24/10/2008

Raízes germânicas

No final dos anos 60 e início dos 70, a Europa fervia com os movimentos estudantis. Havia o pessoal do flower power, contestador e pacifista. Mas havia também vários grupos radicais e mais politizados. Na Alemanha, particularmente, a moçada partiu para a ação direta, inclusive com grupos terroristas - o mais famosos deles foi a RAF (Facção do Exército Vermelho, em português) - e squatters. No meio disso tudo a presença do rock foi natural.
Um dos grupos nascidos neste contexto e que colocou essa efervescência política nas letras e na atitude foi o TON STEINE SCHERBEN, fundado pelo guitarrista e vocalista Rio Reiser, o guitarrista Ralph Peter Steitz Lanrue, o baterista Wolfgang Seidel e o baixista Kai Schchtermann. O som é rock setentista com vocais agressivos (em alguns momentos a voz lembra bandas como Razzia). Mas o que conecta o TON STEINE com o punk são as letras e a atitude, como o fato de os dois primeiros LPs serem independentes, pelo selo David Volksmund Produktions, de propriedade deles mesmos. Anti-capitalistas e anarquistas em uma época em que a difusão da informação era bem restrita. Por isso, estão para o punk alemão mais ou menos como Velvet Underground, MC5 e Stooges para o punk nos EUA. No entanto, o descompromisso com a estética visual e o fato de as letras serem em alemão (fato raro na época entre as bandas germânicas) os deixaram à margem do cenário internacional.
O primeiro registro em vinil da banda foi um compacto com as músicas Macht Kaputt Was Euch Kaputt Macht e Wir Striken, lançado em setembro de 1970. Depois saiu o LP Wahrum geht es mir so dreckig? (Por que eu sou tão miserável?), em 1971. No ano seguinte, lançam o segundo LP, com o título Keine Macht Für Niemand. Nesse disco, devido à natureza libertária do grupo, a formação já sofreu as primeiras mudanças com a substituição de Seidel por Olav Lietzau nas baquetas. Além disso, os vocais ficaram a cargo de Nikel Pallat. Participaram também desta segunda bolacha o saxofonista Jochen Petersen e o flautista Jörg Schlotterer. Entre o primeiro e o segundo LP, lançaram dois flexi-singles, extremamente raros. A capa de Keine... também representou uma inovação, pois foi feita de papelão (veja na foto).
A repersusão destes discos no cenário underground de Berlim foi bastante forte e o grupo passou a ser o representante das facções mais radicais. Sentiram a pressão de ser porta-voz de coisas que não sabiam se realmente acreditavam, como atentados violentos, por exemplo. Assim, mudaram-se de Berlim para uma fazenda abandonada em Fresenhagen. A essa altura a banda era uma espécie de coletivo, com cerca de 20 pessoas. No local, produziram e apoiaram diversos projetos artísticos até 1985, quando as dívidas tornaram-se impagáveis e o grupo chegou ao fim. Mas depois do segundo LP o TON STEINE já havia optado por um som mais viajante, estilo jazz avant garde e com letras mais pessoais. Para muita gente, apenas hippies, mas nunca abandonaram o ideal anarquista. Por isso, muitos punks da Alemanha admiram o grupo até hoje. O recado foi dado, para quem quis entender.....


DER STEINE FACTS
  • Os próprios membros da banda divergiam sobre o significado do nome TON STEINE SCHERBEN. Teria sido inspirado em uma frase de um arqueologista sobre suas primeiras impressões acerca do sítio arqueológico de Tróia (+- pedras de argila estihaçadas). A palavra ton também pode significar "som", o que traduziria o nome para "Som da pedra lascada". Também seria uma homenagem aos Rolling Stones, banda preferida de Rio Reiser. Outra versão é que era uma referência ao Partido dos Trabalhadores Alemães que se chamava Bau Steine Erden (+- Pedras da Construção da Terra).
  • A primeira apresentação da banda foi no mesmo palco onde Jimi Hendrix acabara de fazer seu último show, em um festival na Ilha de Fehmarn. Durante a apresentação ocorreu um incêndio no palco e a banda não parou de tocar, o que lhes rendeu grande fama entre os roqueiros radicais da época.
  • Imediatamente após o fim do sonho do TON STEINE na comuna de Fresenhagen, Rio Reiser iniciou uma bem sucedida carreira solo e alcançou o sucesso comercial que a banda nunca tivera. Seu maior hit foi König von Deutschland (Rei da Alemanha), curiosamente uma música escrita em 1974 para um disco do TON STEINE, mas recusada pela banda. Rio faleceu em 20 de agosto de 1996, aos 46 anos, por complicações resultantes de hepatite C. Em sua carreira solo foi acompanhado por R.P.S. Lanrue. Os dois seriam os reais fundadores do TON STEINE. O verdadeiro nome de Rio era Ralph Christian Möbius.
  • Durante o período de Fresenhagen, o TON STEINE lançou seis álbuns, alguns deles com produção de Claudia Roth, uma das fundadoras do Partido Verde Alemão.
  • Após a morte de Rio, Os remanescentes do grupo fundaram a TON STEINE SCHERBEN FAMILY e até hoje fazem shows.

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