareceu com um CD-single do grupo Twinkle e um álbum (em CD) do Social Scum, chamado Ooops.
Confira a discografia do selo no site irishrock.org
Para conhecer um pouco do trabalho de Terri Hooley e das bandas pioneiras do punk norte-irlandês, baixe a coletânea GOOD VIBRATIONS SINGLES COLLECTION (parte 1 aqui e parte 2 aqui), com faixas dos primeiros anos deste importantíssimo selo das bandas Rudi, Victim, Outcasts, Undertones, XDreamysts, The Idiots e outras.

6 comentários:

  1. The Hairy Hands5/04/2009

    Putz,

    olhando as capinhas dos singles lançados pela Good Vibrations, fica difícil saber qual é o melhor. Gosto muito das bandas irlandesas, elas têm um senso pop único.
    O Rudi tem músicas excelentes, mereciam melhor sorte na história do punk, uma vez que são pouco conhecidos até na Inglaterra.
    Outcasts é de arrepiar. Aquele jeito quase João Gilberto de cantar mata a pau.
    Protex também é genial, powerpop de primeiríssima. Idem o Tearjerkers, Moondogs, Xdreamysts.
    E tem o Undertones, que já gostei mais, mas ainda considero uma ótima banda.
    Em suma, só crássicos instantâneos. Poderiam fazer parte daquela série (de livros) "tesouros da juventude".

    ResponderExcluir
  2. Pois é Hairy, som de primeira mesmo e o que acho legal é que tem um "estilo irlandês", que soa pop, mas sem culpa (não é comercial) ou vergonha de fazer versos sobre garotas ou o direito à diversão.
    Às vezes fico pensando em como as bandas atuais soam parecidas, sejam elas inglesas, norte-americanas ou de qualquer outro país. Acho que a evolução tecnológica dos estúdios deixou tudo muito igual e acabou esse negócio de um som irlandês, holandês, australiano, etc...
    Saudações anárquicas!

    ResponderExcluir
  3. The Hairy Hands5/06/2009

    Strongos,

    não sei se foi tanto a evolução tecnológica dos estúdios ou a internet. Antigamente, os "novos sons" chegavam a conta-gotas, o que permitia o surgimento de características próprias em cada região. Hoje, a molecada tem acesso aos novos lançamentos antes mesmo deles serem lançados, e aí a cópia fica escancarada, não há tempo para o surgimento de "mutações" (argumento bem darwinista).
    Hoje, quando há uma característica regional numa sonoridade, normalmente é uma coisa ruim - tipo as bandas gaúchas que não conseguem esquecer a Jovem Guarda.

    ResponderExcluir
  4. Maurício5/09/2009

    Hairy, a cena gaúcha já foi bem mais original antigamente, mas hoje, realmente está um saco. Todos só querem tocar de terninho e achar que são os Beatles. Mas isso não vem ao caso.

    Eu sempre gostei muito das bandas irlandesas. Undertones e Stiff Little Fingers são minhas favoritas, não querendo desmerecer as outras, que também são ótimas.

    Junto com os EUA, Inglaterra e Brasil a cena irlandesa foi uma das melhores pra mim.

    Ah, acho que tinha que ter um post sobre a Alternative Tentacles também, que foi um selo importantíssimo na época.

    ResponderExcluir
  5. The Hairy Hands5/09/2009

    Maurício,

    o Stiff Little Fingers é minha banda favorita. Jake Burns é gênio. Os dois primeiros discos deles estão entre os 10 melhores discos da história do rock na minha opinião. E Guitar and Drum, de 2004, é o melhor disco já lançado por uma banda com mais de 25 anos de estrada, discaço.

    ResponderExcluir
  6. Caraca, só underground aqui hein?

    abração!

    ResponderExcluir