06/02/2009

Os roqueiros mais punks de Manchester



SLAUGHTER AND THE DOGS sempre foi uma das minhas bandas favoritas. A primeira música deles que ouvi foi Twist and Turn, por volta de 1979, em uma fitinha gravada por alguém da turma da Carolina. De cara, chapei com a agressividade do som, mas confesso que tambem senti um certo deasconforto, pois na época era um punk radical (acabara de vender todos os meus LPs de rock!) e não pude deixar de notar o estilo com um pé no que chamávamos de "pauleira" na época (hoje tudo é pauleira, até sertanejo!). Mas não, Slaughter era punk, todo mundo sabia disso. Anos mais tarde descobri que a minha dúvida era bastante comum, principalmente na Inglaterra. Na verdade, o Slaughter era mais uma daquelas bandas que já existiam antes de o punk explodir e faziam um som punk sem saber o que era isso. Por isso, adotaram e foram adotados pela molecada dos cabelos arrepiados.
A história do grupo começa por volta de 1974 no subúrbio de Wythenshawe, em Manchester, famoso reduto de skinheads (yes, eles tinham skinheads antes de punks!). A formação original tinha o vocalista Wayne Barret, os guitarrista Mike Rossi e Mike Day, o baterista Eric Grantham, também conhecido por Mad Muffet, e o baixista Zip Bates. Em 75, Mike Day deixa o grupo que permanece como quarteto. Como centenas de bandas da época, o repertório do Slaughter era recheado de covers aceleradas de Velvet Underground, Bowie, T. Rex, etc, e algumas poucas composições próprias.
Aí, em 76, surgem Sex Pistols, Buzzcocks, Clash e cia. Rapidamente o grupo se identifica com aquela agitação toda e passa a tocar no mesmo circuito. No entanto, nas primeiras apresentações para o nascente público punk, apesar do som à altura, não conseguiram agradar, já que ainda tinham cabelos muito longos e algumas poses tradicionais da cena "glitter rock". Arrepiou mais os cabelos da molecada, claro. Mas após verem shows dos chamados "verdadeiros" punks (Sex Pistols, etc) adaptaram o visual. No entanto, jamais abandonaram a veia roqueira e também não conseguiam escrever letras realmente engajadas. O próprio grupo afirmou em diversas entrevistas em fanzines da época que não eram realmente punks, mas uma banda de "high energy rock'n'roll". Com isso, agradavam apenas parcialmente aos punks. Por outro lado, eram completamente ignorados pelos roqueiros, pois eram muito punks!
O paradoxo resultou em péssimas vendas dos três primeiros singles e custou uma completa desilusão dos caras. Em 1978, pouco antes do lançamento do primeiro LP, o clássico Do It Dog Style, a banda acabou. Ironia ou não, depois disso, acabaram sendo reconhecidos. Certamente a boa aceitação de Do It Dog Style contribuiu para isso. Assim, Wayne Barret decidiu reformar o grupo, com o ex-Eater Phil Rowland na bateria. A volta, entretanto, durou pouco e já em 1980, sem Barrett, substituído por Eddie Garrity (primeiro vocalista do seminal Nosebleeds), a banda passa a chamar-se simplesmente Slaughter e assume um visual mais comportado. No mesmo ano lançam o ótimo, mas não tão punk, LP Bite Back. Ainda tocaram por uns dois anos, mas não sobreviveram à segunda onda punk, bem mais radical.
Slaughter and the Dogs não conseguiu o merecido reconhecimento em seu tempo. No entanto, alguns anos depois do final da banda, com o surgimento do crossover HC/metal, muita gente redescobriu o grupo. Um dos pioneiros da cena HC, o GBH, reconhece o Slaughter como uma de suas maiores influências (regravaram Boston Babies).
Em termos de som, o Slaughter é responsável por alguns clássicos do punk setentista. Músicas como Crancked Up Really High e The Bitch soam agressivas até hoje. O hino Where Have All the Bootboys Gone, composto em homenagem aos skinheads de Manchester (antes da merda neonazi ganhar força) possui um dos melhores riffs de sempre. O mesmo pode ser dito de Boston Babies, pra mim, a melhor música deles. Acho que vale a pena buscar a discografia completa. Por enquanto, baixe o CD Punk Singles Collection, que acredito ser bem representativo de todas as fases da banda.
SLAUGHTER FACTS
  • Em 79, após o primeiro fim do grupo, Rossi e Bates, mais Phil Rowland e um certo Billy Duff, formaram o STUDIO SWEETHEARTS, com um som mais pop, embora pesado. Na busca por um vocalista, chegaram a ensaiar com um tal Steve Morrisey, mas decidiram por manterem-se como um quarteto com Rossi dividindo a guitarra e o vocal. O grupo lançou apenas um single (I Believe / It Isn't Me), em 1979.
  • A primeira aparição do Slaughter and the Dogs em vinil foi na histórica coletânea Live at the Roxy, com as faixas Boston Babies e Runaway.
  • Desde a metade da década de 90, Barret e Rossi fazem tours regulares acompanhados por músicos diversos, mas jamais entraram em estúdio para gravar algo novo.

DISCOGRAFIA (em vinil apenas e da época em que a abanda estava em atividade)


Singles

  • Cranked Up Really High / The Bitch (Rabid Records, 1977)
  • Where Have All The Boot Boys Gone? / You’re A Bore (Decca Records, 1977)
  • Dame to Blame / Johnny T (Decca Records, 1977)
  • Quick Joey Small / Come on Back (Decca Records, 1978)
  • It’s Alright / Edgar Allan Poe / Twist and Turn / UFO (TJM, 1979)
  • I Believe / It Isn’t Me (DJM, 1979)
  • You're Ready Now / Runaway (DJM, 1979)
  • East Side of Town / One By One (DJM, 1980)
  • I’m the One / What’s Wrong Boy? / Hell in New York (DJM, 1980)

LPs

  • Do It Dog Style (Decca Records, 1978)
  • Rabid Dog - Live (Rabid Records, 1978)
  • Bite Back (DJM, 1980)
  • Live at the Factory (Thrush, 1981)

11 comentários:

  1. Valeu pelo post! Do It Dog Style é um dos meus discos preferidos.
    O Bite back também é bem legal...

    Abraço

    Z

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  2. Valeu o comentário Z. Continue visitando o FZ, tem muita coisa boa ainda pra ser colocada aqui.
    Saudações anárquicas!

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  3. The Hairy Hands2/08/2009

    Há muitos anos atrás, comprei, sem escutar, um CD com o Rabid Dogs e o Live at the Factory. Conhecia a banda de nome, mas nunca tinha escutado. Quando ouvi, achei uma puta bosta. Um Steppenwolf metido a punk. Acho que depois disso, nunca mais toquei no CD e bani a banda do minha mente. Depois do seu post, que achei muito engraçado porque notei que não fui o único que deu uma esgasgada com o som da banda, resolvi dar uma segunda chance e escutar de novo.
    Mas não teve jeito, com exceção de poucas músicas, continuo achando uma bosta. Nessa linha, prefiro muito mais o Eddie and the Hot Rods ou até mesmo o glam do Slade.

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  4. The Hairy Hands2/08/2009

    Em tempo: Twist and Turn é boa mesmo, lembra um pouco o Damned do começo.

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  5. Hairy, acho que vc começou pelo dsco errado.... Vc já ouviu o Do It Dog Style? Mas tudo bem, gosto é gosto e o som qdo. "não desce", não desce, não é mesmo? Vamos ver se no próximo post agrado mais!
    Mas, pra mim, Slaughter é uma das grandes bandas do punk 76/77.
    Abcs.

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  6. The Hairy Hands2/08/2009

    Quê isso, Strongos, liga não!! Assim como não gosto de Slaughter e algumas outras bandas "punk" (é difícil, senão impossível, delimitar o que é punk e o que não é) deve ter umas trocentas bandas que eu gosto e você deve odiar.
    É que qualquer banda que me lembre, mesmo que remotamente, Doors, Deep Purple ou Steppenwolf me dá calafrios. Deve ser por isso que não gosto de Stranglers e Misfits também (que parecem Doors).

    Se aceitar uma sugestão para um post futuro, aí vai uma: G.G. Allin.

    Saudações anarquistas!!

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  7. Fique tranquilo Hairy, não sou a favor da "democracia", mas sou "democrático". Como eu disse, cada um tem um gosto. Certamente tem muito mais bandas que eu curto que vc e um monte de gente não gostam e vice-versa.
    Em tempo, gosto da primeira fase do Stranglers (até o No More Heroes), mas Misfits acho chato pra caraio. GG Allin tem coisas legais e outras nem tanto (acho que ele forçava um pouco na história de querer ser o sujeito mais punk do mundo), mas era um cara "legal".
    Saudações friend...

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  8. The Hairy Hands2/09/2009

    Lembrei do GG Allin quando li sobre a morte do Lux Interior. Tava pensando sobre quem já tinha subido no telhado e ele me veio à cabeça. Também acho forçação essa história de querer ser o maior punk do mundo (meio da linha do Ozzy Orbourne querer ser o maior anticristo do mundo e dar uma mordida num morcego em pleno palco, hehe). Mas eu gosto do som básico mas bem tocado/bem gravado dele. Enfim, uma sugestão apenas, até porque eu acho que ele é bem desconhecido pelas gerações mais novas.

    Mudando de assunto e sem querer me intrometer demais: você trabalha (em termos de atividade profissional mesmo) com produção de textos?

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  9. Acertou Hairy, eu sou jornalista e tenho mestrado em Comunicação, o que não quer dizer porra nenhuma, mas como vc perguntou...
    Já trabalhei em jornal diário e atualmente trabalho em uma editora de revistas. Sou da área de esportes, mas estou tocando um projeto de turismo. Gosto muito d escrever, quem sabe um dia aprendo....
    Falei?

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  10. The Hairy Hands2/10/2009

    Perguntei isso porque tem me chamado a atenção a qualidade dos seus textos, o que é algo bastante incomum em blogs não-profissionais, ainda mais sobre punk rock.
    Também gosto muito de escrever, mais até pela forma do que pelo conteúdo. Talvez uma influência do Machado de Assis, que fazia um argumento de uma página caber num livro de 200.

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  11. Valeu mesmo Hairy, é sempre bom receber um elogio, ainda mais sabendo que é espontâneo. O ego agradece....
    Abcos

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