17/03/2009

Eles tinham alguma coisa a dizer


THE RUTS é a banda que tinha alguns dos músicos mais talentosos da segunda onda punk inglesa. Faziam um som ao mesmo tempo pesado e bem trabalhado, com boas letras, politizadas, socialmente conscientes, mas sem panfletarismo - não eram militantes, mesmo tendo feito muitos shows no circuito Rock Against Racism. Uma das caracterísitcas marcantes do Ruts é que também fizeram alguns reggaes. A rigor, gravaram apenas duas músicas no ritmo jamaicano (Jah War e Give Youth a Chance), mas bastou para que ganhassem a fama de banda "punk influenciada pelo reggae". Na verdade, o som do Ruts era um dos mais furiosos e pesados do período 77-79. Ah os críticos musicais....
A história do Ruts começa bem antes do punk, no bairro de Hayes, zona oeste de Londres, com a amizade entre Malcom Owen e Paul Fox, companheiros de escola (incrível como a história se repete!). No início dos anos 70 os dois mudaram para uma comunidade hippie na Ilha de Anglesey, no País de Gales. O local é famoso por ter sido berço de druidas e é uma espécie de meca do misticismo celta. Lá, eles começaram a compor músicas e formaram um grupo chamado Aslan, com Paul Mattock na bateria. Faziam um som com influências do folclore celta, óbvio. Em 1975, a comunidade entrou em colapso (como 99% das comunas da época) e os três voltaram para Londres.
Na metrópole, Fox e Mattock juntaram-se ao Hit & Run, uma banda de jazz-funk comercial. Outro amigo de Paul, Dave Ruffy, logo passou a fazer parte do grupo, que vivia de shows, mas chegou a gravar um single, hoje bem raro. A essa altura, o punk rock já estava nas ruas e Malcom fazia bicos como DJ, assim estava antenado em tudo o que acontecia. Então resolveu montar uma banda e chamou o velho amigo, que levou Ruffy com ele. Em agosto de 77 nascia o The Ruts, com Malcom Owen no vocal, Paul Fox na guitarra, Dave Ruffy no baixo e Paul Mattock na bateria. Enquanto boa parte das bandas da primeira onda punk londrina ou haviam implodido ou passaram a fazer um som não-punk, o Ruts começou na contramão, com um som bem agressivo.
Um mês depois de formado o Ruts apresentou-se pela primeira vez ao tocarem três músicas no intervalo de um show do Mr. Softy, banda paralela de Paul Fox. Os três sons que fizeram chamou mais a atenção que todo o set do Mr. Softy. A seguir o grupo gravou quatro músicas em um estúdio chamado Freerange, que só seriam lançadas em 1983!


Então começaram a fazer shows, mas Mattock não queria tocar tão rápido e pediu para sair. Com isso, Ruffy foi para a batera e John "Segs" Jennings assumiu o baixo. A formação que faria história como The Ruts, enfim, estava reunida. A primeira apresentação foi como banda de abertura do Wayne County and the Electric Chairs (outra grande banda da época) em janeiro de 78.
A amizade de Malcom com o pessoal do Misty in Roots (provavelmente a melhor e mais subestimada banda de reggae da Inglaterra) que possuía um selo independente, o People Unite, ajudou no lançamento do primeiro single, com as faixas In a Rut e H-Eyes. As mil cópias do compacto, sem capa, venderam rapidamente após John Peel elogiar entusiasticamente o grupo em seu programa na rádio BBC. Ao lado do Misty, o Ruts fez diversos shows para o movimento Rock Against Racism. Foi nesse período que o grupo ganhou a influência do reggae, vendo como o Misty tocava.
A fama da banda cresceu e logo assinaram com a Virgin Records. E o primeiro fruto foi o compacto Babylon's Burning, de longe o maior "hit" do Ruts e um dos maiores clássicos do punk setentista. No lado b, Society é outra grande faixa, mas acabou ofuscada pelo brilhantismo de Babylon's. O segundo single, ainda em 79, pela Virgin foi Something That I Said/Give Youth a Chance, esta, gravada durante uma das Peel Sessions.
Apesar de relativamente novo, o Ruts entrou em estúdio para gravar seu primeiro LP como uma banda experiente e sob todas essas influências só podia sair um grande disco. E The Crack é. Em minha opinião, um dos dez melhores de todos os tempos. As porradas Backbitter, Savage Circle, Criminal Mind, I Ain't Not Sofisticated e Human Punk beiram o hardcore. Mesmo faixas mais "tranquilas", como S.U.S. e It Was Cold são consistentes.



Tudo ia muito bem. Bem demais para um grupo que tinha um heroinômano como vocalista e ícone. De presença marcante no palco e dono de uma voz naturalmente agressiva para uma banda de rock, Malcom Owen tinha também uma dependência antiga da droga, que escondeu por um tempo dos companheiros, mas que acabou sendo mais forte que ele e se manifestou justamente no auge do Ruts. Após um ultimato, não teve jeito e ele foi dispensado, já que a droga começara a afetar sua voz e ele não conseguia cantar. Pior, sua esposa também não o queria mais. Em depressão, foi para a casa dos pais e acabou morrendo de overdose no dia 14 de julho de 1980. Após sua morte, o grupo ainda sobreviveu por um tempo, sob o nome Ruts DC e fazendo um som mais trabalhado e bem distante do punk. Mas não deu. Em 1982 o chegou ao fim uma das maiores lendas do punk.
Baixe aqui o histórico LP The Crack.
E aqui, as Peel Sessions, com as músicas gravadas em 77 no estúdio Freerange mais o primeiro single ripado do vinil


RUTS FACTS
  • Diz a lenda que, em 77, Malcom Owen viu o Sex Pistols tocar e saiu do show convencido de que ele e Paul podiam fazer melhor. Embora haja um abismo quanto à importância histórica de uma e outra banda, Owen tinha razão.
  • Ironicamente o Ruts tem duas músicas, compostas por Owen, que criticam o uso de drogas: Dope for guns e H-Eyes (You're so young, you take smack for fun / It's gonna screw your head, you're gonna wind up dead / You scratch your nose, you're lucky when it shows / It's gonna screw your head you're gonna wind up dead / H-eyes, H-brain, in your vain / H-eyes, H-brain, it's gonna fuck your brain).
  • No álbum Animal Now, do Ruts DC, uma das músicas, Parasites, é "dedicada" à Virgin, o que teria sido a gota d'água para o selo dispensar a banda. Na verdade, estavam descontentes com as fracas vendas do grupo. Após o rompimento, Fox, Ruffy e Mattock fundaram seu próprio selo, a Bohemian Records.
  • Babylon's Burn fez parte da trilha sonora do filme Times Square, do diretor Allan Moyle, lançada por aqui em um álbum duplo, em 1981, o que tornou o Ruts uma das poucas bandas punks daquele período a terem algo lançado no Brasil.
  • Quando Malcom faleceu, a Virgin negociava o lançamento de um compacto solo dele, que teria o Ruts como banda de fundo. O que torna a cagada ainda maior.....

6 comentários:

Z disse...

O Ruts foi uma puta banda, uma das minhas prediletas. Suas músicas são meio que atemporais.
"I Ain't Sofisticated" é meu hino.
Valeu pelo post.

Abraço

Jay IRC disse...

Hey Strongos...wasn't sure if you saw the message I left you at Down Underground. Check it out and let me know.

STRONGOS disse...

Hi Jay, I saw the mesage now and just left an answer in your profile. Thanx bro!

STRONGOS disse...

Z, valeu o comentário e continue visitando o blog, tem muita coisa boa ainda a ser postada....

Anônimo disse...

S O N Z E R A o RUTS

pinkpressthreat disse...

On "H-Eyes" it's "Scratch your nose, you LIKE IT when it shows" ! (Speaking about the narcissism of heroin use).And, besides "Jah War" and "Give Youth A Chance (Black Man's Pinch)", there was also "Love in Vein" in the reggae style. Nice blog - I like it ;)