10 de abr de 2009

Das sombras saístes, às sombras voltarás....


Entre os muitos jargões criados a respeito do punk rock, um dos que mais me irrita é quando se fala em "punk autêntico". Ora, se não o fosse como seria punk? Mas a expressão nem sempre é usada com má intenção, pois pretende descrever bandas que tenham feito parte dos primórdios do punk. Subentende-se também, que sejam bandas "não-fabricadas", ou seja, surgidas espontaneamente sob a influência do furacão punk representado por ícones como Sex Pistols, que, ao contrário do que muitos afirmam, não foi fabricado e nem totalmente criado por Malcom McLaren. Na verdade, o cara apenas adotou a banda - que já existia - e propôs novos rumos em cima de todo um contexto que percebera à sua volta.
O difícil nisso tudo é separar o joio do trigo. Afinal quem era "autêntico" e quem aproveitou-se do momento para arrepiar o cabelo, fazer caras e bocas, um som pesadinho, assinar um contrato e se arrumar? Nos dois grupos dá para colocar uma porrada de bandas. Para piorar tem aquelas que começaram de um lado e debandaram para o outro (sempre indo do primeiro para o segundo, claro, pois no mundo do showbusiness o dinheiro fala mais alto).
Por que faço esse raciocínio? Para falar do THE LURKERS, uma das bandas mais importantes e mais conhecidas na época da explosão punk e que depois sofreria com um injusto ostracismo. Aliás, desde o início o Lurkers sofreu com pré-julgamentos. Eram constantemente taxados como "o Ramones inglês", a "resposta inglesa ao Ramones", etc. Tudo porque a voz de Howard Hall era incrivelmente parecida com a de Joey Ramone. Mas as semelhanças paravam por aí. O som básico de três acordes não era muito diferente do que punks do mundo inteiro sempre fizeram. Eles nunca negaram a influência dos cabeludos de Nova York, assim como do Faces (isso mesmo), Stooges, New York Dolls, Velvet, etc, bandas que cresceram ouvindo.
O LURKERS começou em 76, em Londres, quando o guitarrista Pete Stride, convidou Manic Esso (Peter Haynes, então um baterista iniciante) e o baixista Nigel Moore para formarem uma banda que fizesse um som próprio, sem frescuras. O primeiro vocalista foi um garoto apelidado de Plug (nome real: Peter Edwards) que mostrou-se totalmente inadequado para a função e acabou tornando-se roadie. Em seu lugar, entrou Howard Wall. Depois de alguns ensaios, fizeram a primeira apresentação abrindo para o Screaming Lord Sutch, lendário grupo (na verdade, a banda do tal Lord) de rock que fazia um som a la Stooges. Pouco depois da estréia, o Lurkers começou a ensaiar em uma loja da Beggars Banquet (na época ainda não era um selo, mas uma rede que vendia discos novos e usados), no bairro de Fulham - daí algumas biografias do Lurkers apontarem a banda como sendo deste bairro, mas na verdade, não é.
O gerente dessa filial da Beggars, Mike Stone, há algum tempo pensava em diversificar o negócio e já começara a produzir alguns shows. Antenado, logo percebeu que a procura por discos punks era grande, mas a quantidade de títulos era muito pequena. Por outro lado, via aumentar o número de lançamentos independentes. Não demorou, fez a ligação e levou a idéia aos donos da rede - Martin Mills e Nick Austin - que aceitaram patrocinar o primeiro single do Lurkers. Nascia então o selo Beggars Banquet, que alguns anos depois se tornaria um dos maiores da Inglaterra (hoje é praticamente uma major). Apesar de tudo ter dado certo depois, houve uma pequena resistência dos proprietários da BB em assinar com o Lurkers, principalmente porque eles não adotavam o visual de grupos como Sex Pistols, Generation X e outros. Pareciam roqueiros comuns e, para piorar, não tinham o mínimo senso de profissionalismo. No fim, concordaram em lançar o disco, como Mike Stone queria, mas sem contrato!
Antes de gravar o single, Nigel resolveu sair para formar sua banda, o Swank, com um som nada a ver com o Lurkers. Em seu lugar entrou Arturo Bassick (nome verdadeiro: Arthur Billingsley). Já era 77 e o compacto com Shadow e Love Story acabou sendo muito bem recebido. Logo em seguida, mais um single, com as faixas Freak Show e Mass Media Believer. Os dois foram os primeiros discos da BB. O Lurkers também participou do primeiro LP do selo, a coletânea Streets (já postada aqui), com Be My Prisoner e, àquela altura já era uma das bandas mais comentadas da cena londrina, inclusive com um público fiel (a maioria moleques de Fulham), que acompanhava o grupo onde quer que fosse. Outro fator que ajudou o Lurkers a ganhar popularidade foi terem participado de diversas Peel Sessions, na época um dos programas mais ouvidos do rádio inglês.
Como as grandes gravadoras estavam loucas à procura de novos Sex Pistols e Clashs, a Beggars Banquet resolveu enfim dar um contrato ao Lurkers e produzir o primeiro LP. Antes, porém, Arturo resolveu sair da banda para formar o Pinpoint, grupo em que poderia colocar suas idéias, mais sérias. As músicas do Lurkers eram na maioria de Pete Stride e tratavam de temas mais pessoais, possuíam uma boa dose de humor e tiradas que hoje seriam consideradas "politicamente incorretas". Tudo bem distante de qualquer padrão político-ideológico. Exatamente o contrário do que Art queria (Mass Media é uma música dele e, não por acaso, a letra mais "séria" gravada por eles até então).
No lugar de Art, entrou ninguém menos que Kim Bradshaw, ex-The Saints. Embora tenha contribuído com uma certa evolução musical, nos bastidores as idéias de Kim não batiam com as do restante da banda. Basicamente a divergência era que os três Lurkers eram rapazes suburbanos que só queriam fazer um som louco e divertir-se bebendo todas, enquanto Kim havia saído da Austrália para vencer no showbusiness. Um músico profissional de certa experiência que não entendia as atitudes despretensiosas daquele "bando de lunáticos". O namoro durou apenas alguns shows e antes mesmo de entrarem em estúdio para gravarem o já esperado LP, Kim também saiu. E como o bom filho a casa torna (que chavão de merda seu Strongos!), um arrependido Nigel Moore o substituiu.
Em janeiro de 78, saiu o terceiro single, com a clássica Ain't Got a Clue e a sarcástica Ooh! Ooh! I Love You, que teve ótima repercussão (chegou a figurar entre os 20 mais vendidos da parada independente) e ajudou a apressar a gravação de Fulham Fallout, disco que mostra o grupo em plena forma e tem lugar garantido na lista de clássicos do punk. A referência ao bairro no título do LP - na verdade, uma homenagem aos seguidores da banda - costuma reforçar a equivocada convicção de historiadores do punk de que o Lurkers é daquela região londrina.
Com o álbum o Lurkers passou a tocar para públicos maiores e a ser a banda principal, não mais de abertura. Entra 79 e sai mais um grande single, com Just 13 e Countdown. Com mais moral junto à gravadora, foram para os EUA para gravar o segundo LP. Depois de muitos percalços na terra do Tio Sam, finalizam God's Lonely Men. O disco não tem o nível de agressividade do primeiro, consequência óbvia de uma natural evolução musical e uma produção mais cuidada. A bolacha mostra um Lurkers mais rock'n'roll, mas ainda uma banda suburbana, sem pretensões de conquistar o mundo. Até hoje tenho dúvidas se gosto mais desse ou do primeiro. Considero os dois clássicos.
Ainda em 79, o Lurkers passou a contar com mais um guitarrista: "Honest" John Plain, ex-The Boys. Como quinteto gravaram o excelente New Guitar in Town/Little Ole Wine Drinker. Infelizmente este single foi o último da formação original da banda. Em 1980, a cena punk estava bem mudada, com o HC predominando. Por outro lado, a Beggars Banquet, entusiasmada com as vendas milionárias de Gary Numam, deixou a banda de lado. Já cansados e, como Pete Hayne afirmaria em seu livro, God's Lonely Men, que conta a história do grupo em detalhes, "sentindo que o recado já estava dado", decidem dar um fim ao grupo.
Assim terminou a primeira fase do Lurkers. Depois disso, Mike Stone finalmente fundou seu selo, a Clay Records, sendo responsável pelo lançamento de bandas como Discharge e GBH. Fez história e muito dinheiro, mas não se esqueceu dos velhos amigos e incentivou o Lurkers a reformar. No retorno, Howard Wall foi substituído por Mark Fincham e Arturo Bassick reassumiu o baixo, com Stride e Esso. Essa formação lançou o pesado, mas não tão criativo, This Dirty Town. Pouco depois, mais um fim, para novo retorno em 1987, patrocinado pelos alemães do Toten Hose. Só que desta vez, apenas Arturo do velho e bom Lurkers estava disposto a voltar à estrada. Deste então, com várias formações, Arturo e o "novo" Lurkers lançaram mais de uma dezena de LPs e singles. Apesar de não ter mais a originalidade dos anos 70, principalmente pela ausência de Pete Stride, Howard Wall e Esso, que seguiram caminhos diferentes, pelo menos a banda manteve-se fiel ao som pesado.

Baixe Fulham Fallout, God's Lonely Men e o Singles Collection (com todos os compactos lançados entre 77 e 99), para conhecer (ou relembrar) a primeira fase desse clássico punk.


LURKERS FACTS
  • Na fase embrionária do grupo, Pete Stride e Esso frequentavam um pub chamado Coach & Horses em Ickenham, zona suburbana de Londres. Um outro frequentador do local, um mineiro (de mina de carvão inglesa, não de MG!), quando ficava bêbado costumava chamá-los de Lurkers (mais ou menos algo como "espreitadores"), por ficarem sempre meio escondidos no bar. Daí saiu o nome da banda, que por pouco não se chamou The Chains!
  • A saída de Kim Bradshaw pouco depois de entrar no lugar de Arturo rendeu uma troca de farpas via imprensa musical. O ex-Saints afirmou que foi chutado do grupo devido à ciumeira de Pete Stride, já que ele (o australiano) começara a compor músicas melhores que as dele. Stride, por sua vez, com o aval dos demais integrantes, disse que o motivo foi mesmo o comportamente "certinho" e profissional de Kim fora dos palcos. "Ele parecia um homem casado", afirmou Stride ao NME.
  • O (péssimo e nojento) costume dos punks dos primórdios em dar uma chuva de cusparada nas bandas rendeu uma internação por suspeita de meningite a Howard Wall, em 79.
  • O "novo" Lurkers já veio quatro vezes ao Brasil (1996, 2001, 2002 e 2004) e pode aportar por aqui mais uma vez a qualquer momento, junto com o 999, banda que tem Arturo no baixo há mais de uma década.

4 comentários:

Z disse...

Realmente, os dois primeiros discos são fodaços.
Um parceiro meu tinha o Fulham Fallout em vinyl; era o Beggars Banquet 1.
Valeu pela história(não conhecia) e os facts!

Abraço

The Hairy Hands disse...

Legal a história da banda. Também me incomodo um pouco com essa história de punk autêntico.
O Lurkers é muito bom. Apesar dos pesares, acho difícil não compará-los aos Ramones, são mesmo muito parecidos, embora o Lurkers tenha evoluído bem mais musicalmente do que os Ramones.

Michel Munhoz disse...

Que banda maravilhosa!!! Punk rock legítimo de 1977, com um pouco daquilo que chamavam de "pub rock",ou seja,o bom e velho Rock de boteco(Dr.Feelgood, etc...). Tive o prazer de ver estes caras tocando em São Paulo, junto com o 999, em 1995.
Classe!!! Abraço,Strongos!

STRONGOS disse...

Aê moçada, valeram os comentários. A história deles é muito legal mesmo. Hairy, continuo com a opinião de que a semelhança com o Ramones limita-se à voz de Howard.
Michel, perdi todos os shows, mas sou feliz por ter os discos....
Saudações anárquicas!