27/03/2009

Os geniais artistas punks


O WIRE é uma das mais conhecidas bandas da primeira era punk, graças ao clássico Pink Flag, um dos melhores álbuns do gênero e, há quem diga, da história do rock. Enérgico, pesado e melódico. Minimalista e complexo. Rápido em alguns momentos, lento em outros, mas sempre urgente. Denso e criativo. É uma obra que a cada música ouvida, desperta-se a curiosidade pela próxima. Gravado há mais de 30 anos, Pink Flag mantém-se atual. Mas o Wire também é conhecido por ter sobrevivido todos esses anos com uma formação praticamente intacta e não ter se tornado um pastiche de si mesmo. Enveredou por outros caminhos, mas jamais perdeu a veia criativa.
O grupo surgiu em 1976 na região sul de Londres, mais exatamente no Watford Art School, onde três dos fundadores da banda se conheceram: Bruce Gilbert, Colin Newman e George Gill. Gilbert era o mais velho deles (tinha 30 anos na época) e não estudava lá, mas sim trabalhava como técnico do estúdio de som, já que os alunos da escola faziam filmes. Ali, juntamente com outro estudante, chamado Ron West, Gilbert começou a criar música a partir de colagens de sons pré-gravados. Experimentalismo total.
Colin era aluno do curso de Artes Gráficas e Ilustrações. Na verdade, escolhera a escola de artes porque acreditava que era o lugar ideal para encontrar parceiros para formar uma banda, algo que cultivava desde a adolescência. Estava certo. Em Watford, ele morava na mesma república de George Gill, que já tocava guitarra. Os dois acabaram tornando-se frequentadores do estúdio em que Gilbert trabalhava e a idéia de montar um grupo surgiu naturalmente. Os três, mais Ron West chegaram a realizar uma performance, mas foi desastrosa.
Mas estavam em Londres, em 1976, e não eram surdos, pelo contrário. O barulho da punkadaria não demorou a chegar aos ouvidos de Colin e Gill. Depois de assistirem a um show dos Pistols e adquirir o primeiro LP do Ramones, a dupla convenceu Bruce a formarem uma banda. Precisavam apenas achar um baterista e um baixista, já que Colin cantava, enquanto Bruce e Gill tocavam guitarra.
Foi a namorada de Bruce, Angela Conway, quem indicou Graham Lewis ao grupo. Na época ele era um designer de moda iniciante, mas que Conway conhecera quando ele trabalhava na secretaria social da União dos Estudantes (uma espécie de UNE da Inglaterra) na faculdade de Arte de Hornsey. Depois de fazer um ensaio com Colin e Gill, por pouco ele não desistiu, achando a experiência furada. Apesar disso, aceitou o convite para voltar, pois simpatizava com o punk e sentia que dali podia sair algo.
O baterista seria Robert Grey, a.k.a. Robert Gotobed, que Colin conhecera em uma festa e ao saber que ele tocava bateria, não hesito em convidar a fazer um ensaio com a embrionária banda. Robert, na verdade, era vocalista de uma banda chamada The Snakes e apenas "arranhava" na batera. Faltava um nome. Depois de cogitarem The Geezers e A Case, surgiu The Wires, logo, Wire.
Enquanto o verão punk de Londres-76 fervia, o quinteto ensaiava, ensaiava, ensaiava. Sentiram-se aptos a tocar ao vivo apenas em 2 de dezembro, quando abriram um show da banda de pub rock The Derelicts. No dia seguinte voltaram ao palco, numa faculdade de arte. Os estudantes não aguentaram o barulho e puxaram os fios da tomada antes do final da apresentação. Mas o grupo já conseguira evoluir e em janeiro foi convidado a abrir para o The Jam no Roxy. Após a apresentação perguntaram ao dono da casa, Andy Czezowski, se poderiam voltar. A resposta: "voltem quando melhorarem".
Pouco depois George Gill quebrou o tornozelo e o grupo ensaiou por um tempo com quatro integrantes. Sem ele, que gostava de fazer muitos solos, o som melhorou e as composições saíram mais facilmente. Clássicos como Mr. Suit, Lowdown, 12XU, entre outras, são desse período. No final de fevereitro voltaram ao Roxy, com George engessado. Foi a última apresentação da banda como quinteto. Desta vez, as coisas foram melhores e após o show foram convidados a participar de um festival de bandas punks, que seria gravado pela EMI para lançar um disco - o lendário e essencial Live at Roxy. Naquele 1º de abril tocaram ainda Eater, Slaughter and the Dogs, Adverts, The Unwanted, Buzzcocks, Smak, X-Ray Spex e Johnny Moped.
O engenheiro de som da EMI no vento era um tal de Mike Thorne, que depois convidou o grupo a assinar com a gravadora e participaria como tecladista dos três primeiros álbuns. Enquanto isso, já no mês de julho, com o punk rock abalando as estruturas, o disco ao vivo no Roxy foi bem recebido e o Wire uma das bandas mais elogiadas. A Harvest, selo da EMI, então fez uma proposta para a banda, que não hesitou em aceitar. Ah se fosse um grupo brasileiro. Certamente seria taxado de "traidor do movimento". Pelo contrato, o grupo deveria gravar dois álbuns em 18 meses.


Em setembro, o Wire iniciou uma série de sessões que duraram seis semanas e, com produção de Mike Thorne, conceberam Pink Flag. O verbo conceber é perfeito para descrever como o disco foi realizado. Primeiro reuniram-se todos e elaboraram a lista das músicas, inclusive na ordem em que deveriam aparecer no disco. Depois, entraram em estúdio e gravaram as bases, às quais foram sendo adicionados outros elementos (ou não). O disco chegou às lojas em novembro de 77 e foi bastante elogiado pela crítica musical inglesa, leia-se Sounds, Melody Maker e New Musical Express.
Após uma tour nacional junto com o The Tubes - uma trupe que misturava música e performances teatrais e caíra no gosto dos punks, apesar de ter mais a ver com Alice Cooper - e alguns shows pequenos, o Wire começou a preparar o segundo LP. A experiência de um ano intenso e a vontade de inovar da banda, aliada ao evidente enfraquecimento do punk, fez de Chairs Missing um LP bastante representativo do espírito do ano de 78 na Inglaterra: um ano de transição. O punk para muita gente e, principalmente para o mercado, era já passado. O termo pos-punk era cada vez mais ouvido. Chairs Missing manteve muito pouco da pegada de Pink Flag, apesar de não ser um disco totalmente lento, mas ficou evidente que o grupo distanciava-se do punk.
Isso ficara ainda mais claro um ano depois, quando gravaram 154, o terceiro e último LP pela EMI. O nome do disco é uma referência ao número de shows que o grupo fizera até então (Robert Gotobed tinha tudo anotado). Nele, o Wire usou e abusou do experimentalismo. Um disco difícil. Tão difícil e paranóico que após as sessões Mike Thorne, que manteve-se como colaborador da banda desde o início, resolveu tirar o time de campo, sentindo-se "despreparado" para trabalhar com aqueles loucos. Mas o álbum foi bastante elogiado e até hoje é considerado revolucionário em termos de rock. Após este disco, cansados do velho esquema de "entra no estúdio, grava e faz turnê para promover o disco" o grupo radicalizou de vez em suas performances. A influência dos tempos de faculdade de arte ajudou a tornar as apresentações do grupo em experiências únicas, que culminaram em uma série de apresentações em quatro tardes, denominadas People in a Room, em que a cada dia um membro do grupo comandava a performance, usando vídeos, luzes e outros recursos visuais incomuns para a época.
O contrato com a EMI não foi renovado, já que a banda cada vez menos se encaixava no "normal" e recusava-se a buscar caminhos mais comerciais, como queriam os excutivos da gravadora. Em 1980, Colin anunciou que gravaria seus próprios discos, enquanto Graham e Bruce montaram o Dome, um projeto paralelo. A banda então passou por um hiato até 1984, quando reuniram-se e, ironicamente, voltaram mais comerciais, flertando com a música eletrônica dançante. Mas aí já é um outro Wire.
Pink Flag
é um álbum obrigatório para entender o que foi e o que é o punk, mas não vou colocar para download aqui (apenas se for requisitado), pois creio que a maioria das pessoas que acessam o FZ já têm este disco. Para compensar, vou colocar o CD Behind the Curtain, bem mais difícil de achar. Foi lançado em 1995 e reúne gravações raras da banda, em estúdio, feitas entre 1976 e 1979. Um disco imprescindível.
Baixe Behind the Curtain - parte 1 aqui e parte 2 aqui.


WIRE FACTS
  • O The Snakes, primeira banda de Robert Gotobed, lançou apenas um compacto, Teenage Head, e acabou. Dois membros dessa banda - Nick Garvey e Richard Slaughter - seriam os fundadores do The Motors, grupo de bastante sucesso na Inglaterra nos anos 70-80.
  • De 1985 a 1991, o Wire lançou cinco álbuns: The Ideal Copy, A Bell is a Cup (Until it is Struck), It's Begining to and Back Again (IBTABA), Manscape e The Drill, todos com um som mais eletrônico. Depois disso, Gotobed deixou a banda que continuou com o nome Wir (pronuncia-se Wire mesmo). Seguiram gravando com uma bateria eletrônica e, com este nome, lançaram um disco apenas, chamado The First Letter. Em 2000, Gotobed voltou e o grupo lançou um The Third Day, um CD single. Em 2003, saiu Send e o mais recente lançamento da banda foi Object 47, em 2008. Este último, talvez o melhor disco deles desde o retorno.
  • Em Pink Flag há uma música chamada Brazil, mas nada em a ver com nosso país varonil, trata-se apenas de um título "pescado" em uma revista! Aliás, letras absurdas sem muito sentido são uma das marcas regstradas do Wire. Veja a letra de Brazil: It's true darling / I'll walk you home / I'll be your date forever /I love you girl / I love you / until they split the atom /So many times there's nothing left / there's nothing left at all /I know I'm right / 'cause when you're gone / there's nothing left at all / Left, right, salute.
  • Na sua performance da série People in a Room, Colin Newman reuniu 15 guitarristas no palco, divididos em três grupos de cinco que tocavam notas diferentes!
  • O grupo gravou algumas Peel Sessions, mas diferentemente da maioria dos grupos convidados pelo lendário radialista, eles usavam o espaço para gravar coisas novas e não fazer versões inferiores das músicas que já haviam gravado. Apenas na primeira fizeram isso, depois gravaram mais umas três ou quatro. Isso deixava a EMI bem puta, pois eles queriam que a banda promovesse os discos.

3 comentários:

  1. The Hairy Hands3/27/2009

    Strongos,

    se me permite um aparte, as Peel Sessions do Damned são do caralho, muito melhores do que as versões de estúdio.

    Saudações anarquistas!!

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  2. Hairy, seus comentários são sempre bem vindos. O que eu quis dizer é que as Peel Sessions, na maioria das vezes, são gravações "tecnicamente" inferiores. É verdade que muitas vezes soam até melhor que os originais de estúdio (realmente o Damned é um desses casos, assim como o Stiff Little Fingers e o Buzzcocks).
    Por outro lado, o lance do Wire era aproveitar o espaço para mostrar material novo e acho que eles estavam certos.
    Falou meu camarada....

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  3. Com certeza as músicas do "Music for pleasure" ficaram bem melhores na Peel Sessions.

    Abraço

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