29/10/2008

Mais molecagem

A Bélgica não é um país muito conceituado em termos de rock'n'roll, apesar da proximidade com Londres e o acesso a a informação. Mas foi em Antuérpia que surgiu uma das primeira bandas punk da Europa: THE KIDS. A gênese da banda é o Underground Station, primeiro grupo do guitarrista e vocalista Ludo Mariman, que acabou em 1975 após um único show. Logo depois, Ludo conheceu o baixista Danny De Haes, que tocava no Crash, uma banda de garagem. Ludo entrou para o grupo, que passou a ter cinco integrantes, mas logo tornou-se um trio, com a saída do vocalista e do guitarrista. Assim, em 1976, com Ludo (vocais e guitarra) e os irmãos Danny (baixo) e Eddy De Haes (bateria), todos operários de companhias das docas no porto de Antuérpia, começava a nascer um dos mais autênticos grupos da primeira leva do punk europeu.
Ludo, o "cabeça" da banda, conta como o Kids assumiu a identidade punk: "In 1976 we were together in a band called Crash. None of us could really play. We just hammered away, hard and fast, sounding like a really bad Velvet Underground. When the first news of the punk explosion in Britain started to come through, I went to London. I wanted to know what was going on over there, and if these guys had the seem feelings of anger I had. I remember the shivers down my spine seeing Eddie & The Hot Rods. I also saw the Ramones and then I knew we had that same music within us. Technically we could handle it, because you don't have to master the instruments to play punk music".
Em resumo, como muitas bandas garageiras da época, eram punks antes mesmo do termo existir. Isso é facilmente constatado no som deles, um rock'n'roll cru, agressivo e rápido. Básico ao extremo. Punk. Após uma viagem de Ludo a Londres eles mudaram o nome para The Kids e, em 9 de outubro de 1976, estrearam em Kapellen, cidade próxima a Antuérpia, com um set de pouco mais de meia hora, composto por covers de Ramones, Velvet Underground, Stooges e umas quatro ou cinco composições próprias. Pouco depois fizeram um show em sua cidade natal e um produtor, chamado Alain Ragheno, com boas relações com a Phonogram belga, gostou do que ouviu e propôs produzir a banda.
No entanto, o primeiro LP, The Kids, saiu apenas em 1978. Nesse meio tempo abriram shows de Iggy Pop e Patti Smith, e firmaram-se como a banda mais suja da Bélgica. No Youtube rola uma imperdível aparição deles em um programa de TV da época (http://br.youtube.com/watch?v=2MBsfnL3HLs). Após o lançamento de The Kids, o guitarrista Luc Van De Poel reforçou o grupo, que ainda em 78, lançou seu segundo LP, chamado Naughty Kids. Depois deste LP, Danny foi para o exército e as baquetas passaram para Cesar Janssen, mais experiente. A essa altura o grupo já começava a vislumbrar outros horizontes em termos musicais, uma vez que habiam aprendido a tocar e podiam gastar um pouco mais na produção. Com isso, o terceiro LP, Living im 20th Century, já surgiu com um som mais polido e trabalhado. Conseguiram boas vendas e até chegaram a ter duas músicas bem executadas nas rádios belgas (Dancing e There will be no next time). Depois vieram os LPs Black Out (1981), If The Kids... (1982) e Gotcha! (1985). Todos com um som mais pop. Após o lançamento do quinto LP, o The Kids ficou inativo até 96, quando Ludo e Luc reformaram a banda com Pieter Van Buyten no baixo e Frankie Saenen na bateria. Nessa época participaram da trilha sonora do fime Dief! (Thief), dirigido por Mark Punt. Permanecem em atividade até hoje, mas apenas para fazer shows.
Baixe o CD The Kids 30th Anniversary Issue com os dois primeiros LPs e mais o compacto The City is Dead (1978). Surpreendente.

KIDS FACTS
  • Ludo Mariman seguiu carreira solo entre 1986 e 95, com alguns hits em seu país, mas sem o mesmo impacto do Kids. Talvez isso o tenha motivado a reformar banda?
  • O THE KIDS foi muito amigo de outra banda pioneira na Bélgica, o HUBBLE BUBBLE, de Bruxelas, que tinha uma pequena cena com grupos como CHAINSAW, MAD VIRGINS e X-PULSION.
  • A letra de Sex Queen, música do segundo LP, conta a história de uma prostituta da zona portuária de Antuérpia. Ludo era freguês da homenageada.
  • O primeiro "grande" show do KIDS foi em setembro de 77, quando abriram para Iggy Pop, em Antuérpia, com mais de mil pessoas na platéia.
  • O filme Dief!, que impulsionou o retorno da banda, é baseado na autobiografia de um ladrão barato, que tem a vida destruída pelo sistema prisional. Como é uma produção independente não tem versão legendada em português...


28/10/2008

Ecos dos primeiros gritos suburbanos

Depois de meio ano no ar, finalmente, o FZ publica sua primeira entrevista na era digital. O entrevistado é Ariel, vocalista do RESTOS DE NADA, grupo que não tenho receio de dizer tratar-se do pioneiro do punk rock brasileiro. Particularmente, acho que foi a grande banda brasileira de todos os tempos. Ainda hoje ecoa na minha cabeça a galera completando a frase "Temos de derrubar.... a classe dominante/Temos de liquidar.... a classe dominante"! Desequilíbrio (música dos Condutores, mas que ficou famosa com eles) é outro clássico, assim como Ninguém é meu igual. "Tenho medo de olhar nas latas de lixo/ Pois dentro de uma delas eu posso me encontrar", versos de Deixem-me Viver, ainda me fazem pensar sobre minha reles condição humana. Existencialismo puro.
Boas músicas, letras engajadas e atitude. Com vocês, Restos de Nada.

FZ - É verdade que quando começaram ainda não sabiam o que era punk rock, mesmo fazendo um som que poderia ser rotulado como tal?
ARIEL - É verdade, pois quando começou a rolar uma cena de rock na Vila Carolina, ainda não havia chegado o punk rock. Mas por outro lado o que nos influenciou foi o rock de bandas como Alice Cooper, MC5, The Stooges e New York Dolls, que já eram referência do que viria a seguir e nós por aqui também começamos a fazer um som influenciado por essa safra maldita do rock’n’roll. Portanto éramos punks e não sabíamos, mas desconfiávamos que o que viria a seguir seria nessa mesma linhagem.

FZ – Por que o nome? Quem criou?
ARIEL - O nome veio de uma música do Clemente que tinha esse título. Antes do Restos de Nada, ele e o Douglas já tinham se iniciado no rock’n’roll com uma banda chamada Organus, que tinha essa música em seu repertório.

FZ - As letras do RDN são bem politizadas, com uma tendência ao socialismo. A banda era comunista? Tinham ligação com algum partido ou associação política?
ARIEL - Bem, no começo acho que as letras tendiam mais ao existencialismo, depois da saída do Clemente, em 1979, eu, o Douglas e a Irene, que havia assumido o baixo, entramos numa organização trotskista, chamada OSI, que lutava pela IV Internacional dos Trabalhadores e conhecemos a história das revoluções socialistas. Na época militávamos pela reconstrução da UNE e UMES, entidades estudantis, e dentro das fábricas por sindicatos livres. Levávamos todo esse conhecimento revolucionário para as ruas, pois vivíamos em uma ditadura militar que proibia qualquer manifestação subversiva e o Movimento Punk estava se aproximando dessas tendências revolucionárias, então chegamos a fazer muita coisa, interagindo nessas duas frentes. A banda serviu pra difundir essa mensagem de luta e rebeldia. Após isso, abandonamos essa forma de luta socialista e depois de muitas decepções adotamos um pensamento libertário.

FZ – Naquela época não havia muitos lugares para uma banda de punk (ou mesmo de rock) tocar. Como foram os primeiros shows?
ARIEL - O primeiro show punk em São Paulo, rolou em um porão de uma padaria abandonada na Zona Leste de São Paulo, onde tocaram Restos de Nada e AI-5. Depois disso rolou um som na Zona Norte, num salão de rock chamado Construção e em Sociedades Amigos de Bairro. Chegamos a fazer shows até em cima de caminhões, com “gatos” puxados de postes. Em praças públicas, com palcos montados com restos de madeiras. Foi muito foda fazer som punk naquela época. Tínhamos que carregar aparelhagem e instrumentos em ônibus, a polícia chegava e acabava com o som e por aí vai...

FZ - Vocês sofreram com a repressão política? Afinal, o Brasil vivia ainda sob a ditadura militar....
ARIEL - Sofremos muito, pois não conseguíamos mostrar nossa identidade cultural sem sermos molestados, não podíamos andar de visual que éramos parados e humilhados. Nossas letras e músicas eram censuradas. Corríamos o risco de desaparecer nos porões da ditadura, o que quase aconteceu. Éramos punks e militantes revolucionários, tínhamos muito material subversivo em mãos, portanto um perigo à sociedade.

FZ - A letra de "Direito à Preguiça" é inspirada no livro homônimo de Paul Lafargne? Ou é mera coincidência?
ARIEL - Sim, é baseada no livro do Paul Lafargne. Conhecemos o livro através da Neli, que por sinal é a autora da letra, irmã do Douglas e quem nos levou à organização trotskista. As idéias anarquistas do autor nos levaram a várias conclusões sobre o pensamento libertário que irritava os socialistas, inclusive, o próprio Paul era desafeto de Marx, de quem era genro.

FZ – Por que o Clemente deixou a banda? Aliás, por que o grupo parou?
ARIEL - O Clemente não gostava muito do nosso envolvimento com o movimento revolucionário, estava mais preocupado em sair com o pessoal, encher a cara e brigar, vivia dizendo que não estávamos envolvidos com a cena, o que não era verdade, pois fazíamos as paradas acontecer. Onde não havia condições, arranjávamos e procurávamos reunir todo o pessoal que tinha banda ou vontade de fazer alguma coisa.
Após sair do Restos ele entrou no Condutores de Cadáver e todo mundo já conhece a história. O Restos de Nada não parou totalmente, mudou de nome para Desequilíbrio, o que acho que foi errado, deveríamos ter continuado com o nome que tínhamos adotado.

FZ - A Irene foi a primeira mina a tocar numa banda punk nacional, como isso aconteceu e como vocês viam isso?
ARIEL - Nunca na verdade nos preocupamos com isso. A banda já tinha um diferencial desde o começo, pois era metade negra e metade branca e não era grupo de pagode (rsrs). Veja bem, uma banda de punk rock com dois negros, depois uma mina tocando baixo e depois um japonês era de assustar qualquer um, concordo, mas não a nós. Com a saída do Clemente, a Irene assumiu o baixo e durou pouco tempo até aparecer o Keiji.

FZ - Como nasceu a idéia de gravar um LP após tanto tempo parados (80 a 87)?
ARIEL - A idéia era registrar algumas músicas que tínhamos apenas tocado, pois era muito difícil conseguir uma gravação decente na época e também para não deixar um material, modéstia à parte, muito precioso se perder apenas nas lembranças de quem viu a banda ao vivo na época.

FZ - E a volta atual, quando começou a ser arquitetada?
ARIEL - No ano de 2001, resolvemos fazer um festival que comemorasse os 25 anos de punk rock pelo mundo e reunimos as produções musicais atuais e do passado, com 54 bandas apenas da Capital e redondezas. Então resolvemos lançar um CD com uma gravação que tínhamos feito em 1980, num terreno baldio na Vila Carolina, para comemorar o evento e gravar quatro sons da época que não foram para o vinil de 87. Aí pensamos: por que não aproveitar e fazer alguns shows? Mesmo porque muita gente pedia. Fizemos o festival e foi simplesmente mágico.

FZ - Vocês acham que ainda tem validade a mensagem dos anos 70?
ARIEL -As músicas têm sim uma atualidade que até assusta. Você pega uma música como Deixem-me Viver, que fala de solidão e autodestruição e vê que o número de adolescentes que fazem uso de anti-depressivos aumentou consideravelmente nesses anos todos, aumentando também os suicídios. É triste, mas é a realidade.

FZ - Como percebem a reação do público atual? Que comparação dá para fazer entre os dois públicos?
ARIEL - O público de hoje conhece todas as músicas, acompanha tudo o que sai da banda, tem um respeito enorme pela história, compra material e sempre está presente quando a banda toca. A comparação com o público do passado é que éramos iguais aos caras que estavam na platéia e muitos não admitiam que aqueles caras que estavam do lado subissem no palco e tocassem como os seus ídolos estrangeiros. Tudo era novidade e surpresa em 77, portanto não dá pra ficar cobrando muito. Mas sempre tinha uns amigos que davam uma força.

FZ - Não temem que esse retorno possa ser visto como oportunismo?
ARIEL - De jeito nenhum, pois nunca nos preocupamos com isso e hoje tocamos apenas para divulgar nossa mensagem que continua atualíssima e necessária. Não estamos aqui por saudosismo, por fama ou dinheiro, portanto, oportunismo passa longe. Afinal somos apenas Restos de Nada (rsrs).

FZ - Pretendem fazer músicas novas?
ARIEL - Não pretendemos fazer músicas novas. O que tínhamos que fazer ficou registrado, finalmente, e a banda não veio para continuar, apenas para resgatar mais um pouco da história que não foi contada como se deveria, então achamos melhor voltarmos pra dizer por nós mesmos.

FZ - Quem está na formação atual? Onde estão os ex-integrantes?
ARIEL - Na formação atual contamos com Douglas na guitarra, Ariel no vocal, Luiz no baixo e Douglinhas na bateria. Bem, da primeira formação, o Douglas está terminando um curso de música numa faculdade e dando aulas de guitarra. O Clemente está com o Inocentes e, de uns tempos para cá, com a Plebe Rude. O Charles desencanou da música e toma conta de uma ONG na Zona Sul e eu continuo no punk rock com a banda Invasores de Cérebros.
Se me permite um merchand, estamos com um DVD gravado no Hangar 110 que traz todas as músicas compostas pelo Restos, mais três músicas de bônus, que são: I’m Eighteen, de Alice Cooper; 1969, dos Stooges e Ramblin’ Rose, do MC5.
Espero que o Punk Rock continue influenciando gerações a dizer não.

Baixe aqui o LP RESTOS DE NADA, de 1987 (ripado do vinil)

27/10/2008

Raízes Germânicas parte 2


Die muzik is tot - es lebe der punk!!! A frase pode ser traduzida por "a música está morta - está vivo o Punk". Era com estas palavras que o vocalista Baron Adolf Kaiser costumava abrir os primeiros shows do BIG BALLS & THE GREAT WHITE IDIOT, muito provavelmente a primeira banda punk, na acepção do termo, da Alemanha. O grupo foi criado em 1975, bastante influenciado por Stooges, MC5 e New York Dolls, mas depois que viram o furacão Sex Pistols, em 76, radicalizaram de vez a postura, que já era bastante agressiva.
A formação original, além de Adolf, tinha o guitarrista Wolfgang Lorenz e os irmãos Grund: Peter, Alfred e Atli, respectivamente, baterista, baixista e guitarrista. A conotação nazista do nome do vocalista não é mera coincidência. Politicamente incorretos, a intenção dos BIG BALLS era confrontar a sociedade germânica da época. O que pode ser facilmente percebido pelas letras do grupo. Para dar uma pequena idéia, o título de uma das músicas do primeiro LP é (I'm singing to you) with my fingers in your ass. Sinceramente, não creio que eles fossem nazistas militantes, tratava-se mesmo de provocação, que nos shows era levada ao extremo com a banda chamando a platéia para a briga e gritando para que todos fossem para casa. Eram tão sujos ao vivo, que em uma resenha, o fanzine Punk News descreveu a apresentação como "medíocre e feia". Era o que queriam. Caos, anarquia, rebelião, rock'n'roll. Punk Rock!
O primeiro LP, todo em inglês, com o nome da banda, foi lançado em 77 e além de 14 músicas próprias, contava com uma versão de Anarchy in the UK (Anarchy in Germany), Search and Destroy (Stooges) e White Light, White Heat (Velvet Underground). O segundo LP, Foolish Guys, lançado em 78 já mostra uma banda mais polida, experimental e comercial. Foi o primeiro de uma série de ábuns que afastou a banda de suas raízes punks. Depois destes dois discos, o BIG BALLS ainda lançaria outros quatro LPs: Artikel 1 Dignity of man, Creepy shades, In search for love e The big waltz (este, na verdade uma trilha sonora). A partir dos anos 80, o grupo passou a flertar com teatro e outras formas de arte. Nunca abandonaram o sarcasmo e o humor satírico dos primeiros tempos, mas distanciaram-se do que se tornou o punk rock.
Baixe aqui o incrível primeiro LP do BIG BALLS & THE GREAT WHITE IDIOT

BIG BALLS Facts
  • A banda foi fundada, de fato, pelos irmãos Grund. Apesar de chamar muito a atenção, Baron Adolf Kaiser participou apenas do primeiro LP. No segundo, o grupo já era um quarteto, com Alfred nos vocais.
  • Os dois primeiros LPs foram lançados pelo selo Teldec, associado à Decca Records. Os demais discos saíram pelo selo Balls Records, de propriedade da banda.
  • No teatro, participaram da montagem de peças como Medéia, de Eurípedes, que recebeu diversos prêmios na Alemanha. Mas o grande passo nessa área foi quando fundaram uma companhia independente, chamada Babylon, junto com a diretora Barbara Bilabel, bastante conhecida por lá.
  • No início dos anos 90 eles voltaram-se de novo para o mundo da música e construíram seu próprio estúdio, em Hamburgo, e reativaram o selo Balls Records. Entre os artistas que produziram, o D-Base 5, um grupo de crossover, foi o que mais se destacou.
  • Em 97, fizeram a trilha sonora do filme Die Mutter des Killers (The Killer's Mothers), que alcançou relativo sucesso nos cinemas e na TV germânica.
  • O grupo permanece em atividade.

25/10/2008

A volta dos mortos vivos

Já há alguns anos, principalmente depois que o Green Day e outras bandas pseudo punks assolaram as paradas de sucesso, vários grupos resolveram "voltar". Desde mais famosos como Sex Pistols e Buzzcocks até menos conhecidos como No Alternative, Avengers, etc. São muitas para mencionar aqui e a discussão não é sobre quais bandas "renasceram".
Antes de continuar quero esclarecer que o próprio Factor Zero pode ser acusado de aproveitar-se do novo status do punk para, digamos, ficar famoso (não ficou e dificilmente ficará). Mas existe diferenças: não voltou para ganhar dinheiro. Na verdade, apenas resgatei um nome que eu mesmo criei e que acho apropriado para o tipo de blog que me propuz a fazer nas horas vagas. O nome original deste blog seria "Sounds of the Suburbs", mas já existe algo parecido no ar...
Voltando ao assunto. Como deixei a entender no comentário do post sobre Paul Fox, não sou muito a favor destes retornos ou "reuniões". Somos livres para fazermos o que bem entendermos. Sou fanático pelo som das bandas punks dos anos 70 e 80, mas tenho comigo que aquele foi um momento único, assim como é o momento atual (que, na verdade, nem sei o que rola em termos de som novo).
Claro que há retornos e retornos. Algumas bandas voltaram e gravaram coisas novas, originais (Buzzcocks e Radio Birdman, por exemplo) que, se é bom ou ruim, não vem ao caso. Algumas voltaram com todos os membros originais, embra apenas tocando as mesmas músicas, como os Sex Pistols. Outras com um ou dois membros da formação antiga. Dou um desconto apenas para aqueles que "retomaram" a carreira e gravam algo novo. Para os demais, acho até uma certa falta de respeito para com eles mesmos. Mas minha crítica não é por isso e sim porque visam apenas o lucro. Com isso, esvaziam um discurso que construiu toda essa coisa chamada punk, que bem ou mal revolucionou a música e até os costumes.
Que sentido tem você cantar uma música contra a opressão de um sistema desigual se faz isso para alimentar esse mesmo sistema?
Opinem, por favor.

24/10/2008

Raízes germânicas

No final dos anos 60 e início dos 70, a Europa fervia com os movimentos estudantis. Havia o pessoal do flower power, contestador e pacifista. Mas havia também vários grupos radicais e mais politizados. Na Alemanha, particularmente, a moçada partiu para a ação direta, inclusive com grupos terroristas - o mais famosos deles foi a RAF (Facção do Exército Vermelho, em português) - e squatters. No meio disso tudo a presença do rock foi natural.
Um dos grupos nascidos neste contexto e que colocou essa efervescência política nas letras e na atitude foi o TON STEINE SCHERBEN, fundado pelo guitarrista e vocalista Rio Reiser, o guitarrista Ralph Peter Steitz Lanrue, o baterista Wolfgang Seidel e o baixista Kai Schchtermann. O som é rock setentista com vocais agressivos (em alguns momentos a voz lembra bandas como Razzia). Mas o que conecta o TON STEINE com o punk são as letras e a atitude, como o fato de os dois primeiros LPs serem independentes, pelo selo David Volksmund Produktions, de propriedade deles mesmos. Anti-capitalistas e anarquistas em uma época em que a difusão da informação era bem restrita. Por isso, estão para o punk alemão mais ou menos como Velvet Underground, MC5 e Stooges para o punk nos EUA. No entanto, o descompromisso com a estética visual e o fato de as letras serem em alemão (fato raro na época entre as bandas germânicas) os deixaram à margem do cenário internacional.
O primeiro registro em vinil da banda foi um compacto com as músicas Macht Kaputt Was Euch Kaputt Macht e Wir Striken, lançado em setembro de 1970. Depois saiu o LP Wahrum geht es mir so dreckig? (Por que eu sou tão miserável?), em 1971. No ano seguinte, lançam o segundo LP, com o título Keine Macht Für Niemand. Nesse disco, devido à natureza libertária do grupo, a formação já sofreu as primeiras mudanças com a substituição de Seidel por Olav Lietzau nas baquetas. Além disso, os vocais ficaram a cargo de Nikel Pallat. Participaram também desta segunda bolacha o saxofonista Jochen Petersen e o flautista Jörg Schlotterer. Entre o primeiro e o segundo LP, lançaram dois flexi-singles, extremamente raros. A capa de Keine... também representou uma inovação, pois foi feita de papelão (veja na foto).
A repersusão destes discos no cenário underground de Berlim foi bastante forte e o grupo passou a ser o representante das facções mais radicais. Sentiram a pressão de ser porta-voz de coisas que não sabiam se realmente acreditavam, como atentados violentos, por exemplo. Assim, mudaram-se de Berlim para uma fazenda abandonada em Fresenhagen. A essa altura a banda era uma espécie de coletivo, com cerca de 20 pessoas. No local, produziram e apoiaram diversos projetos artísticos até 1985, quando as dívidas tornaram-se impagáveis e o grupo chegou ao fim. Mas depois do segundo LP o TON STEINE já havia optado por um som mais viajante, estilo jazz avant garde e com letras mais pessoais. Para muita gente, apenas hippies, mas nunca abandonaram o ideal anarquista. Por isso, muitos punks da Alemanha admiram o grupo até hoje. O recado foi dado, para quem quis entender.....


DER STEINE FACTS
  • Os próprios membros da banda divergiam sobre o significado do nome TON STEINE SCHERBEN. Teria sido inspirado em uma frase de um arqueologista sobre suas primeiras impressões acerca do sítio arqueológico de Tróia (+- pedras de argila estihaçadas). A palavra ton também pode significar "som", o que traduziria o nome para "Som da pedra lascada". Também seria uma homenagem aos Rolling Stones, banda preferida de Rio Reiser. Outra versão é que era uma referência ao Partido dos Trabalhadores Alemães que se chamava Bau Steine Erden (+- Pedras da Construção da Terra).
  • A primeira apresentação da banda foi no mesmo palco onde Jimi Hendrix acabara de fazer seu último show, em um festival na Ilha de Fehmarn. Durante a apresentação ocorreu um incêndio no palco e a banda não parou de tocar, o que lhes rendeu grande fama entre os roqueiros radicais da época.
  • Imediatamente após o fim do sonho do TON STEINE na comuna de Fresenhagen, Rio Reiser iniciou uma bem sucedida carreira solo e alcançou o sucesso comercial que a banda nunca tivera. Seu maior hit foi König von Deutschland (Rei da Alemanha), curiosamente uma música escrita em 1974 para um disco do TON STEINE, mas recusada pela banda. Rio faleceu em 20 de agosto de 1996, aos 46 anos, por complicações resultantes de hepatite C. Em sua carreira solo foi acompanhado por R.P.S. Lanrue. Os dois seriam os reais fundadores do TON STEINE. O verdadeiro nome de Rio era Ralph Christian Möbius.
  • Durante o período de Fresenhagen, o TON STEINE lançou seis álbuns, alguns deles com produção de Claudia Roth, uma das fundadoras do Partido Verde Alemão.
  • Após a morte de Rio, Os remanescentes do grupo fundaram a TON STEINE SCHERBEN FAMILY e até hoje fazem shows.

22/10/2008

In Memorian - Paul Fox (11/04/1951 - 21/10/2007)

Ontem fez um ano da morte de Paul Fox, um dos mais brilhantes guitarristas da cena punk inglesa. Co-fundador do THE RUTS, junto com Malcom Owen (morto por overdose de heroína em 1980), o músico faleceu em consequência de um cancer.
Paul Fox iniciou sua carreira musical no início dos anos 70 em uma comunidade hippie de Anglesey, na Inglaterra, onde tocava em uma banda de rock progressivo chamada ASLAN. Depois que a comunidade foi pro saco, ele mudou-se para Londres e juntou-se a um grupo de funk suburbano chamado HIT AND RUN. Em 1977, com a explosão do punk, fundou o THE RUTS (aguardem post mais detalhado sobre a banda). Após a morte de Owen, a banda continuou como RUTS DC, mas acabou em 1982. Depois disso,Fox tocou em diversos grupos obscuros como CHOIR MILITTIA, DIRTY STRANGERS, SCREAMING LOBSTERS e FLUFFY KITTENS.
Deixou a esposa (era divorciado) e dois filhos, Lawrence e William.
Descanse em paz amgo....
Logo contarei a história toda do RUTS, por enquanto curta um pouco desta lendária banda no disco Live and Loud

Senha para descompactar o arquivo: borninthebasement

17/10/2008

Jogos animais em Londres

A revista POP (Editora Abril) foi uma publicação da década de 70 destinada ao público adolescente. Era bem sonsinha e em alguns números bem "gatinha". Tem gente que a compara à Bizz dos anos 80, mas acho que ela está mais para a TodaTeen e a Contigo atuais, apenas um puco mais pop/rock. Por incrível que pareça essa coisa tão inocente acabou sendo uma das responsáveis por um dos melhores LPs de punk rock já lançados no Brasil: a coletânea A Revista Pop Apresenta o Punk Rock, com Sex Pistols, Ramones, The Jam, Eddie & The Hot Rods, London, Ultravox, Stinky Toys e Runaways. Na verdade, a POP via o punk como uma nova moda e fazia uma grande confusão a respeito do que realmente acontecia. Lembro-me de uma matéria em que tentavam vender o Made in Brazil como punk (era engraçado os caras com maquiagem simulando bocas sangrando). Mas no disco eles acertaram, com uma seleção de primeira. O petardo sonoro acabou atingindo outro público e influenciou boa parte dos primeiros punks da periferia paulistana.
Uma das minhas faixas preferidas no disco da POP é Everyone's a Winner do LONDON - afinal este post é sobre eles e não sobre a famigerada revista.
O LONDON foi uma das bandas pioneiras do punk inglês e, como o MANIACS, teve uma vida bem curta. O grupo foi formado em 1976 pelo vocalista Miles Tredinnick, que usava o apelido Riff Regan. Os outros membros entraram após atenderem anúncios de Miles no Melody Maker. O primeiro a aparecer foi o baixista Steve Voice, que compôs com Miles a maioria das músicas do grupo. Depois dele, foi a vez do baterista John Moss. A formação se completou com o guitarrista Dave Wight. Apesar de serem músicos acima da média das primeiras bandas punks, dos quatro, apenas John Moss tinha alguma experiência: estava em teste com o THE CLASH! E, ainda que vários amigos o aconselhassem do contrário, preferiu ficar no LONDON, pois não se entendia muito bem com Joe Strummer.
Antes de formar o LONDON, Miles trabalhava como asistente do produtor de cinema Robert Stigwood (Jesus Christ Superstar, Tommy, Grease, Saturday Night Fever, entre outros), assim, era um cara descolado. No show de estréia da band, na platéia estava o empresário Simon Napier-Bell, que já trabalhara com grupos como YARDBIRDS e T. REX e andava à procura de bandas da nova onda musical que começava a tomar conta da Europa. Napier-Bell gostou do que viu e em pouco tempo o LONDON já era a principal atração em shows pequenos. O grupo foi escalado para abrir os shows da tour nacional do STRANGLERS, que àquela altura já era bem conhecido por toda a Europa.
Em vinil, o LONDON não conseguiu a mesma repercussão, ou pelo menos não a que a MCA que os contratara e Napier Bell esperavam. O primeiro single foi Everyone's a Winner/Handcuffed. A bolacha teve boas vendas, porém, não chegou às paradas como desejavam os produtores. O segundo compacto foi um duplo com quatro faixas: Summer of Love, No Time, Siouxie Sue e Friday on my Mind. O máximo que conseguiram foi atingir a 52ª posição nas paradas (naquele tempo ainda contava alguma coisa). Depois de mais uma tentativa de obter um single de sucesso, com Animal Games/Us Kids Cold, chegara a hora de gravar o LP. Já no final de 1977 o LONDON entrou em estúdio e concebeu Animal Games. O disco de onze faixas (apenas seis delas inéditas) chegou às lojas no início de 78. Mas a esta altura o grupo já não existia mais. John Moss trocara a banda pelo DAMNED, em substituição a Rat Scabies. Os três remanescentes tentaram arrumar um baterista que os agradassem, mas antes que isso acontecesse decidiram dar fim ao grupo, também em função das fracas vendas e da violência que começava a rolar nos shows punks.
Baixe aqui Punk Rock Collection que reúne o LP Animal Games mais quatro faixas bonus.

LONDON FACTS

  • Depois de deixar a banda, John Moss não teve tempo nem de curtir com os novos comparsas, já que o Damned também acabou (depois retornaria e tocam até hoje). Pouco depois, entretanto, ele conheceu um certo Boy George e formou com ele o Culture Club, para azar do planeta...
  • Após o fim do LONDON, Riff Regan, ou Miles Trednnick, seguiu carreira solo. Ente 1978 e 81 lançou nada menos do que seis LPs. Todos de baixas vendas. Então passou a escrever scripts para comédias de TV, no que se deu melhor e chegou a elaborar histórias para personagens da Disney, como Mickey e Pato Donald. Também escreveu uma peça de teatro de relativo sucesso (Topless) representada em cima de um daqueles ônibus de dois andares pelas ruas de Londres.
  • Após o fim do LONDON, Dave (Colin) Wright concluiu seus estudos e fez doutorado em Política Internacional. Steve Voice formou uma banda chamada The OriginalVampires, que não deu em nada e sumiu de cena.
  • Nos shows punks de 76/77 o público tinha o nojento hábito de cuspir nas bandas. Em uma apresentação, em Birmingham, Riff Regan usou um guarda-chuva para se proteger.
  • Só para variar, Miles e Steve reformaram a banda recentemente e têm feito vários shows. Além deles, o novo LONDON tem o guitarrista Hugh O'Donell e o baterista Colin Watterston, ambos ex-The DBs.

14/10/2008

The Dogs - Walking Shadows


Recebi vários e-mails pedindo para postar algo mais sobre o The Dogs. Então, vai aqui o link para baixarem o segundo LP Walking Shadows, o disco mais punk deles. Boa diversão!

THE DOGS - Walking Shadows

10/10/2008

As armas genocidas de Johnny


Em 1978, a explosão punk começava a esfriar para a grande mídia e a indústria fonográfica. Mas as sementes de um novo modo de agir e pensar, de lidar com a música, já havia germinado e dava seus primeiros frutos. A indústria do show business já não era mais essencial para que as bandas de rock existissem. Ninguém precisava mais ser um "músico fantástico" para integrar uma banda. Bastava um ou mais amplificadores que funcionassem, algumas peças de bateria, alguma revolta, ter o que dizer (ou não) e a vontade de ter uma banda. O público das primeiras bandas punks se tocou que podia também fazer o que aqueles loucos faziam. Assim, no mundo todo nascia o que seria conhecido, entre outras denominações, como "second coming". Agora já não eram centenas, mas milhares de pequenos grupos que brotavam nos quatro cantos do mundo, inclusive no Brasil.
O NO ALTERNATIVE foi mais uma dessas bandas. Pela pouca fama que conseguiram, foi "apenas mais uma", mas pela qualidade do som que fizeram, passaram ao panteão dos "injustamente ignorados". Originários de San Francisco, apesar da obscuridade, foram bastante ativos entre 1978 e 82, inclusive, integraram a lendária turnê Hardcore 82, ao lado do D.O.A. e do BLACK FLAG.
O grupo foi formado por Johnny Genocide (guitarra) e Jeff Reese (baixo). Até que Greg Langston, ex-TUXEDOMOON, se firmasse como baterista, passaram pela banda Bobby Barage, Andy Freeman e Chris Coonra. As origens do trio, porém, remontam ao KGB, uma banda de curta existência que tinha, além de Johnny e Jeff, Zippy Pinhead (o mesmo que tocaria no DILS e no D.O.A.) e Ron Ramos que mais tarde participaria do ainda mais obscuro THE ASSISSINS. O KGB não chegou a lançar nada, mas teve duas músicas incluídas na coletânea Can You Hear Me - Live at Deaf Club, disco que também continha três faixas do DEAD KENNEDYS, que começava a despontar no cenário punk da costa leste dos EUA.
Apesar de realizar diversos shows ao lado das bandas mais famosas da cena punk/HC do início dos anos 80, o grupo teve pouquíssimas músicas lançadas na época. O primeiro registro em vinil do NO ALTERNATIVE saiu em 1979, em uma coletânea de 7" (isso mesmo, um compacto), chamada SF Underground, que além deles apresentava VKTMS, TOOLS e FLIPPER. Um disco raro e histórico. A faixa do NO ALTERNATIVE é um clássico: Johnny Got His Gun, um verdadeiro petardo, com letra engajada e uma pegada bem próxima do hardcore. A guitarra de Johnny nessa música é uma das mais pesadas que já ouvi. Em 1980, eles lançaram um não menos excelente compacto, com Make Guns Not Love, Metro Police Theme e Rockabilly Rumble. Em 1982, mais uma faixa na coletânea Not So Quiet in the Western Front, um álbum duplo da Alternative Tentacles, gravadora do DK. Nessa, eles aparecem com outra porrada: Dead Men Tell No Lies. Infelizmente, sem mesmo gravar um LP, o NO ALTERNATIVE chegou ao fim em 1982.
Em 1999, o selo independente Squirrel Hound reuniu todas as gravações em estúdio, inclusive algumas inéditas, mais diversos registros ao vivo e as duas músicas do KGB, além de seis faixas de um projeto paraleo de Johnny e Mike Fox (THE TOOLS), chamado ALTERNATIVE TOOLS, em um CD chamado Johnny Got His Gun 79-82. Com isso, resgatou o grupo da obscuridade e ainda trouxe à luz sons inéditos. Em 2006 o grupo reuniu-se e retomou a agenda de shows, trilhando o mesmo caminho de centenas de ex-bandas. Afinal, se a molecada está faturando fazendo o mesmo (e pior) que eles faziam, porque não podem eles também morder um pouco? Só acho que nessas, o discurso se esvazia. Pelo menos fica o som...

Baixe o imperdível Johnny Got His Gun.


NO ALTERNATIVE FACTS

  • O nome da banda surgiu quando Johnny e Jeff assistiam a um episódio de Jornada nas Estrelas. Em uma cena Spock vira-se para o capitão Kirk e diz "I'm afraid there's no alternative, Jim".
  • Johnny Got His Gun é um filme do diretor Dalton Trumbo, de 1971, sobre um soldado atingido por um morteiro no final da Primeira Guerra Mundial que perde os braços, as pernas e a visão. Na cama, no hospital, vive na fronteira entre o sonho (pesadelo) e a realidade. Um manisfesto anti-guerra. Parece que há um remake deste ano, sob direção de Rowan Joseph.
  • Após o fim da banda, Johnny retomou os estudos, formou-se em química e matemática abstrata e tornou-se professor. Durante este tempo, porém, realizou, e continua realizando, inúmeros projetos musicais, sempre na linha do blues e rockabilly. Greg, por sua vez, tocou em diversas bandas, como FANG, THE NEXT e THE INSAINTS, entre outras. Jeff Reese, o mais reservado deles, reapareceu apenas para os shows de reunião.
  • Em 2007, Johnny Genocide teve diagnosticado um câncer no palato. Amigos e sua esposa organizaram um show beneficente para ajudar no tratamento. Participaram do evento bandas antigas, como THE MUTANTS, THE LEWD, SOCIAL UNREST, THE NEXT, THE NAKED LADY WRESTLERS e NEGATIVE TREND. A luta de Johnny contra a doença continua, mas ele está de volta a ativa e tem gravado com nomes como BLIND ORANGE JOHNNY e JAH GENOCIDE.