12/09/2008

Santos demônios

Sempre defendo a idéia de que o punk rock é um fenômeno sem pátria, que aconteceu lenta e simultaneamente em diversos lugares até ser catalisado e viver um momento de explosão, na Inglaterra e nos EUA, entre 1976 e 77. Na época, a indústria fonográfica, "dona" da música, soube usar estratégias midiáticas eficientes para rotular, embalar e vender um “novo rock” que grasava nos subúrbios e nas garagens das grandes cidades do mundo todo. Um rock destituído de virtuosismo, inspirado em bandas dos anos 60, principalmente Stooges, MC5 e Velvet Underground. O The Saints é mais um elemento que sustenta essa teoria.
A história da banda começa em 1972, em Brisbane, Austrália, quando Chris Bailey e Ed Kuepper se conheceram na escola. Eram os únicos cabeludos. Como é de praxe, quando dois moleques roqueiros se conhecem, resolveram montar uma banda. O primeiro nome foi Kid Galahad & The Eternals, com Bailey nos vocais, Kuepper na guitarra e Ivor Hay no piano. Tocavam apenas covers e fizeram pouquíssimas apresentações. No início de 1974, adotam o nome The Saints (inspirados em gangues e bandas de garagem sessentistas) e começam a fazer suas próprias músicas. Nessa época, Hay tornara-se baixista. A primeira baterista foi Laurie "Mistery" Cuff, logo substituída por Jeffery Wegener. Este também não ficou muito tempo e Hay assumiu as baquetas para a entrada do baixista Doug Balmanno, que também não demorou a debandar. A essa altura, o grupo já organizava shows por conta própria e criara uma reputação, ainda que não fosse das melhores. Tinham poucos seguidores e eram considerados muito barulhentos, primitivos. Ainda em 75, Wegener deixa o grupo e Kym Bradshaw torna-se o novo baixista. É com essa formação que o The Saints ganharia fama (fortuna, não!).
Nessa época o grupo envia demo tapes para as gravadoras australianas. A maioria sequer dá resposta. Então, resolveram gravar um compacto por conta própria. Alugam duas horas em um estúdio chamado Bruce Windows e gravam as clássicas (aliás, superclássicas) I'm Stranded e No time, dois petardos para a época e ainda atualíssimas. O disco saiu com selo da própria banda, o Fatal Records, e foi ignorado pela mídia australiana. A indiferença local incentivou Bailey e Kuepper a enviarem diversas cópias do compacto para críticos musicais dos EUA e da Inglaterra. Era o meio do ano de 1976 e o hemisfério norte começava a esquentar com um tal punk rock. Os felizardos que receberam as cópias ficaram de cara. As críticas favoráveis fizeram com que "olheiros" da EMI na Inglaterra ordenassem à filial australiana que os contratassem imediatamente. Assim, já no início de 77, gravam o LP (I'm) Stranded, em minha opinião, um dos melhores de todos os tempos.
A mudança para a Inglaterra foi inevitável. Mas aí começaram os problemas. Apesar de agradarem musicalmente, a crítica detestou o visual e o comportamento da banda. Não se pareciam com punks (na verdade, não eram, não no sentido estético). Foram as primeiras vítimas de um patrulhamento, que ditava quem e o que era ou não punk. Mas eles pouco ligavam para as críticas, queriam apenas tocar um som, fazer shows, gravar discos. Tocaram a barca e fizeram uma turnê, ao lado dos Ramones e dos Talking Heads. Continuaram também a ser os mesmos caras que eram em Brisbane, recusaram-se a adotar o visual "sugerido" pela EMI (que já perdera os Pistols e tentava compreender e faturar em cima da onda punk). Não quiseram arrepiar os cabelos. Pelo contrário, Bailey deixou-os mais longos. Apesar de terem alcançado fama e saído de Brisbane graças à explosão punk, à qual tiveram seu nome associado, o The Saints não conseguia se ligar ao "movimento". Consideravam aquilo apenas uma grande jogada capitalista. Bailey declarou publicamente que, para ele, Generation X e Johnny Rotten, eram fabricados, nada autênticos. Paralelamente, críticos que desconheciam a história da banda taxavam o The Saints como "cópia" dos Ramones.
O segundo disco, Eternally Yours, gravado com mais tempo e melhor produzido, também não foi bem recebido pelos patrulheiros de plantão. Mas no disco, em Lost and found, Bailey já dava-lhes uma resposta antecipada: Ain't nobody tells me what to do now/I've heard all the lies and been promised the world/ No business man is going to use or confuse me/ 'Cause I ain't no puppet for his capital gain. Com uma sonoridade mais melódica, ainda que se mantivesse o peso e a agressividade, associada a elementos novos, como saxofones, harmônicas e cordas clássicas, Eternally Yours não foi instantaneamente compreendido. Outra mudança neste disco foi a troca de Bradshaw por Alasdair Ward. O LP acabou sendo um fracasso de vendas e a banda começava a implodir.
Antes de iniciarem as gravações de um terceiro LP, Bailey chegou a deixar o grupo, mas retornou e logo sairia Prehistoric Sounds, recheado de baladas. Um bom disco de rock, mas muito longe do punk. Logo começaram as discussões internas sobre o caminho a seguir: Kuepper buscava cada vez mais um som próximo do jazz-rock; Bailey, por sua vez, queria aprofundar-se no terreno do pop e das baladas. Enquanto isso, as fracas vendas desencorajaram a EMI a renovar o contrato. Era o fim da parceria e do Saints original. Desde então, Bailey tem lançado diversos discos com o nome da banda, sempre com formações diferentes. O Saints ainda existe, mas já não passam de fantasmas perto do vigor inicial. Se você ainda não tem (heresia!) baixe (I'm) Stranded, um dos melhores discos de punk e de rock de todos os tempos.

Saints facts
  • Spiral Scratch, do Buzzcocks, é considerado o primeiro single punk independente, mas I'm Stranded não só foi gravado, como lançado, alguns meses antes.
  • Boa parte das músicas do primeiro LP - e até algumas do segundo - foram compostas em 1974 e estão no CD The most primitive band in the world, que compila diversas demos da banda gravadas naquela época.
  • O LP (I'm) Stranded foi gravado em apenas dois dias.
  • Depois de sair do Saints, o baixista Kym Bradshaw foi um dos fundadores do Small Hours, grupo que chegou a colocar alguns compactos nas paradas inglesas.
  • Após o (teórico) fim do Saints, Ed Kuepper voltou para a Austrália e formou o Laughing Clowns. Atualmente é um dos guitarristas mais respeitados na Austrália, tendo gravado diversos discos solos. Recentemente, criou o The Aints, clara alusão à banda, com uma sonoridade bem parecida. Além disso, nos shows tocam músicas antigas do Saints.
  • Ivor Hay teve uma prápida passagem pelo Damned e depois formou o Tank.
  • Chris Bailey radicou-se em Amsterdam, onde toca o Saints. Atualmente, o grupo é um trio, com Bailey na guitarra e vocal, Pete Wilkinson na bateria e Caspar Wijnberg no baixo. O último lançamento da banda chamou-se Imperious Delirium, nada a ver com o Saints original, mas um bom disco.

5 comentários:

  1. The Hairy Hands9/18/2008

    grandes saints!!!!os caras realmente devem ter achado uma baita palhaçada a cena punk londrina.Poderia emendar com um post sobre os Scientists, que eu gosto muito também.

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  2. Grande sugestão! Grande banda! Vou preparar...

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  3. The Hairy Hands9/19/2008

    O Scientists tem duas das minhas músicas punk preferidas: Bet ya Lyin' e It'll Never Happen Again. As duas tem riffs maravilhosos, é como se o Keith Richards tivesse montado uma banda no final dos anos 70.

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  4. O primeiro LP deles é bom por inteiro.... mas gosto tambném da segunda encarnação da banda, bem mais rock'n'roll (garageiro). Sonzaço. O vocalista é um dos melhores que já ouvi.

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  5. The Hairy Hands9/19/2008

    o timbre vocal dele lembra bastante o do Dogs. High Noon até parece música dos Dogs.

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