02/04/2009

Direito ao trabalho e ao reconhecimento


O bairro londrino de Chelsea atualmente é mais conhecido pelo time de futebol que leva seu nome e, curiosamente, tem seu estádio - o Stamford Bridge - no bairro vizinho de Fulham. Mas a área é também famosa na cidade como um bairro boêmio, local de encontro de artistas marginais. Não por acaso, tem uma ligação muito forte com a música underground e, claro, as raízes do punk inglês, tanto que batiza uma das bandas pioneiras do fenômeno. CHELSEA, a banda, surgiu em agosto de 1976 e seus componentes também não moravam no bairro! O nome surgiu apenas como referência aos anos 60, já que a região era a casa de várias bandas de rock daquele período. O grupo foi formado a partir do vocalista Gene October e a primeira formação contou ainda com o guitarrista William Broad, a.k.a. Billy Idol, o baixista Tony James e o baterista John Towe. Ainda sem nome, apresentaram-se pela primeira vez como LSD, abrindo para o Throbbing Gristle, grupo de música eletrônica (não dance). Em novembro de 76, depois de de três apresentações, Gene ficou sozinho, já que os outros três integrantes saíram para formar o Generation X.
Gene não se abalou e rapidamente recrutou o guitarrista Marty Stacey e o baixista Bob Jessie. No entanto, antes mesmo de arrumar um novo baterista os dois novos integrantes também deram no pé. Insistente Gene colocou anúncios no Melody Maker - na época era o melhor caminho para arrumar alguém a fim de tocar - e logo a banda estava reformada, com James Stevenson na guitarra, Henry Daze no baixo e Carey Fortune na batera. Outra mudança foi o conteúdo das letras, que ficaram mais politizadas. O primeiro single foi lançado pelo selo Step Forward, depois de uma negociação mal sucedida com a Polydor. E a estréia em vinil foi um clássico: no lado A, Right to work (uma letra que casaria muito bem com os dias atuais, marcados pelo desemprego em massa) e, no b, The Loner, mais lenta.

RIGHT TO WORK
Standing around just

For seven days a week
I won't even get no singing on fee
I feel ripped off, yeah
Hey, what about you?
Where was I born

What are we gonna do?

But this I say
We have the right to work

I don't even know what tomorrow will bring
But let me tell you, having no future is a terrible thing
Standing around just waiting for a career
I don't take drugs and I don't drink beer
But this I say
We have the right to work
Yes we do!
I don't even know what tomorrow will bring

Having no future is a terrible thing
Standing around just waiting for a career
I take lives and drugs
And I'm pissed up yeah
Cause I'm a nutter
We have the right to work

Ainda em 77, sairia o segundo single, com High Rise Living e No Admission. Apesar de não ser tão bom quanto o primeiro, tem qualidade, em uma linha mais melódica. Após o lançamento deste compacto e uma tour pela Inglaterra, seria a vez de Daze e Fortune deixarem a banda. Novamente reformado, agora com dois guitarristas (Stevenson e Dave Martin) mais o baterista Steve J. Jones e o baixista Geoffey Miles, o Chelsea entrou em estúdio para gravar seu esperado primeiro LP. O disco levou o nome da banda e saiu com dez faixas. Um dos melhores daquele ano, sem dúvida. A destruidora abertura com I'm on fire, uma das melhores músicas da época, anuncia que as muitas mudanças na formação não tiraram o fôlego do grupo. Destaco ainda a instigante Decide, a "clashniana" Twelve Men e o "hino" Trouble is the Day.
Após mais uma mudança na formação, desta vez, Chris Bashford no lugar de Steve J. Jones, sai o terceiro compacto, Urban Kids/No Flowers. A bolacha apresenta um Chelsea mais maduro e consistente. Entre 79 e 80, com October, Stevenson, Martin, Bashford e Myles o Chelsea viveu seu auge. Nessa época sai o segundo LP, na verdade, uma coletânea com várias músicas dos primeiros compactos e algumas inéditas. Na Inglaterra, o disco foi lançado com o nome Alternative Hits e nos EUA, No Escape. Particularmente, gosto mais deste do que do primeiro, talvez pela diversidade sonora em consequência de ser mais uma coletânea.
Em 1980, depois do cancelamento de uma tour pelos EUA, a banda, mais uma vez se desintegrou. James Stevenson foi para o GenX, enquanto Myles e Martin formaram o obscuro The Smart. Quando tudo levava a crer que o Chelsea acabara, Gene - com a companhia dos guitarristas Nic Austin e Stephen Corfield, do baixista Tim Griffin e do baterista Sol Mintz - manteve o grupo em atividade. Antes de entrar em estúdio para gravar o terceiro (segundo, na verdade) LP, Corfield debandou e Paul Linc assumiu as baquetas. Novamente um quarteto, a banda produziu Evacuate, um disco muito mais trabalho que os anteriores. Um grande disco, pouco valorizado na época de seu lançamento (1982), em que o hardcore predominava de um lado e o pop barato de outro.
Depois deste disco, o grupo manteve-se em atividade até 83, incrivelmente, sem mudanças na formação. Seguiu-se um breve período em que Gene partiu para a carreira solo. Como não conseguiu destaque, retomou o nome Chelsea. Entre 1986 e 1994, o grupo (Gene, na verdade) lançou os apenas medianos álbuns Original Sinners, Rocks Off e Underwraps, cada um com uma formação diferente. Mais um hiato seguiu-se até que em 1999 o grupo (assim como uma centena de outros) voltou à ativa com Gene, Bashford, Stevenson e Myles. Desde então, o Chelsea tem feito turnês esporádicas e lançou alguns CDs com regravações de seus clássicos, até que em 2005 chegou à lojas Faster Cheap and Better Looking o primeiro de inéditas após o retorno. Por sinal, um disco muito bom, ainda que não tão criativo quantoos lançamentos do período 76-84. Essa é a história resumida do Chelsea, a banda, muito melhor que o time e outras Chelseas por aí....
Baixe aqui Chelsea, o primeiro LP e aqui, Alternative Hits (No Escape).

O Chelsea de 82, época de Evacuate

CHELSEA FACTS
  • Nos anos 70, Gene October tentou a carreira de ator. Além de alguns filmes pornôs fez uma pequena ponta em Caravaggio, película com temática gay. Também trabalhou em musicais como Urgh! A Musical War e Jubilee, filme que tem Right to Work na trilha sonora.
  • Em 76, foi Gene quem conveceu o dono do Roxy, até então um clube exclusivamente gay, a abrir as portas para bandas punk.
  • O Chelsea tinha estreitas relações com os membros do The Police, muito devido à amizade com o produtor musical Miles Copeland, irmão de Stewart, baterista da banda de Sting. Este, aliás, chegou a tocar com o Chelsea, em 82, em pequenos shows, quando o grupo ficou sem baixista. Antes, em 79, o Police abriu para o Chelsea em uma rápida turnê pelo Reino Unido.
  • Outra figura conhecida que passou pelo Chelsea foi Topper Headon, o batera do Clash. Ele participou do álbum Underwraps.
  • O guitarrista James Stevenson é um dos membros do Gene Loves Jezebel, banda pop/new wave relativamente bem conhecida e que chegou a fazer sucesso por aqui nos anos 80. Ele também trabalhou com o The Cult e com Beki Bondage, a beldade vocalista do Vice Squad.
  • No Scape, faixa de abertura do segundo LP, é uma música do The Seeds, banda garageira dos anos 60 que muita gente considera como um dos precursores do punk.

14 comentários:

Z disse...

Valeu pela história e facts do Chelsea.Eu sou super fã da banda e deconhecia sua trajetória. Seus primeiros Lps são pérolas do punk rock.

Certa vez ouvi um moleque fã do Green Day dizer que o Chelsea é uma merda, é mole?

Abraço

STRONGOS disse...

Ouvir de alguém que tem conhecimento do que é punk que o Chelsea não é uma boa banda, passa. Mas de fã do GD é foda...
Mas um dia essa molecada vai se tocar que tudo, absoloutamente tudo, que o GD fez não passa de cópia adocicada do que foi feito pelas bandas punks entre 76 e 82.
Saudações anárquicas!

The Hairy Hands disse...

Já disse por aqui que achava o Chelsea medíocre. Pensando bem, talvez tenha pegado um pouco pesado. Tenho o primeiro disco deles e não acho ruim. Apenas acho que falta "pegada".
O grande problema para quem nunca os viu ao vivo (acredito que quase nenhum brasileiro deva ter visto o Chelsea ao vivo no seu auge, assim como outras bandas) é que fica difícil saber se o problema era com as músicas, com a banda, com a produção ou com a gravação/mixagem. Quando ouço o Chelsea em disco, sinto que falta algo (na verdade, acho que falta "muito" desse algo), fato que não ocorre com outras bandas até menos conhecidas da época, como o Bears. Problema similar ocorre com o London e o 999. Mas, enfim, talvez seja apenas uma questão de gosto....

Saudações anárquicas!!!!

Teena in Toronto disse...

Happy blogoversary!

STRONGOS disse...

Hairy, vc pode até não gostar deles, mas não se pode dizer que o Chelsea seja uma banda medíocre (assim como os outros dois que vc cita).Mas tudo bem, temos o direito de não concordar. Isso é saudável. Mas, nem de "I'm on fire"?

Teena, it's welcome! Thank you, hope to see ya here again...

The Hairy Hands disse...

Strongos,

Talvez o aspecto mais interessante do seu blog (e de outros também, mas com o seu isso acontece de modo mais intenso pela qualidade de seus textos) é o interesse que ele me desperta em revisar alguns conceitos que formei ao longo de muito tempo sobre algumas bandas.
Por conta disso, voltei a escutar os discos do Chelsea (o mesmo ocorreu com o Slaughter and the Dogs) que eu tenho, e que não colocava para rodar há muito tempo, além de procurar em blogs por alguns singles que eu não conhecia.
Sobre o Chelsea: realmente a banda não é ruim como eu tinha em mente, mas continuo achando que não merecia muito mais reconhecimento do que teve (tinhas inúmeras bandas melhores do que eles na época).
"I'm On Fire" é o melhor exemplo da falta de pegada a que me refiro. Acho a produção muito leve.
Uma coisa que notei é que o som do Chelsea (e o vocal também) parece muito com o do Carpettes, que é uma banda que eu acho melhor, e que, certamente, aparecerá em algum post futuro do Factor Zero.
De todas as músicas do Chelsea que eu conheço, acho que a melhor é "Years Away", do single Rockin' Horse (acho que é de 1981).

STRONGOS disse...

Hairy, se consegui tudo isso que vc fala já me dou por satisfeito! Mas sei o que vc quer dizer. Eu não comentei no post, mas por um bom tempo torci o nariz para o som do Wire. Só consegi "sentir" o som depois que unm amigo falou que para ele o Pink Flag era o melhor disco e todos os tempos. Aí passei a ouvir com mais atenção e apesar de não conseguir ver tanta coisa, me convenci de que era um ótimo LP...
Acho que Years Away parece música do The Dogs, não? Bom som... Ah, o Carpettes está na "pauta" sim. Com certeza a semelhança dos timbres de voz de Gene October e Neil Thompson é notável....
Valeu aí meu camarada....

PUNKROCKER disse...

Primeiramente as devidas felicitacoes pelo Blog!!
No Escape nao e uma cancao dos SEEDS e so uma versao.O classico dos The Seeds chama-se " pushin' too hard".

PUNKROCKER disse...

Ps- As gigs do CHELSEA ainda hoje no ano de 2009 sao pura energia!!!

PUNKROCKER disse...

Perdao pelo comentario anterior...so queria dizer era mesmo da base,no escape e pushin' too hard tem bases identicas...mas ambas sao sim dos seeds.

STRONGOS disse...

Punkrocker, realmente as duas músicas são muito parecidas - e as duas muito boas!
Valeu pelos comentários e continue frequentando a "casa"....
Saudações anárquicas

Anônimo disse...

nao gostar de chelsea é nao gostar de rock and roll. ouça o terceiro disco, a qualidade é muito boa pruma banda punk. só hino!!!
nao da nem pra comparar com as bandas acimas citadas, q nao tem uma historia no rock.

Anônimo disse...

com exceçao do grande the seeds, outra banda de rock genuíno.

STRONGOS disse...

Pois é camarada... e eu fiquei devendo um post sobre o Sky Saxon, que partiu no mesmo dia que o Michael Jackson. The Seeds é sem comentários. Os caras foram referência para o Stooges. "Só"...
O Hairy tem mesmo um gosto exigente. Mas Chelsea é foda e ponto final.
Saudações anárquicas