30/04/2009

A ressurreição do Death


Em julho do ano passado, no post "Black Power", o FZ deu uma pincelada na incrível história do DEATH. Na época até fiz um breve contato com Bobby Hackney Jr., filho de um dos integrantes da banda e ele me disse que em breve mais músicas do Death seriam lançadas. Até então, apenas as duas músicas do raríssimo compacto de 76 estavam disponíveis para o mundo ouvir. Só que eles haviam gravado outras cinco faixas para o tal LP que a Columbia decidiu não lançar porque eles não aceitaram mudar o nome da banda. As negociações eram com a Livewire, mas o CD acabou sendo lançado pela Drag City no início deste ano.
Enfim, 35 anos depois, o erro foi reparado e um dos trabalhos mais consistentes em termos de rock pesado ou do que muita gente chamaria de "proto punk" pode ser ouvido. Sob o mais que justificável título ... for the whole world to see, o Death renasce das cinzas. E não só o som veio à luz do dia e à alegria da noite, como também a história do grupo foi inteiramente revelada, em detalhes. É tão incrível que até o New York Times não hesitou em publicá-la.
O Death é de Detroit, coincidentemente, ou não, lar dos Stooges e do MC5. Portanto, um dos berços do punk. Por volta de 1971, os irmão Hackney - David (guitarra e vocal), Bobby (baixo) e Dannis (bateria) - começaram a ensaiar na garagem de seus pais. No início, tocavam apenas funk e soul music. No entanto, após assistirem a uma apresentação de Alice Cooper, em 1973, resolveram mudar o estilo. Na verdade, eles já tinham uma tendência roqueira (se não, o que foram fazer num show de Alice Cooper?), já que David ouvia muito The Who. E, como qualquer roqueiro de Detroit, logo começaram a ouvir também Stooges e MC5. Não demorou para que essas influências fossem integradas à música que faziam. Quando resolveram tornar-se uma banda de verdade, adotaram o nome mais "rocker" que puderam pensar: Death. Mal sabiam que isso acabaria por emperrar seus sonhos.
Então começaram a tocar em cabarets e festas de garagem na zona leste de Detroit, onde a maioria dos habitantes eram, como eles, afrodescendentes. Claro que o som extremamente agressivo para a época causou espanto. "Éramos ridicularizado porque naquela época todo mundo de nossa comunidade ouvia o som típico da Philadelphia. Earth, Wind & Fire, The Isley Brothers... As pessoas sentiam que fazíamos um trabalho diferente. Insistimos em continuar a tocar rock'n'roll porque havia muitas vozes tentanto fazer com que abandonássemos isso", afirmou Bobby na entrevista ao NYT (de onde extraí as falas).
Como irmão mais velho, David era o "cabeça" do grupo e quando decidiram gravar foi ele quem escolheu, de modo aleatório numa lista telefônica, um estúdio para a empreitada. Feito o contato assinaram com a Groovesville Production. "Eu sabia que aqueles garotos eram grandes. Mas naquele tempo era duro introduzir um grupo de negros no rock'n'roll", revelou Brian Spears, diretor da Groovesville que acompanhou as sessões. Com a fita em mãos os irmãos Hackney foram a Nova York negociar o lançamento do disco com a Columbia, mais precisamente com um tal de Clive Davis. Foi esse executivo - que até teria gostado do som - quem exigiu que a banda mudasse de nome para fechar o contrato. E foi David, quem deu a resposta: "Não, porra!". "Ele acreditava firmemente que poderíamos assinar com outra companhia. Éramos uns garotos valentes, mas David era o mais valente de nós", conta Bobby.
Como não conseguissem o contrato, decidiram então lançar duas das faixas que gravaram (Politicians in my eyes e Keep on knocking) em compacto por um selo próprio, a Tryangle Records (isso em um tempo em que lançamentos independentes praticamente não existiam). As demais faixas ficariam para quando o sonhado LP se tornasse realidade, o que acabou não acontecendo. Em 1976 (ao contrário do que muita gente pensa) as rádios de Detroit só tocavam disco music e, sem qualquer esquema de distribuição e divulgação, o compacto simplesmente não vendeu. Desiludidos e com a cabeça fervendo, os irmão Hackney foram convidados por um parente distante para passar um tempo em Vermont. Aceitaram, para tentar reorganizar as idéias. "Estamos até hoje tentanto limpar nossas cabeças", brinca Dannis.
Depois disso os caras mudaram totalmente o foco e transformaram o Death em 4th Movement, uma banda de rock gospel que chegou a lançar dois álbuns no início dos anos 80. Por ironia, David, que foi o criador do nome Death e o integrante que mais bateu o pé para sua manutenção, morreu, em 1982. Bobby e Dannis formaram então o Lambsbread, grupo de reggae que se mantém em atividade até hoje e tem alguns discos produzidos por eles mesmos e gravados em um estúdio próprio.
A ressurreição do Death aconteceu por acaso. A história é bem curiosa, mesmo. Julian Hackney, um dos três filhos de Bobby Hackney ouviu o som do Death em uma festa - no ano passado - e pensou ter reconhecido a voz do tio. Pediu informações sobre a banda e, intrigado, contou o ocorrido para seu irmão Bobby Jr.. Daí, resolveram pesquisar na Internet sobre aquela curiosa banda. Claro que nesse universo virtual paralelo acabaram descobrindo o fio da meada. Questionaram Bobby pai (lembram do desenho, Bob pai e Bob filho?) que lhes contou toda a história. Bobby Jr entusiasmou-se mais ainda quando ouviu a fita dos outros sons gravados e iniciou a cruzada para a ressuscitar o Death. Conseguiu. Apesar de ser impossível que o grupo volte realmente a tocar, afinal um terço e a principal cabeça já não está mais entre nós, hoje o mundo já sabe que a banda existiu.
O Death foi sepultado pela arrogância de um executivo sem a mínima visão de mercado; pelo preconceito contra "malucos" que não seguem estereótipos da indústria cultural e, claro, preconceito racial também. O LP deles está no nível de MC5, Stooges, New York Dolls, Dust e muitos outros grupos da era pré-punk. Se tivesse sido gravado por garotos brancos e junkies certamente teria ido para as lojas e conquistado um espaço considerável no mundo do rock. Hoje, os tempos são outros e, ainda que tarde (muito tarde), o Death tem seu recado ouvido.
Para fechar, entusiasmados com tudo isso, os filhos de Bobby Hackney (Bobby Jr., Julian e Urian), formaram o Rough Francis, banda que promete resgatar o estilo do Death. Estão em fase de composição e logo devem lançar algo. Está no sangue.

Baixe aqui For the whole world to see, com as músicas do compacto remasterizadas e as outras cinco faixas inéditas.

7 comentários:

  1. Isso é uma pérola. Das poucas bandas punks de afrodescendentes que eu escutei; todas me soam a perfeição. Vide Pure hell e Bad brains.

    Abraço

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  2. The Hairy Hands4/30/2009

    Keep on Knocking é excepcional. O resto, bem, é o resto.

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  3. Z, o Death sempre surpreende quando se descobre o ano em que foi gravado. Estavam à frente de seu tempo.
    Hairy, eu tinha certeza que vc torceria o nariz para esse som... mas, como disse, tem que levar em consideração o contexto.
    Saudações anárquicas!

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  4. PUNKROCKER5/02/2009

    Realmente exelente post.DEATH realmente e uma banda obscura ate mesmo aos amantes do punk rock killed by death.
    Mas se o assunto e bom rock and roll com atitude,nao deixem de ouvir THE EQUALS e vale mencionar que "police on my back" imortalizado pelos Clash,na verdade e uma cancao dos EQuals..

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  5. PR, não conheço muito o The Equals - acho que ouvi um som deles numa coletânea, que, se não me engano chamava-se Beat of the 60's. Não me chamou muito atenção na época, mas vou dar uma "campiada" e conferir o restante do trabalho deles....
    Saudações anárquicas, camarada!

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  6. Esse Death é muito bom, realmente uma pena eles não terem tido seu merecido sucesso na época.

    Vale lembrar que anos depois, surgiria uma banda de Metal com o mesmo nome, Death, considerada por muitos os percurssores do Death Metal, e que ficaram muito mais famosos que este Death.

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  7. Certamente o Death é uma das maiores injustiças da história do rock. Ah, depois da ressurreição do Death de Detroit tornou-se comum confusões entre as duas bandas.
    Saudações anárquicas!

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