06/01/2009

Revolução dentro da revolução


Yes that’s right, punk is dead,
it’s just another cheap product for the consumer’s head
Bubblegum rock on plastic transistors,
schoolboy sedition backed by big time promoters
CBS promote the Clash,
but it ain’t for revolution, it’s just for cash
Punk became a fashion just like hippy used to be
and it ain’t got a thing to do with you or me
Movements are systems and systems kill
Movements are expressions of the public will
Punk became a movement cos we all felt lost,
but the leaders sold out and now we all pay the cost
Punk narcisism was a social napalm,
Steve Jones started doing real harm
Preaching revolution, anarchy and change
As he sucked from the system that had given him his name
Well, I’m tired of looking through shit stained glass,
tired of staring up a superstar’s arse,
I’ve got an arse and crap and a name,
I’m just waiting for my fifteen minutes fame
Steve Jones you’re napalm,
if you’re so pretty why do you smarm?
Patti Smith, you’re napalm,
you write with you’re hand but it’s Rimbaud’s arm
And me, yes, I, do I want to burn?
Is there something I can learn?
Do I need a business man to promote my angle?
Can I resist the carrots that fame and fortune dangle?
I see the velvet zippies in their bondage gear,
the social elite with safetypins in their ear,
I watch and understand that it don’t mean a thing,
the scorpions might attack, but the system’s stole the sting
PUNK IS DEAD
PUNK IS DEAD
PUNK IS DEAD


A letra acima é de uma das músicas do LP The Feeding of the 5.000 do CRASS, a primeira banda anarco-punk do mundo. Ela traduz o sentimento que levou o grupo fundado por Steve Ignorant (Steve Williams) e Penny Rimbaud (Jerry Ratter), em 1977, a radicalizar e mudar totalmente os rumos do punk rock inglês. Como 99% das bandas da época o CRASS começou com a mensagem deflagrada pelos ícones punks de 76/77. Steve era um grande fã do Clash. Mas não demorou muito para perceberem que as coisas não eram bem assim. Depois do turbilhão e de toda a agitação da mídia, os próprios propagadores da revolução começavam a seguir a trilha cavada pelas estrelas do rock que tanto criticaram. As palavras proferidas no palco eram esquecidas nas ruas. O Crass não só era contra isso, como passou a vivenciar a mensagem libertária que os ícones da primeira onda punk lançaram mas não colocaram em prática.
Muito mais que um grupo musical, o Crass era um conceito e pode ser considerado a pedra fundamental do punk como é conhecido hoje. Os primeiros passos do grupo foram dados com Rimbaud, um dos membros fundadores da Dial House, um squat situado em Essex, sudeste da Inglaterra, e Steve, frequentador do local, que começaram a fazer músicas apenas com vocal e bateria. Os ensaios da dupla, obviamente abertos a todos, sempre acabavam com a participação de muita gente e em grandes bebedeiras. Aos poucos alguns componentes tornaram-se fixos e a formação se consolidou com as vocalistas Joy De Vivre e Eve Libertine (além de Steve), o baixista Pete Wright, os guitarristas N. A. Palmer e Steve Herman (logo substituído por Phil Free) e Rimbaud na bateria. Depois que o grupo começou a levar-se mais a sério, também tiveram papel fundamental o artista gráfico Gee Vaucher, que ocasionalmente ainda assumia os teclados, mais o cinegrafista e videomaker Mick Duffield. O engenheiro de som, John Loder, também era considerado um membro do grupo.
As primeiras apresentações eram puro caos e ninguém tocava porra nenhuma. Nessa época fizeram alguns shows com o UK Subs, aos quais Eve Libertine costuma lembrar como apresentações em que “o público dos Subs era o Crass e o do Crass, os Subs”.
Mas foi uma apresentação no lendário Roxy Club que começou a mudar os rumos da banda. Completamente chapados e sem condições de tocar, além da atitude anticomercial, acabaram expulsos do palco. Após o incidente decidiram levar-se mais a sério. Começava aí a nascer o anarco-punk. Adotaram o negro como cor única das roupas e criaram um logo que passaram a usar em grandes banners feitos à mão. Mas o principal é que se aprofundaram na ideologia política e decidiram romper de vez com os estereótipos do mundo do rock’n’roll. Tomaram o conceito faça você mesmo ao pé da letra, passaram a produzir seus próprios discos e organizar shows beneficentes, nos quais distribuíam panfletos em que divulgavam suas idéias e ideais. Criaram um símbolo próprio, mas também podem ser considerados como responsáveis pela popularização do A dentro do círculo, que antes de eles divulgarem em pixações e panfletos aparecia apenas em alguns pouco livros anarquistas. Em pouco tempo o A tomou conta da cena punk e tornou-se o principal símbolo do “movimento”.
Enquanto os primeiros punks tinham anarquia como sinônimo de caos, o Crass a considerava como um ideal político, mas a forma de luta para atingi-lo era a resistência pacífica. A única arma que admitiam era a arte, traduzida por música, poesia, grafismos e filmes. Contraditoriamente, pregavam a paz através de música agressiva. O primeiro LP, The Feeding of 5.000, de 1978, já saiu com uma polêmica e foi um cartão de apresentação da banda à Scotland Yard. O motivo? A letra de Asylum, considerada uma blasfêmia:

I am no feeble Christ not me/ He hangs in glib delight upon his cross, above my body/ Christ forgive/ FORGIVE? I vomit for you Jesu/ Shit forgive/ Down now from your cross/ Down now from your papal heights, from that churlish suicide, petulant child/ Down from those pious heights, royal flag bearer, goat, billy/ I vomit for you/ Forgive? Shit he forgives/ He hangs in crucified delight nailed to the extend of his vision, his cross, his manhood, violence, guilt, sin/ He would nail my body upon his cross, suicide visionary, death reveller, rake, rapist, lifefucker, Jesu, earthmover, Christus, gravedigger, you dug the pits of Auschwitz, the soil of Treblinka is your guilt, your sin, master, master of gore, enigma/ You carry the standard of your oppression/ Enola is your gaiety/ The bodies of Hiroshima are your delight the nails are your only trinity, hold them in your corpsey gracelessness, the image I have had to suffer/ The cross is the virgin body of womenhood that you defile/ You nail yourself to your own sin/ Lamearse Jesus calls me sister there are no words for my contempt, every woman is a cross in is filthy theology, in his arrogant delight/ He turns his back upon me in his fear, he dare not face me/ Fearfucker/ Share nothing you Christ, sterile, impotent, fucklove prophet of death/ You are the ultimate pornography, in your cuntfear, cockfear, manfear, womanfear, unfair, warfare, warfare, warfare, warfare, warfare, warfare, warfare, warfare/ JESUS DIED FOR IS OWN SINS, NOT MINE.

O fato é que a empresa encarregada de prensar os discos, que seria lançado pela independente Small Wonder Records, recusou-se a fazê-lo com tal letra. A solução encontrada pela banda foi fazer o disco com uma faixa de dois minutos de silêncio, a que deram o título The Sound of the Free Speech. Além disso, decidiram fundar a Crass Records para lançar seus próprios discos. O primeiro, obviamente, um single com a polêmica Asylum e Shaved Woman. Mais tarde, relançaram Feeding.... com a dita cuja em lugar do silêncio. Não demorou a surgirem os problemas. Protestos de entidades conservadoras levaram a polícia e outros órgãos responsáveis pela moralidade pública a recolherem o compacto das lojas e a iniciar uma sistemática perseguição aos membros do grupo, que persiste até hoje (!).
Em 1979 lançaram o segundo LP, Stations of the Crass, que se tornaria o disco mais vendido deles e que daria condições ao grupo de realizar inúmeras ações políticas além de poderem colocar em prática o projeto de lançar outros grupos que compartilhassem a ideologia anarquista. Ou seja, o Crass cresceu, a idéia que à primeira vista parecia quixotesca começava a adquirir proporções gigantescas e realmente a incomodar, inclusive a imprensa do Reino Unido, um dos alvos constantes da banda. Apesar de não dar para analisar o Crass em termos unicamente musicais, Stations... é um grande disco, uma tijolada. Não é música convencional, não é agradável em nenhum sentido e incomoda. Como deve ser um disco punk.
O terceiro LP, Penis Envy, de 1981, foi uma resposta às críticas de que eram machistas. O que, absolutamente, não precedia. Na bolacha, apenas as vocalistas Joy e Eve cantam, enquanto Steve aparece nos créditos como elemento, mas não participante da obra, um verdadeiro manifesto feminista, mas sem deixar de lado outras instituições repressoras da individualidade e da sexualidade. Musicalmente também o grupo passou a colocar elementos dadaístas, já presentes na arte gráfica e nos filmes que apresentavam em telões nos shows. Ainda punk, mas cada vez menos rock.
Pouco mais de um ano após Penis Envy, saiu o duplo Christ, the Album. No entanto, a idéia de fazer um trabalho mais conceitual, um pouco mais elaborado que os anteriores, mostrou-se um erro. Christ levou um ano todo para ser gravado, período durante o qual começou e terminou a Guerra das Malvinas. Quando chegou às lojas, as mensagens do álbum soaram redundantes ante a uma outra realidade. Como bons libertários, assumiram que foi uma grande cagada ter demorado tanto na produção. Sentiram-se tartarugas correndo contra coelhos. Mais que isso, repensaram as novas estratégias adotadas e tentaram retomar o estilo dos primeiros anos, o que pode ser constatado nos compactos How does it feel to be the mother of a thousand dead e Sheep farming in the Falklands e no quinto LP, Yes Sir, I Will, todos vigorosos ataques a Thatcher e os responsáveis pela Guerra das Malvinas.
Estes discos motivaram uma perseguição pesada por parte do partido de Thatcher. Mas o encarregado de comandar a contra ofensiva, um tal de Tim Eggar, acabou ridicularizado pela banda em um programa de rádio ao vivo, no qual provaram, que ele era um completo idiota, que mal sabia do que se tratava as ações da banda. Depois disso o partido de Miss Thatcher recomendou que se ignorasse as ações do grupo para evitar novas saias justas.
1983 e 84 foram os anos politicamente mais agitados para o Crass, mas não por conta de nenhum disco e sim a uma fita sem uma nota musical sequer. Com um bom estúdio nas mãos, montaram uma fita com conversas comprometedoras entre Margareth Thatcher e Ronald Reagan. A fita, enviada anonimamente às redações da grande imprensa mundial, ficou conhecida como Thatchergate. Veja a transcrição da montagem:
Thatcher: ......own business!
Reagan: I urge restraint. It's absolutely essential or the area 'be "through the roof".
T: Look, our objectives are fundamentally different. Al Haig...
R: ....Secretary Haig....
T: ....doesn't seem to be able to find a solution.
R: Why eliminate "Belgrano"? You directed this. The Argentinians were then going.... Secretary Haig reached an agreement.
T: Argentina was the invader! Force has been used. It's been used now, punishing them as quickly as possible.
R: Oh, God, it's not right! You caused the "Sheffield" to have been hit. Those missiles we followed on screens. You must have too, and not let them know. What do you hope to gain?
T: What I said before -"Andrew"- ....As "cruise" go in, I want incentives at all levels....
R: There's a deal....a third more submarine ballistic missiles, and you will see that the United States forces remain deployed. The intermediate range missiles are U.S. defence. You proposed building them in Europe. Build up the economy. They don't work, they're social programmes.... The United Kingdom is a....er....little nation....
T: You still need those nations, and you're given long term international markets.
R: We are supported by our allies, whether they want, or not.
T: I, I don't understand you....
R: In conflict, we will launch missiles on allies for effective limitation of the Soviet Union.
T: 'mean over Germany?
R: Mrs Thatcher, if any country of ours endangered the position, we might bomb the "problem area", and correct the imbalance.
T: See, my....
R: It will convince the Soviets to listen. We demonstate our strength....The Soviets have little incentive to launch an attack. T: Our British people....
R: London! ....
T: I think....
R: Let that be understood...


O bizarro de tudo é que a CIA e a Scotland Yard analisaram o artefato e não demoraram a descobrir que era uma montagem, mas sem saber quem eram os “terroristas” que haviam feito o trabalho, não hesitaram em atribuir a autoria à KGB (ainda se vivia a Guerra Fria). Mas jornalistas do diário inglês The Observer, não se sabe como, foram mais espertos que a polícia e descobriram a verdade, que acabou ridicularizando a todos os envolvidos. Mais uma vez, a banda mostrava quanto eram imbecis os governantes. O incidente colocou os membros do Crass na grande mídia. Nenhum disco, nenhuma outra ação (e foram muitas ao longo dos sete anos de existência da banda) chamara tanto a atenção da sociedade. Mas o xis da questão não era discutido, todos queriam saber quem eram aqueles malucos, não o que eles denunciavam com suas ações. Sempre autocríticos, começaram a bater as dúvidas sobre a validade do que faziam. Afinal, tinham conseguido chamar a atenção, mas não para sua causa e sim para o Crass, o “grupo de rock Crass”. Sentiam-se como grandes estrelas de um espetáculo que criticavam. As contradições naturais da ideologia e do modo de vida e ação adotados por eles afloravam. E, como previram no início, acabariam se dissolvendo em 1984, ano do título do livro de George Orwell, um dos inspiradores do grupo. Chegava ao fim uma batalha de sete anos, mas o punk já não era mais o mesmo.
Apesar de longo, esse post é apenas uma introdução ao que foi o Crass. Vale a pena procurar saber mais sobre o grupo. O livro The Story of Crass, de George Berger (Omnibus Press) é o mais indicado. Infelizmente, somente importado. Mas uma busca na internet sobre a banda e sobre o anarco-punk leva a páginas interessantes, como uma entrevista ao fanzine No Class http://www.noclass.co.uk/crassinterview.html, de 1982 ou 83, eu acho.
Enquanto isso, curta os dois primeiros LP e os compactos. Baixe The Feeding of 5.000, Stations of the Crass e um arquivo em que reuni os singles do Crass.


CRASS FACTS
  • O primeiro nome da banda, ainda embrionária, foi Stormtrooper. O nome Crass foi tirado da música Ziggy Stardust, de David Bowie (The kids was just crass....).
  • Como usavam pouquíssima iluminação, o que dificultava fazer fotos e filmes das apresentações do grupo, não há muitas imagens dos shows do Crass disponíveis.
  • Em 1979 apresentaram-se no festival Rock Against the Racism e receberam um cachê polpudo. Recusaram e pediram para os organizadores usarem a verba para a causa. Mas a organização explicou que o dinheiro arrecadado era para as bandas, a “causa” era apenas um pretexto e restringia-se ao palco. Nunca mais voltaram, claro.
  • Uma das ações mais interessantes do grupo aconteceu em 1983, quando conseguiram que funcionários da Rough Trade, simpatizantes da causa, distribuíssem 20.000 flexi discs com a música Sheep Farming in the Falklands dentro de discos mais comerciais. Assim, pessoas que normalmente não ouviriam o Crass poderiam conhecer pelo menos uma música e algumas idéias do grupo.
  • Um dos lançamentos da Crass Records foi o grupo islandês Kukl, que tinha como vocalista uma tal de Björk.
  • O grupo participou ativamente do movimento “Stop the City”, em 83 e 84. Trataram-se de ações do Greenpeace, na época ainda não tão famoso e muito mais radical, que pretendiam parar Londres por 24 horas para realizar protestos contra atos do governo inglês e norte-americano. Estes movimentos são considerados precursores dos atos antiglobalização.
  • Após o final da banda, Steve Ignorant juntou-se ao Conflict, uma das melhores bandas hardcore dos anos 80. Depois formou o Schwartzeneggar e também participou do Stratford Mercenaires. Eve Libertine gravou alguns discos ao lado de seu filho, o guitarrista Nemo Jones, e realiza performances sob o nome A-Soma. Pete Wright fundou um grupo de performances artísticas chamado Judas 2. Rimbaud ainda compõe e apresenta-se como artista solo e faz colaborações, a maioria, com músicos de jazz. Palmer, o primeiro a deixar o grupo em 84, retomou os estudos e saiu de cena. John Loder manteve o Southern Studio em atividade e morreu em 2005, em consequência de um tumor cerebral. Os demais membros, não consegui saber por onde andam, se alguém souber fique à vontade para comentar.


2 comentários:

valdbass disse...

E ai strongos, maravilha você ter feito este zine na net, vou fazer o mesmo com o 1999, abraço, .......:.:.VAL.:.:.......

STRONGOS disse...

Vc é o Val baixista do Cólera, certo?
Blz aí? Como vão as coisas? Viu a entrevista com o Redson? Podemos aumentá-la? E o Crispim, como está? E a sua mana?
Abção...