25/04/2009

Raízes Germânicas parte 3 - Male, os pioneiros de Düsseldorf


De volta à história do punk alemão, o FZ apresenta o MALE, que tem em seu DNA fatores dos dois posts anteriores sobre o assunto: a veia e a consciência política do Ton Steine Scherben e a sonoridade básica e agressiva do Big Balls and the White Idiot. No entanto, o Male não é uma simples reunião dessas influências, pelo contrário, é difícil achar traços aparentes das duas bandas no som deles.
Formado no final de 76, o Male reivindica para si o pioneirismo no punk alemão, o que muita gente aceita, por não considerar o Big Balls "punk autêntico". Mas outros grupos também estão nessa "disputa", a meu ver inútil e infrutífera, como o The Neat, de Dortmund. Não vou entrar nesse mérito porque defendo a tese de que o punk é um fenômeno urbano espontâneo, portanto, não foi criado por ninguém. São muitos os "pioneiros" do punk: toda uma parcela da juventude mundial da metade dos anos 70, que vivia em médios e grandes centros urbanos, revoltada com algum tipo de repressão, opressão, exclusão, etc, e que esperava encontrar isso na música ou em outras formas de arte. O rock, que desde os anos 50 era o modo de "arte" mais próximo do que sentiam esses jovens, perdera a condição de porta voz desse sentimento constestador, totalmente absorvido pela indústria cultural. No entanto, a molecada, sem perspectiva, reapropriou-se do que era seu e deu nova roupagem e linguagem ao velho e bom rock'n'roll. Curioso que, como em um ciclo sem fim, a indústria cultural absorveu o punk também, e mais tarde até o hardcore...


O Male é da cidade de Düsseldorf e foi criado por por Jürgen Engler (vocal e guitarra), Bernward Malaka (baixo) e Stefan Schaab (guitarra), todos amigos de escola que tiveram contato com o punk inglês (Engler, através de um artigo de jornal mostrado por seu pai, enquanto Schwaab e Malaka ouviram Eddie & the Hot Rods e Sex Pistols no rádio) e decidiram que era aquilo que queriam fazer. Depois, convidaram Claus Ritter para a bateria. As primeiras apresentações foram em escolas locais. Com letras politizadas, a mensagem do Male estava associada também ao cotidiano, às angústias de quatro garotos que ainda não tinham 18 anos quando a banda foi formada. Opressão policial, censura e consumo são alguns dos temas que aparecem nas letras do Male (e de trocentas mil bandas do mundo todo na época).
Apesar de ter surgido em 76 e terem feito algumas apresentações em 77, o Male só chamou a atenção do restante do país em 78, quando participaram de festivais punks em Hamburgo e Berlim. Em vinil, o grupo só apareceu em 1979, com o LP Zensur & Zenzur, este sim, sem qualquer dúvida, o primeiro álbum punk com letras totalmente em alemão (até então, apenas alguns compactos haviam sido lançados no país). Pode não ser um grande disco, um clássico instantâneo, mas vale pela importância histórica e tem faixas muito boas, como Vaterland, Planspiel e Polizei. Particularmente acho o disco um pouco "frio" e difícil de se gostar na primeira audição. Logo após o LP lançaram também o single Clever & Smart/Casablanca, em que a influência do Clash aparece mais nitidamente, principalmente no lado b.
Em 80, o Male parecia estar no auge e tinha tudo para enfim tornar-se uma banda "grande". Convidados para abrirem o show do Clash, em Berlim, tiveram uma exposição que jamais sonharam. No entanto, a apresentação não saiu como planejada. Foi a gota d'água e após o concerto, que deveria ser o grande impulso para a carreira do Male, o grupo dissolveu-se. "Já não era mais o meu mundo, eu queria fazer algo novo", declarou Engler em entrevista recente ao jornal WZ. E fez: juntamente com Malaka fundou o Die Krupps, grupo de música eletrônica - uma tradição em Dusseldorf, lar do Kraftwerk - que ajudou a construir as bases para o que hoje é conhecido como "rock industrial". No início o grupo era bem mais experimental, depois, passou a misturar as guitarras pesadas do heavy metal com os sintetizadores, algo comum hoje, mas revolucionário naquela época. Schwaab e Ritter, por sua vez, fundaram primeiro o Freunde der Nachten e, depois, o Alright Bros, também com som eletrônico.
A importância do Male para o punk alemão pode ser medida nas palavras de Campino, vocalista do Toten Hosen, a banda mais conhecida daquele país atualmente e que abriu vários shows do Male quando ainda eram chamados ZK: "Se não fosse o Male, talvez o Toten Hosen não existisse".
Baixe o histórico Zensur & Zensur e também a coletânea Grosseinsatz 1977-1994



MALE FACTS
  • Logo na estreia, o Male queimou uma bandeira alemã no palco, o que acabou sendo um grande escândalo, afinal, estavam dentro de uam escola. Também o modo como se vestiam fez com que fossem marginalizados em Düsseldorf. Tudo o que queriam...
  • Em um dos shows da banda em Berlim, em 78, na platéia estavam David Bowie e Iggy Pop, que acabou conversando com o grupo nos bastidores.
  • Um dos motivos do fracasso no show com o Clash, que acabou por motivar o fim da banda, foi não poderem passar o som antes da apresentação. Primeiro porque chegaram duas horas atrasados, por estarem bêbados, depois porque tiveram que esperar acabar um jogo de futebol (?) no ginásio.
  • Em 1990, Jürgen Engler agitou uma reunião do grupo que gravou quatro músicas antigas (Wie Bonnie und Clyde, Die Ewigen Verlierier, Sirenen e Irgendwann...). As faixas apareceram na reeedição em CD de Zensur & Zensur e também numa coletânea de raridades do grupo chamada Grosseinsatz 1977-1994.
  • Uma nova reunião foi organizada para comemorar os 25 anos do Male, em 2002, quando fizeram shows em várias cidades alemãs. Atualmente, o site da banda (http://www.male-punkrock.de) anuncia que eles estão em estúdio.

4 comentários:

  1. Michel Munhoz4/25/2009

    Maravilha!!!! Se não me engano tinha uma banda alemã nesta época (77/78) chamada CRAZY!Muito foda! Eu tinha isso em K-7. Grande abraço, Strongos.

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  2. Michel, nunca ovi falar de uma banda alemã com esse nome. Não seria "Blässe" (legendários) ou "Pack"?
    Abcs....

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  3. The Hairy Hands5/02/2009

    Strongos,

    Não conhecia essa banda e gostei bastante. Talvez o que você esteja chamando de "frieza" seja apenas uma boa produção, coisa que não era muito comum na época. Boas músicas, bem arranjadas, bem tocadas, bem gravadas e um conjunto bem harmonioso. Aprovado!!!

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  4. Anônimo5/10/2009

    dont forget into the future compilation....
    Fab

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